Educação para a Liberdade
por Rousas John Rushdoony
A forma básica de educação é o currículo das artes liberais, i.e., o currículo cujo propósito é desenvolver a arte de ser um homem livre. O problema, evidentemente, é que há diferentes definições a respeito do que constitui um homem livre. Mesmo entre os humanistas, há variações a esse respeito. No mundo ocidental, temos o cinismo de Maquiavel a respeito do homem, e daí a necessidade de controle da maioria dos homens por uns poucos superiores. Temos o homem passivo e neutro de Locke, cuja mente é uma folha em branco, e temos também o homem bom e natural, derivado de uma faceta do pensamento de Rousseau.
Alguns humanistas resumiram a questão entre as idéias do homem como um piloto e o homem como um robô. Na visão do homem como um robô, a maioria dos homens precisa do controle e planejamento de uma elite de homens para alcançar a “liberdade plena”. Um mito hebreu derivado da Babilônia nos conta de outra mulher na vida de Adão, o demônio Lilith. Bufford Stefflre cita esse mito e pergunta: “Deixado a seus próprios desejos, o homem iria encontrar Lilith ou Eva?”[1]
Todas essas várias formas de humanismo assumem uma bondade ou neutralidade comum em todos os homens, ou então uma maldade comum da qual uma elite pode escapar. De tal forma que esse mal é curável pelo homem. O grupo de elite pode então controlar e dirigir todos os outros homens a alcançarem o bem-estar, concedendo liberdade a todos através da mediação do filósofo rei da elite ou do homem planejador, cientista. A liberdade é assim uma possibilidade dada aos homens através de homens e por meios naturais. Os dois instrumentos básicos para a salvação natural do homem são, primeiro, a educação e, segundo, o planejamento e controle exercido pelo Estado. Na atualidade ambos os instrumentos se encontram em pleno uso.
Essa salvação do homem deve ocorrer não somente por meios naturais mas requer liberdade de Deus, liberdade dos padrões e leis sobrenaturais, com o objetivo de garantir a liberdade para o homem. Para dar uma ilustração, a revista New York Magazine, em sua edição de 20 de dezembro de 1976, sugeriu uma razão pela qual “a super estrela da música, Leonard Bernstein” havia abandonado aquela que fora sua esposa por 25 anos, a atriz Felícia Montealegre. Comentando algumas sessões vocais que falavam da morte na Décima Quarta Sinfonia de Dimitri Shostakovich, Bernstein disse em uma parte:
Estudando esta obra me dei conta de que, a medida que a morte se aproxima, um artista deve descartar tudo que possa limitá-lo, e assim criar em completa liberdade. Decidi que tinha de fazer isso por mim, para viver o resto da minha vida como eu quiser.[2]
Essa idéia de viver “o resto da minha vida como eu quiser” não se limita ao artista. Todos os humanistas desejam essa liberdade existencial, uma independência de Deus, do homem, do passado, do presente e do futuro, para viver segundo as demandas do ego, ser livre para ser seu próprio deus, determinando o que é bom e o que é mal em termos de seus próprios desejos. Isto é, obviamente, o pecado original tal como descrito em Gênesis 3.15; e também é a liberdade existencial para o homem moderno. A liberdade de Deus significa também estar livre do homem, porque é a lei de Deus que estabelece a responsabilidade do homem para com seu Criador e para com seu próximo.
Nesse ponto de vista, a educação é auto-realização, seja como indivíduo ou como membro da humanidade. A liberdade não significa salvação do pecado por meio de Jesus Cristo, mas por meio do método científico. Isso envolve descartar tudo aquilo que o método científico não pode comprovar e, obviamente, o método científico do homem moderno pressupõe que Deus não pode existir e que a mente autônoma do homem é o arbítrio final da realidade. Nestes termos, liberdade significa a independência do homem com respeito a Deus e a qualquer lei ou critério dados por Deus, de modo que a lei e a moralidade não são fatos estabelecidos por Deus, mas pelo homem, e possuem um caráter pragmático e utilitário. Assim, essa meta educativa da liberdade é a liberdade proposta pelo tentador: “Sereis como Deus, (cada homem sendo seu próprio deus) sabendo (quer dizer, determinando por si mesmo, em termos do que for melhor para você, o que constitui) o bem e o mal (idéias que não são absolutos mas criações humanas, para que o homem possa executar melhor seus próprios valores e as metas que ele mesmo criou)” (Gn. 3:15). O que a educação moderna define como liberdade, a Escritura chama simplesmente de pecado.
Ademais, na educação moderna a liberdade significa um ato de rebeldia, rebelião e revolução. Se o homem é livre de qualquer obrigação para com Deus, certamente se livrará de qualquer obrigação para com o homem. Se Deus não pode governar o homem, como poderá outro homem fazê-lo? Por isso o existencialismo conduz ao desprezo radical pelo homem, não importa o quanto se queira ocultar isto. O humanismo começa com a exaltação de todos os homens como tais e termina com a exaltação de todos e cada um dos homens, de si próprios e de suas vontades. Portanto, com bastante lógica, Andre Malraux disse uma vez: “Adoro causar desprazer”[3]. Desse modo Malraux estabeleceu sua liberdade existencial a partir do homem.
Na educação isto significa que o estudante, uma vez que capta o significado da educação humanista e sua meta de liberdade, desafia cada vez mais a seus pais, a seus professores e à sociedade. Pais e professores liberais e radicais logicamente aplaudem esta afronta. Para eles, esse é um sinal dos mais esperançosos. Significa que a Educação está dando certo, ao menos parcialmente.
Muitos defendem que a meta da educação é, para usar um termo de Field, “um sistema de propósito personalmente significativo”.[4] Não pode ser um sistema com um propósito imposto por Deus; deve ser “personalmente significativo”. Para ilustrar, a arte moderna não nos concede uma estrutura na pintura que tenha um significado objetivo no mundo de Deus; a semelhança com aquele mundo real não é algo básico, mas, sim, casual. A pintura pode consistir de manchas de cor e linhas feitas a esmo; o significado é puramente pessoal. A pergunta é: qual é o significado puramente privado e pessoal que esta pintura evoca em mim? Em termos daquela evocação puramente privada ou contemporânea, o que hoje é arte amanhã pode ser um monte de lixo pronto para ser jogado fora, ou uma relíquia para os historiadores em um museu. A liberdade na arte significa liberdade de um dado âmbito da realidade e a tendência para se chegar a um significado absolutamente particular. Como resultado, a arte deve buscar o novo e o inédito, demonstrando assim sua realidade por meio de uma liberdade continuamente renovada dos padrões do último momento.
A educação encontra no currículo o fator mais difícil para que consiga atingir esse tipo de liberdade contemporânea, porém cultiva com muito maior êxito esse espírito do que as artes. Quer seja nas artes, ou com respeito aos gostos na música, dança, ou qualquer outra coisa, o estudante é um mercado para a revolução nova e perpétua contra o ontem e o hoje. Isto significa uma revolução perpétua contra si mesmo, contra o agora em favor de alguma nova idéia de liberdade. Não é de surpreender que a educação humanista produza não somente uma proliferação de pecado mas também de problemas mentais e de sérias desordens da personalidade.
O contraste entre as duas metas da liberdade na educação se mostra dramaticamente na educação sexual. A educação humanista respalda fortemente uma perspectiva “aberta”, isto é, a liberdade sexual no sentido de que o critério na conduta sexual é algo que não deve surpreender-nos; representa uma prática muito básica de liberdade para a qual cumina toda a educação humanista, a liberdade para o homem determinar seus próprios valores e metas.
Todavia, o cristão também crê na liberdade sexual, porém a define de maneira diferente. Para ele, o pecado não é liberdade mas escravidão, e a liberdade é desfrutada em Cristo e se define como liberdade do pecado. Para o verdadeiro cristão, a fornicação, o adultério, a homossexualidade e todas as demais formas de pecado sexual não são liberdade, mas formas repulsivas de escravidão. Liberdade para ele é um casamento piedoso, porque é o propósito e a lei de Deus; somente este recebe a benção de Deus, e somente este lhe dá liberdade sob a autoridade de Deus no âmbito sexual, a menos que seu chamado seja o de permanecer solteiro. Em qualquer caso, para o cristão não há liberdade exceto em obediência à lei de Deus. O cristão se torna livre pelo poder salvador de Cristo; e vive em liberdade pela obediência à lei de Deus.
Isto quer dizer que a educação cristã enfatiza a liberdade como realiza por meio da salvação de Cristo e em obediência dali por diante à totalidade da Palavra de Deus. Em lugar de ensinar a liberdade como uma independência radical de Deus, a escola cristã ensina a liberdade como uma dependência radical e total de Deus. Insiste na interdependência de todos os homens debaixo da autoridade de Deus em termos da lei de Deus. Portanto, a Escritura é o livro-chave para o currículo das artes liberais, e é em termos da Escritura que todas as disciplinas e áreas encontram seus princípios elementares e básicos. O professor e o estudante estão ambos debaixo desta palavra obrigatória, e são livres em termos de sua fidelidade a ela.
Todos os educadores humanistas como os educadores cristãos falam de fomentar a responsabilidade em seus alunos. O humanismo contempla dois tipos de responsabilidade. Primeira, o homem pode ver-se como alguém responsável ante a sociedade, seu país ou ante a humanidade como um todo. Nessa perspectiva, o homem coletivo substitui a Deus como a agência perante a qual o homem presta contas. Segunda, o homem pode ver-se como responsável para com sua própria existência, chamado a libertar-se das limitações impostas por Deus, pela igreja, família, sociedade, e a se auto-realizar como um homem existencial. Aqui é o indivíduo que substitui a Deus. Em ambos os casos, a liberdade para o homem é estar livre de Deus.
Para o cristão, o homem é responsável perante Deus e perante o homem debaixo da autoridade de Deus e em concordância com a Palavra de Deus. A liberdade é liberdade do pecado e, portanto, é liberdade de nós mesmos e dos homens, da nossa própria escravidão e do cativeiro dos homens, nos tornando o povo do pacto de Deus em Cristo, nosso Redentor e Rei.
Educação cristã, assim, não é o currículo e mais a Bíblia, mas um currículo no qual a Palavra de Deus governa todas as disciplinas e serve como sua principal fonte de informação. Somente a escola cristã, quando fiel à Escritura, pode ter um verdadeiro currículo de artes liberais.
Tradução: Márcio Santana Sobrinho
Fonte: The Philosophy of the Christian Curriculum, p.153-157.
[1] Bufford Steffle, editor: Theories of Counseling, p. 258f, (New York: McGraw-Hill, 1965), citado em Frank L. Field: Freedom and Control in Education and Society, p.14 (New York: Thomas Y. Crowell, 1970).
[2] “Lenny Faces Existencial Truth”, em New York Magazine, 20 de dezembro de 1976, vol. 9, nº 51, p.75.
[3] “The Last Renaissance Figure”, em Time, vol. 108, nº. 23. 6 de dezembro de 1976, p.30.
[4] Frank L. Field, op. Cit., p.68. Em itálico no original.
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