Vida Cristã

4 de janeiro de 2012
 

Vinho e o Irmão Mais Fraco

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Escrito por: G. I. Williamson
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“Bom é não comer carne”, diz o apóstolo Paulo, “nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça” (Rm 14.21). Essa declaração é frequentemente citada por aqueles que querem fazer da abstinência total um requerimento para o cristão. Eles argumentam que é dever do forte abster-se por consideração ao fraco. Eles dizem, em outras palavras, que mesmo um uso cuidadoso e moderado do vinho contradiz esse princípio apostólico. É a esse argumento que daremos agora a nossa atenção. Fazemos isso propondo duas perguntas. O que Paulo quer dizer por irmão mais fraco nesta passagem? E o que ele quer dizer quando fala sobre fazer esse irmão tropeçar?

O fato é que Paulo quer dizer algo muito diferente nesta frase “irmão mais fraco” do que os proponentes da abstinência total querem dizer. Quando falam de um irmão mais fraco, eles querem dizer alguém que tem uma tendência a beber muito. Um homem que tenha sido alcoólatra, por exemplo, e agora está procurando permanecer sóbrio, mediante a prática de abstinência completa, seria um irmão mais fraco, conforme eles usam essa frase. Mas o irmão mais fraco na terminologia de Paulo não é um homem que tende a beber muito. Pelo contrário, ele é um homem que acha errado beber qualquer quantia de vinho. Ele é um homem que tem certo escrúpulo de consciência. Se certos tipos de carne e vinho fossem realmente maus per se, então não seria necessário falar de tais pessoas como irmãos mais fracos. Mas o fato é que não existe nenhuma carne ou vinho que seja mau em si mesmo. Assim, o irmão mais forte é aquele que reconhece que isso é verdade. O irmão mais fraco é mais fraco porque ele está equivocado em sua convicção. Se come, ou bebe, ele peca. O pecado não reside no mero ato físico de comer ou beber como tal. Ele reside no fato que o irmão mais fraco, ao comer ou beber, violou a sua própria consciência. Pois, como diz Paulo, “tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14.23). A definição de Paulo para irmão mais fraco é, portanto, o exato oposto daquilo que é proposto pelos defensores da posição da abstinência total. Colocando de forma mais precisa: o irmão mais fraco, na terminologia de Paulo, é alguém que defende a posição de abstinência total. Sua fraqueza é que ele erroneamente crê que o beber vinho é um pecado.

Disso pode ser facilmente visto que quando Paulo fala de fazer um irmão tropeçar, ele não quer dizer nada semelhante àquilo defendido pelos proponentes da abstinência total. Quando eles dizem que não devemos fazer o nosso irmão tropeçar, eles simplesmente querem dizer que não devemos fazer algo que eles não gostam. Não devemos nos envolver em nenhum comportamento que seja ofensivo a outros crentes. Ou em outras palavras, nunca devemos fazer algo que outros crentes consideram ser pecado. Ora, isso não é o que Paulo quer dizer. Quando ele falou de fazer um irmão tropeçar, ele quis dizer um ato da nossa parte que induza nosso irmão a pecar — que o encoraje a agir contra esse escrúpulo que ele tem em sua consciência. Sem dúvida, aquilo que Paulo está dizendo pode — em certas circunstâncias — ditar que não devemos fazer algo que seja intrinsecamente legítimo. Se certo cristão foi um alcoólatra, e agora crê que qualquer quantidade de vinho para ele seria o caminho de ruína, então outros cristãos devem certamente fazer disso a preocupação deles também. Eles devem ser cuidadosos para que não ajam de uma forma que o encoraje a ir contra a sua própria consciência. Isso não significa que eles devem adotar a regra da consciência dele como lei.

Podemos facilmente ver isso se simplesmente observarmos que Paulo também fala da observância religiosa de dias (Rm 14.6). É um fato bem conhecido que nenhum dia era observado na Igreja Apostólica, por mandamento divino, exceto o Dia do Senhor (1Co 16.1,2; Gl 4.9-11). Quando os judaizantes tentaram impor a observância de outros (adicionais) dias, o apóstolo se opôs tenazmente (Gl 4.9-11). Todavia, nessa questão também Paulo não teve compaixão por aqueles que eram irmãos mais fracos. O irmão mais fraco neste caso era alguém que se sentia obrigado a observar esses outros dias. (Pense nos judeus que ainda se sentiam obrigados, pela consciência, a observar os tradicionais dias de festas judaicos!) O problema, novamente, era uma consciência mal informada que ia além da lei do Senhor. Alguém pensa que Paulo exigiu que o forte se conformasse ao fraco? Não, o fato é que quando a tentativa de forçar tal conformidade foi feita, o apóstolo a denunciou severamente. Pois uma coisa é receber o irmão mais fraco (Rm 14.1) e outra bem diferente é permitir que sua fraqueza seja imposta sobre os outros como lei (v. 4).

Aconteceu exatamente a mesma coisa com a comida. Nos dias de Paulo — como nos nossos — algumas pessoas tinham escrúpulos de consciência contra comer certos tipos de carne (porco, por exemplo). Embora errados por ter esses escrúpulos, eles ainda sim deveriam ser recebidos como irmãos (v. 3). Os fortes não deveriam tentar induzi-los a comer contra convicção de consciência. Quem argumentaria que era dever do forte se conformar ao fraco? Os proponentes da abstinência total se submetem a tais escrúpulos? Não, o fato é que as mesmas pessoas que tentam usar esse argumento para forçar outras pessoas a praticar a abstinência total, quando diz respeito ao vinho, não praticam o que pregam quando diz respeito a carne de porco. Não é de admirar! Se os cristãos fossem obrigados a se abster — completamente — de qualquer comida ou bebida que irmãos fracos, num momento ou outro, num lugar ou outro, consideram como sendo pecaminosas, eles teriam pouca opção quanto ao que comer e beber. Por que então essa passagem deveria ser tomada dessa forma com respeito ao vinho? A passagem, afinal, não diz que é mau comer carne ou beber vinho. Ela diz apenas que é bom não comer carne ou beber vinho se isso faz um irmão tropeçar. A única preocupação de toda a passagem é nos ensinar a evitar algo que induza um irmão mais fraco a agir contra a sua própria consciência.

Quando Paulo diz “bom seria que o homem não tocasse em mulher” (1Co 7.1), ele não quer dizer que a relação sexual é inerentemente errada. Pelo contrário, para evitar a imoralidade sexual, ele recomenda a relação sexual — dizendo que cada homem tenha a sua própria esposa e cada mulher o seu próprio marido, caso não tenham o dom da continência. O oposto da imoralidade sexual não é necessariamente o celibato. Dizer que a abstinência total (sexual) é boa, não é de forma alguma o mesmo que dizer que a satisfação legítima é má. Muito pelo contrário: embora a abstinência completa possa ser melhor para alguns, uma satisfação apropriada é o melhor para outros. De fato, para a maioria das pessoas o conveniente não é a abstinência, mas o uso lícito. Todavia, essa é a distinção que os proponentes da proibição ignoram. Eles condenam o uso do vinho, mesmo com moderação, sobre o fundamento que ele poderia fazer outra pessoa tropeçar. É interessante observar que algumas pessoas na igreja antiga fizeram exatamente a mesma coisa com respeito ao casamento. Porque a Escritura diz “bom seria que o homem não tocasse em mulher”, eles começaram a exigir que as pessoas praticassem o celibato (1Tm 4.3). Como os defensores atuais da abstinência total, eles procuraram tornar um escrúpulo de suas próprias consciências algo obrigatório para todos os demais. Mas Paulo, profeticamente falando, classifica o ensino deles como vindo de espíritos enganadores, e como doutrina de demônios, e não de Cristo (v. 1). Ele não louva a convicção de consciência deles, mas antes descreve as suas consciências como tendo sido cauterizadas (v. 2). Ao proibir o casamento, e ao ordenar a abstinência de certos alimentos, eles na verdade estavam impugnando a obra das mãos de Deus (v. 3, 4). Pois Deus criou todas essas coisas para serem recebidas com ações de graça, por aqueles que creem e conhecem a verdade.

O mesmo se dá com o vinho. Aqueles que procuram impor seu escrúpulo de consciência nos outros usurpam a autoridade de Cristo. Paulo nos ensina a resistir-lhes. “A fé que tens”, diz ele, “tenha como sua convicção diante de Deus” (Rm 14.22).

 

Fonte: Wine in the Bible & the Church, p. 17-21.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – 03 de janeiro de 2011.

 



Sobre o Autor

G. I. Williamson
G. I. Williamson
Gerald Irvin Williamson, nascido em 1925, é ministro presbiteriano e autor de diversos livros. Após 50 anos de ministério em diversas denominações reformadas, mas principalmente na Orthodox Presbyterian Church, da qual ele é membro atualmente, o Rev. Williamson aposentou-se do pastorado.



 
 

 
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