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31 de dezembro de 2011

A História do Anabatismo

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Escrito por: Herman C. Hanko
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A Reforma do século 16 foi uma obra poderosa de Deus pela qual a igreja de Cristo foi preservada por meio de uma reforma eclesiástica. Para o estudante de história, nunca deixa de ser um espanto como Deus produziu essa reforma e a manteve num curso constantemente bíblico. Não somente os Reformadores eram gigantes da teologia que combateram com sucesso os erros de Roma em questões de doutrina, adoração, governo eclesiástico e vida cristã, mas eles também tiveram sucesso em afastar a igreja dos movimentos radicais que ameaçaram a Reforma quase desde o princípio.

Esses movimentos radicais se uniram à Reforma e pareciam a princípio ter um papel importante na batalha contra o erro romanista. Mas eles tinham a intenção de liderar o Protestantismo numa direção totalmente contrária à Escritura. Teria sido fácil e muitas vezes tentador aos Reformadores incorporar tais movimentos radicais dentro do Protestantismo bíblico. Rejeitá-los dividiu tristemente as igrejas da Reforma e abriu os Reformadores à acusação de que ao abandonar a autoridade do papa, eles estavam rasgando aos pedaços a unidade da igreja de Cristo. E assim, frequentemente esses movimentos radicais pareciam estar defendendo apenas coisas corretas.

Todavia, é parte da maravilha da obra de Deus que os Reformadores tiveram sucesso em se opor à Roma de um lado, e ao movimento radical anabatista de outro.

O movimento anabatista no tempo da Reforma era um movimento extremamente variado. [1] Embora todos os anabatistas concordassem em certas ideias, eles discordavam violentamente em outras questões. E dentro desses ramos separados do movimento, as controvérsias levaram a muitos cismas e grupos dissidentes. Para os propósitos deste artigo, dividiremos o movimento em três ramos.

Carlstadt e os Profetas de Zwickau

A Reforma Luterana alcançou um clímax na Dieta de Worms quando Martinho Lutero, o destemido Reformador da Alemanha, ficou sozinho e indefeso diante do imperador do Santo Império Romano, dos príncipes da Alemanha e dos altos prelados e teólogos da Igreja Católica Romana para tomar sua posição com base na Palavra de Deus. Após a Dieta, Lutero encontrou refúgio por um tempo num castelo em Wartburgo.

Durante a estadia de Lutero em Wartburgo, certos homens dentro do campo luterano começaram a pressionar suas ideias radicais em Wittenberg. Eles estavam insatisfeitos com o progresso demorado da reforma, especialmente em purgar a igreja dos elementos remanescentes de Romanismo: vestígios da missa, imagens, ícones, altares, monastério, janelas de vidro colorido, e coisas desse tipo. Sem a mão calma e orientadora de Lutero no leme, eles viram a oportunidade de destruir todos os elementos odiados de práticas romanistas. Eles desencadearam na cidade uma onda de iconoclastia. Seus seguidores saíram pela cidade e nas igrejas quebrando tudo que os desagradava e introduzindo práticas que, embora em consonância com os ideia da Reforma, estavam sendo introduzidos lentamente por Lutero à medida que ele procurava trazer o povo a um entendimento da Palavra de Deus. Os líderes eram Andreas Carlstadt e Justus Jonas.

Eles logo foram acompanhados por homens da cidade Zwickau, liderados por Nicholas Storck, Marcus Stubner e Thomas Munzer. Eles “profetas de Zwickau”, como vieram a ser chamados, eram radicais que combinavam uma misticismo interior com um radicalismo destrutivo. Eles se baseavam fortemente em sonhos, visões e revelações diretas; eles rejeitavam o batismo infantil; eles eram milenaristas, i.e., eram da opinião que o alvorecer do milênio tinha chegado e que era o chamado deles estabelecer o milênio do reino de Cristo aqui na terra. Wittenberg estava em alvoroço, e cartas apressadas e urgentes e foram enviadas a Lutero para deter a desordem.

Embora o Eleitor Frederico tivesse proibido Lutero de retornar, temendo pela vida dele, Lutero sentiu-se compelido a retornar para Wittenberg e, numa série de outro sermões poderosos pregados em oito dias sucessivos, colocou todos esses radicais para fugir e restaurou a paz da cidade. Isso foi uma demonstração notável da pregação de púlpito poderosa de Lutero e uma prova de sua afirmação que a Reforma não poderia ser realizada por tumultos e insurreições, mas somente pelo poder da Palavra de Deus. Munzer foi mais tarde instrumental na Revolta Camponesa e morreu nas mãos dos exércitos enviados para sufocar a insurreição.

O Desastre de Munster

A Reforma chegou cedo no que é hoje chamado Holanda, e o Anabatismo foi introduzido nos Países Baixos por Melchior Hofman já em 1530. Hofman era um homem estranho e um pensador excêntrico. Ele fazia uso de interpretações fantasiosas e alegóricas da Escritura para promover as suas visões.

Mas dois homens, seguidores de Hofman, introduziram na Holanda o que foi a forma mais radical de anabatismo no continente. Os nomes deles eram Jan Matthys, que alegava ser Enoque, e Jan de Leyden, que alegava ser o Rei Davi. Aceitando todas as visões estranhas de Hofman, eles determinaram estabelecer o reino dos céus, com seu centro em Munster, que eles chamavam de Nova Jerusalém. Eles alcançaram o ápice do seu poder em 1535 e 1536 quando, dentro dos muros de Munster, foi estabelecida uma comunidade que praticava o batismo de adultos, a comunhão de bens e esposas, e uma igreja que dependia mais da revelação dada aos líderes por meio de visões especiais do que das palavras de Cristo na Sagrada Escritura.

A cidade foi atacada pelas forças do imperador, subjugada, e destruídos, com os cidadãos mortos ou expulsos. O experimento horrível dessa ala radical do Anabatismo durou apenas um breve tempo.

Esse ramo fanático do Anabatismo foi condenado pelos outros anabatistas, mesmo nos Países Baixos. Os sucessores dos anabatistas, sem o fanatismo de Munster, foram seguidores de Menno Simons. Esses foram os pioneiros do que hoje é conhecido como a Igreja Menonita.

Nossa Confissão Belga, que frequentemente menciona os erros anabatistas, foi escrita com os anabatistas dos Países baixos em mente, incluindo os seguidores de Menno Simons. As visões de Menno Simons receberam atenção especial no Artigo XVIII, pois era Menno Simons quem ensinava que a natureza humana de Cristo não veio de Maria.

Os Irmãos Suíços

A ala do Anabatismo que recebe o nome de “Os Irmãos Suíços” foi a menos radical de todas. Ela repudiava especialmente os excessos violentos dos Profetas de Zwickau e os seguidores de Jan de Leyden.

O movimento teve o seu princípio em Zurique. [2] Nessa cidade, Ulrico Zuínglio estava fazendo a sua obra reformadora. Aqui também certos homens não estavam satisfeitos com a reforma lenta e estavam impacientes com aqueles que aconselhavam cautela. Os principais líderes eram Conrad Grebel (frequentemente considerado o fundador do Anabatismo), Felix Manz, George Blaurock, Simon Stumf e Balthasar Hubmaier. Zwínglio, em concordância com as visões atuais sobre a relação entre igreja e Estado, queria que a Concílio da Cidade de Zurique estivesse no controle da reforma.

Quando na disputa pública em outubro de 1523 o Concílio decidiu em favor de Zurique e seus seguidores, os homens que se opunham a ele se separavam do Reformador Suiço para estabelecer seu próprio partido.

Embora a questão imediata era a velocidade da reforma e o suporte do magistrados, outras questões logo surgiram. Ao rejeitar o controle do Concílio na reforma, esses homens foram adiante e estabeleceram o princípio da separação entre igreja e Estado. Mas a defesa dessa posição levou a posições mais radicais. O próprio Grebel negava a legitimidade do juramento para os cristãos, [3] a propriedade dos cristãos irem à guerra e o uso de tribunais civis em questões de disputa entre cristãos.

O objetivo desse movimento era o estabelecimento de uma comunidade cristã, separada do mundo, na qual os princípios do reino dos céus, especialmente como delineados no Sermão do Monte do nosso Senhor, eram praticados.

A questão do batismo de crentes, em distinção da doutrina do batismo infantil, veio quase imediatamente à frente. Ela foi primeiro introduzida por Wilhelm Reublin, um pastor de uma igreja numa vila perto de Zurique. Esse negação do batismo infantil tornou-se a grande disputa entre anabatistas e os outros ramos do Protestantismo. A negação do batismo infantil era baseada parcialmente no fato que os anabatistas não podiam encontrar numa prova no Novo Testamento para ele e parcialmente no fato que eles consideravam tal batismo uma inovação trazida para a igreja pela “Igreja Romana Anticristã”.

Quando os anabatistas foram expulsos de Zurique, eles se reuniram como um punhado de pessoas caçadas. Nessa reunião, Blaurock implorou para que Grebel o batizasse com um “batismo cristão verdadeiro”. Isso foi feito e então Blaurock passo a batizar os outros no grupo. Desse tempo em diante, nenhuma criança foi batizada e todos os adultos batizados foram re-batizados.[4]

Nas décadas seguintes, os anabatistas tornaram-se evangelistas que viajaram toda a Escritura espalhando suas visões. Eles encontraram ouvidos ávidos em muitos lugares e o Anabatismo tornou-se um espinho constante ao lado da verdadeira reforma.

O preço que os anabatistas tiveram que pagar foi grande. Eles foram caçados, aprisionados, torturados e assassinados. Eles se encontravam em casas, florestas e cavernas. Eles sofreram dificuldades incalculáveis. Eles foram enforcados, queimados, afogados em rios e lagos, decapitados, torturados quase além da resistência. Todavia, suas visões continuaram a se espalhar.

Intimamente ligado com a visão deles sobre o batismo de crentes estava a sua posição de uma igreja pura, sua ênfase em santidade e piedade na vida, e sua oposição a qualquer apoio dos magistrados seculares em questões eclesiásticas.

Outras aberrações doutrinárias logo apareceram no pensamento anabatista. Eles consideravam os sacramentos como sendo de valor meramente simbólico. Em consonância com todo o pensamento batista, eles consideravam o Antigo Testamento como sendo tão distinto do Novo que era de autoridade menor que o Novo para os cristãos. Alguns praticavam a comunhão de bens num esforço de restaurar a igreja à pureza dos tempos apostólicos. Isso foi especialmente verdadeiro com respeito aos anabatistas na Morávia, que, sob a liderança de Jacob Hutter, fundaram os Huteritas. Hans Denck, um anabatista do sul da Alemanha, antecipou o posterior pensamento arminiano com seus ensinamentos de que a expiação de Cristo foi universal em seu escopo, embora eficaz somente para os eleitos.

Visto que a negação do batismo infantil era um ponto doutrinário importante que unia todos os anabatistas, foi essa doutrina que recebeu a maior atenção dos Reformadores. Na Suíça especialmente, sob a liderança de homens como Zuínglio, Bullinger e Myconius, e diante do Anabatismo, a doutrina do pacto da graça (com seu corolário na unidade do Antigo e Novo Testamento) foi desenvolvida pela primeira vez. Aqui também temos uma demonstração notável da sábia providência de Deus em usar o erro para promover a causa da verdade.

Entre o extremo do Anabatismo e a corrupção de Roma, os Reformadores tiveram que fazer o seu caminho. Que eles fizeram isso com tanto sucesso deve-se à graça soberana do Espírito Santo de Cristo, que conduz a Igreja à toda a verdade.

Entre o extremo do Anabatismo e a corrupção de Roma, os Reformadores tiveram que fazer o seu caminho. Que eles fizeram isso com tanto sucesso deve-se à graça soberana do Espírito Santo de Cristo, que conduz a Igreja à toda a verdade.

Notas:

1. Balke fala se sete ramos diferentes de Anabatismo. Calvin and the Anabaptist Radicals, Willem Balke (Eerdmans Publishing Co., 1981), pp. 2-4.

2. Alguns alegam que o movimento anabatista como um todo começou com esses homens. Outros afirmam que os iconoclastas de Wittenberg representam o princípio do movimento.

3. Cf. O Catecismo de Heidelberg, Dia do Senhor XXXVII, que foi escrito em resposta aos anabatistas.

4. Por causa disso o nome Anabatismo, que significa Re-batismo.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (24 de dezembro de 2011).

Fonte: The Standard Bearer, Volume 68, Issue 2

 



Sobre o Autor

Herman C. Hanko





 
 

 
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