Apologética

26 de dezembro de 2011

Uma Defesa da Apologética Reformada

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Escrito por: Cornelius Van Til
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Um diálogo – Sr. White, Sr. Black, Sr. Grey

Temos, primeiro, o não-cristão, que cultua a criatura em vez do Criador. Vamos chamá-lo de Sr. Black. Poderá ser um tipo de pessoa bem “decente”. Em função da graça comum ele pode fazer muita coisa “boa”. Ainda assim, conquanto permaneça em seu estado de não-conversão, ele será tenebroso aos olhos de Deus.

Entretanto, temos um representante daqueles que, pela graça de Deus, tornaram-se adoradores do Criador-Redentor. Será o Sr. White. Certamente, ele está distante de ser aquilo que poderíamos esperar devido ao seu nome. Mas ele foi lavado no sangue do Cordeiro. Em Cristo, ele é alvo como a neve. O Sr. White é um cristão reformado.

Estranhamente, porém, há uma terceira parte, um arminiano, chamado Sr. Grey. Certamente, em Cristo, o Sr. Grey é tão alvo como o Sr. White. O primeiro, acha que o Sr. White é muito severo na avaliação do Sr. Black, mas ele próprio crê que o Sr. Black não seja assim tão tenebroso.

Sequer seria correto, política ou pedagogicamente, requerer que o Sr. Black fizesse uma virada de mente tão completa. Certamente, nem será necessário que tal revolução seja completa nos campos das ciências e filosofias. Muitos dos seguidores do Sr. Black têm defendido valentemente a existência de Deus contra o materialismo, o ateísmo e o positivismo. Até mesmo em teologia, muitos desses discípulos do Sr. Black saltaram em defesa quando Deus foi atacado pelos teólogos do Deus-está-morto. O Sr. Grey, portanto, tipifica o metódo de Aquino-Butler de defesa do cristianismo.

Vamos observar agora a diferença na maneira do Sr. White e do Sr. Grey abordarem o incrédulo Sr. Black com o Evangelho de Cristo.

Digamos que o Sr. Black esteja com dor de dente. Ambos, o Sr. White e o Sr. Grey são dentistas. O Sr. White crê em uma metodologia radical. Ele crê que o Sr. Black deveria ter toda cárie removida dos dentes, antes de obturá-los. O Sr. Grey é uma pessoa mais sensível e carinhosa. Ele não quer que o Sr. Black se sinta mal e, por isso, não quer que a broca penetre tão fundo no dente. Ele, certamente, retirará apenas uma parte da matéria deteriorada, e preencherá a cavidade.

Naturalmente, o Sr. Black achará tudo isso maravilhoso. Infelizmente, o dente do Sr. Black em breve continuará a deterioração. Ele retornará ao Sr. Grey, mas este jamais chegará a um procedimento radical. Por conseguinte, ele jamais resolverá o problema do dente do Sr. Black.

Suponha, agora, que, em vez de procurar o Sr. Grey, o Sr. Black tenha ido ao consultório do Sr. White. Este é radical, muito radical. Usa máquina de raios-X para diagnosticar as condições da boca do Sr. Black. Perfura o dente o quanto é necessário para remover toda a matéria deteriorada. A cavidade é preenchida. E o Sr. Black jamais precisa retornar por causa daqueles dentes.

Esta simples ilustração aponta para uma verdade básica. A Bíblia diz que o homem está espiritualmente morto em seus delitos e pecados. Os credos reformados falam de uma depravação total do homem. A única cura para a sua morte espiritual é a regeneração realizada pelo Espírito Santo, na base da morte expiatória de Cristo. É por meio da luz que a Escritura lança sobre a condição do homem natural que o Sr. White examina todos os seus pacientes. Ele poderá também ligar a luz da experiência, mas insistirá sempre que a experiência deva ser derivada, primariamente, da luz da Escritura. Assim, ele poderá apelar à razão ou à História, mas, de novo, somente da maneira que elas são vistas à luz da Bíblia. Ele nem mesmo toma a experiência, a razão ou a História para corroborar os ensinos da Escritura, mas a Bíblia para examinar todas essas operações. Para ele, a Bíblia e, portanto, o Deus da Bíblia, é como o sol do qual derivam a luz das lâmpadas de óleo, de gás e a lâmpada elétrica.

Ele poderá apelar à razão ou à História, mas, de novo, somente da maneira que elas são vistas à luz da Bíblia. Ele nem mesmo toma a experiência, a razão ou a História para corroborar os ensinos da Escritura, mas a Bíblia para examinar todas essas operações. Para ele, a Bíblia e, portanto, o Deus da Bíblia, é como o sol do qual derivam a luz das lâmpadas de óleo, de gás e a lâmpada elétrica.

A atitude do arminiano, Sr. Grey, é bem diferente. Ele usa a Bíblia, a experiência, a razão ou a lógica como fontes de informação igualmente independentes sobre os próprios predicamentos e, portanto, os do Sr. Black. Isto não quer dizer que, para o Sr. Grey, a Bíblia, a experiência e a razão sejam igualmente importantes. Na verdade, não são. Ele sabe que a Bíblia é, de longe, a mais importante. Porém, não obstante, ele constantemente apela aos “fatos da experiência” e à “lógica” sem lidar primeiro com a própria ideia de fato e com a ideia de lógica, nos termos da Escritura.

A diferença é básica. Quando o Sr. White diagnostica o caso do Sr. Black, ele toma como máquina de raios-X, somente a Bíblia. Quando diagnostica o caso do Sr. Black, o Sr. Grey toma primeiro a máquina de raios-X da experiência, depois, a máquina de raios-X da lógica, e finalmente, a máquina de raios-X maior, a Bíblia. De fato, ele poderá tomar tais itens em qualquer ordem, mas sempre haverá de considerá-los como sendo fontes de informação independentes.

(…)

Entretanto, quando o cristão reformado, o Sr. White, tem consciência das riquezas da própria posição, e, realmente, tem a coragem de desafiar o Sr. Black, apresentando-lhe uma chapa de raios-X do seu interior tirada com uma máquina chamada Bíblia, ele enfrenta a acusação de “raciocínio circular”. Ele não apresenta nenhum “ponto de contato” com a experiência. Ele será, também, objeto de crítica do arminiano, por falar como se o cristianismo fosse irracional e por falhar em alcançar o homem das ruas.

(…)

1. Um testemunho consistente

A grande questão à qual desejamos nos referir, agora, é se os cristãos que abraçam a fé reformada também abraçam um método especificamente reformado de raciocínio quando se engajam na defesa da fé.

Essa questão abrangente não pertence meramente aos “cinco pontos do calvinismo”. Quando os arminianos atacam estas grandes doutrinas (depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível, perseverança dos santos), nós, como calvinistas, estamos prontos para defendê-las. Cremos que estes cinco pontos são derivados diretamente da Escritura. Mas a questão, agora, em discussão é se, na defesa de qualquer doutrina cristã, os cristãos reformados usariam um método de sua própria construção.

Pode ser prontamente demonstrado que uma resposta negativa a tais questões não poderá ser mantida. Tome, por exemplo, a doutrina da expiação. A doutrina arminiana da expiação não é a mesma que a doutrina reformada da expiação. Ambos, arminianos e calvinistas, afirmam crer no sacrifício substitutivo. Mas o conceito arminiano de expiação substitutiva é colorido, e nós, como calvinistas, creríamos “descolorido”, segundo a visão do “livre-arbítrio”. Segundo a visão arminiana, o homem tem poder absoluto ou final para aceitar ou rejeitar a salvação que lhe é oferecida. Isso implica que a salvação oferecida ao homem é mera possibilidade de salvação.

Para ilustrar: suponha que eu deposite um milhão de reais em sua conta bancária. Ainda assim, fica ao seu critério crer que tal riqueza lhe pertença, e usá-la para cobrir o chão de sua casa com tapetes persas, em vez de fazê-lo com os velhos tapetes puídos que você tem agora. Assim, no esquema arminiano, a própria possibilidade das coisas não mais dependem exclusivamente de Deus, mas, em algumas áreas, dependem do homem. O efeito daquilo que Cristo fez por nós é feito dependente de nós. Não é mais certo dizer que, para Deus, todas as coisas são possíveis.

Fica óbvio, portanto, que os arminianos levaram para o seu protestantismo uma boa porção do levedo do catolicismo romano. O arminianismo é menos radical e menos consistente em seu protestantismo do que deveria ser.

Ora, o Sr. Grey, o evangélico, parece estar confortável quando tenta conquistar o Sr. Black, o incrédulo, à aceitação do “sacrifício substitutivo”. Ele pode firmar os pés em “chão comum” com o Sr. Black em termos daquilo que é possível ou impossível. Observe o Sr. Grey enquanto fala com o Sr. Black.

“Sr. Black, porventura já aceitou Jesus Cristo como seu salvador pessoal? Crê que ele morreu na cruz em seu lugar? Se não, certamente estará perdido para sempre.”

“Bem”, responde o Sr. Black, “acabei de receber uma visita do Sr White, falando sobre o mesmo assunto. Vocês parecem ter um ‘testemunho comum’ sobre a matéria. Ambos creem que Deus existe, que ele criou o mundo, que o primeiro homem, Adão, pecou, e que todos nós merecemos o inferno por causa do que esse homem fez, e daí em diante. Tudo isso me parece muito fatalista. Se, como você diz, eu sou uma criatura, então, não terei nenhum poder final para escolher. Não sou livre. E se não sou livre, então, não sou também responsável. Assim, se eu for para o inferno, será simplesmente porque seu ‘Deus’ assim determinou. Vocês, cristãos ortodoxos, matam a moralidade e todo progresso humano. Não quero ter nada com isso. Até logo!”

“Ei! Espere um pouco”, diz o Sr. Grey afobado. “Eu não tenho um ponto de vista em comum com o ponto de vista calvinista. Nós dois, sim, temos um testemunho comum contra o calvinismo quanto ao determinismo mencionado. É claro que você é livre. Absolutamente livre para aceitar ou rejeitar a expiação que lhe é oferecida. Você mesmo terá de torná-la real para a sua vida. Concordo com você, contra o calvinismo, dizendo que a ‘possibilidade’ é maior do que a vontade de Deus. Nem por um momento eu diria com os calvinistas que o conselho de Deus determina tudo o que se passa.”

“Além disso, calvinistas menos extremistas, como o Dr. J. Oliver Buswell, Jr., virtualmente concordam conosco. Observe o que Buswell disse: ‘Não obstante, nossas escolhas morais são escolhas em que nós mesmos somos causas últimas’. O próprio Dr. Buswell deseja ir além da ‘resposta meramente arbitrária’ de Romanos 9.20,21, que fala sobre o oleiro e o barro, para uma análise bem mais profunda do plano de Deus para a redenção em Romanos 9.14-19, em que Paulo faz um retrato de faraó, dizendo: ‘Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra’.”

“Eu entendo, então”, replica o Sr. Black, “que vocês, arminianos e calvinistas moderados, opõem-se ao determinismo regular e antiquado do calvinismo histórico das confissões reformadas? Alegro-me em ouvir isso. Dizer que todas as coisas já foram fixadas por Deus desde a eternidade é algo terrível! Dá-me calafrios! O que aconteceria com toda moralidade e decência, se todos os homens acreditassem em tal ensino? Porém, agora, vocês, arminianos e calvinistas abertos, juntaram-se a nós, para proclamar que a ‘possibilidade’ é independente da vontade de Deus. Vocês, assim, com toda a gente boa e com todos os teólogos liberais e neo-ortodoxos, como Barth, tornam possível a salvação para todos os homens”.

“Isso significa, é claro, que a salvação é possível também para aqueles que jamais ouviram falar de Jesus de Nazaré. A salvação, portanto, será possível até mesmo, sem a aceitação de sua expiação substitutiva mediante esse Jesus de quem você fala. Certamente, você não quer dizer, como os calvinistas, que Deus determinou os limites de todas as nações e indivíduos, e assim, no final das contas, determinou que alguns homens, de fato, milhões deles, jamais ouvissem esse evangelho.

“Além disso, se a possibilidade é independente de Deus, como vocês, evangélicos e calvinistas moderados, ensinam, então, eu não preciso ter medo do inferno. É bem possível, ainda, que nem exista inferno. O inferno, você há de concordar, é a tortura que um homem experimenta quando falha em atingir os próprios ideais morais. Assim, não acho que deva me preocupar, agora, com tal aceitação de Cristo como meu Salvador pessoal. Tenho todo o tempo do mundo.”

Pobre Sr. Grey. No fundo, ele realmente desejaria dizer algo sobre ter um testemunho em comum com os calvinistas. No fundo do coração, ele sabe que o Sr. White, o calvinista, e não o Sr. Black, o incrédulo, foi seu amigo verdadeiro. Mas ele assumiu um testemunho comum com o Sr. Black, contra o suposto determinismo do Sr. White, o calvinista, e assim, era-lhe dificultoso, depois disso, voltar a face e assumir um testemunho com o Sr. White, contra o Sr. Black. Ele não tinha nada inteligente para dizer. Seu método de defesa da fé o forçava a admitir que o Sr. Black estava basicamente certo. Ele não deu ao Sr. Black a oportunidade de conhecer o que supostamente deveria aceitar. Antes, seu testemunho havia confirmado o Sr. Black na crença de que não teria necessidade de aceitar a Cristo.

É verdade, é claro, que, na prática, o Sr. Grey é bem melhor em sua teologia e em seu método de representação do evangelho do que ele disse ser. Mas isso é porque, na prática, todo evangélico que realmente ama o Senhor é um calvinista no coração. Como poderia ele, orar a Deus por ajuda, se realmente cresse que haveria possibilidade de Deus não o ajudar? No fundo do coração, todo cristão verdadeiro crê que Deus controla todas as coisas. Porém, a respeito da expiação substitutiva, os calvinistas não podem ter um testemunho comum com os arminianos que tenham, contra ele, um testemunho comum com o incrédulo, sobre a mais importante questão de se Deus controla ou não todas as coisas que ocorrem.

Devemos nos lembrar de que o primeiro requisito para um testemunho efetivo é que a posição defendida seja inteligível. O arminianismo, quando consistentemente conduzido, destrói tal inteligibilidade.

O segundo requisito para um testemunho efetivo é o de que aquele a quem o testemunho é dado tem de entender substancialmente por que deveria abandonar sua posição para aceitar a que lhe é oferecida. O arminianismo, quando consistentemente conduzido, destrói a razão pela qual o incrédulo deveria aceitar o evangelho. Por que haveria o incrédulo de mudar sua posição se não lhe é mostrado o próprio erro? Por que deveria mudar sua posição para a do cristianismo se aquele que o incita à mudança, na verdade, o encoraja a pensar que está certo? Portanto, o calvinista, certamente, tem um melhor método de defender a doutrina da expiação substitutiva do que o do arminiano.

 

Fonte: Cornelius Van Til, O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno, (Cultura Cristã, p. 42-52).



Sobre o Autor

Cornelius Van Til
Cornelius Van Til
Cornelius Van Til, um dos apologistas mais originais e brilhantes do século 20, nasceu em Grootegast, Holanda (1895) e emigrou com a família para os Estados Unidos em 1905. Casado com Rena Klooster, foi filósofo cristão e teólogo reformado, pastor da Christian Reformed Church e um dos professores fundadores do Westminster Seminary, em setembro de 1929, onde lecionou Apologética até aposentar-se, em 1974. Em 1936 transferiu-se para a Orthodox Presbyterian Church, à qual pertenceu até sua morte, em 1987.




 
 

 
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