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Por que se tornar amigo de seus oponentes? A visão de Bavinck acerca da “amizade crítica”

por James Eglinton

 

Ano passado, a morte de Ruth Bader Ginsburg suscitou muitas discussões sobre o valor da amizade entre pessoas cujas perspectivas acerca da vida e do mundo são nitidamente diferentes. Ao longo de sua carreira, a progressista Ginsburg cultivou uma amizade duradoura com Antonin Scalia, seu colega juiz — uma figura que, ao menos nas categorias ideológicas, dificilmente poderia ser mais diferente dela.

A amizade deles se estendia a suas famílias, que por vezes celebravam juntos o Ano Novo. Numa fotografia memorável, via-se Scalia e Ginsburg montados num elefantes, durante uma férias de ambas as famílias na Índia. Numa época em que um amigo é em geral visto como alguém que vê o mundo como eu vejo, essa é, com efeito, uma imagem marcante.

Nos últimos anos, essa amizade deles, a de uma “dupla estranha”, foi tema de vários artigos de opinião, programas de rádio e até mesmo de uma ópera. Esse seu exemplo estranhamente contracultural fazia com que as pessoas se indagassem: por que eles gostariam de uma amizade assim? Como funcionava? Eles permaneciam sendo amigos ao ignorarem as diferenças, ou, pelo contrário, a amizade florescia justamente por causa disso? Como eles entendiam a natureza da amizade, em geral? Será que preciso de amigos de diferentes campos ideológicos? Estas perguntas, é claro, são relevantes para os cristãos: deveríamos também valorizar amizades desse tipo?

 

DUPLA ESTRANHA

Para responder a essas questões, podemos pensar numa amizade igualmente intrigante, entre um cristão e um cético radical — Herman Bavinck (1854- 1921), um dos grandes teólogos cristãos do século XX, e Christiaan Snouck Hurgronje (1857-1936), seu amigo de longa data e um cético liberal que posteriormente se converteria ao islamismo. No contexto deles, os Países Baixos de fins do século XIX e princípio do século XX, Bavinck e Snouck eram, de igual modo, figuras públicas de destaque, cuja profunda amizade os destacava como uma “estranha dupla”.

Bavinck e Snouck eram ambos filhos de pastores e se conheceram quando ainda eram estudantes na Universidade de Leiden, na década de 1870. A despeito desses seus pontos em comum, suas vidas dificilmente poderiam ter sido mais diferentes. O pai de Snouck era pastor na Igreja Reforma Neerlandesa da linha principal, e foi exonerado por “abandonar impiamente” sua primeira esposa e fugir para Londres com uma mulher mais jovem (a mãe de Christiaan). A família Snouck Hurgronje, de sobrenome duplo, pertencia à nobreza neerlandesa. Portanto, como jovem aristocrata, Christiaan veio de um ramo questionável de uma prestigiosa árvore genealógica.

Em contrapartida, os Bavinck vieram de uma cepa mais humilde. Jan, o pai de Herman, era filho de um carpinteiro que se tornou pastor na Igreja Cristã Reformada, denominação bem menor e teologicamente conservadora.

Tendo-se tornado amigos quando ainda eram estudantes, Herman e Christiaan permaneceram em contato pelo resto de suas vidas, não obstante a diferença em suas perspectivas só tenha aumentado ao longo dos anos. Não temos fotos de ambos montados juntos num elefante. Temos, contudo, uma vida inteira de cartas nas quais compartilham seus conflitos pessoais, tentam persuadir um ao outro acerca de questões de fé e política, leem e criticam os escritos do outro, e partilham das alegrias e lutas da vida.

Suas cartas são uma janela para uma amizade rica e sincera entre dois pensadores profundos que tinham crenças radicalmente diferentes acerca do cristianismo. Eles nos levam a pensar cristãmente sobre a natureza da amizade numa cultura em que a amizade cada vez mais é estruturada em torno de ideologias políticas que vêm como num pacote fechado, e na qual somos encorajados a buscar amigos em nossas bolhas.

 

PRIMÓRDIOS PRAGMÁTICOS           

Em seus anos como estudantes, a cultura em torno da Universidade de Leiden — a universidade mais antiga e mais prestigiosa dos Países Baixos — era dominada pelos filhos da aristocracia: o estudante típico de Leiden na década de 1870 tinha um duplo sobrenome nobre, vinha de uma família aristocrata e tinha ligações familiares com muitos de seus colegas, por sangue ou por matrimônio. Em princípio, Snouck pertencia a esse ambiente, mas Bavinck, não.

E, contudo, ambos descobriram rapidamente que eram estranhos ali: as origens da família de Bavinck não eram suficientemente privilegiadas, e a família de Snouck havia sido manchada pelo escândalo. Além disso, esses dois jovens eram críticos à teologia liberal ensinada por seus professores: Bavinck estava comprometido com a ortodoxia na doutrina e na vida, ao passo que o cético radical Snouck suspeitava da ousada e fácil heterodoxia dos professores.

Assim, embora ambos fossem “párias” ali (embora por diferentes razões), Bavinck e Snouck não se tornaram amigos por falta de opções: Bavinck não era o único aluno teologicamente conservador em Leiden, e Snouck se envolvia com um grupo de outros aristocratas liberais. Por que, então, escolheram dedicar-se a essa amizade, em particular? Em seus dois primeiros anos em Leiden, os estudantes tinham que cumprir disciplinas do tronco comum antes de partirem para o curso de graduação específico. Nesse período, Bavinck e Snouck se aproximaram pela primeira vez por causa de um desses cursos — uma disciplina de língua árabe —, que Bavinck achava enfadonho e difícil. A amizade deles começou quando ainda eram colegas de classe; tornou-se logo claro que ambos se devotavam à amizade do outro.

Em 1878, esses dois homens foram avaliados pela mesma banca. Bavinck formou-se com honras, ao passo que Snouck por pouco não foi aprovado. Bavinck considerou isso uma grave injustiça, embora tenha sido motivado por um desafeto pessoal que certo professor tinha pelo seu amigo, e recusou-se a aceitar seu diploma até que removessem a distinção acadêmica de honra. A resposta escrita de Snouck a Bavinck era que “uma amizade dessas me é infinitamente mais valiosa que palavras num pedaço de papel”. Ao final de seus anos como estudantes, a amizade deles era a de uma intensa lealdade.

 

DIREÇÕES DISTINTAS

Conforme as vidas de cada um deles prosseguiam, Bavinck e Snouck seguiram caminhos diferentes: Bavinck se tornou um reputado teólogo e viveu, até ao fim, em conformidade a seu tipo distinto de piedade cristã ortodoxa e socialmente engajada. Snouck obteve um doutorado em estudos islâmicos. Viajou para Meca — convertendo-se, na jornada, ao Islã, a fim de conseguir acesso à cidade restrita aos muçulmanos —, onde tirou algumas das primeiras fotos de Meca durante a peregrinação, o Hajj, as quais ele pouco depois publicou como livro, o que lhe trouxe fama internacional.

Ele viveu por anos onde hoje é a Indonésia, fixou-se ali como muçulmano (tendo assumido o nome de Abd al-Ghaffar), casou-se com mulheres muçulmanas e teve filhos muçulmanos, antes de retornar aos Países Baixos, onde reassumiu a identidade neerlandesa liberal e casou-se com uma mulher neerlandesa. Ele foi sem dúvida o mais célebre orientalista de sua geração, e, na época, era muito mais famoso que seu amigo teólogo (embora esta situação tenha hoje mudado).

A despeito dos marcantes contrastes entre suas crenças e vidas, Bavinck e Snouck permaneceram em contato regular — tanto pessoalmente quanto por cartas — ao longo de suas vidas. A partir de suas cartas, torna-se claro que ambos valorizavam uma “amizade crítica”, e acreditavam que a percepção de uma pessoa se embotava rapidamente, quando cercada apenas por aqueles que pensam do mesmo modo.

Um pensador realmente arguto, acreditavam eles, precisa de um amigo íntimo em quem possa confiar, mas com quem não compartilha suas pressuposições fundamentais. Bavinck certa vez descreveu sua amizade com Snouck como uma de “oponentes que são também amigos”.

Por essa razão, cada um deles regularmente lia e discutia os escritos do outro — com frequência, para discordarem veementemente. Suas interações acerca do Islã, da secularização, da autoridade das Escrituras e, sobretudo, sobre as reivindicações da fé cristã à verdade não nos deixa dúvidas que suas crenças eram antípodas.

É também provável, conforme demonstro em Bavinck: uma biografia crítica, que Bavinck provavelmente nada sabia da dupla vida islâmica de Snouck em Meca e na Indonésia. Ele aparentemente não percebeu, por exemplo, que Snouck havia se tornado muçulmano para entrar em Meca, e, pelo que consta, Snouck de fato mentiu para Bavinck quando confrontado acerca de seu casamento com uma adolescente muçulmana. Claramente, nem sempre era fácil preservarem essa amizade. E, no entanto, ela perdurou. O livro de Bavinck, A Filosofia da Revelação, produzido como uma obra de apologética e que se direcionava aos céticos, parece ter sido escrito, ao menos em parte, como um esforço para persuadir Snouck — ainda que, pelas posteriores discussões de ambos sobre o livro, ele aparentemente não tenha sido convencido pelos argumentos de Bavinck.

Embora ambos estivessem cientes de que a distância que os separava parecia apenas aumentar ao longo dos anos, eles permaneceram comprometidos com sua “amizade crítica” até ao fim. No dia anterior à morte de Bavinck, por exemplo, Snouck escreveu à Johanna Bavinck-Schippers, esposa de seu amigo, sobre sua última visita ao leito de morte de Bavinck: “Ainda estou bastante comovido pela minha última visita; deprimido mas também edificado. Nunca soube que meu bom amigo tivesse sido algo senão piedoso: 1874-1921”.

Há certamente algo intrigante acerca dessa amizade. Na história de Bavinck e Snouck, vemos duas pessoas que se faziam as mesmas perguntas, tanto teológicas quanto sociais, mas a partir de pressupostos e perspectivas inteiramente diferentes: é possível conhecer a Deus? Se sim, como? A religião é apenas um elemento da cultura humana (Snouck), ou uma realidade que aponta para algo superior (Bavinck)?

Vista ao longo de suas vidas, a amizade deles é uma conversação honesta e muito extensa entre dois pensadores que compartilhavam de uma dupla motivação: convencer o outro e aprender com ele. Um século depois, esse exemplo continua sendo uma lição: teve um papel nada pequeno na formação de Bavinck como o escritor perspicaz, arguto e persuasivo que muitos hoje amam. Contudo, também continua sendo um exemplo muito raro — tão raro, talvez, quanto a visão de juízes rivais no mesmo elefante.


James Eglinton é professor sênior Meldrum em Teologia Reformada na Universidade de Edimburgo. É autor de Bavinck: uma biografia crítica (Brasília, DF: Monergismo, no prelo).

Tradução: Fabrício Tavares de Moraes

Original em inglês: https://www.thegospelcoalition.org/article/bavinck-critical-friendship/

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