por Peter J. Leithart

 

Brad Dourif como Hazel Motes, pregador da Igreja Sem Cristo, do romance Sangue Sábio, de Flannery O’Connor.

 

Seguindo John McWhorter, escrevi recentemente sobre a religião do Antirracismo. Tara Isabella Burton a chama de religião da justiça social. Estamos falando, em muitos aspectos, sobre a mesma coisa: uma nova religião que é um arremedo de ortodoxia cristã. 

“A justiça social é uma religião”, escreve Burton em Strange Rites, que oferece a seus adeptos uma concepção coerente sobre o mundo, propósito, sentido, comunidade e rituais. Ela triunfa onde as outras fés falharam: “Ela reencantou um mundo ateu” (p. 177). Burton elabora:

 

Ela pega os diversos pressupostos do institucionalismo – sua priorização do eu, das emoções e da identidade; sua suspeita da autoridade, infligida pelo movimento do Novo Pensamento; sua visão utópica de um mundo melhor que, como a fênix, renasce das cinzas do mundo antigo – e os une numa narrativa visionária de resistência política e renovo moral (p. 178).

 

A religião da justiça social tem uma teoria sobre o eu e o pecado original: “Somos fundamentalmente tábulas rasas, cujas identidades opressivas e oprimidas nos são violentamente impostas pela sociedade” (p. 179). Nessa teologia pelagiana, “à medida que somos marginalizados, a sociedade corrompe a nossa bondade fundamental”. A libertação assume a forma do “amor-próprio como resistência política, uma reivindicação da dignidade inata e inerente de uma pessoa, surrupiadas pelos poderes hegemônicos” (p. 180). 

Ao mesmo tempo, a religião da justiça social nega a existência de um “eu” no sentido tradicional. Ela praticamente não tem lugar para a alma. As identidades “estão tão inextricavelmente ligadas a nosso lugar social que não temos eu fora delas”. Os especialmente privilegiados estão enredados em nosso lugar social, quase inescapavelmente também (p. 180). 

Para os privilegiados, a iluminação e a salvação podem ocorrer – se é que ocorrem mesmo – por meio da “obra árdua da abnegação” (p. 181), e se torna “um tipo de autodestruição” (p. 183). A verificação do privilégio “desafia o verificador a examinar como a sociedade os moldou e, ao mesmo tempo, a imaginar como eles poderiam ser sem ela – seus eus inatos, amorfos pelo privilégio” (p. 183). A mensagem é: você não tem eu além daquele socialmente construído; agora, destrua seu eu socialmente construído. 

Em alguns casos, a religião da justiça social fornece um caminho para um novo eu, particularmente “quando se trata de gênero”. Os transgêneros e “aqueles que não se sentem compatíveis com o padrão binário de gêneros […] transcendem o que consideram a associação social tirânica das normas de gênero com o sexo genital” (p. 183). 

É por isso que a fluidez sexual tornou-se tão central para a religião da justiça social: os transgêneros são ícones de autodestruição e auto-reconstrução. Eles simbolizam o arrependimento radical ao qual todos os privilegiados são chamados. 

A religião da justiça social tem uma epistemologia intrínseca. Em suas premissas, “a sabedoria institucional – especialmente o status quo acadêmico ou científico – não é errado ou falso, mas ativamente danoso” porque nos poupa “da verdade que temos diante dos nossos olhos. Nossos sentimentos são, em um sentido bem real, fatos” (p. 185). Percepções são “inerentemente autoritativas”, e “os ataques às nossas percepções têm o mesmo status ontológico que a violência física” (p. 185). 

A justiça social é estimulada por uma promessa escatológica: “que os seres humanos podem, devem e farão melhor. O novo mundo que inevitavelmente surgirá das cinzas de uma sociedade cristã patriarcal, racista, homofóbica e repressiva será infinitamente melhor, mais justa e mais acolhedora do que a de antes” (p. 178). 

A justiça social tem logrado êxito em “incitar uma comunidade moral – uma igreja – por meio de sua ideologia e seus rituais de purificação e renovação” (p. 189). Ela tem a sua própria forma de disciplina para policiar seus membros e identificar e destruir seus inimigos.

Burton considera que a justiça social seja uma das duas religiões “remixadas” com o potencial de servir como uma nova religião civil americana (a outra é o utopismo tecnológico). Como uma religião civil, “a cultura de justiça social tem tudo isso”. Se ela é “a nova religião civil da América – ou, pelo menos, uma delas – essa afirmação é justa” (p. 188-189). 

Os devotos da religião da justiça social exibem uma paixão admirável por consertar o mundo, bem como um zelo implacável por abnegação e disciplina. Essa paixão e zelo são equivocados. Mas o fato de que essa fé cativa a imaginação de tantos jovens é uma acusação a uma igreja laodiceana letárgica, que promete pouco e exige menos. 

A religião da justiça social se apropria dos elementos chaves da ortodoxia cristã – uma análise do pecado e do mal, um modo de salvação, disciplinas espirituais, uma comunidade com uma missão, uma esperança por um futuro de paz e justiça. Até mesmo sua epistemologia coincide, em pontos importantes, com as críticas cristãs ao racionalismo. Jesus nos chama para destruir nosso antigo eu, e pode nos chamar a renunciar privilégios herdados (como Paulo faz em Filipenses 3). 

Porém, todas as apropriações cristãs que a religião da justiça social faz são distorcidas por causa daquilo que lhe falta: Deus, Jesus e o Espírito. É uma Santa Igreja de Cristo sem Cristo.

 

Fonte: Theopolis Institute.

Tradução de Leonardo Bruno Galdino.