Vida Cristã

25 de janeiro de 2013
 

A Prática da Verdade

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Escrito por: Francis Schaeffer
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No que diz respeito ao primeiro dos princípios sobre os quais falamos no início do Apêndice B, “a completa posição doutrinária do cristianismo histórico deve ser claramente mantida”, parece-me que o problema central da ortodoxia evangélica na metade do séc. XX é o problema da prática deste princípio. Isso é desta forma especialmente quando nós levamos em conta a mentalidade espiritual e intelectual que é dominante em nosso século (1). Qualquer consideração sobre métodos ou programas deve ser secundária para uma reflexão desse problema central.

Se uma ênfase clara e inequívoca na verdade, no sentido de antítese (2), é removida, duas coisas ocorrem: Primeiramente, o Cristianismo como Cristianismo na próxima geração é enfraquecido; e segundo, nós estaremos nos comunicando apenas com a aquela parte que está diminuindo na comunidade que ainda pensa em termos do antigo conceito de verdade (3). Nós não estamos minimizando a obra do Espírito Santo. Nós deveríamos nos lembrar, no entanto, que nossa responsabilidade é que nos comuniquemos de tal forma que aqueles que ouvem o evangelho possam entendê-lo. Se nós não nos comunicarmos claramente na base de antítise, muitos irão reagir às suas próprias interpretações do evangelho, nas suas próprias formas relativistas de pensamento, incluindo um conceito de sentimento de culpa psicológico ao invés da verdadeira culpa moral diante do santo, Deus vivo. Se eles responderem desta forma, não entenderam o evangelho; ainda estão perdidos e nós falhamos em nossa tarefa de pregar e comunicar o evangelho à nossa geração.

A unidade do Cristianismo ortodoxo ou evangélico deveria ser centrada nesta ênfase da verdade. Sempre isto é importante, mas é duplamente importante quando somos cercados por aqueles para quem a verdade, no sentido de antítese, é considerada como totalmente impensável.

Em tal cenário o problema da comunicação é sério; isto pode ser superado apenas por declarações negativas que esclarecem o que nós não queremos dizer, para que o homem do séc. XX entenda as declarações positivas do que queremos dizer. Além do mais, em uma era de síntese (4), os homens não levarão a sério nossos protestos sobre a verdade a menos que eles vejam, pelas nossas ações, que praticamos essa verdade e antítese na unidade que tentamos estabelecer e em nossas atividades. Sem isso, em uma era de relatividade, nós não podemos esperar que a Igreja ortodoxa e envangélica signifique muito para a cultura ao redor ou até mesmo para os filhos da própria Igreja. O que tentamos dizer em nosso ensinamento e evangelismo será entendido em um pensamento em forma de síntese presente no séc. XX. Tanto uma clara compreensão da importância da verdade quanto uma prática dela, mesmo quando custa muito para se fazer isso, é imperativa se queremos que nosso testemunho e evangelismo sejam significantes em nossa geração e no fluxo da história.

Me parece que alguns evangélicos estão abandonando qualquer tentativa séria de expor a verdade e antítese. Tem havido uma tendência de se mover de uma falta de seriedade eclesiasticamente concernente a verdade para esta mesma tendência em assuntos de cooperação mais ampla. Isso geralmente resulta na negação, na prática se não em teoria, da importância da verdade doutrinária como tal.

Muito evangélicos que estão corretamente incomodados com a visão da Escritura e universalismo da nova teologia e que nestes pontos de erro tentam encará-la de fato nunca vão longe o suficiente para estabelecer uma linha clara de verdade e erro que será relevante para a próxima geração. Inevitavelmente a próxima geração tende a ir mais longe na direção já estabelecida e, se esta direção já esta em direção a síntese, eles irão com isto ainda mais perto em direção a nova teologia. Portanto, para evitarmos isso, nós devemos ser cuidadosos em considerar que verdade e antítese significam na prática a assuntos eclesiásticos e no evangelismo.

Assim deve ser dito que a despeito do – e ainda devido ao – comprometimento de alguém ao evangelismo e a cooperação dentre os cristãos, eu posso visualizar ocasiões onde a única forma de deixar claro a seriedade do que está envolvido – no que diz respeito a um culto ou a uma atividade onde o evangelho será pregado – é não tomar parte oficial quando homens, cuja doutrina é conhecida como sendo inimiga, serão convidados para participar oficialmente.

Em uma era de relatividade, a prática da verdade, quando esta custa muito, é a única forma de fazer o mundo levar a sério os nossos protestos concernentes a verdade. Cooperação e unidade que não levam à pureza de vida e de doutrina são tão defeituosas e incompletas como uma ortodoxia que não leva a uma preocupação e a uma atitude em relação aos que estão perdidos.

Há um perigo oposto a ser evitado. Alguns daqueles que tem lutado pela verdade têm prejudicado a mesma, não apenas pela perca de beleza e amor, mas ainda na prática pela perca da verdade enquanto falam sobre os homens.

Muitas vezes a única antítese que exibimos para o mundo e para as nossas próprias crianças é nosso discurso sobre santidade ou o nosso discurso sobre amor, ao invés da prática da santidade e do amor juntos como verdade, em antítese ao que é falso na teologia, na Igreja a na cultura ao nosso redor (5).

 

NOTAS:

(1). Mentalidade que vê a verdade não como fixa ou apenas uma, mas como múltipla e sempre variando, de forma que a verdade por mim acreditada não precisa ser a mesma para outra pessoa. Para estes, só porque algo é verdeiro não quer dizer que o oposto disso também não possa ser.

(2). Antítese, em seu conceito geral, é a idéia oposta a tese – outra idéia. Por exemplo, a antítese de bondade é maldade, a de imprudência é prudência. Neste contexto, a ênfase “clara e inequívoca […], no sentido de antítese” significa uma exposição da única verdade que é clara ao mostrar que tudo oposto a esta verdade é errado.

(3). O antigo conceito de verdade a concebia como absoluta e fixa. Portanto, se algo era tido como verdade, o oposto daquilo seria obviamente falso.

(4). Para Schaeffer, síntese é estritamente a resolução de duas opniões diferentes em uma resposta da forma “tanto isso quanto aquilo”, sendo “isso” e “aquilo” idéias opostas. Neste sentido estrito, síntese seria uma sinônimo de resposta relativista (Conferir o livro “A Morte da Razão” de Francis Schaeffer, páginas 40, 41. Editora Fiel).

(5). Baseado em uma palestra dada no Congresso sobre a Bíblia em Berlim.

 

Tradução: David Cecilio – http://www.firelandmissions.com/

Fonte: Complete Works of Francis Schaeffer, Vol. 01 – Pág 195-197.



Sobre o Autor

Francis Schaeffer
Francis Schaeffer
Francis A. Schaeffer (1912-1984) será sempre lembrado como um dos gigantes do século 20. Seus livros foram traduzidos para mais de 25 idiomas com milhões de exemplares vendidos. A L'Abri Fellowship, fundada pelo casal Francis e Edith Schaeffer em 1955, é um tributo vivo à sua obra. Outros títulos de Schaeffer lançados pela Cultura Cristã: A Obra Consumada de Cristo, A Morte na Cidade, Poluição e a Morte do Homem, Verdadeira Espiritualidade e a trilogia clássica, O Deus que Intervém, A Morte da Razão e O Deus que se Revela.



 
 

 
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