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Contra a heterossexualidade (Michael W. Hannon)

By 18 de Abril de 2018 No Comments

Alasdair MacIntyre uma vez brincou que “fatos, como telescópios e perucas para cavalheiros, foram uma invenção do século dezessete”. Algo semelhante também pode ser dito sobre a orientação sexual: heterossexuais, como datilógrafos e mictórios (também, obviamente, para cavalheiros), foram uma invenção da década de sessenta do século XIX. Contrariamente a nossas preconcepções culturais e as mentiras do que veio a ser chamado “essencialismo de orientação”, “héteros” e “gays” não são absolutos atemporais. A orientação sexual é um esquema conceitual com uma história, e uma bem tenebrosa. É uma história que começou bem mais recentemente do que a maioria das pessoas pensa e é uma que provavelmente acabará mais cedo do que a maioria prevê.

Ao longo de vários séculos, o Ocidente progressivamente abandonou a arquitetura marital do Cristianismo para a sexualidade humana. Então, cerca de cento e cinquenta anos atrás, ele começou a substituir essa longa tradição teleológica com uma criação inédita: a absolutista, mas absurda, taxonomia de orientações sexuais. A heterossexualidade foi feita para servir como ideal regulador dessa exuberante estrutura, preservando as proibições sociais contra a sodomia e outras devassidões sexuais sem precisar recorrer à natureza procriativa da sexualidade humana.

Nesta nova explicação, atos sexuais direcionados ao mesmo sexo não eram errados porque desprezavam o propósito racional-animal do sexo, a saber, a família, mas sim porque o desejo por essas ações alegadamente se originava num desagradável transtorno psicológico. Como a teórica queer Hanne Blank relata: “O novo conceito de [heterossexualidade], travestido numa mistura desfigurada de linguagens mortas aparentemente impressionantes, deu a velhas ortodoxias uma nova e vibrante sobrevida ao sugerir, em tom autoritativo, que a ciência tinha as considerado, em efeito, naturais, inevitáveis e inatas”.

A orientação sexual não providenciou um fundamento confiável para a virtude como seus inventores esperavam, especialmente no futuro. Mesmo assim, muitos cristãos conservadores sentem que devemos continuar atualmente a privilegiar a divisão gay-hétero e o ideal heterossexual em nossa catequese popular, já que ainda lhes parece a melhor forma de fazer nossas máximas morais parecerem razoáveis e atraentes.

Esses compatriotas cristãos erram ao se agarrarem tão fortemente à orientação sexual, confundindo nossa apologia sem precedentes e sem sucesso da castidade com seu fundamento eterno. Não precisamos da “heteronormatividade” para nos defendermos contra a devassidão. Pelo contrário, ela só está nos atrapalhando.

Michel Foucault, um aliado inesperado, detalha o pedigree da orientação sexual em seu livro História da Sexualidade. Enquanto “sodomia” identificou desde muito uma classe de ações, subitamente e pela primeira vez, na segunda metade do século dezenove, o termo “homossexual” se pôs a seu lado. Este neologismo europeu foi usado de uma forma que teria chocado as gerações anteriores como um claro erro de categorias, designando não ações, mas pessoas, e assim também com a heterossexualidade, sua contraparte e contraste.

Psiquiatras e legisladores da segunda metade do século XIX, Foucault nos conta, rejeitaram a convenção clássica em que o “perpetrador” de atos sodomitas era “nada mais do que o sujeito jurídico deles”. Com a sociedade secular reputando crenças religiosas clássicas publicamente ilegítimas, a pseudociência interveio e substituiu a religião como o fundamento moral para normas venéreas. Para conquistar a estabilidade social sexual secular, os experts médicos arquitetaram o que Foucault descreve como “uma ordem natural de desordem”.

“O homossexual do século dezenove se tornou um personagem”, “um tipo de vida”, “uma morfologia”, escreve Foucault. Esta identidade psiquiátrica pervertida, elevada ao status de uma “forma de vida” mutante a fim de salvaguardar a sociedade educada contra suas nojentas depravações, engoliu todo o caráter dos aflitos: “Nada que entrava na composição total [do homossexual] deixava de ser afetado por sua sexualidade. Estava presente em tudo nele: na raiz de todas as suas ações por ser seu insidioso princípio indefinidamente ativo”;

Os imprudentes aristocratas, encorajando essas inovações médicas, mudaram a medida da moralidade pública, substituindo a natureza humana religiosamente colorida com a opção secularmente mais segura da paixão individual. Ao fazê-lo, eram forçados a também trocar a robusta tradição do direito natural pelo recém-construído padrão da “normalidade psiquiátrica”, com a “heterossexualidade” servindo como o novo normal para a sexualidade humana. Um padrão tão vago de normalidade, previsivelmente, ofereceu um apoio bem mais superficial para a ética sexual do que a tradição clássica do direito natural.

Mas enfatizar este novo padrão obteve sucesso em sedimentar essas categorias de hétero e homossexualidade na imaginação popular. “A homossexualidade surgiu como uma das formas de sexualidade”, escreve Foucault, “quando foi transposta da prática de sodomia a um tipo de androginia interior, um hermafrodismo da alma. O sodomita fora uma aberração temporária; o homossexual era agora uma espécie”. A orientação sexual, então, nada mais é do que um frágil construto social construído há pouquíssimo tempo.

Enquanto a nossa cultura popular não chegou lá – ainda – os teóricos queer que crescentemente mandam e desmandam a nível das elites já concordam com Foucault neste ponto. Tais pensadores ecoam a herética (para os LGBT) citação de Gore Vidal: “Na verdade, não existe uma pessoa homossexual, assim como não existe uma pessoa heterossexual”. Verdade, a firme divisão natural entre as duas identidades se provou útil para os ativistas de “direitos homossexuais” em atuação, e, de forma não menos importante, para o ethos da era dos direitos civis conjurado por tal dinâmica de poder. Mas a maioria dos teóricos queer, e, nessa questão, a maioria dos acadêmicos das humanidades e disciplinas sócio-comportamentais hoje, rapidamente concederá que tais distinções são construtos recém-nascidos e nada mais. Muitos nesta área objetivam expor as credenciais falsificadas da orientação sexual e, inspirados em Nietzsche, acabam genealogicamente com o problema de uma vez por todas.

Jonathan Ned Katz, um historiador da sexualidade da esquerda radical que anteriormente ensinou tanto em Yale quanto na New York University, captura bem o consenso contemporâneo sobre a teoria queer em The Invention of Heterosexuality [A invenção da heterossexualidade], onde explica: “Eu falo da invenção histórica da heterossexualidade para bater de frente com o nosso pressuposto usual de uma heterossexualidade eterna, para sugerir o status instável, relativo e histórico de uma ideia e de uma sexualidade que usualmente assumimos como gravada há eras numa rocha”. Enquanto ele continua a argumentar: “Contrariamente às biocrenças de hoje, o binário heterossexual/homossexual não está na natureza, mas é socialmente construído e, portanto, desconstruível”.

Minha predição própria é que vamos ver este binário completamente desconstruído ainda em nosso tempo de vida. Mas na minha visão, nós, proponentes da castidade cristã, deveríamos ver a ruína iminente da divisão gay-hétero não como uma tragédia, mas como uma oportunidade. Mais do que isso, eu quero sugerir que deveríamos dar o nosso melhor para encorajar a dissolução da orientação dentro de nossas próprias esferas subculturais sempre que possível.

É claro, dada a nossa imersão numa cultura cujas categorias parecem conaturais com a língua pátria, desenraizá-las de nosso vocabulário e cosmovisão vai ser uma tarefa nem um pouco simples. Então, por que se importar? Desde que não sucumbamos a atos pecaminosos, que importa se as pessoas – mesmo cristãs – continuam se identificando como homossexuais ou heterossexuais?

Em primeiro lugar, dentro do essencialismo de orientação, a distinção entre heterossexualidade e homossexualidade é um construto que é desonesto sobre sua identidade enquanto construto. Essas classificações se disfarçam como categorias naturais, aplicáveis a todas as pessoas em todos os tempos e lugares segundo os objetos típicos de seus desejos sexuais (talvez com ainda mais algumas opções à venda para os categorizadores mais politicamente corretos). Reivindicando ser não uma mera invenção acidental do século dezenove, mas uma verdade atemporal sobre a natureza sexual humana, esta estrutura se exibe como superior, mas engana aqueles que adotam seus rótulos ao induzir a crença de que tais distinções valem bem mais do que realmente são.

Uma segunda razão para duvidar se este esquema é um a ser usado prontamente pelo cristão é que sua introdução em nosso discurso sexual não tem notadamente aumentado as virtudes – intelectuais ou morais – daqueles que empregam seus conceitos. Pelo contrário, ela gerou tanto obscuridade intelectual quando desordem moral.

Quanto ao primeiro, o essencialismo de orientação fez impossível qualquer filosofia ética neste campo: ele substituiu os antigos princípios maritais e procriativos da castidade sem oferecer qualquer alternativa que não fosse inteiramente arbitrária. A visão teológica mais antiga media a moralidade segundo a natureza racional-animal do homem; na área sexual, isso significava avaliar atos sexuais se referindo ao bem comum do casamento, que integrava a união marital e o nascer e crescer de crianças. O sistema heteronormativo mais recente, por outro lado, não pode explicar a perversidade da sodomia com o mesmo sexo ao se referir a nada mais do que um reflexo automático condicionado e sem princípios e que, se não justificado, enfraquece-se consideravelmente no decorrer do tempo.

Quanto ao último resultado, a desordem moral, a vitória da orientação mudou de forma contraproducente nossa atenção cotidiana de propósitos objetivos para paixões subjetivas. Jovens, por exemplo, agora se veem regularmente se agonizando sobre sua identidade sexual, perscrutando a si mesmos narcisisticamente para discernir seu lugar nesse diagrama de Venn alegadamente natural de orientações. Tais obsessões geram bem mais calor do que luz e focam adolescentes já excitados sexualmente em discernir dimensões irrelevantes de sua constituição sexual. Esta busca interior se torna ainda mais desnecessariamente perturbadora para aqueles que discernem em si uma “orientação homossexual”, na medida em que adotam uma identidade distinta essencialmente por um conjunto de desejos sexuais que não podem ser moralmente cumpridos.

Há uma terceira razão para abandonar esta categorização e esta é teológica: ela se opõe à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Meu futuro prior na vida religiosa, Fr. Hugh Barbour dos pais nobertinos, desenvolveu esta ideia num ensaio na Chronicles Magazine, intitulado “Homossexuais existem? Ou, aonde vamos a partir daqui?” Como Fr. Prior argumenta: “a teologia moral tradicional avaliava atos e não generalizava tão insatisfatoriamente sobre as tendências que levavam a esses atos. Isso era deixado à casuística das ocasiões do pecado e à direção espiritual. Se o pecado é furtar, então o padrão de avaliação é a cleptomania? Se embriaguez, alcoolismo? Se preguiça, depressão clínica?” Mesmo cristãos ortodoxos, ele escreve:

se entregaram ao costume de tratar inclinações sexuais como identidades. Pastoralmente, devemos pregar a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Ao tratar o pecado da sodomia como uma prova prima facie de uma identidade, não estamos, à guisa de compaixão e sensibilidade, ajudando a prender o pecador a sua inclinação pecaminosa e assim lhe impondo um fardo que é grande demais para ele carregar sem talvez movermos um dedo sequer para levantá-lo?
Descrever-se como “homossexual” tende a multiplicar ocasiões de pecado para aqueles que adotam o rótulo, provocando, nas palavras do prior, uma desnecessária “dramatização da tentação”. Enquanto a infusão das virtudes teológicas liberta o cristão, identificar-se como homossexual apenas o escraviza mais ao pecado. Isso intensifica a luxúria, uma triste distorção do amor, ao amplificar a aparente relevância das concupiscências. Desenvolve uma autocomiseração desesperadora, danificando a esperança, a qual deve motivar as virtudes morais. E encoraja um forte senso de merecimento, que frequentemente mina a obediência de fé ao demandar a derrocada de doutrinas que parecem reprimir “quem eu realmente sou”.

Há uma série de louváveis contraexemplos a este padrão desencorajador, os autoidentificados “cristãos gays” que são tanto virtuosos quanto fiéis aos ensinos da Igreja. Mas, dada a tensão inerente entre a narrativa cristã clássica e a explicação moderna das orientações sexuais, não deveria ser surpresa que os louváveis párias que tentam combinar essas duas tradições incongruentes são a exceção ao invés da regra.

O batismo da identidade homossexual está cheio de perigos evitáveis. E, contudo, quando se trata do mal mais grave efetuado pelo binário da orientação sexual, a homossexualidade não é a culpada. A heterossexualidade o é, evidentemente não como se pudéssemos ter um sem o outro. O aspecto mais pernicioso do sistema de orientação por identidades é que ele tende eximir os heterossexuais da avaliação moral. Se a homossexualidade nos prende ao pecado, a heterossexualidade nos cega ao pecado.

Não se questiona que existam alguns “heterossexuais” moralmente autoconscientes. Mesmo assim, via de regra, identificar-se como uma pessoa heterossexual hoje significa se declarar membro do “grupo normal”, segundo o qual todos os desejos e atrações e tentações sexualmente errôneos devem ser medidos. Tal hétero-identificação inaugura assim uma segurança pateticamente acrítica e, obviamente, imerecida, sem mencionar sua imprecisão como medida para avaliar a tentação.

É claro, temos uma norma modelo para a avaliar os desvios sexuais. Mas esse modelo não é a heterossexualidade. É o próprio Cristo Jesus, o Deus-homem que tanto aperfeiçoou a natureza humana quanto perfeitamente exemplificou a sua perfeição, que “foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. O heterossexual autodeclarado substituir o nosso Senhor nessa posição é o cúmulo da tolice.

É verdade que a homossexualidade pode ser distinguida de um desespero inadequado, aceitando inclinações pecaminosas como constitutivas de identidade e assim implicitamente rejeitando a liberdade comprada para nós pelo sangue de Cristo. Mas a heterossexualidade, em suas pretensões de agir como a norma para avaliar nossos costumes sexuais, é marcada por algo ainda pior: a soberba, que S. Tomás de Aquino classifica como a rainha de todos os vícios.

Há razões práticas também para nos preocuparmos com a heterossexualidade. Porque o nosso mundo pós-freudiano associa toda atração física e afeição interpessoal com desejo erótico genital, a amizade íntima entre pessoas do mesmo sexo e uma apreciação casta da beleza do mesmo sexo se tornam completamente impossíveis de se conquistar. (Freud, aliás, foi um dos mais influentes arquitetos do vicioso mito essencialista de orientações).

Para “heterossexuais” em particular, aproximar-se de um amigo do mesmo sexo acaba parecendo perverso e se emocionar com sua beleza se torna estranho. Para evitar ser confundido com gays, hoje em dia muitos héteros declarados, especialmente os homens, satisfazem-se com associações superficiais com seus camaradas e reservam o tipo de intimidade custosa que outrora caracterizava tais relacionamentos castos do mesmo sexo para parceiros românticos apenas. Suas orientações sexuais ostensivamente normais os cega para um aspecto essencial do florescimento humano: a amizade profunda.

Os usos mais antigos do termo “heterossexualidade” dão mais razão para se duvidar se deveríamos celebrar a ideia tão entusiasticamente assim. É verdade que mesmo no final do século dezenove o rótulo às vezes era empregado meramente para denotar “sexo normal”. Essa evidentemente é a maneira como tendemos a usar “heterossexual” hoje, o que argumento acabar em trágicas confusões.

Mas outro sentido proeminente do termo à época de sua invenção, incluindo o seu primeiro uso registrado na língua inglesa em 1892, continua a informar a nossa concepção distorcida da sexualidade humana, mesmo que esta definição secundária tenha saído de moda desde então. Na definição alternativa, a palavra não designava “sexo normal”, mas um tipo diferente de sexo desviante, semelhante a sua contraparte homossexual em seu desprezo pela procriação, mas distinta pelo objeto típico de suas inclinações sensuais.

A infeliz história do “heterossexual” que escolhemos esquecer é que esta palavra entrou na língua inglesa como um rótulo para um transtorno sexual pervertido que se deleitava em atos sexuais estéreis. Normalmente esses desejos eram pelo sexo oposto, mas mesmo essa delimitação era cinzenta, porque, como se percebeu posteriormente, uma vez que o propósito gerativo do sexo é cortado, frequentemente pouco importa quem o parceiro masturbatório mútuo do heterossexual será.

Nossos antepassados cristãos ficariam chocados com nossa complacência com a orientação sexual. A única razão por que todo esse programa não nos alarma como a eles é que fomos sistematicamente doutrinados nele desde a infância, especialmente os jovens dentre nós. Mas para usar uma analogia com a qual não somos tão familiares, vamos considerar como reagiríamos se um diferente tipo de categoria entrasse em nosso vocabulário cultural.

A revista Slate recentemente publicou um artigo intitulado “O poliamor é uma escolha?” que argumentava que, além das inclinações para com homens ou mulheres, também poderiam existir orientações sexuais inatas e imutáveis constitutivas para ou a fidelidade ou a infidelidade.

Imagine se as pessoas que previssem ser mais romanticamente satisfeitas pela exclusividade sexual compromissada começassem a se identificar como “fiéis”, enquanto aqueles que normalmente se animassem mais com a promiscuidade sexual sem limites começassem a se identificar como “infiéis”. Não seria isso problemático, especialmente com homens e mulheres cristãos começando a adotar o último rótulo para si, e ainda se valendo do fato de que por serem “infiéis” não teriam razões para se casar, desde que não seriam suficientemente cumpridos pela vida sexual com que se comprometeriam por meio de seus votos maritais?

“Infidelidade” está obviamente desempenhando o papel da homossexualidade nesta analogia. Mas quer estejamos considerando o número quer o gênero dos parceiros sexuais, como não pode nos chocar quando nossos irmãos cristãos adotam uma identidade para si que é essencialmente distinta de sua contraparte por nada senão um tipo particular de tentação ao pecado? Isso é o oposto da liberdade cristã. É claro, todos somos caídos e tentados e precisamos da ajuda divina. Mas enquanto continuamos a lutar contra essas tentações pecaminosas, o que nos foi dado em Cristo Jesus é a libertação das amarras do pecado, que nos reivindica como seu.

Não pertencemos mais a nossas transgressões. Então por que criamos identidades para nós usando o pecado como o padrão? Eu não ligo quão atrativa pareça a promiscuidade para você. Você enfaticamente não é “um infiel”. Claro, podemos construir socialmente categorias que farão falar assim óbvio e conatural. Mas para o cristão o fazer, ou para ele participar voluntariamente em tal estrutura uma vez construída ao seu redor, seria um erro gigantesco.

Eu não sou o meu pecado. Eu não sou a minha tentação ao pecado. Pelo sangue de Jesus Cristo, eu fui libertado dessa escravidão. Eu tenho todo tipo de identidade, é claro, especialmente em nossa era absurdamente psicanalítica. Mas, pelo menos, nenhuma dessas identidades deveria ser definida essencialmente por minha atração aquilo que me separa de Deus.

O outro lado dessa hipótese inspirada pela revista Slate traz a lume os males característicos da heterossexualidade. A despeito de nossa desaprovação justificada de cristãos desesperadamente se identificando como “infiéis”, não haveria algo ainda mais absurdo e vicioso naqueles que orgulhosamente se intitulam de “fiéis”? Em outras palavras: Será que o fato dos meus desejos eróticos tenderem tomar uma única pessoa como seu objeto ao invés de um grande coletivo necessariamente implica em alguma qualidade moral inerente de minha parte? Nesse condão, será que sequer implica que meus desejos são virtuosos ou, o que acho mais provável, será que simplesmente indica que por acaso eu não sou fortemente tentado por um dos muitos abusos sensuais possíveis? Assim como os caras supostamente “fiéis”, os indivíduos “heterossexuais” não são estandartes da castidade simplesmente porque evitam o perigo incasto do dia.

Todavia, a despeito da ilógica disso tudo, “os héteros” ainda tendem a receber mais vantagens sociais de sua denominação e assim desmantelar o esquema de orientações os ameaça bem mais do que suas contrapartes “gays” ou “lésbicas”. Como Jenell Williams Paris do Messiah College escreve em seu livro The End of Sexual Identity [O Fim da Identidade Sexual]: “Fundamentar a ética sexual em nossa humanidade mais do que em categorias contemporâneas de identidade sexual … custa caro aos heterossexuais”, porque “os coloca no jogo como jogadores ao invés de árbitros”. Por essa mesma razão, contudo, são os heterossexuais autodeclarados que podem ser mais eficazes em liderar nossa objeção casta contra a orientação sexual, sacrificando sua carta em branca não-cristã de “héteros” em prol da caritas in veritate.

Porém, quer nós cristãos escolhamos nos juntar à campanha ou não, a orientação sexual inevitavelmente sairá de moda ao longo do tempo, e a nossa escolha é simplesmente se queremos sair junto ou não. Uma razão óbvia para seu inevitável fenecimento é que o sentimento é consideravelmente mais instável do que creram os primeiros militantes e defensores psicossexuais. A evidência empírica mostra que suas categorias estanques acabam sendo radicalmente insuficientes.

Um segundo fator no declínio inevitável da orientação sexual é que essas categorias de hétero/homo não podem fundamentar logicamente as normas sexuais que elas foram feitas para apoiar. Os essencialistas originais de orientação não podiam sequer oferecer uma razão a nível de princípio para preferir a heterossexualidade em vez da homossexualidade, o que é crucial para a sua posição; Deixados com nada mais do que sensibilidades herdadas e decretos arbitrários, sua medida heteronormativa falhou onde seu predecessor procriativo tinha prosperado por séculos ao oferecer razões sólidas para as regras.

O fracasso filosófico tem condenado a empreitada das orientações por toda sua existência. Porque o inadequado padrão heteronormativo deixou os casos de luxúria com o sexo oposto inteiramente incontestados, pecados previamente considerados mortais – tais como masturbação, pornografia, fornicação, contracepção e sodomia entre homem e mulher – foram progressivamente tolerados. Contudo, com todas essa injunções em suspenso, é compreensível que começasse a parecer inconsistente e assim preconceituoso continuar insistindo em prescrições contra sodomias do mesmo sexo. A estrutura essencialista de orientações, que fora intencionada como uma defesa segura contra a devassidão homossexual, tornou-se dessa forma a mais forte arma em seu arsenal.

O que nos leva a última, e talvez mais surpreendente, razão para o fracasso da orientação sexual: sua utilidade política já está quase esgotada, a qual sempre teve uma data de vencimento. O plano dos conservadores morais do século dezenove para as orientações saiu pela culatra, é claro, quando o que supostamente deveriam ser condições psiquiátricas desiguais evoluíram para identidades psicológicas moralmente indistinguíveis.

Contudo, nem o liberalismo moral tem muito para sugar dela, já que, entre Romer e Lawrence e Windsor e ENDA, pouquíssimas questões de “direitos homossexuais” restam para ser resolvidas. A orientação ainda pode ter alguns dias de capital político, mas muitos progressistas já se vangloriam que poderão descartar o absurdo mito das categorias naturais e nada de mais acontecer, já tendo agora iniciado uma tendência liberalizante irresistível que continuará com ou sem ele. Mais cedo ou mais tarde, os pronunciamentos feitos pelos teóricos queer em suas torres de marfim se tornarão parte da ortodoxia cultural também.

Embora eu espere que muitos pensadores cristãos conservadores acharão estranho estar do lado de Foucault, eu quero sugerir que nosso endosso da esquerda radical nesse assunto deveria ser bem entusiasmado, embora deva ser cuidadosamente delimitado. Em essência, deveríamos alegremente juntar as nossas vozes as dos teóricos queer pós-estruturalistas em suas vigorosas críticas dos essencialistas de orientação ingênuos, que erroneamente pensam que “hétero” e “gay” são classificações naturais, neutras e atemporais.

Seu historicismo desiludido torna esses genealogistas sexuais unicamente posicionados para enxergar os enganos da orientação sexual e, embora nós cristãos não precisemos deles em algum sentido essencial, mesmo assim, de uma maneira acidental, eles podem se provar para nós uma grande utilidade no presente. Ironicamente, esses radicais da esquerda podem ser os únicos que conseguirão curar a cegueira que temos insensatamente tomado sobre nós mesmos ao aceitar acriticamente a linguagem de hétero e homossexualidade.

Todavia, enquanto podemos e devemos recomendar o diagnóstico dos teóricos queer sobre os absurdos infestando nossas categorias sexuais populares hoje, mesmo assim não podemos assinar embaixo de seu plano de tratamento. Jonathan Ned Katz, Hanne Blank e teóricos queer contemporâneos em geral buscam resolver o problema do rígido esquema de orientações precisamente porque creem que isso lhes dará a liberdade e o poder para fazer, desfazer e refazer sua sexualidade como bem lhes aprouver.

Eles querem destruir esses construtos sociais falidos não para que algo melhor possa ser construído em seu lugar, ou, talvez, redescoberto dentre as ruínas, mas porque eles esperam conquistar um maior de grau de libertinismo sexual do que temos hoje, mesmo se vier a custo de endossar um tipo perverso de niilismo sexual. Parafraseando Dostoiévski, esses radicais gostariam de acreditar que se a orientação não existe, então todas as coisas são permitidas.

O cristão não podem os seguir nessa estrada miserável, é claro. Mas nem podem os cristãos, creio eu, permanecerem contentes com a condenada taxonomia enganosa de orientações. Marque as minhas palavras: os teóricos queer logo conseguirão seu objetivo de desmantelar a coisa toda. Mesmo nossa cultura popular está mostrando algumas rachaduras aí. A lista de compras cada vez maior de orientações demonstra a insuficiência daquelas categorias claras e distintas. E o agora familiar conceito de “hasbian” [ex-lésbica] sugere que essas identidades são bem menos estáticas do que fomos inicialmente levados a acreditar. (Pense, por exemplo, na nossa nova primeira dama ex-homossexual em New York City).

A questão é, uma vez acontecendo o colapso dessa estrutura de orientação sexual, o que tomará o seu lugar: a ética niilista de vale-tudo dos teóricos queer ou a visão cristã clássica de onde tudo isso se desviou, a visão que toma o matrimonial-procriativo como seu fim e princípio organizador, avaliando as paixões segundo a natureza ao invés do contrário?

O papel do defensor da castidade cristã hoje, argumento eu, é dissociar a Igreja de seu falso absolutismo de identidade baseado em sua tendência erótica e redescobrir o nosso próprio fundamento antropológico para máximas morais tradicionais. Se não desejamos ser carregados pelos essencialistas de orientação da modernidade, então precisamos lembrar o mundo que nossa ética sexual nunca esteve realmente confortável na estrutura atual e assim o deixar de lado dessa estrutura não precisa levar ao libertismo niilista pós-moderno. Há um fundamento mais firme para ficar do que a tradição cristã clássica. De fato, parece-me o único lugar restante para se ficar.

A Bíblia nunca chamou a homossexualidade de abominação. Nem poderia, pois, como temos visto, Levítico precede qualquer concepção de orientação sexual por pelo menos dois milênios. O que as Escrituras condenam é a sodomia, independentemente de quem a cometa. Mas, como eu argumentei até aqui, em nossos dias a homossexualidade merece o rótulo de abominável e a heterossexualidade também.

No que se refere à moralidade sexual, chegamos num ponto em que não é mais suficiente para nós criticar as empobrecidas respostas da modernidade. Como nosso Senhor nas narrativas dos evangelhos, precisamos também corrigir suas questões terrivelmente empobrecidas. Ao invés de lutar para articular como se viver enquanto “cristão homossexual”, ou, nesse quesito, a questão ainda mais problemática de como se viver enquanto “cristão heterossexual”, deveríamos estar ensinando os nossos irmãos cristãos, especialmente aqueles em seus anos mais formativos da adolescência, que essas categorias não são dignas de ser empregadas.

Elas são invenções recentes que são totalmente estranhas a nossa fé, inadequadas para justificar normas sexuais e antitéticas à verdadeira antropologia filosófica. Chegou o tempo para nós erradicarmos a orientação sexual da nossa cosmovisão tão sistematicamente quanto pudermos, com toda a prudência devida em casos particulares mais complicados, é claro.

Se o Papa Francisco está certo sobre contextualizar nosso discurso moral ser um pré-requisito necessário para sermos persuasivos, ou mesmo inteligíveis, em relação a nossos interlocutores, então abandonar a heteronormatividade e ressuscitar a nossa própria tradição da castidade familiar-teleológica é o único caminho para explicar adequadamente a ética sexual cristã.

Michael W. Hannon está se preparando para entrar na vida religiosa com os norbertinos da Abadia de S. Miguel em Orange County, California.

Tradução: Guilherme Cordeiro

Fonte: Against Heterosexuality (First Things)