Editora

Situando o belo

By 26 de março de 2018 No Comments

O que é estética? O Merriam-Webster’s New Collegiate Dictionary oferece três significados da palavra estética: o primeiro é “um ramo da filosofia que lida com a natureza da beleza, arte e gosto e com a criação e apreciação da beleza”. Mas o que é “beleza” e o que é “arte”? A discussão corre o risco de se tornar circular caso dissermos que a beleza é o que é esteticamente bom, ou que arte é um produto com valor estético. Na Stanford Encyclopedia of Philosophy, o artigo principal, “The Concept of the Aesthetic” [O Conceito do Estético], indica que alguns filósofos se perguntam se o conceito é “inerentemente problemático”.

Os filósofos não concordam sobre o seu significado.  Qual contribuição podemos fazer a esta área a partir de um ponto de vista cristã firmemente enraizado na Bíblia? Eu não tenho certeza. Eu não tenho um conceito claro do que o assunto é ou de como discuti-lo proveitosamente. É um certo conforto saber que a Stanford Encyclopedia of Philosophy revela semelhantes dificuldades para outras pessoas.

Perspectivas múltiplas de participantes na arte.

Mesmo assim, será que eu posso sugerir que uma abordagem multiperspectivalista pode ajudar? As pessoas frequentemente possuem respostas bem pessoais à arte. Duas pessoas podem concordar sobre o conteúdo básico do enredo de um filme ou o tema ou estilo de uma pintura, ou o gênero de uma peça musical. Eles podem também concordar sobre a competência ou incompetência técnica na execução de uma obra artística. Eles podem ainda assim discordar agudamente em sua reação pessoal à obra. Se uma arte suscita respostas pessoais, e se a estética, o que quer que seja, é de alguma forma intimamente relacionada à arte, a relação à arte sugere que pessoas diferentes podem ter pontos de vista pessoais diferentes em áreas como essa.

A reação existencial do observador, a obra de arte estável na situação e os padrões normativos para a beleza e a técnica funcionam juntos.  

Assim, a aparência de confusão sobre a natureza da estética pode ter uma explanação parcial na perspectiva existencial e na multiplicidade de pessoas que trazem um colorido pessoal das suas próprias vidas para uma interação coma  estética. A falta de concordância e o sentimento de confusão podem, na verdade, sugerir algo sobre a orientação existencial, que desempenha um papel chave nessa área. A diversidade por Deus dentre culturas e dentre pessoas dentro de qualquer cultura podem levar a uma diversidade saudável na abordagem estética.

Todavia, a beleza não reside meramente “nos olhos de quem vê”. O observador contempla a beleza que está “lá fora” (na situação) e que se conforma a normas. Como é comum, as perspectivas  existencial, situacional e normativa se harmonizam coerentemente. A reação existencial do observador, a obra de arte estável na situação e os padrões normativos para a beleza e a técnica funcionam juntos.

Cada pessoa pode, se ela desejar, produzir a sua própria definição de estética e então desenvolver uma perspectiva pessoal baseada nessa definição. (Mas, como é comum, cada pessoa precisa se precaver contra incluir pressupostos ou compromissos falsos dentro de seu ponto de partida). Perspectivas múltiplas por pessoas múltiplas podem aumentar o nosso conhecimento e apreciação se pudermos nos livrar da influência perniciosa do pecado.

Intercambiando estética com contextos: o tabernáculo

Ademais, as nossas conclusões sobre a metafísica sugerem que, qualquer que seja a forma que acabemos definindo a estética, ela oferece uma dimensão dentre muitas pela qual podemos experienciar o mundo. O artesanato artístico e literário aparecem na Bíblia na construção do tabernáculo. A habilidade para a construção é dada pelo Espírito Santo:

O Senhor disse mais a Moisés: Eis que chamei pelo nome Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício, para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, prata e bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para todo tipo de trabalho artesanal.

As vestimentas sagradas especiais que Bezalel fez para Arão e seus filhos para o ministério no tabernáculo são especificamente ditas como sendo “para que lhe deem glória e beleza”.

Beleza, arte e artesanato aparecem, assim, na Bíblia como dádivas de Deus. Elas não aparecem em isolado, mas como parte de um projeto mais amplo — a descrição do tabernáculo e sua construção. O “estético”, o que quer que seja, pertence a um todo mais amplo que tem vários fatores. O mesmo é verdade para o templo de Salomão, descrito em 1Reis 5—8, a visão do templo de Ezequiel em Ezequiel 40—48 e a nova Jerusalém em Apocalipse 21.1—22.5

O clímax da beleza e arte de Deus aparece em Cristo.

O Novo Testamento deixa claro que o tabernáculo do Antigo Testamento apontava adiante para o clímax da redenção. Deus vem para habitar com seu povo supremamente e tendo por clímax em Cristo. Cristo é chamado de Emanuel que “significa: ‘Deus conosco’” (Mt 1.23). João 1.14 anuncia que “o Verbo [a segunda pessoa da Trindade] se fez carne e habitou entre nós”. A palavra grega traduzida como “habitou” neste versículo é incomum e alude ao tabernáculo do Antigo Testamento onde Deus habitava, de forma que João 1.14 pode ser traduzido assim: “e o Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós”. João também indica que o corpo de Jesus é o templo final: “ele [Jesus], porém, se referia ao santuário do seu corpo” (João 2.21).

Assim, o clímax da beleza e arte de Deus aparece em Cristo. Nessa base, podemos inferir que Deus é de fato bela (como pode se ver em Ap 4.3). A sua beleza é a beleza original, arquetípica. Coisas belas nesse mundo possuem beleza de forma éctipa. A sua beleza foi especificada por Cristo, que é a Palavra de Deus. Hoje em dia, a arte nem sempre envolve uma representação de coisas belas, mas às vezes chama atenção para as coisas feias. O nosso mundo hoje não é inteiramente belo, parcialmente porque ele sofre sob os efeitos da queda no pecado (Rm 8.20-21). O artistas podem escolher representar a sua arte as tensões encontradas num mundo contaminado pelo pecado.

 

Adaptação de Vern S. Poythress, Redeeming Philosophy: A God-Centered Approach to the Big Questions (Wheaton, IL: Crossway, 2014), p. 225—228. Usado com permissão.

Toda a série “Redeeming” de Vern Poythres será publicada pela Editora Monergismo.

Tradução: Guilherme Cordeiro

Leave a Reply