Ética

Educando para a Liberdade por Peter Leithart

By 24 de outubro de 2018 No Comments

“Educar” vem do latim educare, “guiar para fora”. Toda educação promete um êxodo das trevas da ignorância para a luz do conhecimento. Toda educação proclama liberdade para os cativos. A questão é: que escravidão? Qual liberdade?

Não podemos responder definindo escravidão como “o que quer que iniba a minha vontade”, nem liberdade como “o poder de fazer tudo o que eu quiser”. Tais noções absolutistas de liberdade são autocontraditórias. Se a liberdade é limitada por qualquer coisa além da minha vontade e desejos individuais, então a liberdade não é mais absoluta. Mas o desejo é, ele próprio, um limite. Quando eu tenho fome ou sede, eu busco satisfações particulares: comida e bebida. O desejo sexual se impele em direção à gratificação sexual. Os desejos podem ser desviados, reprimidos, mascarados, mas eles retêm a mesma estrutura teleológica. O desejo é ordenado a fins, vinculado a um telos. “Liberdade de fazer o que quer que eu deseje” acaba com essa estrutura. Isso deixa o desejo sem fins.

A poeta russa, Vera Pavlova, expressa esse ponto sobre liberdade e desejo concisamente num poema arrebatador. Numa tradução [para o inglês] feita pelo seu marido, Steven Seymour, ela escreve:

Eu estou amando, logo, sou livre para viver

pelo coração, para improvisar carícias.

Uma alma está leve quando cheia,

pesada quando vazia.

A minha alma é leve. Ela não teme

dançar a agonia sozinha,

pois eu nasci usando a sua camisa,

e vou ressuscitar dentre os mortos vestindo essa camisa.¹

Pavlova começa conectando o ser à liberdade: “eu estou [sou, no original] … logo livre”, mas ela não sugere uma liberdade natural rousseauniana. Uma experiência específica conecta ser e liberdade: amor. A tradução captura muito bem a conexão com a aliteração “in love … to live” [primeiro verso, no original]. Contrariamente aos cínicos de todas as eras, Pavlova insiste que o amor não precisa ser uma prisão, mas que ele pode libertar. Libertada pelo amor, ela está livre para viver “pelo coração” e para “improvisar carícias”. A sua espontaneidade não é espontânea, mas é um efeito colateral do amor.

À medida que o poema continua, “coração” se modula na “alma” e a poeta introduz um paradoxo de alma e corpo. Corpos cheios são pesados, corpos vazios, leves. Almas, em contraste, não ficam pesadas quando cheias; na verdade, quanto mais cheias estiverem, mais leves, mais arejadas e mais etéreas elas ficam. O amor deixa a alma leve, libertando-a para viver pelo coração, enquanto que uma alma sem amor é pesada e vinculada à terra como um corpo cheio. Até a iminência da morte e da separação não puxam a alma do amante para baixo. A morte vai deixar um ou outro numa dança solo, mas a alma que ama diante da morte continua leve e livre. O amor vai ressuscitar ela dentre os mortos vestindo a camisa do seu amado.

Isso parece limitador, mas Pavlova insiste que é o contrário. O desejo é libertador não a despeito da sua fixidade, mas por causa da sua fixidade. “Siga o seu coração” é um conselho paralisante para alguém cujos olhos são impressionados por cada beleza que passa, cuja alma vazia é carregada por cada notificação de Twitter. Viver pelo coração é libertador somente para alguém cujo coração já foi tomado. Só quem ama é livre para agir espontaneamente sem qualquer perigo de a espontaneidade se autodestruir virando liberdade absoluta.

Fundamentalmente, Pavlova vê o amor como libertador porque ela não considera o seu amado como um limite para a sua liberdade, como um apologista da liberdade absoluta poderia considerar. É claro, alguns amores escravizam. Alguns amantes são exploradores sádicos. Mas, contrariamente a Rousseau, a sociedade não precisa manufaturar correntes.

O Outro amado pode ser um veículo para a liberdade, uma oportunidade de gerar novas expressões verbais e corporais de amor.

Estamos num território agostiniano agora, onde a chave é ordenar os nossos desejos corretamente, direcionar os nossos amores para coisas amáveis, coisas que merecem o nosso amor fixo. A partir dessa perspectiva agostiniana, a educação é genuinamente liberal, uma educação para a liberdade, somente se ela estiver disposta a treinar desejos, conduzindo estudantes para fora do Egito do amor próprio para abraçar objetos próprios de amor. “Onde estiver o vosso tesouro, aí também estará o vosso coração”, disse Jesus no Sermão do Monte. A educação é uma caça ao tesouro. É aprender onde colocar o seu coração, buscando aqueles tesouros que deixam a alma leve. 

¹ Poema original: 

I am in love, hence free to live 

by heart, to improvise caresses. 

A soul is light when full, 

heavy when vacuous. 

My soul is light. She is not afraid

to dance the agony alone, 

for I was born wearing your shirt, 

will come from the dead with that shirt on.

Peter J. Leithart, presidente do Theopolis Institute, e professor adjunto sênior de Teologia e Literatura no New Saint Andrews College, é o autor do livro Vestígios da Trindade (Editora Monergismo, 2018, compre aqui). Este artigo foi publicado originalmente em First Things.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.