Apologética

25 de abril de 2012
 

Ideia de Origem e Crítica Teórica

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Escrito por: Lucas G. Freire
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Nota: O texto que se segue foi estimulado pela entrevista ao matemático John Lennox publicada pelo Estado de S. Paulo em Abril de 2009. O texto da entrevista pode ser lido na página do dito jornal.

O pensamento teórico e a formação histórica de uma cultura são necessariamente influenciados de forma considerável por ideias acerca da Origem da existência, da unidade e da diversidade das coisas. Uma cosmovisão e uma matriz de pensamento teórico se definem em termos da inclinação pessoal tácita ou explícita em relação ao conteúdo desse conjunto de ideias transcendentais. Sem pressupor qualquer resposta a essas questões, o pensamento teórico jamais é possível. Daí ser esse relacionamento algo de cunho transcendental: trata-se da condição de possibilidade para algo.

Contudo, isso não quer dizer que todo pressuposto acerca da Origem lhe atribui transcendência de forma ativa. Por exemplo, o humanismo modernista e o humanismo pós-moderno querem sempre localizar o conteúdo das suas ideias transcendentais em coisas ou modalidades imanentes ao cosmos. Em suma: as ideias de Origem podem ser transencentes ou imanentes, mas seu caráter é sempre transcendental no sentido de possibilitar o pensamento teórico. Tudo isso pode ser resumido numa simples afirmação: qualquer teoria pressupõe uma ontologia, isto é, uma visão sistemática das categorias mais básicas que constituem o real.

O cristianismo (reformado) assume uma postura radical ao atribuir a Origem de tudo isso à Trindade auto-contida. Nada além dela é a Origem última da existência das coisas, nem da sua unidade e diversidade. Essa Origem se encontra em estado de permanente separação ontológica do cosmos. Por isso, é transcendente. Existe uma barreira intransponível entre a Trindade criadora e toda a criação. As leis naturais e os modos (simbólico, econômico, social, físico, etc) em que as coisas existem são tão reais quanto as próprias entidades que existem. Fazem parte do cosmos da mesma forma que essas entidades. Entidades e modalidades são ambas criadas. Por definição, elas não geram a Origem. Pelo contrário, são geradas pela Origem. Daí, é a coisa mais sem sentido do mundo querer explicar a Origem em termos da lógica interna do cosmos. Ou querer sujeitar Deus às restrições da ordem criada.

Mas quem é que quer fazer isso? O Dr. Dawkins, por exemplo. Mas ele ilustra um sem-número de argumentações falaciosas que apresentam essa inversão. Trata-se do tipo de argumento que, na premissa básica, afirma essa inversão de relacionamento entre Origem e cosmos. Eles dizem: “O cosmos é toda a realidade. O cosmos tem certas leis. Logo, tudo que é real deve se conformar a essas leis. Por que é, então, que Deus não se sujeita a essas leis? Quem criou Deus afinal?”. O argumento não é falacioso por ofensa, mas porque tecnicamente não se sustenta. Essa é a definição de falácia. Para proceder, o argumento precisa confirmar todas as premissas. Mas a primeira é uma afirmação discutível.

É muito fácil prover uma crítica externa. A forma de um argumento externo a um argumento A é a seguinte: “B, e não A, é o caso. Seu argumento não se conforma com B. Logo, seu argumento é falso”. Esse tipo de crítica, que quer derrubar A, na verdade já pressupõe que ele é falso desde o começo. É exatamente isso que acontece quando se inverte a relação entre Origem e Cosmos no argumento que se deseja refutar. É exatamente esse o erro formal que torna a questão “quem criou Deus?” sem sentido.

Além disso, é exatamente esse o erro de quem afirma que o cristão precisa dar evidência neutra e puramente imanente de que Deus existe. Ora, se o universo não for neutro, se neutralidade for impossível, e se nenhum argumento pode ser puramente imanente, então como cumprir esse critério? Na verdade, essa régua de medir a argumentação é uma forma de crítica externa também. O critério só é imposto porque a impossibilidade de neutralidade na argumentação é anulada desde o começo. Em suma: um imanentista só quer aceitar como argumento aquilo que for argumentação imanente. Só que esse critério é desprovido de qualquer sentido num universo em que isso é impossível. Ora, é justamente a realidade desse universo que ele precisa refutar – e não a do seu próprio!

Isso quer dizer duas coisas. Primeiro, boa parte do debate entre cosmovisões rivais é pura perda de tempo. A parte que se pauta por argumentos externos desse tipo tende a se assemelhar a um diálogo em dois idiomas distintos em que um interlocutor não sabe a linguagem do outro. Segundo, se existe a possibilidade de comunicação, essa deve ser buscada internamente aos pressupostos do lado oposto. A pergunta passa a ser: “pressupondo essas coisas, faz sentido afirmar isto ou aquilo?”

Pressupondo, então, uma moldura de pensamento em que a Origem se encontra fora do cosmos, faz sentido teorizar em termos a ideia da criação e uma série de procedimentos não-imanentistas de argumentação racional? Sim, claro. Pressupondo, por outro lado, um quadro geral que atribui a origem a certas coisas ou modos dentro do cosmos, faz sentido teorizar em termos da redução última de tudo o mais às coisas e modos originais?

É exatamente essa rota que parece ser a mais produtiva em termos de uma desconstrução caridosa da cosmovisão rival. Para mencionar uma vantagem, embora isso careça de maior desdobramento, deve-se notar que uma cosmovisão imanentista não consegue explicar o resto da realidade como se fosse todo ele redutível às coisas e aos modos de Origem dentro da própria realidade. Mostrar isso em cada tipo de imanentismo depende de um exame específico do seu conteúdo, mas em linhas gerais, isso quer dizer que uma visão reducionista do mundo é uma visão muito monocromática por definição.

Imagine se, como alguns pretendem, modelos microeconômicos de comportamento do consumidor explicam de fato toda a realidade social. Isto é, eles são o conteúdo das ideias de Origem da existência, da unidade e da diversidade das entidades sociais. Ora, o futebol é uma dessas entidades. O fato de podermos explicar o surgimento de um campeonato por incentivo econômico à sua criação, bem como a existência de múltiplas equipes que não obstante participam do mesmo campeonato não esgota os motivos pelos quais essas coisas existem. Não quer dizer que eles só existem economicamente, embora eles de fato tenham o modo econômico como um dos modos em que eles existem. Resumindo: uma visão economicista do futebol é como um filme em preto-e-branco. Todos os demais modos em que o mesmo fenômeno existe foram reduzidos ao puro cálculo racional de consumidores e produtores. Assim, há algo de estranho no reducionismo: ele precisa provar que estamos iludidos sobre a nossa percepção comum das coisas. Precisa nos convencer, no exemplo, que, ao fim e ao cabo, o que explica o futebol não é a criatividade esportiva, a paixão pelos times, a necessidade de exercício físico ou mesmo as propriedades físicas e motoras que são observadas no movimento da bola, sem contar as regras sociais que regem a conduta esportiva. Tudo isso é subsumido pelo interesse de firmas e compradores.

Ora, está claro que, em linhas gerais, o reducionismo contraria a nossa percepção normal das coisas. Isso não quer dizer que o modo que é considerado a Origem numa visão reducionista não seja real ou importante. Aliás, um dos motivos pelos quais mesmo o reducionismo tem um fundo de verdade e persuade certas pessoas é justamente o fato de esse modo ser de extremo relevo. Contudo, isso não quer dizer que seja correto forçar a redução da realidade a uma ou a algumas poucas modalidades de existência. Não se pode falar de qualquer coisa no universo usando apenas vocabulário referente a um modo. Isso é indicação cabal de que as coisas existem de diversos modos que são irredutíveis uns aos outros. O ponto, então, é que uma crítica interna às teorias imanentistas ganha força ao apontar as falhas do reducionismo que necessariamente resulta delas.

Ao atentar para a argumentação de cunho interno, o cristão, que direciona seu pensamento para Deus como Origem, pode explicar perfeitamente como essa Origem funciona de fato como a Origem. Mas será que o pensamento teórico imanentista pode explicar como, de fato, suas ideias de Origem agem dessa forma? É muito fácil rejeitar uma visão rival porque ela não se conforma, digamos, ao materialismo, na hora de oferecer evidência. Mas será que o próprio materialismo consegue se conformar à sua própria ideia de Origem? Será que ele consegue estabelecer suas proposições e rejeitar outras e, ao mesmo tempo, sustentar que a antítese (e outras leis da lógica) nada mais são que meros processos materiais? Será que ele consegue explicar a matéria sem usar nenhuma ideia que se refira a alguma oura coisa básica, visto afirmar ser a matéria – somente ela – o que é básico?

Exeter, 28 Abr. 2009 AD



Sobre o Autor

Lucas G. Freire
Lucas G. Freire
Lucas Freire é mestre em relações internacionais e doutorando em política.



 
 

 
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