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29 de janeiro de 2017
 

29 de janeiro: meu dia.

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Escrito por: Felipe Sabino

29 de janeiro sempre foi dia de festa em minha casa. Ao menos em meu coração. O dia continua impregnado em minha alma, embora com um sabor diferente desde 2006. Afinal, em 16 de julho de 2005 faleceu Francisco Sabino de Araújo, meu amado pai.

Hoje, 29 de janeiro de 2017, ele faria 70 anos de idade. Daqui a alguns meses já serão 12 anos sem a sua presença, e sua voz inconfundível.

Meu pai não era um super-herói, mas eu o estimava como se fosse. Como todo ser humano caído, Papai tinha vários defeitos, mas estes jamais foram obstáculos ao amor que sentia e ainda sinto por ele.

A Bíblia deixa claro que todo ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Como tal, somos analogias ambulantes do nosso Criador. De maneira imperfeita e finita, espelhamos e refletimos quem Deus é e como ele se relaciona com a sua criação. Eu não sou um super-herói, mas Deus me estima como se eu fosse. Eu tenho vários defeitos, mas estes jamais são obstáculos ao amor que Deus sente, sempre sentiu e sentirá por mim, por causa de Jesus Cristo, meu Salvador.

A bondade de Deus é multiforme. Ela se revela de diversas formas, sobretudo na morte de Cristo em favor do seu povo. Mas ela também se mostra no paladar que pode apreciar um bom café ou uma deliciosa Coca-Cola geladíssima. Que maravilha Deus ter nos criado com olfato, para que pudéssemos nos deliciar com o cheiro de uma picanha assada, de terra molhada, de alho e cebola fritos e, claro, de livros.

A nossa memória é uma dessas grandes dádivas. Com ela ainda posso, decorridos longos doze anos, ouvir a voz do meu pai, sentir o seu cheiro e experimentar o seu abraço. Dessa forma, sou grato a Deus não somente pelos anos durante os quais desfrutei da presença do meu pai, mas também por ele continuar presente em minha vida por causa das maravilhas da memória.

Abaixo transcrevo uns dos trechos que mais amo nas Confissões de Agostinho, esperando que você também seja grato por esse dom divino. Em vez de utilizar a sua memória para remoer o passado e viver em ressentimento, use-a para o seu bem e a glória de Deus.

 

Ultrapassarei então essas minhas energias naturais, subindo passo a passo até aquele que me criou. Chegarei assim ao campo e aos vastos palácios da memória, onde se encontram os inúmeros tesouros de imagens de todos os gêneros, trazidas pela percepção. Aí é também depositada toda a atividade de nossa mente, que aumenta, diminui ou transforma, de modos diversos, o que os sentidos atingiram, e também tudo o que foi guardado e ainda não foi absorvido e sepultado no esquecimento. Quando aí me encontro, posso convocar as imagens que quero. Algumas se apresentam imediatamente; outras fazem-se esperar por mais tempo e parecem ser arrancadas de repositórios mais recônditos. Irrompem as outras em turbilhão no lugar daquela que procuro, pondo-se em evidência, como que a dizerem: “Não somos nós talvez o que procuras?” Afasto-as da memória com a mão do meu espírito; emerge então aquela que eu queria, surgindo das sombras. Outras sobrevêm dóceis em grupos ordenados, à medida que conclamo, uma após outra, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecendo para reaparecer quando quero. Eis o que sucede quando falo de memória.

Aí se observam, distintas pelo gênero as idéias que foram introduzidas, cada uma por sua via de acesso: assim a luz, as cores e as formas dos corpos, através dos olhos, os diversos tipos de som, através dos ouvidos, os vários odores, através do nariz; os sabores, pela boca e através da sensibilidade de todo o corpo, o que é duro ou mole, quente ou frio, liso ou áspero, pesado ou leve, e todas as sensações externas e intensas. A memória armazena tudo isso nos seus amplos recessos e em seus esconderijos secretos e inacessíveis, para ser reencontrado e chamado no momento oportuno. Todas entram, cada uma por sua porta, e em ordem se alojam. Não são os próprios objetos que entram, mas as suas imagens pelos sentidos, e que aí ficam à disposição do pensamento, até que este se lembre de chamá-las. Quem poderá explicar como se formaram tais imagens, embora se conheçam os sentidos que as captam e as colocam em nosso íntimo? Mesmo quando me encontro nas trevas e no silêncio, posso representar na memória, se quiser, as cores, e distinguir o branco do preto e todas as outras cores entre si. E não sucede que as imagens recebidas pelos olhos sejam perturbadas pelos sons, estes embora presentes, estão como em lugar à parte. Mas se decido chamá-los, apresentam-se imediatamente, enquanto eu, sem abrir a boca, canto em silêncio o tempo que quiser. E as imagens das cores, presentes também estas na memória, não interferem nem perturbam enquanto me sirvo deste outro tesouro que penetra pelos ouvidos. Assim, posso recordar, conforme me agrada, todas as outras coisas que são introduzidas e acumuladas pelos outros sentidos. Sem nada cheirar, distingo o perfume dos lírios do perfume das violetas, e sem nada provar nem tocar, mas apenas na memória, prefiro o mel ao mosto cozido, o macio ao áspero.

Realizo interiormente todas essas ações, no grande palácio da memória. Encontram-se aí, à minha disposição, céu, terra e mar, com aquilo tudo que neles colher com os sentidos, excetuando-se apenas o que esqueci. É aí que encontro a mim mesmo, e recordo as ações que realizei, quando, onde e sob que sentimentos as pratiquei. Aí estão também todos os conhecimentos que recordo, seja por experiência própria ou pelo testemunho alheio. Dessa riqueza de idéias me vem a possibilidade de confrontar muitas outras realidades, quer experimentadas pessoalmente, quer aceitas pelo testemunho dos outros; posso ligá-las aos acontecimentos do passado, deles inferindo ações, fatos e esperanças para o futuro, e, sempre pensando em todas como estando presentes, “farei isto ou aquilo”, digo de mim para mim no imenso interior de minha alma repleto de tantas imagens. “E acontecerá isto ou aquilo”. “Oh, se acontecesse isso ou aquilo! Deus nos livre disso ou daquilo!” Assim falo comigo mesmo e, enquanto falo, eis que se tornam presentes, retiradas do tesouro da memória, imagens de tudo o que nomeei; se me faltassem, de nenhuma eu poderia falar.

É grande realmente o poder da memória, bem grande, ó meu Deus. É um santuário imenso, ilimitado. Quem poderá atingir-lhe a profundeza? E essa força pertence ao meu espírito, faz parte de minha natureza; e na realizada não chegou a aprender tudo o que sou. Mas então o espírito é limitado demais para compreender-se a si mesmo? E onde está aquilo que não aprende de si mesmo? Estará então fora de si mesmo, e não dentro? Então por que não se compreende? Isso muito me admira e me espanta. Os homens vão admirar os cumes das montanhas, as ondas do mar, as largas correntes dos rios, o oceano, o movimento dos astros, e deixam de lado a si mesmos, e não se admiram do fato de eu falar de todas essas coisas sem vê-las com os próprios olhos; mas eu não poderia mencionar tais coisas, se não as visse, na memória, em toda a sua imensidão, como se tivesse diante de mim as montanhas, as ondas, os rios e os astros, que vi pessoalmente, e o oceano, no qual acredito. No entanto, quando os vi com os olhos, não os absorvi; são as imagens deles que em mim residem, e não eles próprios. E sei através de qual sentido do corpo me foi impressa cada imagem.

Fonte: Confissões, Santo Agostinho, Editora Paulus, páginas 274-276.



Sobre o Autor

Felipe Sabino
Felipe Sabino
O autor é Bacharel em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e mestre em Filosofia (Conceito CAPES 5) pela Universidade de Brasília (UnB). Presbiteriano por convicção, é membro da IPB desde 2002. É atualmente Presbítero da Igreja Presbiteriana Semear (Brasília-DF).



 
 

 

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