Apologética

8 de novembro de 2011

O Racionalismo dos Irracionais

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Escrito por: Felipe Sabino
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Eu não creio que haja paradoxos lógicos na Escritura. Contudo, não estou em guerra contra aqueles que creem diferente. Na verdade, entre os meus escritores prediletos há muitos (centenas, na verdade!) que afirmam abertamente existirem paradoxos lógicos na Escritura que a mente humana não pode resolver. Contudo, incomoda-me ver aqueles que defendem o paradoxo lógico xingar (sim, trata-se de um xingamento!) os que pensam diferente de racionalistas, mesmo quando esses são calvinistas, crendo na suficiência da Escritura.

Gordon Clark, autor que possui vários textos disponibilizados no Portal Monergismo, bem como alguns livros publicados pela Editora Monergismo, é algumas vezes alvo de tal crítica. Isso a despeito de ele ter sido um teólogo calvinista e pastor presbiteriano. Por causa disso, é um alívio ler uma avaliação como essa que passo a citar:

A posição de Gordon Clark não é apenas teologicamente calvinista, mas é também filosoficamente pressuposicionalista em grande extensão. A posição básica de Clark, portanto, não é racionalista. De forma muito óbvia, ele não está no campo de Hackett, e o seu antigo aluno Carnell não representa a sua posição. A despeito de diferenças muito reais, Clark está mais próximo de Van Til do que de muitos dos seus antigos alunos. (R. J. Rushdoony, Clark and His Critics, p. 267)

A avaliação de Rushdoony é importante pois, além de um excelente teólogo e filósofo calvinista, ele era também um grande seguidor de Cornelius Van Til. Em algumas cartas, o próprio Van Til considera os elogios de Rushdoony a ele exagerados. Ou seja, não se trata de um vantiliano qualquer. Mas por que mencionar Van Til? Pois em geral os que acusam Clark de racionalista ou são vantilianos, ou compartilham de sua crença em paradoxos lógicos na Escritura. Prossegue Rushdoony:

Em sua filosofia da educação, Clark é um pressuposicionalista. Basicamente, ele está mais próximo a essa posição do que àquela geralmente atribuída a ele. Suas diferenças com Van Til e outros são muito reais e em certos pontos profundas, e, do ponto de vista do pressuposicionalismo, há divergências sérias na posição de Clark. Mas uma filosofia da educação é um teste crítico da posição de um homem. Uma filosofia racionalista se apegaria basicamente a uma educação de terremo comum cuja premissa básica é a neutralidade. Mas é contra essa posição, contra a reinvidicação à neutralidade, que Clark lança a substância da sua crítica, a força do seu ataque. O Cristo de Clark é mais do que a lógica, e sua visão do homem não é do homem como razão, mas do homem como uma unidade. Esse homem unificado é em todo o seu ser – emoção, vontade, intelecto, em todos os sentidos – um pecador em rebelião contra Deus, seu Criador. Portanto, não há sequer uma fibra ou pensamento neutro em seu corpo. A neutralidade é, dessa forma, uma impossibilidade.

Rushdoony, a despeito de suas diferenças com Clark, mesmo em questões como o lugar da lógica na teologia e filosofia, não permite que as diferenças transformem-se em calúnia contra um seguidor de Cristo, que cria absolutamente na inerrância e suficiência da Escritura. Num livro que pretendia ser um lugar para críticas à teologia e filosofia de Clark, Rushdoony não sucumbiu ao erro de muitos nesse aspecto. Não precisamos nos valer de calúnias para expressar nossas divergências para com outras pessoas.

Aqueles que acusam a posição de Clark (e de outros influenciados por ele) de racionalismo demonstram não somente ignorância do assunto sobre o qual estão falando, mas também o quão arbitrários eles são em suas críticas. O motivo é que, em geral, a explicação de Clark para a suposta tensão entre soberania divina e responsabilidade humana (e outras doutrinas controversas) é mencionada como um exemplo do seu racionalismo. Alguns, como o Dr. Roger Nicole (embora de forma muito mais branda, e em tom investigativo, e não acusatório), veem racionalismo inclusive na sua explicação do supralapsarianismo (a qual, como Clark demonstra, é totalmente exegética).

Pois bem: enquanto essas pessoas acusam Clark de racionalismo ao tentar conciliar essas verdades bíblicas, ninguém levanta sequer uma palavra contra aqueles que, por exemplo, tentam conciliar “Deus ser amor” e “Deus enviar pessoas para o inferno”. Aliás, essa é uma das perguntas que mais ouvimos quando conversando com não cristãos: “Como pode um Deus de amor enviar pessoas para o inferno?”. Por causa disso, inúmeros livros e artigos já foram escritos abordando essas e outras indagações e acusações contra a fé cristã. Digo acusações, pois segundo tais pessoas há uma contradição aqui: um Deus de amor não pode enviar pessoas ao inferno. O próprio cientista ateu Richard Dawkins fala algo semelhante entre as suas críticas à religião cristã. Muitos teólogos de renome já tentaram (e com sucesso, creio eu!) conciliar essas doutrinas, e inclui-se aqui até mesmo aqueles teólogos que aceitam o paradoxo lógico. Por fim, é quase certo que muitos desses detratores de Clark já tentaram responder (se são realmente testemunhas de Cristo, onde quer que estejam) de maneira racional essa questão.

Diante disso, não podemos deixar de perceber a arbitrariedade desses irmãos. Dependendo de quais doutrinas estão sendo conciliadas, a pessoa pode ser racionalista ou não. Se forem doutrinas que esses irmãos não consideram contraditórias, então podemos conciliá-las sem nos tornarmos racionalistas. Mas se forem doutrinas que eles consideram contraditórias e irreconciliáveis, então só um racionalista tentará harmonizar tais ensinos. Mas Clark recusa fazer isso pois ele está totalmente sujeito à autoridade e suficiência da Escritura. Abraçar esse padrão duplo de julgamento é ir além da Escritura, pois não encontramos nos registros bíblicos que podemos tentar conciliar a doutrina A e N, mas não a C e G. Dessa forma, esses irmãos tornaram-se não somente juízes da consciência alheia, mas o padrão de inteligência e compreensão das Escrituras ao qual todos devem se submeter e não ousar ultrapassar. Felipe não pode achar a doutrina X clara e harmoniosa com a doutrina Y, se Eduardo insistir que elas não o são. Por sua vez, Marcelo não pode dizer que não vê contradição em Deus ser soberano e o homem responsável, se Lucas detecta uma contradição aqui. Se eles viram uma contradição, que Deus não permita vermos um ensino claro e coerente. Se eles não entenderam, que não ousemos compreender.

Mas a implicação pior ainda está por vir, pois ela é extremamente irônica. Diante da atitude de tais pessoas, teríamos justificativa para acusá-las de serem racionalistas, pois em vez de dependerem totalmente a Escritura, como Clark o faz, elas dependem da sua própria razão para decidir quais doutrinas são conciliáveis ou não. É verdade que elas citam Deuteronômio 29.29, mas não é dali (nem o podem fazer, pois o texto diz que a revelação é para ser entendida e repassada aos nossos filhos) que elas extraem quais doutrinas são conciliáveis e quais não. E é impossível fazê-lo, pois a Escritura não dá tal informação. Pelo contrário, “tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Romanos 15.4). Se tudo o que foi escrito foi dado para o nosso ensino, então é porque podemos entender, compreender e harmonizar dentro do grande plano da redenção. Não podemos compreender tudo o que pode ser dito e conhecido sobre Deus, pois ele é infinito, mas podemos compreender o que ele nos revelou (afinal, é uma revelação!), que constitui apenas uma porção infinitesimal da grandeza e obras do nosso Deus.

Que Deus nos livre de sermos caluniadores, racionalistas e irracionais!

 



Sobre o Autor

Felipe Sabino
Felipe Sabino
O autor é Bacharel em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e mestre em Filosofia (Conceito CAPES 5) pela Universidade de Brasília (UnB). Presbiteriano por convicção, é membro da IPB desde 2002. É atualmente Presbítero da Igreja Presbiteriana Semear (Brasília-DF).




 
 

 
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