Doutrina/Teologia

7 de janeiro de 2012
 

Sabelianismo

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Escrito por: Gordon H. Clark
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A

falha judaica em ver mais que uma Pessoa como Deus adentrou as igrejas cristãs – com esta tão importante diferença: Eles tinham algo a dizer sobre Cristo. As visões possíveis sãos essas: há três deuses independentes; há apenas um Deus que aparece e opera em três modos; há apenas uma Pessoa que é Deus e Cristo foi sua primeira criação; e finalmente há uma Divindade existindo em três Pessoas. Este tratado gastará algumas páginas sobre o Sabelianismo e então expandirá sobre o conflito entre arianos e atanasianos.

Até o ponto que Sabélio está pessoalmente envolvido, o único fato que precisa ser mencionado é que ele foi condenado em 263 d.C.. Sua teologia, portanto, não deve ser ignorada, apesar dos ecos de suas visões terem esporadicamente soado aqui e ali através dos últimos séculos.

Sabelianismo é a visão de que Deus é uma única pessoa; não há uma segunda pessoa chamada Filho, nem uma terceira chamada o Espírito. Antes, quando Deus é ativo na criação do universo e o controlando, ele deve ser chamado Pai; quando ele está ativo na redenção, ele deve ser chamado Filho; e quando ativo na santificação ele é chamado Espírito. Os três nomes significam três atividades diferentes da mesma Pessoa. Certamente os sabelianos poderiam reconhecer Cristo como Deus, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, e isso soa muito bom para o público cristão; mas Filho foi apenas um nome para um dos três tipos de atividades de Deus.

Sabelianismo, mesmo que uma justiça superficial seja feita ao Novo Testamento – e isso foi uma preocupação maior no século II do que no século XX – implica ou no mínimo coincide com o que foi chamado Patripassianismo, ou seja, que foi o Pai quem sofreu na cruz. Está não é realmente a dedução lógica do sabelianismo, porque os sabelianos diriam que Deus sofrendo na cruz é apropriadamente chamado Filho, e não Pai; e um historiador pode desejar manter certos grupos distintos; mas um não pode ficar surpreso com a confusão do terceiro século. Tertuliano causticamente comentou que essas pessoas “põem o Paracleto em fuga e crucificam o Pai.”

Em resposta a tais visões, uma das evidências do Novo Testamento a ser citada que Deus não é uma Pessoa vem da fórmula batismal de Mateus 28:19, “Batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Romanos 6:3 e Gálatas 3:27 usam Cristo apenas e não mencionam o Pai nem o Espírito. A últimas das duas referências não harmoniza com o sabelianismo, porque, ao contrário, é sem sentido batizar em uma função de uma pessoa de três funções. Quanto à fórmula trinitariana alguém pode perguntar, se o Pai é simplesmente uma função, como o Filho e o Espírito são funções, essas são funções de quê? Quanto à interpretação sabeliana, há no verso nenhuma menção de qualquer Pessoa divina. Um batismo sabeliano requereria algo como “eu te batizo em nome da criação, redenção e glorificação.” Obviamente esta não é a fórmula cristã, e esta de modo algum pode se ajustar ao sabelianismo. Deve-se notar que no Novo Testamento o termo Pai nas passagens pertinentes não expressa uma relação com o homem. O Pai é o Pai do Filho. Mas atividades, como criação e redenção, não pode ser do pai e do filho. Em outras palavras, a fórmula tripla não salienta sobre o que Deus faz; ela salienta o próprio Deus como triplo.

Em adição à fórmula batismal há a Bênção Apostólica: “A graça do nosso Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo esteja com todos vocês. Amém.” A ordem dos nomes aqui é peculiar. Sabelianismo requereria Deus ser mencionado primeiro, e então, estranhamente eles encontrariam apenas duas das três atividades na fórmula. Mesmo um trinitariano é surpreendido por o Pai não ser mencionado primeiro. De fato, o Pai de modo algum é mencionado. O trinitarianismo pode permitir um identificação de Deus com Pai e assim separar de Deus o Filho e o Espírito? Hodge estranhamente nem mesmo menciona a dificuldade em seu Commentary on II Corinthians [Comentário sobre II Coríntios]. Alguém pode, portanto, entender que à medida que o cristianismo começou a aparecer distinto do judaísmo contínuo, e contudo não totalmente emerge da fraseologia do Antigo Testamento, que o termo Deus deve ser mantido como uma designação do Pai, no lugar de aplicá-lo uniformemente ao Filho e ao Espírito. Veja, por exemplo, Gálatas 1:1, 3; Efésios 3:14; et al., onde Paulo usa a frase: “Deus o Pai.” De fato, isso é de algum modo a razão que forçou Atanásio, no próximo século, a insistir na Deidade de Cristo.

Somando-se a essas duas fórmulas, o Novo Testamento contém muitas indicações maiores ou usualmente menores de que há três Pessoas, não apenas três atividades. Uma das passagens mais longas é a Oração Sacerdotal em João 17. Uma função não pode orar a uma função. Além do que, a passagem em muitos lugares distingue o Filho do Pai. Tome por exemplo o versículo 5: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.” Distinções pessoais dificilmente poderiam ser mais claramente postas. Ou abaixo no versículo 18: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.” Mas funções não mandam funções.

Deve-se notar, e isso será mencionado posteriormente na seção sobre Agostinho, que os termos Pai, Filho e Espírito não expressam três relacionamentos para com os seres humanos criados. O Filho é o Filho do Pai. O Pai e o Filho enviam o Espírito Santo. Ele era o Espírito antes de ele ser enviado. Mesmo quando Cristo diz, “Eu e meu Pai somos um,” nós não apenas temos a distinção entre “eu” e o “Pai”, mas também o um é um neutro e não um masculino. O Pai e o Filho endereçam um ao outro como “Eu” e “Tu.” O Filho ora ao Pai. Essas distinções, que dificilmente podem ser negadas como sendo distinções pessoais, são conclusivas contra o Sabelianismo. Um pequena lista de versículo pertinentes é Mateus 3:17; 11:27; 26:53; Lucas 2:49; João 2:16; 5:22, 23: 8:54; 14:2, 13, 16, 21, 24, 26; I Coríntios 12:3; e Hebreus 1:5.

Sabelianismo agora está extinto. Teólogos recentes que categorizam este ou aquele herético como sabeliano, talvez Serveto, estão incorretos. Shedd (History of Christian Doctrine [História da Doutrina Cristã], 377) acusa Scotus Eriugena de sabelianismo e acrescenta que outros teólogos fazem a mesma acusação contra Abelardo. Caroli acusou Calvino de sabelianismo! Strong (I, 327, 328, notas) cuidadosamente e confusamente duas vezes faz referência a Horace Bushnell. A razão do sabelianismo está extinto é que desde o quarto século os descrentes tem regularmente admitido que Cristo era uma pessoa. Ele negam que ele era uma Pessoa divina. Nem eles agora tentam muito defender suas visões em bases bíblicas, porque eles repudiaram inerrância. Portanto, os unitarianos do século dezenove e os grupos apóstatas do século vinte não são sabelianos. Tanto em história – porque Atanásio deu pouca atenção a Sabélio – como em lógica, o próximo passo é mostrar que Jesus, a pessoa que andou pela Palestina, era Deus encarnado. Nós chegamos, portanto, no desenvolvimento da doutrina da Trindade à defesa da Deidade de Cristo, e disto Atanásio ocupou-se no Concílio de Niceia.

 

Fonte: CLARK, Gordon H. The Trinity. 2. ed. Jefferson, Maryland (E.U.A.): Trinity Foundation, 1990. p 8-12.

Tradução: Jazanias Oliveira – fevereiro/2009

 



Sobre o Autor

Gordon H. Clark
Gordon H. Clark
Gordon Haddon Clark (1902–1985) was a philosopher and Calvinist theologian and taught philosophy at the college level for most of his life. He was an expert in pre-Socratic and ancient philosophy and was noted for his rigor in defending Platonic realism against all forms of empiricism, in arguing that all truth is propositional, and in applying the laws of logic. The Trinity Foundation continues to publish his writings and other books as well.



 
 

 
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