Cosmovisões

O estreitamento da mente calvinista

By 15 de fevereiro de 2019 No Comments

James B. Jordan

Era uma vez algo como uma linha de pensamento calvinista. Existia em meus tempos de juventude, mas aparentemente desapareceu, de modo considerável, nos últimos anos. Mas permita-me explicar meu ponto.

Quando me tornei calvinista, nos idos de 1970, comprei uma penca de livros. Nos anos seguintes, comprei mais alguns. Deixe-me listar alguns dos títulos; somente passe os olhos por eles:

 

C. Gregg Singer (presbiteriano), A Theological Interpretation of American History[Uma interpretação teológica da história americana] (1964), 300 páginas.

E. L. Hebden Taylor (episcopal calvinista), The Christian Philosophy of Law, Politics, and the State(1969) [A filosofia cristã do Direito, da Política e do Estado], 650 páginas.

Taylor, Evolution and the Reformation of Biology [Evolução e reforma da Biologia] (1967).

Taylor, Reformation or Revolution [Reforma ou revolução] (1970) 630 páginas.

Herman Dooyeweerd (reformado neerlandês), No crepúsculo do pensamento ocidental (1968).

Dooyeweerd, A New Critique of Theoretical Thought [Nova crítica do pensamento teórico] (4 volumes, 1953), cerca de 2000 páginas.

Dooyeweerd, The Christian Idea of the State [A ideia cristã de Estado] (1968).

J. M. Spier, An Introduction to Christian Philosophy [Introdução à filosofia cristã] (1966).

Spier, Christianity and Existentialism [Cristianismo e existencialismo] (1953).

David H. Freeman, A Philosophical Study of Religion [Um estudo filosófico sobre a religião] (1964), 270 páginas.

H. van Riessen, The Society of the Future[A sociedade do futuro] (1952), 320 páginas.

Francis N. Lee, Communist Eschatology [A escatologia comunista] (1974),1200 páginas.

Rousas J. Rushdoony, The Messianic Character of American Education [O caráter messiânico da educação americana] (1968), 400 páginas.

Rushdoony, The Mythology of Science [A mitologia da ciência] (1967).

Rushdoony, The Nature of the American System [A natureza do sistema americano] (1965).

Rushdoony, The Myth of Over-Population [O mito da super-população] (1969).

Rushdoony, The One and the Many: Studies in the Philosophy of Order and Ultimacy [O uno e o múltiplo: Estudos sobre a filosofia da ordem e da supremacia] (1971), 390 páginas.

Rushdoony, Politics of Guilt and Pity [Políticas da culpa e da comiseração] (1970), 370 páginas.

Rushdoony, Os fundamentos da ordem social (1968).

 

Bem, essa é apenas uma amostra representativa. Eu poderia ter listado outras obras de cada um desses autores acima, bem como mais livros de outros pensadores. Informei também as páginas dos volumes maiores, para demonstrar que livros grandes e pesados estavam sendo, à época, publicados. Em capa dura! E eram lidos!

Essa lista é interessante porque todos os livros têm algo em comum: foram publicados pela editora Presbyterian and Reformed Publishing Company (P&R). Alguns foram publicados numa série chamada University Series: Historical Studies [Série universitária: Estudos históricos]. Outros numa série denominada University Series: Philosophical Studies [Série universitária: Estudos filosóficos]. Havia também uma série intitulada Modern Thinkers [Pensadores modernos], que publicava livros de aproximadamente 50 páginas, tratando individualmente sobre Paul Tillich, Rudolph Bultmann, Søren Kierkegaard, Charles Dewey, Friedrich Nietzsche, Arnold Toynbee, Karl Barth, Reinhold Niebuhr, Jean-Paul Sartre, Cornelius Van Til, Sigmund Freud, e William James. Dentre os autores desses pequenos volumes estavam R. J. Rushdoony, Herman Ridderbos, Gordon Clark, S. U. Zuidema, H. van Riessen, Gregg Singer e outros.

E sequer mencionei as densas obras de Cornelius Van Til que a P&R publicou ao longo dos anos, nem os gêneros semelhantes de obras de outros editores, como O conceito calvinista de cultura, de Henry Van Til, e livros de Klaas Schilder, Evan Runner e vários outros.

É claro, nem todos esses livros estavam no mesmo nível. No entanto, todos eles estavam envolvidos com o mundo. Eram livros que tratavam do reino de Jesus, o Cristo, que reivindica a totalidade da vida e da cultura.

Assim, onde se encontra esse tipo de material hoje? De editores calvinistas, nos chegam comentários bíblicos, geralmente coisa leve que parece os pensamentos devocionais diários de uma pessoa, ou ainda trabalhos acadêmicos comprometidos com o pensamento crítico que são, no entanto, questionáveis. E nos chegam também todos os tipos de livros e auxílios pastorais, psicológicos e familiares. Tudo muito fino e elegante, suponho, embora, na natureza do caso, esse tipo de literatura tenda a ser “centrada-em-mim”.

Mas, veja, numa era muito longínqua havia pessoas que escreviam, pessoas que publicavam e pessoas que liam livros profundos e reflexivos sobre as coisas que os títulos listados acima descreviam. E esses livros não eram o tipo peso-pena da linha “precisamos de uma cosmovisão cristã!”, escrito por evangélicos. Não eram guias de cinema. Não eram material requentado sobre a lei natural católica romana escrita por evangélicos mergulhados na leitura da revista First Things. Eram, antes, livros escritos por calvinistas que criam no conteúdo da Bíblia, e que estavam comprometidos com a Reforma, mas também com toda a história do pensamento cristão. Livros que foram escritos por homens que buscavam pensar de maneira pressuposicionalista, e que não se importavam em declará-lo, mesmo que divergissem sutilmente entre si com relação ao modo de fazê-lo. Foram escritos por homens que levavam a sério a depravação da mente, e que não eram ludibriados pelas opiniões majoritárias na sociedade, academia e igreja.

Esses homens, e aqueles semelhantes a eles, estavam conscientes de que a Reforma foi apenas o início de uma restauração do pensamento bíblico. Obras como as Confissões Belga e de Westminster eram estágios nessa caminhada, mas não as últimas palavras. Pressuposicionalistas como Cornelius Van Til e outros não hesitavam em criticar João Calvino e os teólogos de Westminster por terem empregado noções filosóficas falhas. Nem se importavam em apontar tópicos em que as formulações teológicas precisavam ser aperfeiçoadas por meio do exorcismo de pressupostos ruins. E — a cereja do bolo! — ninguém se doía com isso.

Naqueles dias, os calvinistas ainda eram capazes de pensar. Aparentemente não é mais o caso. As controvérsias acerca das chamadas “visão federal” e “nova perspectiva em Paulo” são apenas dois exemplos do estreitamento da mente calvinista, ao menos em muitas partes do mundo reformado. Homens com pouco conhecimento em história, evidentemente incapazes de pensar de maneira pressuposicionalista, e por vezes (mas nem sempre) motivados antes por preocupações políticas (quando não por pura inveja), não hesitaram em distorcer nem mesmo mentir acerca dessa coisa chamada “visão federal” (que, conforme discutem, é em grande medida um produto de suas próprias mentes).

Com mentes semelhantes a arapucas, esses críticos insistem que “xibolete” seja pronunciado do seu jeito, sob a dolorosa ameaça de expulsão. De fato, aqueles que tentam arrazoar dentro da grande tradição reformada — a tradição refletida na lista de livros acima — foram chamados “hereges”, já que não pronunciaram “xibolete” corretamente.

Isso não tem nada a ver com liberalismo. Na verdade, os homens acusados de heresias eram em geral mais conservadores e muito mais consistentemente reformacionais que seus críticos semi-batistas. Mas esse não é o ponto principal que busco apresentar neste ensaio.

Minha tarefa aqui é sinalizar, para todas as pessoas mais jovens que estão lendo este texto, que houve um tempo em que as coisas não eram assim. Era uma vez um homem sendo examinado para o presbitério que podia discordar de Calvino ou dos Padrões de Westminster, defender-se a partir da Bíblia e da teologia reformada, e manter uma conversação. Ele podia dizer que uma epistemologia equivocada se fazia presente em certas partes dessas obras antigas. Ele podia dizer que a oposição entre boas obras e graça não se coadunava ao espírito da fé reformada ou da Bíblia. Ele podia assinalar que não havia uma “teológica do mérito” na Bíblia. Ele podia dizer que preferia falar de estar unido à integralidade do Cristo ressurreto do que falar na abstração de uma justiça imputada abstrata, separada dessa união. Ele poderia argumentar que o livro de Romanos não era, afinal de contas, um tipo de proto-teologia-sistemática-de-Berkhof, mas um livro que, em medida considerável, trata sobre judeus e gentios, separados e mortos uns para os outros, sendo, porém, agora reunidos, por meio da ressurreição, no reino do Ressuscitado.

Em vários locais conversas como essas não são mais possíveis. Pastores foram expulsos ou rejeitados pelos presbitérios da PCA [Presbyterian Church in America] por crerem naquilo que a Confissão de fé de Westminster diz sobre o batismo. Em outros locais, os tiranetes que governam os presbitérios ou sínodos intimidaram de tal modo os licenciados, que estes não ousar levantar quaisquer questões sobre qualquer coisa. Aqui e ali as coisas estão melhores, mas pelo que vejo, não me sinto encorajado. A mente calvinista, se já não se fechou, parece estreitar-se rapidamente.

Mas não se poderia esperar nada diferente. Conforme argumentei em Crisis, Opportunity, and the Christian Future [Crise, oportunidade e o futuro cristão], a era protestante está chegando ao fim. Isso significa que a fé reformada e o presbiterianismo também estão chegando ao fim. O paradigma foi exaurido, e o mundo no qual operou não mais existe. Devemos tomar todos os grandes tesouros da herança calvinista e aplicá-los com uma Bíblia aberta ao novo mundo no qual estamos agora vivendo. Devemos estar conscientes de que há muito mais na Bíblia do que o que foi tratado pela Reforma, e que muitos problemas de nossos dias são abordados pelos aspectos até então despercebidos ou subdesenvolvidos da Bíblia. Os que desejam ser tietes de uma tradição de 450 anos estão condenando a si mesmos à irrelevância. Nossa única preocupação é não sermos golpeados por eles, enquanto se debatem em seus espasmos mortais.

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Tradução: Fabrício Tavares de Moraes