Academia Monergista

Murray contra os dispensacionalistas

By 28 de março de 2018 No Comments

Uma boa parte da má compreensão concernente à relação entre a lei e o crente flui de um erro bíblico-teológico de proporções bem mais amplas do que uma interpretação errônea da afirmação de Paulo em Romanos 6.14. É uma interpretação errônea da economia e aliança mosaicas em relação à nova aliança. Pensa-se que na aliança mosaica há uma estreita antítese ao princípio da promessa incorporado na aliança abraâmica e também ao princípio da graça que vem à efervescência na nova aliança, e que esse princípio antitético que governa a aliança e dispensação mosaicas é o da lei em contraste tanto à promessa quanto à graça.1 Pensa-se, portanto, que a aliança mosaica é o exemplo mais notável das obras da lei em oposição às provisões da promessa e da graça. É fácil ver como tal interpretação da economia mosaica afetaria radicalmente a nossa construção não só da própria economia mosaica, mas também da aliança abraâmica, por um lado, e da nova aliança, por outro; o mosaico ficaria em estreita antítese a ambos tanto com respeito ao princípio constitutivo quanto ao governante. E o contraste entre a lei e a graça que encontramos no Novo Testamento naturalmente seria interpretado como um contraste entre a economia mosaica e a dispensação evangélica da graça. Em outras palavras, o contraste real entre “debaixo da lei” e “debaixo da graça”, como aparece em Romanos 6.14 e Romanos 7.1-4, seria exemplificado no campo do desvelar histórica da revelação pactual no contraste entre a aliança mosaica e a nova aliança. Esta interpretação tem exercido uma influência profunda na história da interpretação e tem lançado sua sombra sobre a exegese de passagens particulares. É necessário para nós considerarmos esta questão: Qual é o princípio governante da aliança mosaica? Esse princípio é o da lei em contraste com o da graça e, portanto, antitético ao da nova aliança?

Há uma argumentação plausível que poderia ser elaborada para essa construção da aliança mosaica. A primeira referência expressa à aliança feita com Israel no Sinai se estrutura em termos da obediência aos mandamentos de Deus e o guardar da aliança. “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êxodo 19.5, 6). E a promessa do povo é feita em termos semelhantes: “tudo o que falou o Senhor faremos e obedeceremos” (Êxodo 24.7). Claramente, podemos dizer, esses termos não são os de uma aliança da graça, mas sim os termos de uma aliança de estipulações legais e contratuais.2 Como, podemos questionar, a condição de obediência se encaixa com as provisões de uma administração da graça? Se a graça é contigente em relação ao cumprimento de certas condições por nós, então ela com certeza não é mais graça. Logo, pode-se mui bem argumentar, esse fator condicional da aliança mosaica exige que ela seja posta numa categoria diferente. Ao lidar com essa questão, precisamos levar em conta uma série de considerações.

1. A aliança mosaica relativamente a essa condição de obediência não está numa categoria diferente da abraâmica. “Disse mais Deus a Abraão: Guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência no decurso das suas gerações” (Gênesis 17.9). Deus falou o seguinte sobre Abraão: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gênesis 18.19). Não há nada de diferente a nível de princípio entre a necessidade de guardar a aliança e de obedecer à voz de Deus, característicos da aliança mosaica, e o que está envolvido em guardar a aliança conforme exigido na abraâmica.

2. A aliança mosaica, não menos do que a abraâmica, contempla uma relação de intimidade e comunhão com Deus conforme se resume na promessa: “eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (cf. Êxodo 6.7; 18.1; 19.5, 6; 20.2; Deuteronômio 29.13). O relacionamento religioso de mais alto nível está em vista. Se a aliança contempla um relacionamento religiosa de tal natureza, é inconcebível que as demandas da santidade de Deus não poderiam ser expressas como governando e regulando essa comunhão e como condicionando o gozo contínuo de suas bençãos. Esse ponto é frequente no Pentateuco (cf. Levítico 11.44, 45; 19.2; 20.7, 226; 21.8; Deuteronômio 6.4-15). Resume-se em duas orações: “Santos sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Levítico 19.2); “amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Deuteronômio 6.5). E o significado é que a santidade de Deus demanda santidade da parte daqueles que entram em tal relação pactual com ele. É o mesmo princípio que o expresso no Novo Testamento, “a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14), e é reiterado em termos veterotestamentários por Pedro quando ele diz: “egundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1Pedro 1.15; cf. Levítico 11.44; 19.2; 20.7). A santidade que é demandada pela comunhão pactual é expressa concretamente na obediência aos mandamentos divinos. Isso é realmente tudo que precisa ser dito para demonstrar não só a coerência entre a demanda pela obediência e a aliança como uma aliança de relacionamento religioso do mais alto nível de espiritualidade, mas também a necessidade de tal demanda. É porque a aliança é uma aliança de união e comunhão com Deus que a condição da obediência é demandada.

3. Não somente a santidade, como expressa concreta e praticamente na obediência, é demandada pela comunhão pactual; precisamos também ter em mente que a santidade era ela mesma um elemento essencial da benção pactual. Israel tinha sido redimido e chamado a ser um povo santo e a santidade pode ser considerada como a essência da benção pactual. Pois a santidade consistia nisto: que Israel era um povo separado para o Senhor. A sua eleição não tem sentido aparte do destino para que eles foram eleitos. E esta santidade é novamente exemplificada na obediência aos mandamentos de Deus (cf. Salmos 19.7ss).

4. A santidade, concreta e praticamente ilustrada na obediência, é o meio por qual a comunhão implicada no relacionamento pactual prossegue para sua fruição e consumação. Esse é o peso, por exemplo, de Levítico 26. É afirmado tanto positiva quanto negativamente, por meio de promessa bem como de ameaça. “Se andardes nos meus estatutos, guardardes os meus mandamentos e os cumprirdes … Porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma não vos aborrecerá. Andarei entre vós e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo” (Levítico 26.3, 11, 12).

Podemos, assim, resumir a questão dizendo que a santidade de Deus demandava conformidade a sua santidade, que a santidade era da essência do privilégio pactual, que a santidade era a condição da continuação do gozo das bençãos pactuais e o meio por qual o privilégio pactual alcançava sua fruição. A santidade é exemplificada na obediência aos mandamentos de Deus. A obediência é portanto inteiramente congruente com, e a desobediência inteiramente contraditória a, a natureza da aliança de Deus com Israel sendo uma aliança de união e comunhão com Deus.

Em tudo isso, a demanda por obediência na aliança mosaica é idêntica a nível de princípio com a mesma demanda na nova aliança da economia evangélica. A nova aliança também encontra o seu centro na promessa: “eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo”. A nova aliança como uma aliança eterna alcança o zênite de sua realização nisto: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.” (Apocalipse 21.3). Mas precisamos perguntar: será que os crentes continuam nesse relacionamento e no gozo de suas bençãos independentemente da obediência perseverante aos mandamentos de Deus? É uma das distorções mais perigosas da doutrina graça, e uma que carrega consigo os registros mais tristes de desastre moral e espiritual, assumir que privilégios passados, por mais altos que sejam, garantem a segurança dos homens independentemente da perseverança na fé e na santidade. Os crentes sob o evangelho continuam na aliança e no gozo de seus privilégios porque eles continuam no cumprimento de suas condições; eles continuam em fé, amor, esperança e obediência. Os verdadeiros crentes são guardados até o fim, até a salvação escatológica; mas eles são guardados pelo poder de Deus mediante a fé (cf. 1Pedro 1.5). “Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos” (Hebreus 3.14). É por meio da fé e da paciência que herdamos as promessas (cf. Hebreus 6.11, 12). Nós seremos apresentados como santos e irrepreensíveis e irreprováveis perante Deus se permanecermos na fé, alicerçados e firmes, não [n]os deixando afastar da esperança do evangelho” (Colossenses 1.23). Paulo, o apóstolo, podia exultar na segurança de que sua cidadania estava nos céus e que um dia Cristo mudaria o corpo de sua humilhação e o transformaria na semelhança do corpo da sua glória (Filipenses 3.20, 21). Mas estava coordenado a essa segurança e era condição de sua manutenção a declaração: “irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3.13, 14). Paulo sabia muito bem que, se fosse para ele alcançar a ressurreição dos mortos, todos os recursos do poder de ressurreição de Cristo precisavam estar operantes nele e todas as energias de sua personalidade alistadas no exercício daqueles meios por quais ele poderia conquistar aquilo para o que ele fora conquistado por Cristo Jesus (cf. Filipenses 3.10-12). Tudo isso é só para dizer que o objetivo não é alcançado, a consumação da benção pactual não é obtida de alguma forma automática, mas sim por meio de um processo que engaja ao máximo a dedicação concentrada do próprio apóstolo. Não se alcança independentemente da perseverança, mas por meio da perseverança. E isso nada significa se não significar a obediência concentrada à vontade de Cristo como expressa em seus mandamentos. Nós vemos prontamente, todavia, que o alcance do objetivo não se dá no fundamento meritório de perseverança e obediência, mas por meio dos meios divinamente designados de perseverança. A obediência como a expressão apropriada e necessária de devoção a Cristo não encontra seu lugar num pacto de obras ou de mérito, mas num pacto que tem seu início e fim na pura graça.

A disposição para construir a demanda por obediência na economia mosaica como tendo afinidade com as obras em vez de com a graça surge de uma falha em reconhecer que a demanda por obediência na aliança mosaica é idêntica, a nível de princípio, com a mesma demanda sob o evangelho. E, quando reexaminamos a demanda por obediência na aliança mosaica (cf. Êxodo 19.5, 6; 24.7) à luz das relações da lei e da graça no evangelho, descobriremos que o complexo de ideias é totalmente estranho a uma construção em termos de obras em oposição à graça. A obediência não cabe mais aqui “à esfera legal do mérito”3 do que na nova aliança. O crente do Novo Testamento não está sem lei para com Deus, mas debaixo da lei para com Cristo. Ele se deleita na lei de Deus segundo o homem interior e, portanto, ele reitera a exclamação do santo do Antigo Testamento: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!” (Salmos 119.97). E ele também não se esquece de que aquele que era a encarnação e a incorporação da virtude, aquele que é o exemplo supremo e perfeito, disse: “agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Salmos 40.8).

 A ressurreição de Cristo, o Espírito Santo e a ética bíblica

A ressurreição de Cristo foi pela glória do Pai e pela suprema grandeza do poder do Pai (Romanos 6.4; Efésios 1.19). A ressurreição também se relaciona à ação e obra do Espírito Santo. O Novo Testamento não trata frequentemente da ação do Espírito Santo na ressurreição de Cristo dentre os mortos (cf. Romanos 8.11). Mas há muita ênfase sobre a relação do Senhor ressurrecto ao Espírito e do Espírito ao Senhor ressurrecto. É por razão da ressurreição que Cristo recebe a promessa do Espírito e que é o Senhor ressurrecto que envia o Espírito Santo. Na ocasião do Pentecostes, Pedro disse: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (Atos 2.32, 33). O Pentecostes é a sequência da exaltação de Cristo. Esses dois eventos epopeicos no processo da redenção estão organicamente relacionados.4 Foi indubitavelmente dessa correlação que o nosso Senhor falou quando ele disse aos discípulos: “mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (João 16.7; cf. 15.26). Na mesma oportunidade ele também falou do Pai como enviando o Espírito (João 14.26; cf, 14.16, 17). Sem dúvidas essa ação de Cristo ao enviar o Espírito é uma das razões pelas quais o Espírito Santo é chamado de o Espírito de Cristo (Romanos 8.9; 1Pedro 1.11; cf. Atos 16.17; Filipenses 1.19; Gálatas 4.6).

A intimidade da relação que se dá entre o Senhor exaltado e o Espírito Santo é ainda mais surpreendentemente expressa quando lemos em Paulo: “ora, o Senhor é o Espírito”. Que Paulo tinha em vista o Espírito Santo é evidente. Ele prossegue: “e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Coríntios 3.17). Então ele fala do Senhor, indubitavelmente o Senhor Cristo, como o “Senhor do Espírito” (3.18, [tradução do autor]). Que a identidade de Cristo como “o Espírito” e seu relacionamento ao Espírito como o “Senhor do Espírito” emanam de um status e atividade constituído pela ressurreição se mostra pela própria afirmação de Paulo em outro lugar. Quando ele diz: “o último Adão, tornou-se um Espírito vivificante” (1Coríntios 15.45, [tradução do autor]), o contexto deixa claro que ele está pensando da ressurreição como aquele evento pelo qual Cristo foi feito ou se tornou Espírito vivificante. Paulo diz explicitamente que Cristo se tornou “Espírito” e é bem impossível dissociar a afirmação de que “o Senhor é o Espírito” do evento pelo qual o Senhor se tornou “Espírito vivificante”. O apóstolo não está confundindo a pessoa de Cristo com a pessoa do Espírito, nem obliterando a individualidade e distintividade hipostática das duas pessoas. Mas por tais estupendas correlações ele está proclamando como a vida de ressurreição e a atividade do Senhor Cristo são condicionados e como a esfera e o campo da ressurreição são permeados, controlados e direcionados pelo Espírito Santo.5 Por outro lado, não podemos acentuar a tal ponto o poder e atividade todo-abrangentes do Espírito de forma que façamos o Senhor exaltado subordinado, como se fosse, ao Espírito. No campo da ressurreição, Cristo é o Espírito vivificante e o Senhor exaltado é “o Senhor do Espírito”. O Espírito Santo é o Espírito do Senhor. A conjunção e correlação são expressivas da unidade e comunhão perfeitas que a economia trinitária da redenção envolve.

No máximo tocamos a periferia dessa grande verdade. Mas talvez ganhamos um vislumbre do sentido daquela ênfase que o Novo Testamento coloca sobre o condicionamento pneumático da vida de ressurreição de nosso Senhor, a dotação pneumática que é dele e o poder pneumático que ele exerce como resultado dessa dotação; ele “foi declarado ser Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade a partir da ressurreição dentre os mortos” (Romanos 1.4 [tradução do autor]; cf. 1Timóteo 3.16; 1Pedro 3.18).6 E estamos melhor posicionados para entender a implicação da ressurreição de Cristo sobre o alcançar da demanda da ética bíblica. É em virtude da união com Cristo em sua ressurreição que o crente é capaz de andar em novidade de vida (Romanos 6.4). Mas se isso é de fato uma união com Cristo em sua ressurreição, então é uma união com o Senhor ressurrecto nesse condicionamento, dotação e poder pneumáticos que são dele. Essa é a razão porque a ressurreição de Cristo é a dinâmica da ética bíblica; o Senhor ressurrecto é o Espírito vivificante e portanto comunica vida àqueles que estão nele. Se mantivermos em vista a correlação que descobrimos, isso é só outra maneira de dizer que a dinâmica da ética bíblica é o Espírito Santo como o Espírito de Cristo, enviado de acordo com a promessa do Pai. No uso do Novo Testamento, estar em Cristo e estar no Espírito, ter Cristo em nós e ter o Espírito Santo em nós, ter o Espírito de Cristo e ser de Cristo, tudo tem o mesmo efeito (cf. Romanos 8.9-11). “Ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1Coríntios 12.3). “Mas aquele que se une ao Senhor é um Espírito” e seu corpo é o templo do Espírito Santo (1Coríntios 6.17, 19, [tradução do autor]). “Em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo … E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Coríntios 12.13).

É dificilmente necessário prestar atenção à relação que o Espírito Santo sustenta à vida ética; é somente aqueles que são segundo o Espírito, que tem a mente do Espírito, que estão no Espírito, que são habitados pelo Espírito de Deus e que tem o Espírito de Cristo, que são capazes de fazer o que é agradável a Deus (Romanos 8.5-13). A novidade de vida que tem por padrão a ressurreição de Jesus é a “novidade do Espírito” (Romanos 7.6, [tradução do autor]); pois é o Espírito que vivifica (2Coríntios 3.6). Os filhos de Deus são guiados pelo Espírito (Romanos 8.14) e aqueles que são guiados pelo Espírito foram libertados das obras da carne (Gálatas 5.17). É pelo Espírito que os chamados por Cristo Jesus andam (Gálatas 5.16, 25). As virtudes que exemplificam e adornam a nova vida em Cristo são o fruto do Espírito (Gálatas 5.22-24). O amor que é o cumprimento da lei é o amor do Espírito (Romanos 15.30; Gálatas 5.22; cf. Colossenses 1.8; Gálatas 5.14-16; Romanos 13.8-14). Nada mais precisa ser dito. É no renovar do Espírito Santo (Tito 3.5) que a novidade de vida tem sua concepção e é no Espírito Santo somente que o âmbito da vida agradável a Deus é definida. Isto é dizer, nos termos do Novo Testamento, que o homem de Deus é “Espiritual”, habitado, governado e direcionado pelo Espírito Santo.

1 Ver Apêndice E com relação a Lewis Sperry Chafer e cf. tb. The Scofield Reference Bible, pp. 1115, 1244s [versão em português: A Bíblia de Referência de Scofield. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1983); Charles A. Feinberg: Premillennialism or Amillennialism [Premilenismo ou amilenismo] (Grand Rapids, 1936), pp. 126, 190. A questão não é se os dispensacionalistas modernos realmente mantêm que, durante a dispensação da lei, foi-se salvo realmente pelas obras de obediência à lei. Os dispensacionalistas reconhecerão que, em todas as eras, os homens foram salvos pelo sangue de Cristo por meio da graça de Deus. Nas palavras de Feinberg, “todas as bençãos do mundo em todas as eras são diretamente traçáveis à morte de Cristo” (op. cit., p. 210). “O argumento de Paulo no quarto capítulo de Romanos busca deixar claro que Deus sempre justificou pecadores culpados pela fé” (p. 202; cf. pp. 217s; e Roy L. Aldrich in Bibliotheca Sacra, janeiro, 1955, pp. 49ss). A questão é se a construção dispensacionalista da dispensação mosaica está correta e se a concessão de que as pessoas foram mesmo aí salvas pela graça por meio do sangue de Cristo é consistente com essa construção. Obviamente, se a construção é errônea, o erro envolvido é de tal natureza que precisará afetar radicalmente não só a visão que se tem sobre a dispensação mosaica, mas a de toda a história da revelação, particularmente da revelação incorporada nas três alianças centrais, a abraâmica, a mosaica e a nova. Para uma crítica do dispensacionalismo moderno em geral, cf. Oswald T. Allis: Prophecy and the Church [Profecia e a igreja] (Filadelfia, 1945). Sobre o lugar da lei na Escritura, cf. Patrick Fairbairn: The Revelation of Law in Scripture [A revelação da lei na Escritura] (Nova Iorque, 1869).

2 Cf. meu livre, The Covenant of Grace [O pacto da graça] (Londres, 1953) para um estudo mais detalhado do conceito de aliança e da aliança mosaica como sendo uma aliança da graça.

3 Geerhardus Vos: Biblical Theology. Old and New Testaments (Grand Rapids, 1954), p. 143 [Versão em português: Teologia Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2010]. O contexto também é digno de citação. “É claro, então, que o guardar da lei não figurava nesse ponto como o fundamento meritório da herança da vida. O último se baseia na graça somente, não menos enfaticamente do que como o próprio Paulo coloca a salvação nessa base. Mas, embora seja assim, ainda pode ser objetado que a observância da lei, se não é o fundamento para receber, ainda se torna o fundamento para a retenção dos privilégios herdados. Aqui não se pode, é claro, negar que um conexão real existe. Mas os judaizantes erraram ao inferir que a conexão precisa ser meritória, que, se Israel mantém as valiosas dádivas de Jeová por meio da observância de Sua lei, isso precisa ser assim, porque segundo a estrita justiça eles o mereceram. A conexão é de um tipo totalmente diferente. Cabe não à esfera legal do mérito, mas à esfera simbólico-típica da adequação de expressão.”

4 Sobre a relação do Espírito Santo à ressurreição de Cristo e ao Senhor exaltado, cf. Geerhardus Vos: “The Eschatological Aspect of the Pauline Conception of the Spirit” [O aspecto escatológico da concepção paulina do Espírito] in Biblical and Theological Studies [Estudos bíblicos e teológicos] pelos docentes do Seminário Teológico de Princeton (Nova Iorque, 1912), pp. 210-259. Para um estudo capaz e estimulante do Pentecostes e de questões intimamente relacionadas, cf. a recente contribuição de Harry R. Boer: Pentecost and the Missionary Witness of the Church [Pentecostes e o Testemunho Missionário da Igreja], Franeker, 1955 (?).

5 Os termos de Geerhardus Vos são que “o Espírito é tanto a causa instrumental do ato de ressurreição e o substrato permanente da vida de ressurreição” (op. cit., p. 234; cf. p. 226).

6 As considerações de Vos provavelmente refletem a exegese correta de Romanos 1.4. “A referência não é a dois lados existentes na constituição do Salvador, mas a dois estágios sucessivos em sua vida … A ressurreição é para Paulo o começo de um novo status de filiação: daí, como Jesus derivou sua filiação κάτα σάρκα da descendência de Davi, pode se dizer que ele derivou sua filiação-divina-em-poder da ressurreição” (ibid., p. 229). É questionável, contudo, se é apropriado falar de Jesus como derivando “sua filiação κάτα σάρκα da descendência de Davi”. Esse pensamento não está explícito no texto e é dúbio se está implícito. Mas, fora isso, a exegese de Vos é bem esclarecedora.

Traduzido por: Guilherme Cordeiro

Fonte: Murray, John. Principles of Conduct: Aspects of Biblical Ethics. Grand Rapids: Wm B. Eerdmans Pub., 1957, p. 195-201. A ser publicado pela Editora Monergismo.