Ética

Lei da Liberdade por Peter Leithart

By 15 de junho de 2018 No Comments

Hoje muitos reclamam sobre a negatividade das Dez Palavras. Claro, há alguns mandamentos positivos: lembrar o dia de sábado e honrar pai e mãe.

Na maioria das vezes, contudo, é uma lista de “nãos”. Não tenha outros deuses, não sirva a imagens, não carregue o Meu nome levianamente, não mate, furte, cometa adultério, dê falso testemunho ou cobice. Não, não, não. Isso inibe a minha liberdade. Deus diz que Ele tirou Israel da escravidão, mas parece que Ele só substituiu por uma forma diferente de escravidão, escravidão a Deus.

Na visão de Deus, o oposto é o caso. Essas palavras não inibem a liberdade. Elas são a “perfeita lei da liberdade” (Tiago).

Elas foram dadas a um povo redimido. As Dez Palavras não foram dadas para que Israel pudesse conquistar a sua alforria. As Dez Palavras são dadas a um escravo liberto para ensiná-lo a como viver na liberdade como um filho de Deus.

No Egito, os corpos deles pertenciam a Faraó, o tempo deles pertencia a Faraó. Aprendemos no fim de Josué que o Egito tinha conquistado até a devoção religiosa de Israel, o seu coração. No Egito, Israel tinha começado a adorar aos deuses de Egito.

Quando Yahweh os livra da escravidão, Ele não os livra para a livre agência absoluta. A livre agência absoluta é impossível. No mundo que Deus fez, o mundo que realmente existe, todo mundo serve a um senhor, todo mundo é um servo a um mestre ou outro. A questão não é se servimos, mas a quem servimos. Yahweh os livro da casa da escravidão (‘ebedim) a fim de tornar Israel o servo (‘ebed) de Sua casa, o filho que serviria até que recebesse autoridade na casa.

Uma nação caracterizada por desrespeito aos pais, workaholics, violência, inveja, furtos e mentiras não é livre. Isso é uma forma de escravidão. A Palavra de Deus nos liberta. A lei de Deus é boa. Guardá-la é bom para nós. Deus fala a Seu filho Israel para ensiná-lo a ser livre.

A Primeira Palavra é o fundamento da vida de liberdade a que o filho de Yahweh, Israel, é chamado. A libertação mais fundamental é a libertação de falsos deuses.

Literalmente, a Primeira Palavra diz, em sete palavras hebraicas: “Não terás para ti outro deus perante a Minha face”. Isso tem uma força específica. “Perante a face de Yahweh” significa “na Sua presença” e, especificamente, “na Sua presença no santuário”. Não se refere a um ranking (nenhum Deus acima de Mim), mas a posição (nenhum Deus na minha presença). A violação mais literal desse mandamento seria a ação de Manassés, que coloca outro deus logo no templo, perante a face de Yahweh.

Isso não significa, é claro, que Israel seja livre para ter outros deuses fora do santuário. Yahweh diz a Ezequiel (Ezequiel 14) que os anciãos de Israel que foram consultar com ele tinham colocado ídolos em seus corações. Eles tornaram seus corações um santuário para ídolos. Sempre que eles vêm perante a face de Yahweh, eles trazem os seus ídolos com eles. Eles colocaram outros deuses perante a face de Yahweh.

E isso é reforçado na nova aliança. Vemos a face de Deus na face de Jesus e Jesus habita nos nossos corações pelo Seu Espírito. Se colocarmos ídolos em nossos corações, estamos violando a Primeira Palavra, estamos colocando ídolos diretamente perante a face de Deus, tão verdadeiramente quanto Manassés colocou outro deus perante a face de Yahweh no templo.

Nenhum de nós tem um santuário para Baal ou Buda no nosso porão. Provavelmente, poucos de nós viram idolatria real na prática. Mas não deveríamos nos enganar pensando que estamos livres de ídolos, que não precisamos a libertadora Primeira Palavra: “não terás outros deuses perante a Minha face”.

O Senhor é o nosso Juiz, o nosso Salvador, o nosso Legislador. Ele é quem abençoa e quem amaldiçoa, o que carrega os nossos pecados, aquele em quem confiamos, aquele que fala com autoridade. (Devo o que se segue a David Powlison). Quando o trocamos por outros deuses e salvadores, quando procuramos outros para carregar os nossos pecados, quando confiamos, tememos ou amamos qualquer outro antes de Deus, somos idólatras. Os ídolos tomam os nossos corações e nos controlam.

Você se preocupa com a opinião pública? Você fica paralisado de medo com como o seu pai ou a sua mãe te avalia? Você está buscando a fama? É esse o seu objetivo último na vida? Você teme a desaprovação? Você colocou um ídolo, um juiz — opinião pública, um pai perfeccionista, uma mão crítica demais — no lugar de Deus, o Juiz. Destrua esse ídolo.

Você pensa esses pensamentos: “Se nós apenas tivéssemos um pouco mais de dinheiro, as nossas vidas seriam felizes e plenas. Se eu apenas conseguisse um emprego melhor, ou tivesse uma casa decorada com perfeição, então a minha vida seria boa”. Você estabeleceu um ídolo, um salvador — dinheiro, sucesso, luxo — que você acha que tornará a sua vida verdadeira e completamente abençoada.

Quando você está encurralado, você ataca e culpa aos outros? Você tem tanto problema com admitir que você está errado que você usa como bode expiatório sua esposa ou esposo, seus pais ou seus filhos? Você estabeleceu um ídolo, um bode expiatório que carregará o seu pecado. Ou você se flagela e se mutila por suas falhas e falhas conscientes. Você estabeleceu outro ídolo, você fez com que você mesmo carregasse os pecados, ao invés de confiar que Jesus carregou os seus pecados.

Qual voz está ressoando na sua cabeça? Quais imperativos você obedece? A voz na sua cabeça vem de propagandas, músicas populares, shows do YouTube ou da Netflix? Todos temos senhores e mestres. Livre agência não existe. Quem é o seu verdadeiro Senhor, não o que você professa, mas o que realmente fala com autoridade na sua vida? Quem está falando com você de qual santo monte? Se a voz na sua cabeça diz “Faça isso”, mas a voz do Sinai diz “Não”, a quem você ouve? Assim que, e tanto quanto, você silencia a voz do Senhor, você estabeleceu um ídolo, outro Senhor, no seu coração.

Os ídolos gostam de companhia. A idolatria é inerentemente politeísta. Os ídolos alimentam uns aos outros, se constroem um em cima do outro, mudam e se movimentam para manter o controle do seu coração. Os seus ídolos podem alimentar os ídolos dos outros. Como diz David Powlison, codependência é mais acuradamente, e mais biblicamente, caracterizada como co-idolatria.

Um marido tem um problema com alcoolismo. Na raiz, diz Powlison, é um problema com ídolos, e o santuário do seu coração está transbordando de falsos deuses. Ele ama o prazer mais do que Deus; ele busca paz e salvação temporárias numa fuga na garrafa; os seus companheiros de bar se tornam seus juízes e ele vive para ganhar a aprovação deles.

Às vezes, ele tira outro deus do armário: ele se enfurece com as reclamações da sua esposa, julgando-a como se ele fosse Deus ou empurrando seus pecados para ela, como se ela fosse o Servo Sofredor. Às vezes, ele se coloca na cruz num ataque de remorso. mas assim que outros deuses tomam o controle, ele volta ao bar.

Enquanto isso, o coração da sua esposa também está infestado de ídolos. Ela segue um roteiro de mártir, já que ela é a única que pode salvar a sua família e segurar todas as pontas; ela julga o seu marido; ela encontra conforto na aprovação de amigos; ela fica com seu marido irrecuperável porque ela teme viver sem a companhia de um homem.

Servir a um Deus deve ter sido perigosamente restritivo a Israel. Afinal, há outros deuses, outros poderes e forças no mundo. O que acontece se negligenciarmos um deles? Ele ou ela ficaria irritado? Se negligenciarmos o deus da fertilidade, podemos ficar inférteis. Se negligenciarmos algum deus, podemos estar perdendo algo.

Parece tolo, mas estamos tão lotados de ídolos quanto qualquer politeísta antigo. Para nós, há um só Deus e um só Senhor, Jesus Cristo. E quando o nosso culto se direciona a esse único Deus, os nossos corações estão indivisos e os nossos desejos, focados, as nossas vidas assumem uma coerência que não teriam de outra forma. Os ídolos nos despedaçam com suas demandas sempre instáveis e contraditórias. O único caminho para a liberdade é ter uma vida coerente e a única maneira de viver com coerência e integridade é guardar a Primeira Palavra, é adorar somente a Yahweh, é não ter outros ídolos perante a Sua face.

A sua vida não pode ser coerente sem adorar ao único Deus, que é Juiz, Salvador, Legislador e Portador do nosso pecado. E a vida de uma sociedade não pode ser coerente se cada um está buscando seus deuses independentemente.

“Não terás outros deuses diante de mim” é uma declaração de independência, uma carta para uma vida e sociedade livres de infindos deuses que competem pelo nosso amor, lealdade, esperança, confiança, os deuses que te seduzem a buscar vaidades.

Traduzido por Guilherme Cordeiro

Fonte: Law of Liberty