Academia Monergista

Doze características de uma imaginação escriturística por W. David O. Taylor

By 31 de Maio de 2018 No Comments

Quem é o artista que nos ajudará a imaginar formas de conservar a criação e a cultura?

Como a arte pode conservar o que é bom numa sociedade? Como a arte informada por sensibilidades especificamente “conservadoras” pode contribuir ao florescimento humano? Embora a resposta à primeira pergunta possa ser relativamente direta, a segunda levanta outra pergunta. Para parafrasear Tertuliano: Pode vir algo de bom para as artes do conservadorismo? A resposta a esta última pergunta é: depende. Depende de como construímos o conservadorismo e que relacionamento supomos existir entre uma sensibilidade conservadora e a geração e experiência das obras de arte.

Se você ouvir ao debate público sobre essas questões, você verá duas abordagens identificáveis. Alguns creem que um ethos conservador deve influenciar diretamente os meios, o estilo, o conteúdo e a recepção da arte, resultando, espera-se, num fazer artístico que se assemelha ao cânon “ocidental” de arte (ou em alguns casos, a uma arte America-friendly). Outros argumentam que não há uma conexão direta entre o conservadorismo e a escolha dos meios, estilo, conteúdo ou recepção e que todos os tipos de obra de arte podem contribuir para o florescimento de uma sociedade.

Quando a arte se alinha com a realidade, ela conserva o que há de bom numa sociedade.

Adam Bellow, num artigo para o The National Review intitulada “Deixe o Lado Direito do seu Cérebro Correr Solto” ecoa uma preocupação comum do primeiro grupo: “muitos esquerdistas creem (e muitos na direita concordam em privado) que os conservadores não podem ‘fazer’ cultura. Eles não podem produzir música excelente, não podem ser divertidos e não podem manter suas ideias políticas longe de suas histórias e narrativas”. Ao invés de apoiar os esforços criativos de conservadores, todo investimento tem ido para campanhas políticas ineficazes e fundos de pesquisa para crianças querendo um bacharelado em Poderes de Debate Sobrenaturais. O que se precisa no lugar disso? Segundo Bellow, uma editora que promova narrativas onde, dentre outras coisas, a América continua um farol de esperança para o mundo.

Um segundo lote de autores, sentindo o lamento tão profundamente quanto, hesitam dar apoio total a projetos conservadores como a editora Liberty Island de Bellow ou a produtora de filmes de Walden Media e optam por uma abordagem socrática, crendo que as questões certas levarão a respostas melhores. A não resposta neste caso é uma maneira de admitir um empreendimento complicado. O que pode ser feito para ter mais conservadores gerando nova cultura artística? “Eu não sei a resposta”, admite Ross Douthat num artigo recente para o The New York Times. Participando dessa conversa no The American Conservative, Rod Dreher acaba é com mais questões. Ao invés de oferecer a seus leitores um manifesto pragmático, Dreher enfatiza que “narrativas em enredos, não narrativas de partidos” precisam governar o modus operandi distintivamente conservador nas artes. Os leitores ficam por conta própria para descobrir como isso deve acontecer na prática. Eu gostaria de retomar a partir de onde ele deixou.

Em honra ao meu pai que frequentemente me diz: “você só anda por aí uma vez, filho”, eu gostaria de propor uma resposta positiva, ainda que modesta, a nossas duas perguntas de abertura. Resposta número um: quando a arte se alinha com a realidade, ela conserva o que é bom numa sociedade. Resposta número dois: só vale a pena falar sobre “conservadorismo” à medida que ele se alinha com uma imaginação escriturística que contribui para o florescimento humano. Para a arte contribuir à conversa sobre tudo o que é bom, belo e verdadeiro em certa cultura, todos os tipos de meios artísticos, estilos, conteúdo e recepção de obras de arte precisa se alinhar com a realidade. Eu proponho que uma imaginação escriturística abre essa possibilidade.

Qual é, então, a tarefa prática do artista (conservador)? É se tornar imerso neste imaginário escriturístico e atender aos requisitos da própria obra de arte. É simples e complicado assim. Deixe-me explicar.

Flannery O’Connor, em seu ensaio “Catholic Novelists and their Readers”, propõe uma forma de pensar sobre a arte que pode ser útil aqui. Ela escreve:]

Se me perguntasse o que é um “romance católico”, eu só poderia dizer que é aquele que representa a realidade adequadamente como a vemos se manifestando neste mundo de coisas e relacionamentos humanos … Tudo isso significa que o que podemos chamar, grosso modo, de romance católico não é necessariamente um mundo cristianizado ou catolicizado, mas simplesmente aquele em que a verdade, conforme os cristãos conhecem, foi usada como uma luz pela qual vemos o mundo.

Substitua “católico” por “conservador” e chegamos ao mesmo ponto básico: não que há uma obra de arte conservadora identificável ou uma fórmula com que poderíamos dizer com certeza irrefutável: “temos ali um artista conservador”, mas que uma disposição conservadora abre uma maneira de ver o mundo que é fiel à realidade — à natureza humana, à história, à justiça, ao amor matrimonial, à variedade e diversidade que marcam tanto a criação quanto as culturas humanas, por exemplo. Parafraseando O’Connor, um artista de disposição conservadora se distingue de seus colegas pagãos ou progressistas ao reconhecer o pecado como pecado ou reconhecendo que a tradição, quer eclesial quer não, não precisa ser vista com suspeita inveterada, mas sim como um depósito valioso, ainda que incompleto, de sabedoria, digno de atenção cuidadosa e caridosa. Contrariamente a estereótipos, esse tipo de “conservadorismo” se caracterizada por uma humildade que deseja se submeter tanto à realidade quanto à tradição.

Tal artista vê a condição humana como profundamente caída, manchada por uma infecção terrível do coração (como Maria Doria Russell faz em seu romance The Sparrow) e se recusa a representar um mundo em que os seres humanos poderiam se libertar por seus próprios poderes individuais. Tal artista —como Pete Docter na Pixar, incluindo Monstros S. A. e Up — também vê o que há de bom na sociedade humana e pode destacá-lo sem se envergonhar ou recorrer à ironia cortante. Este artista vê o orgulho que marca certos ambientes científicos e expõe a sua tolice, como Daniel Keyes em Flowers for Algernon. O arista vê tudo que está de errado no mundo — como Cormac McCarthy faz em The Road ou como Margaret Atwood faz em sua trilogia MaddAddam — e pode chamá-lo pelo nome sem rodeios, enquanto ainda mostra como a graça interrompe a nossa queda livre em desespero absoluto.

Um artista cuja obra se alinha com a realidade, que vê o mundo com os olhos de Deus, como Dreher coloca, contribui para o florescimento da sociedade. Isto é boas novas. Também é a parte mais simples (majoritariamente).

A parte complicada é bem possivelmente infinita. Uma complicação é como o termo “conservador” é construído e o que se crê estar em jogo para as artes em qualquer modelo. O que precisamente caracteriza uma obra de arte distintamente “conservadora”? É a arte feita por alguém que se identifica como conservador? É a arte que lida com temas conservadores explícitos, quaisquer que sejam? Ou é a obra que captura certos elementos de uma sensibilidade conservadora e que, sob essa luz, busca entender o mundo por meio da linguagem alusiva e rica em metáforas das artes? O dito de Russel Kirk, de que “não existe um Conservador Modelo”, certamente é apropriado, e a busca por um artista conservador nos leva, assim, a um território equívoco, onde certos elementos de uma sensibilidade conservadora serão favorecidos por alguns, rejeitados por outros e totalmente ignorados por artistas que consideram essa busca um beco sem saída estético.

Quem, então, é o artista “conservador? Pergunta errada.

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Ao invés de tentar identificar “o artista conservador”, que tal se, ao invés disso, tentássemos identificar o que os conservadores creem estar em jogo nas artes. Embora haja uma vasta gama de abordagens (do The New Criterion até o Image Journal e a crítica cinematográfica de Ross Douthat no National Review), talvez o que é comum a um entendimento conservador das artes é privilegiar um certo ponto de partida, quer seja a esfera cívica, a metafísica ou a teologia bíblica. Erre nesse ponto de partida e perdemos tanto as artes quanto a boa sociedade. Acerte nesse ponto de partida e temos possibilidades, mas não garantias. A possibilidade é que a arte se alinhará com a realidade e os seres humanos florescerão de acordo. O que não pode se garantir é que projetos explicitamente conservadores serão capazes de reivindicar o mérito de gerar artistas conservadores exemplares (medianos ou medíocres talvez, mas não grandes escritores). Dependendo do caso, T. S. Eliot, Dorothy Sayers, David Foster Wallace, Dante, Gerhard Richter, Pixar, P.T. Anderson, Jane Austen, James MacMillan, Marilynne Robinson, G. K. Chesterton, juntamente a boa parte da arquitetura gótica, do balé russo e da música country e clássica, podem ocupar um lugar de honra para os conservadores que eu descrevi acima.

Fica mais complicado ainda, temo eu. Assim que o conservadorismo se torna equivalente a uma ideologia que pode se transformar num projeto metódico para obras de arte, arte impotente resulta. Em The Tablet, Adam Kirsh argumenta contra a missão Liberty Island de Bellow, onde “o bem ainda triunfa sobre o mal, a esperança ainda vence o desespero e a América ainda é um experimento nobre e um farol para o resto do mundo”. Kirsch comenta, corretamente, na minha opinião:

O problema não é que essas ideias são conservadoras, mas que elas são dogmas ideológicos simplistas e então, por sua própria natureza, são hostis à literatura, que vive ou morre segundo o seu senso de realidade. Se você não pode dizer que a vida na América pode ser ruim, que os americanos são culpados bem como inocentes, que o bem às vezes (na maioria das vezes?) perde para o mal, em suma, que a vida na América é igual à vida humana em qualquer outro tempo ou lugar, então você não pode ser um escritor literário, porque você censurou de antemão as suas impressões da realidade.

O que os ideólogos de todas as estirpes não conseguem aguentar, adiciona Dreher, “de pós-modernistas em departamentos de Letras a cristãos do tipo que repreenderam a Flannery O’Connor por não contar histórias ‘agradáveis’”, é a natureza da ambiguidade inerente a todas as boas histórias. Tal ambiguidade não só descreve a realidade da condição humana, ela também caracteriza a recepção de uma obra de arte. Frequentemente há uma grande diferença entre as intenções do artista e os resultados não intencionais de uma dada obra de arte ou os tipos de leituras que uma audiência traz para a obra. Douthat, por exemplo, tenta argumentar que o show da HBO, Girls, pode involuntariamente ter uma interpretação conservadora. “Estão fazendo um show para esquerdistas”, escreve ele, “que, meramente por ser realista, duro, complicado quase chega a ser como um conservadorismo cultural seria”. Alissa Wilkinson, escrevendo para a Christianity Today, questiona essa leitura e todas essas tentativas exegéticas. Dunham, ela nota, propõe “tanto uma alfinetada na cultura quanto uma carta de amor para ela”. Embora Dunham mantenha o tempo toda um foco na realidade da Geração Y, ela aparentemente não sente nenhum conflito moral sobre esta realidade. Então, embora os conservadores possam querer elogiar os instintos satíricos de Dunham, eles precisam se chocar com seu horizonte moral padrão.

Uma complicação final resulta quando os conservadores deixam de lembrar que nem toda mídia ou arte são iguais. Qualquer verdade que os conservadores possam querer descobrir em formas de arte baseadas em narrativas, em filmes como Juno ou shows de TV como Parenthood e The Americans, eles precisarão ter um músculo hermenêutico diferente para discernir o “significado” da pintura contemporânea, a arquitetura do Novo Urbanismo, a música eletrônica ou o teatro do absurdo. Embora dança conceitual possa envolver uma série de gestos físicos que deixam a audiência com uma impressão das coisas, tal como uma esperança provisória ou um certo derrotismo sobre o nosso mundo, um álbum de música folk desvela um jeito de ser por meio de uma sequência de meditações anedóticas, enraizado em nossas experiências de culturas altamente locais. E o que quer que um filme possa nos dizer sobre as sensibilidades filosóficas de Kathryn Bigelow, a obra da sua vida certamente nos dirá mais, e, por isso, precisamos suspender juízo até o fim. Os conservadores irão, por fim, querer lembrar que a dinâmica que demarca os mundos das assim chamadas arte da alta cultura e a arte da cultura popular são mais complicados do que gostaríamos.

Por profissão e por personalidade, eu só me interesso com o “conservadorismo” até o ponto em que ele se alinha com, e é informado por, uma visão bíblica e teológica. Eu defendo que os conservadores têm algo bom para oferecer ao mundo quando eles conectam as suas ideias sobre as artes à imaginação escriturística. Então, no espírito dos Ten Conservative Principles de Kirk ou os Nove Pontes do Crunchy Con Manifesto de Dreher, eu proponho as Doze Características de uma Imaginação Escriturística. Esse ethos não deve ser considerado um mapa, mas uma ecologia dentro da qual certas coisas — denkformen, comportamentos, desejos e todo o resto — se tornam plausíveis em virtude de sua participação integral nessa ecologia. É mais um combo Barth-Buechner-Hauerwas do que um Burke ou um Tomás de Aquino. Imergir-se nessa imaginação escriturística é, em tempo, se tornar um certo tipo de pessoa, orientada a um telos particular, onde o artista é convidado a participar no que Eugene Peterson chama de a grande paisagem da salvação, o cosmos sob o domínio do Deus triuno. Embora este ethos confirme certos elementos de credos conservadores comuns, ele bem possivelmente também os subverte.

Aqui, então, temos doze características, longe de exaustivas, de uma imaginação escriturística:

1. A criatura humana é caída até o seu âmago e é incapaz de se resgatar de sua porção tola, de dura cerviz, irracional e demente na vida. A criatura não tem medo de ser honesta sobre esse fato.
2. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó se revelou supremamente na vida e obra de Jesus Cristo e escolhe resgatar essa criatura das formas mais “macacos me mordam” possíveis. Esse Deus é um mistério — pode se ter alegria nele, mas nunca o domesticar. Embora esse Deus seja frequentemente silencioso, ele nunca está ausente.
3. Porque Cristo está no centro da ordem cósmica, o mundo criado pode ser legitimamente reconhecido como o mundo amado de Deus e uma esfera para exploração criativa, exigindo nenhuma justificação adicional senão mero maravilhamento sobre as peculiaridades deste mundo.
4. Se o Espírito é responsável pela ordem criacional, é importante não achar que essa ordem é como uma linha de montagem de uma fábrica. Na verdade, é uma ordem irreprimivelmente dinâmica, gerando novas configurações de vida e estimulando louvor a um Deus cuja bondade se revela por todas as coisas intensamente particulares na criação.
5. O “lar” bíblico, que inclui parentes tanto naturais quanto adotados, tanto biológicos quanto “espirituais”, importa mais do que a família nuclear.
6. O sentido humano individual se realiza à medida que é profundamente entretecido dentro do Corpo concreto de Cristo, ao invés de ser um meio de autorrealização.
7. A lealdade é devida para com a igreja una, santa, católica e apostólica, o corpo global e histórico de Cristo, e não à América ou à Argentina ou à Armênia. Qualquer prazer que podemos ter de ser americanos ou argentinos ou armênios é corretamente ordenado pela lealdade anterior a civitas Dei.
8. O casamento é um voto sagrado que continua incoerente fora da vida da igreja. Os vínculos matrimoniais só são sustentáveis em lealdade ao povo de Deus que juntos juram sustentar marido e mulher, da amizade ao noivado ao casamento, e pelos anos seguintes da vida matrimonial.
9. A sabedoria dos antigos é privilegiada diante das inovações dos jovens, mas os antigos nunca são ameaçados pelas novidades dos jovens. O novo e o velho se digladiam na conversação, que é outra forma de dizer que uma tradição saudável é um argumento interno proposto por todos os membros da comunidade, cada um a sua própria maneira, todos juntos numa mesa comum.
10. Heróis são pessoas de caráter questionável que frequentemente continuam anônimas e desconhecidas a nós, cuja dúvida não é contrária a, mas, na verdade, integral a uma fé viva, e cuja perspectiva ambígua da vida não se contrapõe a um Deus cujas promessas frequentemente são cumpridas além da morte. A alegria, não a felicidade, marca a virtude do herói porque a alegria pode suportar o sofrimento, mas a felicidade não.
11. Embora os “ímpios” floresçam com e contra o domínio soberano de Deus, eles nunca terão a última palavra. Os ímpios nunca se safam com seus atos de injustiça. O mal é real e o chamamos pelo nome.
12. A necessidade de rir, principalmente de nós mesmos, é de suma importância. Um bom senso de humor é necessário por causa da natureza esquisita e fantástica da vida humana, mas, e mais importante, porque a comédia, e não a tragédia, terá a palavra final na economia de Deus.

Quem é o artista “conservador”, então? Pergunta errada. Melhor: quem é o artista que nos ajudará imaginar formas de conservar a criação e a cultura? É o artista que habita o imaginário escriturístico e deixa os seus ritmos tocarem profundamente nas suas imaginações. Também é o artista que, seguindo conselho de Jacques Maritain, se recusa tornar sua estética um artigo de fé, para que a sua fé não se estrague, enquanto também recusa tornar a sua fé uma regra de atividade artística, para que a sua arte não se estrague. Uma imaginação escriturística alcança e domina a sua obra, mas somente “por meio do habitus artístico”. Como é a sua arte? Como são todas as coisas: como todos os tipos de meios, estilos, conteúdos, propósitos e experiências. O que são, então, as boas novas, segundo esse tipo de conservadorismo? É a liberdade de imaginar o mundo como Deus o imagina e deixar as artes testemunharem esta realidade em todos os tipos de formas maravilhosamente peculiares. Como, então, as artes contribuem para o florescimento humano? Elas o fazem capacitando os humanos a viverem, não segundo as “necessidades” do mundo, mas segundo a “liberdade e glória dos filhos de Deus”.

Original: Twelve Features of a Scriptural Imagination

Traduzido por Guilherme Cordeiro.