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A FILOSOFIA DA REVELAÇÃO – Sumário e Prefácio de Dr. James Eglinton e Rev. Gustavo Monteiro

By 19 de junho de 2019 No Comments

Sumário

Prefácio …………………………………………………………………………………………….. 9
Prefácio à edição brasileira ………………………………………………………………… 11
Prefácio do tradutor ………………………………………………………………………….. 29
Sumário analítico ………………………………………………………………………………. 47
I. A ideia de uma filosofia da revelação ……………………………………….. 51
II. Revelação e filosofia …………………………………………………………………. 81
III. Revelação e filosofia (continuação) ………………………………………….. 103
IV. Revelação e natureza ………………………………………………………………… 129
V. Revelação e história …………………………………………………………………. 153
VI. Revelação e religião ………………………………………………………………….. 175
VII. Revelação e cristianismo ………………………………………………………….. 197
VIII. Revelação e experiência religiosa ……………………………………………… 223
IX. Revelação e cultura ………………………………………………………………….. 255
X. Revelação e futuro ……………………………………………………………………. 277
Apêndice
O contexto das Palestras Stone de Herman Bavinck: cultura e política
em 1908 …………………………………………………………………………………………….. 315
Sobre o autor …………………………………………………………………………………….. 333
Índice de nomes ………………………………………………………………………………… 335

 

Prefácio à edição brasileira por Dr. James Eglinton e Rev. Gustavo Monteiro

Por que uma filosofia da revelação?
Como devemos entender o mundo e nosso lugar nele? As ciências naturais
são o melhor (ou único) modo de compreendermos o cosmos e tudo que nele se encontra? Como deveríamos entender a existência e progresso da cultura humana neste mundo? É possível pensar de modo significativo sobre a história ou sobre o futuro? Por que a religiosidade é norma, ao invés da exceção, através das culturas humanas? E qual é a relevância de Jesus Cristo em relação a esse pano de fundo?

Neste livro, Herman Bavinck demonstra que todas essas questões devem ser respondidas para nossa satisfação, caso queiramos viver uma boa vida. A busca por conhecimento é em si mesma um esforço incessante para compreender o relacionamento entre Deus, seres humanos e o mundo — um esforço que exige e traz à tona as questões mencionadas acima.

Deus, o mundo e o homem são três realidades com as quais toda ciência e filosofia se ocupam. A concepção que formamos deles, e a relação na qual estabelecemos cada um deles com o outro, determinam o caráter de nossa visão do mundo e da vida, o conteúdo de nossa religião, ciência e moralidade.

Ignorar essas questões, ou tratá-las como insolúveis, é existencialmente insatisfatório. Seria negligenciar a grandeza do espírito humano, que anseia por um conhecimento satisfatório de quem Deus é, de quem somos, e de como deveríamos existir neste mundo.

Como então essas questões tão importantes deveriam ser respondidas? Por onde deveríamos começar, a fim de encontrar um conhecimento satisfatório do mundo e de nosso lugar nele? Este livro é uma argumentação estendida em prol da necessidade de revelação nesse processo. O que é, pois, revelação? Em resumo: é simplesmente Deus desvelando-se a suas criaturas. É Deus fazendo-se conhecido a nós. Para Bavinck, esse conhecimento da revelação de Deus é indispensável para nossa busca por satisfação existencial. Mas se é verdade que somente nos é possível ter satisfação por meio da revelação de Deus, a questão que naturalmente assoma é: e quanto àqueles que não professam uma crença em Deus? Como essa afirmação se relaciona com aqueles cuja cosmovisão é fundamentada no naturalismo e querem responder às grandes questões da vida sem o recurso ao sobrenatural? Seria possível desenvolver respostas satisfatórias a essas questões partindo (e concluindo) de nós mesmos e de nosso mundo, ao invés de partir de uma noção aparentemente abstrata e distante tal como o conhecimento que Deus tem de si próprio?

A isso Bavinck responde que a revelação é aquilo do qual todos dependem. Entender e assimilar que essa é a realidade é descobrir a vida bendita, e negar ou viver ignorante quanto a isso é viver uma existência fraturada. Ninguém, diz Bavinck, vive consistentemente com a ideia de que não há nada além do mundo natural e de que a revelação provinda de fora é uma impossibilidade absoluta. Pelo contrário, aqueles que professam os credos do ateísmo e naturalismo estritos vivem, no entanto, a partir de uma confiança de facto na realidade da revelação. “[A] humanidade, não menos do que antes, continua a pensar e seguir um modelo supranaturalista.” Contudo, embora a maior parte das pessoas abordem as grandes questões relativas a Deus, ao eu e ao mundo de maneiras que admitem (ao invés de negarem) a realidade da revelação, poucos consideraram a importância da revelação de modo suficientemente profundo para tornar assim tão bela sua experiência de vida em toda sua coerência. À luz disso, este livro deveria ser lido como uma busca pela boa vida. É uma busca por aquilo que satisfará coração e mente, consciência e vontade.

Até esse ponto, trata-se de teologia. Contudo, levando-se em conta que seu autor era um notável teólogo sistemático reformado, o título de seu livro é de fato incomum: A filosofia da revelação. Em vez disso, poderíamos esperar talvez uma Teologia da revelação. Esta, porém, não era a intenção de Bavinck; optou, antes, por lançar os alicerces de uma filosofia da revelação. Por que esse teólogo legou a seus leitores uma filosofia, e não uma teologia, das grandes questões da vida?

Neste ensaio introdutório, buscamos guiar o leitor ao longo do texto e de seu argumento central, (i) apresentando o autor e (ii) seus interesses gerais teológicos mais importantes, (iii) delimitando o contexto no qual esse livro primeiramente veio à tona, e (iv) oferecendo comentários introdutórios sobre o modo de se ler A filosofia da revelação, em particular. Esperamos que este ensaio auxilie o leitor a apreender as razões pelas quais, de acordo com Bavinck, tanto uma filosofia da revelação quanto uma filosofia da revelação são necessárias para viver bem neste mundo e adentrar no mundo vindouro.

I. Esboço biográfico

Nosso autor nasceu em 13 de dezembro de 1854, na cidade neerlandesa de Hoogeveen. Herman Bavinck era filho de Jan Bavinck, um pastor reformado originalmente de Bentheim, cidade na fronteira entre Alemanha e Países Baixos, e Gesina Magdalena Bavinck (nome de solteira: Holland). O segundo dentre onze filhos, Bavinck nasceu no seio de uma Igreja Cristã Reformada (Christelijke Gereformeerde Kerk) conservadora e separatista. Após completar seu ensino médio, matriculou-se como estudante na Escola Teológica em Kampen, a cidade onde seu pai, à época, ministrava como pastor reformado. Contudo, passado um ano ali, ele tomou a ousada decisão de transferir-se para a faculdade teológica virulentamente modernista da Universidade de Leiden. A teologia que lhe era oferecida em Leiden dificilmente poderia ser mais diferente daquela ministrada no seminário cristão reformado em Kampen.

Por que, então, ele tomou essa decisão? Embora o jovem Bavinck tenha passado por algo semelhante a uma crise de fé (que por fim superou) enquanto estudava em Leiden, sua escolha em estudar em Leiden não deveria ser interpretada como um abandono da teologia ortodoxa. Pelo contrário, sua escolha foi motivada primeiramente pela busca por um ensino acadêmico mais rigoroso em teologia do que aquele que poderia ser oferecido na Kampen daquela época.

No período entre 1874 e 1880, Bavinck estudou sob os auspícios de indivíduos como Johannes Scholten e Abraham Kuenen — as estrelas de então da teologia acadêmica neerlandesa — em Leiden. Ali encantou-se com a abordagem científica de seus professores, embora frequentemente se visse em profundo desacordo com os pressupostos e conclusões doutrinais deles. No devido tempo, passou a ser influenciado por Abraham Kuyper, a estrela em ascensão de uma nova onda do neocalvinismo holandês. Seu pastor reformado em Leiden, J. H. Donner, apresentou-o ao Partido Antirrevolucionário de Kuyper (um movimento político cristão dirigido contra a influência anticristã da Revolução Francesa sobre a sociedade neerlandesa). Em Leiden, Bavinck escreveu uma tese de doutorado sobre a ética do reformador suíço Ulrico Zwinglio, e subsequentemente buscou a ordenação na Igreja Cristã Reformada. Em 1881, tornou-se pastor da congregação em Franeker, uma pequena cidade
na província setentrional neerlandesa da Frísia.

No ano seguinte Bavinck foi chamado para ensinar teologia em Kampen, onde ensinou de 1883 a 1901. Nesse período escreveu sua obra mais importante, a Dogmática reformada: um clássico moderno da teologia sistemática. Casou-se com Johanna Schippers, em 1891. Johanna era dez anos mais jovem que Herman. O único filho do casal, uma menina chamada Johanna Geziena, nasceu em 1894. Durante seu tempo em Kampen, Bavinck e Kuyper eram as figuras centrais na União das Igrejas Reformadas de 1892, que testemunhou a fusão da Igreja Cristã Reformada com um grupo liderado por Kuyper (o Doleantie), que havia anteriormente rompido com a Igreja Reformada Holandesa. Uma década depois dessa União, Bavinck aceitou o posto de professor de teologia na Universidade Livre de Amsterdã (Vrije Universiteit Amsterdam).

Esse período de sua vida foi marcado por um amplo e completo engajamento nos campos da política (por meio do Partido Antirrevolucionário), filosofia e educação. Em 1908, ele ministrou as renomadas Palestras Stone no Seminário Teológico de Princeton, nos Estados Unidos. Essas Palestras foram então publicadas como esta obra, A filosofia da revelação. (Seu colega Kuyper também ministrou as Palestras Stone em 1898, que se tornaram seu célebre livro Calvinismo.) Em 1920, após pregar no Sínodo, Bavinck sofreu um ataque cardíaco. Daí em diante sua saúde começou a decair. Morreu em 29 de julho de 1921.

Embora seja possível traçar o desenvolvimento do pensamento de Bavinck conforme amadurecia, sua teologia (vista ao longo de sua vida) permaneceu consistente em seu compromisso a um número considerável de ideias centrais. Dois desses compromissos são desenvolvidos tanto na Dogmática reformada quanto em A filosofia da revelação: (i) a cosmovisão trinitariana-orgânica de Bavinck, e (ii) sua crença de que a graça restaura a natureza. É importante ter em mente esses princípios gerais para ler A filosofia da revelação de modo perspicaz.

II. Interesses teológicos centrais

A cosmovisão trinitariana-orgânica de Bavinck
A obra de Bavinck é essencialmente um esforço monumental para desenvolver uma cosmovisão centrada no Deus triúno, incluindo-se a teologia (no caso de sua Dogmática) e a filosofia (no caso de Filosofia da Revelação). À antiga convicção de Agostinho de que nossos corações permanecem inquietos até descansarem em Deus, Bavinck acrescenta que nossas mentes permanecem insatisfeitas até que nossos pensamentos sejam trazidos novamente à Trindade. A realidade da coexistência gloriosa e eterna como Pai, Filho e Espírito Santo era tanto o princípio quanto o fim da empresa teológica de Bavinck. O Deus triúno é o fator mais importante no pensamento de Bavinck. É a realidade pela qual todos os demais fatores são medidos. Essa crença subjaz às várias direções que Bavinck toma em A filosofia da revelação: é somente quando aprendemos a pensar pelas grandes questões da vida (quem é Deus? Quem sou eu? Como devo viver?) à luz da autorrevelação de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, que a vida deixa de ser fragmentada e desarticulada.

Esse compromisso com uma cosmovisão focada no Deus triúno dá ao pensamento de Bavinck um molde bastante particular, afetando o modo como Bavinck percebia todas as coisas: o universo, a sociedade humana, a igreja e o ser humano. Em resumo, embora Bavinck acreditasse que a triunidade de Deus (isto é, que Deus é Três-em-Um, e enquanto tal, é o modelo supremo da unidade-na-diversidade) fosse absolutamente singular e não pudesse ser reproduzida em qualquer outro lugar, ele também acreditava que todas as coisas criadas pelo Deus triúno de algum modo remetiam à essa unidade–na-diversidade divina. O universo é, afinal de contas, a revelação geral de seu Criador triúno.

Por conseguinte, embora possamos encontrar somente em Deus essa fórmula do Três-em-Um, encontramos, porém, indicadores da triunidade divina por toda parte: na vasta diversidade interna deste universo que é, porém, unificado, na rica tapeçaria da cultura e sociedade humanas, na natureza complementar dos gêneros humanos, na vida da família e da igreja, na possibilidade de uma história coerente e dotada de propósito, na natureza da inspiração bíblica, dentre outros exemplos.

A terminologia favorita de Bavinck quando escrevia acerca da unidade–na-diversidade centrada em Deus é a do “orgânico”. O mundo criado pela Trindade, e a imagem da Trindade (o ser humano individual e, coletivamente, a raça humana) que nele se encontra, são mais adequadamente descritos como organismos, ou como orgânicos em suas existências. (Como pano de fundo de tudo isso, é também interessante saber que o constante impulso de Bavinck para falar de Deus como Trindade e da criação como orgânica procede em larga medida de sua reação ao ensino recebido em Leiden. Lá, o Professor Scholten enfatizava que o mundo foi ordenado segundo linhas rígidas, fatalistas, mecânicas e deterministas, e por conta disso a ideia de Deus como Trindade tinha pouca importância.) Em A filosofia da revelação, a rejeição
e Bavinck à cosmovisão mecanicista salta aos nossos olhos. No lugar dessa cosmovisão, ele apresenta uma visão do mundo que somente é compreensível (e desfrutável) à medida em que tanto sua diversidade interna quanto sua unidade e coerência totais são mantidas. Esta obra, portanto, é um exemplo estendido de sua forma trinitariana-organicista de pensamento, conforme é aplicada a um leque de tópicos (filosofia, o mundo natural, a história, religião, cristianismo, experiência religiosa, cultura e o futuro).

A graça restaura e aperfeiçoa a natureza

Seguindo essa linha, os leitores deste livro também devem ter em mente a crença de Bavinck de que a graça restaura a natureza. A estrutura básica da cosmovisão de Bavinck é que o Deus triúno criou um mundo bom, com ordem e propósitos devidos; que, em seguida, a criação caiu no pecado, corrompendo sua ordem e sua direção designadas por Deus — criação esta que o Deus triúno então trabalha para redimir em graça, para a consecução de sua finalidade de glorificar eternamente a Deus. A obra de Deus na redenção é a restauração das coisas ao seu caminho e meta originais (bons): a graça de Deus não introduz substâncias ou elementos novos na criação, nem remove as coisas que estiveram originalmente presentes antes da Queda. A graça não suplementa a natureza, como se a obra original de criação fosse de algum modo insuficiente para alcançar sua finalidade. Antes, a graça de Deus restaura e aperfeiçoa essa mesma natureza criada. Conduz as coisas de volta ao modo como deveriam ser antes que o pecado fizesse seu horrendo caminho pela criação. A graça nos conduz novamente àquilo que Deus, no mundo pré-lapsariano, viu como sua criação “muito boa”.

Embora esse ponto soe um tanto abstrato num primeiro momento, suas consequências práticas são consideráveis. Com base em nossa própria visão do mundo, sua maior implicação é que o mundo — conforme Deus o criou, originalmente — era inerentemente bom. Uma vez que essa natureza incontaminada pelo pecado não precisava ser aperfeiçoada pela graça (como é o caso de grande parte do pensamento católico romano), torna-se óbvio que as coisas que se encontravam nesse mundo ainda não caído deveriam ser afirmadas e celebradas. Esta é a base na qual Bavinck afirma que o mundo físico — enquanto criação de Deus — é, em essência, bom, ao invés de neutro ou maligno. Embora estejam agora afetadas pelo pecado, coisas como cultura, arte e ciência não são más em si e de si mesmas, mas todas têm um lugar na história do desenvolvimento da criação rumo a seu objetivo de glorificação perfeita de Deus. O cristianismo não deveria focar-se em nossas almas enquanto ignora nossos corpos, o mundo físico ao nosso redor ou o ambiente cultural no qual atuamos. A ideia de que “graça restaura e aperfeiçoa a natureza” é, em seu âmago, uma afirmação condicional do mundo. No mundo pós-lapsariano, a graça não remove nossa existência corporificada, nem exige que vivamos vidas ascéticas ou desdenhemos esforços culturais humanos (passados, presentes ou futuros). Antes, a graça atua para restaurar todas essas coisas à sua beleza e santidade naturais.

A graça de Deus não eleva de algum modo a natureza, mas também não existe fora e distante de nosso mundo. Ao restaurar a natureza, a graça faz sua presença conhecida em nosso meio. Confronta-nos com nossa necessidade de redenção na graça. Sua implicação óbvia é que a natureza, conforme se encontra presentemente, necessita de restauração, e que a totalidade da vida permanece fraturada até que a graça de Deus comece a operar sobre ela. Para Bavinck, o princípio de que a “graça restaura e aperfeiçoa a natureza” dá à luz a uma filosofia de sua revelação (isto é, desse princípio), sem a qual permaneceremos mal equipados para viver coram Deo. Essa ideia está profundamente integrada, por exemplo, nas motivações de Bavinck para um compromisso com as ciências naturais encontradas em A filosofia da revelação.

III. O contexto de Filosofia da revelação

Bavinck desenvolveu esses compromissos numa extensa “filosofia” da revelação ao longo da série de palestras (as Palestras Stone) que fora convidado a ministrar no Seminário Teológico de Princeton (Nova Jersey, EUA), em 1908.

Essa, contudo, não foi sua primeira visita à América do Norte. Ele havia estado ali anteriormente em 1892, enquanto ainda era professor em Kampen. O propósito dessa viagem foi primariamente eclesiástico: nos eventos subsequentes à União das Igrejas (1892), Bavinck foi enviado à América do Norte para explorar as relações entre as duas denominações neerlandesa e americana: a Igreja Cristã Reformada e a Igreja Reformada na América. Nessa fase de sua vida, Bavinck estava ocupado sobretudo com sua teologia dogmática. Sua primeira viagem à América se deu enquanto ele preparava sua Dogmática reformada.

A segunda visita à América, contudo, deu-se num estágio diferente no desenvolvimento de Bavinck. Por volta de 1908, Bavinck atuava como professor em Amsterdã havia seis anos, ao passo que sua Dogmática reformada já estava sendo publicada há treze anos. Sua transferência para a Universidade Livre marcou uma virada para as consequências de sua teologia dogmática nas outras áreas da vida: ele se tornou profundamente ativo na política neerlandesa, e começou a publicar sobejamente sobre assuntos além de teologia sistemática. Seu reconhecimento internacional, porém, esteve atrelado à presença de seu amigo Geerhardus Vos (1862-1949), no Seminário Teológico de Princeton.

Vos, que ensinou em Princeton de 1893-1942, havia emigrado dos Países Baixos para a América com seus pais, em 1881. Tornou-se bastante íntimo de Bavinck e Kuyper enquanto fazia sua pós-graduação na Europa, tendo sido por fim convidado por ambos os teólogos para ministrar aulas sobre o Antigo Testamento na Universidade Livre. Vos e Bavinck mantiveram um permanente contato que ofereceu a Bavinck uma porta de entrada valiosa para a cultura americana.1 Embora o convite para ministrar as Palestras Stone tenha partido de B. B. Warfield, muito provavelmente a influência de Vos exerceu um papel decisivo para que tanto Kuyper quanto Bavinck fossem escolhidos para essa ocasião.

IV. Uma teologia da revelação para um objetivo filosófico

Para que tenhamos uma compreensão mais profunda acerca do motivo pelo qual Bavinck entendia que o conceito de revelação era útil para a construção filosófica, foquemo-nos em sua teologia da revelação, valendo nos do auxílio de sua Dogmática reformada. Em primeiro lugar, veremos como Bavinck buscou colocar a teologia reformada clássica da revelação em contato íntimo com seu contexto contemporâneo (no caso, o contexto moderno), a fim de rearticular as doutrinas reformadas com nuances filosóficas e teológicas, examinando e apropriando-se de certos aspectos das teologias e filosofias modernas. Em segundo lugar, indicaremos como Bavinck buscou usar essa reconstrução da doutrina clássica para seu propósito neste livro, para construir uma filosofia global sobre a ideia de revelação.

Conforme mencionado anteriormente, a revelação, para Bavinck, é o autodesvelamento de Deus para suas criaturas. Essa breve definição, embora incompleta, tem os méritos de abarcar as duas ideias mais importantes transmitidas pelo termo “revelação”, seus dois lados. Primeiramente, é conhecimento de Deus. Em segundo lugar, é para nós. É precisamente na união desses dois lados (Deus e homem) que a maravilhosa, significativa e derradeira importância da revelação se encontra.

Para desenvolver isso, precisamos começar com o próprio conhecimento (não mediado) que Deus tem de si próprio. Deus — e somente Deus — conhece a si mesmo plenamente. Uma vez que se deleita nesse conhecimento, Deus escolhe desvelar sua gloriosa autoconsciência. Ele decide compartilhar desse autoconhecimento num ato de autorrevelação. Ele torna-se a si mesmo conhecido, externamente a si, aquilo que anteriormente só era conhecido dentro de si próprio. Para Bavinck, o ponto crucial é que a revelação é o único meio pelo qual uma criatura pode chegar a conhecer Deus. É uma transação de uma só via, de Deus para nós. Aquilo que, de outro modo, seria um completo mistério é-nos desvelado conforme Deus Pai, Filho e Espírito Santo descerra a alegria que ele teve eternamente em sua personalidade triúna. Assim, a revelação se dá como o fruto da alegria que a Divindade encontra dentro de si mesma. Deus descerra o amor, infinidade, simplicidade, majestade, perfeição, complexidade e unidade da Divindade Triúna.

(a) Desenvolvimento histórico 

As primeiras reflexões, na teologia cristã, sobre o conceito de revelação
começaram por meio da distinção entre revelação “natural” e “sobrenatural”. Desde seus primórdios, a igreja afirmou que Deus se revela na natureza e, além disso, mediante meios “sobrenaturais”, como milagres, visões, palavras proféticas e, supremamente, em Cristo. A distinção desses dois tipos de revelação serviu bem aos propósitos dos apologetas do cristianismo primitivo, que buscavam vindicar a plausibilidade da religião cristã perante a filosofia pagã, e abrir espaço para o uso da filosofia em sua teologia (natural). Na Idade Média, houve várias tentativas de extrair as doutrinas cristãs da natureza anteriormente à — ou à parte da — análise das Escrituras.

A Reforma levou a cabo certa retificação metodológica, e embora a distinção natural/sobrenatural não tenha sido inteiramente contestada, as Escrituras receberam, na teologia, uma primazia mais evidente na tradição reformada, ao mesmo tempo em que a insuficiência da revelação natural e os perigos da teologia natural foram evidenciados.3 Até o período pós-Reforma, a distinção entre as revelações “natural” e “sobrenatural” pressupunha uma continuidade entre ambas e entre seus produtos. O iluminismo, contudo, sinalizava uma ruptura da ligação entre o natural e o sobrenatural. Mesmo no domínio da teologia cristã essa ruptura foi percebida, a qual induziu a emergência das teologias modernas que rejeitavam inteiramente a revelação sobrenatural, de modo que a teologia natural (isto é, a religião natural) tornou-se, para elas, a única teologia possível.

Ora, foi na ressaca do iluminismo, logo antes da época de Bavinck, que surgiu um protesto contra a chamada teologia naturalista. Bavinck, consequentemente, percebe que a distinção entre revelação “natural” e “sobrenatural”, especialmente após o iluminismo, era de fato ilusória, inútil e exigia correção. Em primeiro lugar, a religião e teologia jamais poderiam ser fiéis a seu sentido caso fossem completamente “naturais” (na acepção então mais recente, isto é, anti-sobrenaturalista). Se é para a revelação ser efetivamente revelação, então deve necessariamente apontar para Deus, sendo pois inevitavelmente sobrenatural. Uma revelação não sobrenatural é, portanto, impossível. Por conseguinte, Bavinck insiste que a teologia cristã deveria expressar claramente que toda revelação é sobrenatural em sua origem e caráter; ela revela Deus e dele procede, mesmo se os meios pelos quais Deus escolhe para transmiti-la sejam a própria ordem natural.  A revelação é sempre um “ato livre e consciente
de Deus”.

Traçando um raciocínio paralelo, toda revelação é, em certo sentido, natural, isto é, em relação a seu canal. Os meios usados por Deus para transmitir a revelação não estão fora do domínio que ele criou. Esses meios de revelação, como a ordem natural, linguagem (oral ou escrita), sonhos, visões e epifanias, a carne humana de Cristo, seus milagres, sofrimentos e ressurreição, usam, com efeito, categorias criadas (portanto naturais) como meios. A autorrevelação de Deus é pois sempre sobrenatural no tocante à fonte e sempre natural com relação aos meios, pois somos seres criados entrando em contato com o Deus Criador. Por seu caráter, a revelação nos ensina que há uma íntima ligação entre o “sobrenatural” (origem e conteúdo) e o “natural” (meios e categorias); “todos os seres humanos, por natureza, reconhecem o sobrenatural”.

Essa perspectiva é mais abrangente que aquela apresentada na teologia cristã primitiva. Consequentemente, Bavinck prefere uma modificação da antiga distinção “natural/sobrenatural”: a distinção (agora) difundida entre revelação “geral” e “especial”.8 Em razão da diversidade que há em relação a esses conceitos familiares, apresentemos o que Bavinck entende como a melhor maneira de articular esses termos.

(b) Desenvolvimentos modernos

Primeiramente, Deus se revela de modo geral, isto é, a todas as pessoas, em virtude simplesmente de serem criaturas racionais de Deus no mundo criado por Deus. De acordo com o ensino bíblico e das imagens apresentadas principalmente em Salmos 19 e Romanos 1, o homem conhece a Deus de forma imediata, porque ele não pode obliterar o brilho da glória de Deus em tudo aquilo que foi criado por Deus. Todas as coisas guardam as marcas de serem criaturas de Deus. Consequentemente, nessa revelação geral, em que “não há palavras”, como diz o salmista, Deus é revelado na própria existência do universo.

Em segundo lugar, e junto a isso, Deus também realiza outra forma de autodesvelamento, que é chamada de revelação especial. A revelação especial não é necessariamente sinônimo de revelação verbal. Não é suficiente distinguir a revelação geral e especial simplesmente pela presença ou ausência de palavras. A revelação especial também vem a nós por meios que não são verbais, mediante os atos de Deus – por exemplo, quando Deus muda o curso da natureza por nossa causa, como fez no deserto usando uma nuvem e uma coluna de fogo para guiar seu povo. De igual modo, quando Deus pune seus inimigos, expressando sua ira justa, ou quando salva um povo, revelando sua misericórdia e graça. Com efeito, a Bíblia mostra que o padrão divino da revelação especial se dá sempre por meio de uma combinação de ações e palavras.

Esse tipo de revelação é chamado especial porque não está imediatamente disponível a todos e a todo o tempo; é dada, de maneira variada, em certos lugares no espaço, em determinados pontos no tempo, e com conteúdos específicos variados. É transmitida historicamente. As expressões “revelação geral” e “revelação especial” podem ser, portanto, melhor compreendidas como termos paralelos à “providência geral” e “providência especial”.

Mesmo que se possa distingui-las, não se deve separar um tipo de revelação do outro. Na verdade, a relação entre ambas é extremamente vital e intricada. A revelação geral nos fornece a estrutura básica sobre a qual a revelação especial se assenta. “[O ato de] Criação é a primeira revelação de Deus, o início e o fundamento de toda a revelação subsequente.” A criação, conforme estruturada primordialmente por Deus (vista aqui não estaticamente, mas de modo a incluir seu governo geral), provê os elementos que são reestruturados por Deus a fim de transmitir suas subsequentes revelações. Desse modo, essas duas formas de revelação são mutuamente dependentes, mutuamente delineadoras, e existem, unidas, desde o princípio. Conforme Bavinck observa: “A revelação geral conduz à revelação especial, que, por seu turno, aponta novamente para aquela. Uma chama pela outra, e uma sem a outra permanece ininteligível e imperfeita. Juntas elas proclamam a multiforme sabedoria que Deus manifestou na criação e na redenção”. A imperfeição e
ininteligibilidade de cada tipo de revelação num hipotético isolamento entre si são elementos importantes para que se compreenda a teologia de Bavinck. As duas formas de revelação não são passos sucessivos, pois não atuam isoladamente; assemelham-se mais a dois aspectos indissolúveis de um todo orgânico, para usar a imagem favorita de Bavinck.

A fim de examinar mais profundamente o caráter das revelações geral e especial, devemos entender sua função em nosso conhecimento. Ora, para
que tenhamos conhecimento, é necessário que exista uma correspondência real entre nossos pensamentos, o mundo externo e os pensamentos de Deus. Esse tipo de correspondência, segundo Bavinck, é responsável pela ligação orgânica estabelecida por Deus, dentro do domínio criado, entre sua criação, nossa racionalidade pessoal na qual Deus se reflete, e a revelação de Deus.

Presentes em sua [de Deus] mente estão as ideias de todas as coisas; todas as coisas estão baseadas nos pensamentos e são criadas pela palavra. É de sua boa vontade, contudo, reproduzir em seres humanos feitos à sua imagem um conhecimento ectípico que reflete esse conhecimento arquetípico (cognition archetypa) em sua própria mente divina. Ele faz […] revelando-as à mente humana nas obras de suas mãos.

Dessa forma, devemos compreender as distinções e ligações próprias existentes entre estas três coisas: (1) o que está na mente de Deus, (2) o que é demonstrado em sua criação, (3) o que está em nossas mentes. É preciso, no entanto, distinguir entre nosso conhecimento da revelação de Deus (que, não obstante, é um reflexo dela) da revelação em si. Qualquer formulação que venhamos a dar ao conteúdo da revelação já é um deslocamento para a teologia, ciência ou filosofia. Nosso conhecimento é nossa resposta à revelação de Deus.

Em termos concretos, quando dizemos, seguindo a Bíblia, que a revelação geral revela Deus como criador, já estamos fazendo teologia. Essa explicação verbal não é a revelação geral “pura” que recebemos de Deus. Quando verbalizamos o conteúdo da revelação geral, já estamos fazendo teologia. De semelhante modo, quando compreendemos a revelação de Deus nas Escrituras, ou quando rearticulamos o que nos foi dado pela revelação especial de Deus, estamos fazendo teologia. A revelação de Deus é e permanece sendo o que é, objetiva e externamente a nós. Conforme Bavinck nos explica sucintamente: teologia e revelação diferem assim como o homem difere de Deus.

A revelação geral é e continua sendo uma revelação em que “não há palavras”. É pré-cognitiva. Calvino habitualmente se valia da ideia de um “senso” da divindade. Um senso não é o mesmo que sua rearticulação teológica ou verbal. Bavinck usa a linguagem mais moderna do sentimento ou intuição, que ele julgava bastante útil, e que procede de Kant e Schleiermacher. Para Bavinck, seguindo Schleiermacher, a revelação geral imprime em nós o sentimento de dependência absoluta, e na esteira de Kant, uma sensação de liberdade. Esses sensos, sentimentos ou intuições da presença e poder (dependência) divinos, assim como de nossa distinção constitutiva e pessoal em relação a ele (liberdade), são a operação contínua da revelação geral de Deus, formando nossa autoconsciência.

Deus usa essas intuições para dar sentido a sua revelação especial a nós. A revelação geral “nos faz conhecer o poder de sua [de Deus] mente”, ao passo que a revelação especial é um “descerramento da grandeza do coração de Deus”. A revelação geral imprime sobre nós a realidade de quem Deus é (em contraposição a quem somos), nos sentimentos gêmeos de dependência e liberdade. A ideia de “poder” abarca esses sentimentos. A revelação especial, por outro lado, expressa quem Deus é para conosco, apropriando-se das noções de Deus, homem e mundo comunicadas pela revelação geral e ordenando-as num sentido histórico-relacional — uma revelação do coração de Deus. A revelação geral fornece os personagens do enredo, que é então desenvolvido na revelação especial.

A revelação especial seria ininteligível caso a revelação geral não fornecesse, em nossa própria autoconsciência, a percepção do ser de Deus, do ser do homem, do mundo, do tempo e espaço. Todos estes elementos são necessários a fim de serem reunidos nas declarações da revelação especial. Essas declarações (que podem ser apresentadas em palavras ou atos) correlacionam os seres, ações, características e outros entes. A revelação geral, de igual modo, seria ininteligível caso a revelação especial não fornecesse a interpretação necessária e as relações adequadas a seu conteúdo e função não proposicional.

Tendo, pois, visto o que é a revelação, podemos nos voltar agora, como Bavinck o fez, para o desenvolvimento da importância da revelação em nosso conhecimento do mundo. Este é o objetivo de Bavinck no presente trabalho: desenvolver a implicação da ideia de revelação numa filosofia global, uma filosofia que levará em conta a presença e função permeantes da revelação de Deus.

(c) Filosofia como resposta à revelação 

Assinalamos anteriormente que a revelação é um movimento de mão única para reunir Deus e homem. Procede de Deus em direção a nós. De uma forma geral, é possível designar a outra direção desse relacionamento — a das criaturas humanas rumo a Deus — de religião (nossa reflexão teológica sobre a revelação é parte da religião). Na perspectiva de Bavinck, revelação e religião se relacionam intimamente. Uma exige a outra. A revelação é um pré-requisito da religião. Conforme Bavinck assinala, jamais houve no mundo, ou na história, “religião sem [a ideia de] revelação”. A revelação de Deus exige que suas criaturas humanas lhe respondam com reverência e temor devidos, que deem a Deus o que é de Deus, que eles se relacionem consigo como aquele que é completamente digno de louvor incessante. Contudo, há uma importante advertência aqui. Na mesma proporção que Bavinck relaciona esses dois termos, ele também é cuidadoso em distingui-los. A revelação e a religião devem ser distinguidas como duas coisas essencialmente diferentes. Não são dois aspectos ou dimensões diferentes de um único evento. “Revelação e religião… não são duas manifestações de uma mesma coisa, mas diferem entre si como Deus difere do homem, e o Criador, da criatura.”

Além das respostas ético-religiosa e teológica, outra importante resposta à revelação não deve ser ignorada. Bavinck é pronto em lembrar-nos que a
revelação não correlaciona homem e Deus num vácuo, mas, pelo contrário, vem a nós no tempo e no espaço. A revelação não é uma ligação exclusiva entre Deus e o sujeito humano religioso em particular, somente; antes, tem um interesse mais amplo, mais extenso e está embutida na natureza e na história. É o que Bavinck chamava de a catolicidade do escopo da revelação de Deus. A revelação trata sobre Deus, trata sobre o homem, mas, ao fazê-lo, trata sobre todas as demais coisas, também. Essa catolicidade (ou universalidade) do escopo pode ser já percebida nos primeiros versículos da Bíblia: no princípio, Deus criou os céus e a terra. Isso indica que Deus tem em vista todo o cosmo em sua revelação e como parte de nossa resposta religiosa.

Portanto, assim como, perante a revelação, a religião deve apresentar-se como a resposta ética pessoal apropriada, de igual modo, Bavinck acreditava, um aspecto específico de quem somos — a nossa razão — exige que uma filosofia também se apresente perante tão grande e abrangente revelação. O indivíduo que recebe a revelação de Deus não a recebe de um modo interiorizado — ela não é dada de maneira desassociada ou indiferente para com o resto da realidade criada. Uma vez que a revelação é dada na e através da criação e da história, e está sempre relacionada à totalidade da criação, deve-se buscar uma filosofia (isto é, uma resposta razoável e global à revelação de Deus). Devemos “traçar a ideia de revelação, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, e correlacioná-la com as demais áreas de nosso conhecimento e vida”. O projeto de Bavinck é, portanto, correlacionar homem, criação e Deus, dar ao conhecimento revelado de Deus um lugar de importância central em nosso conhecimento como um todo. Esse modo de pensar coloca a relação entre Deus e homem (a religião) dentro do contexto da relação mais ampla entre Deus, homem e criação. Por conseguinte, ao buscar tal filosofia, que tem sua seiva mesma na revelação, deve-se “traçarem todas as direções as linhas de conexão estabelecidas pelo próprio Deus entre a revelação e as inúmeras esferas do universo criado”, pois a revelação é “a pressuposição, a fundação, o segredo de tudo aquilo que existe, e em todas as suas formas”.

A que exatamente se assemelha uma filosofia? Uma vez que o conhecimento é uma resposta humana à revelação de Deus, há de assemelhar-se a um produto humano. Não deve ser uma simples radiografia daquilo que é revelado; nem é uma mera radiografia da realidade. Bavinck compara essa filosofia a uma pintura, que trabalha com aquilo que é real e revelado ao mesmo tempo em que é um produto da personalidade do homem. Uma filosofia da revelação não é simplesmente uma descrição da realidade, nem é uma interpretação do conteúdo da revelação. Antes, uma filosofia da revelação deve ser uma cosmovisão construída com base na autorrevelação de Deus.

Este livro, porém, não é uma filosofia da revelação consumada. É mais cabível vê-lo como um chamado inicial para a consecução desse objetivo. É uma introdução, ao invés de uma tarefa finalizada. Como introdução, portanto, Bavinck aponta para essa direção particular, fornecendo alguns contornos e exemplos. Ele aparentemente esperava que seus leitores assumissem a tarefa, e que as gerações seguintes a levassem a cabo. Desse modo, o que Bavinck apresenta é, em certo sentido, um método. Ele exemplifica-o numa série de aplicações relativamente breves da ideia através de muitos aspectos do conhecimento e pensamento humanos, começando com a filosofia, movendo-se em seguida para as ciências naturais e depois, em tom crescente, para o reino das ciências da cultura, com a expectativa de mostrar que cada aspecto do pensamento humano pressupõe a ideia da revelação para que alcancem sua finalidade e satisfaçam, assim, as mentes e os corações.

É claro, o livro está inserido em seu contexto histórico e carrega portanto as marcas de sua época. Ao longo das páginas, o leitor perceberá que Bavinck encontrava-se numa zelosa batalha contra o monismo e sua ideia suplementar de evolução. Bavinck percebeu que a evolução estava sendo usada como uma ferramenta oniexplanatória, vendo-se aplicada a todas as ciências. Poder-se-ia dizer que, com estas palestras, Bavinck buscava deslocar a evolução do lugar proeminente que então ocupava e substituí-la pela revelação — substituir o monismo pelo cristianismo. Mas os tempos mudaram; o pensamento evolucionista passou por inúmeros desafios e nosso modo de pensamento mudou substancialmente. Nossa sociedade passou de um espírito mais confiante e positivista para outro mais efêmero e pessimista. Teorias que buscam uma abrangência absoluta, é-nos dito, não estão mais em voga.

Bavinck argumentava que a revelação de Deus, que se faz sempre presente, exige nossa resposta. O conhecimento de Deus impresso em nós compele nossos corações e mentes a buscar satisfação. A marca da época de Bavinck, conforme ele assim coloca, era o fato de as pessoas crerem na possibilidade de satisfazer essas demandas por meio do conhecimento do mundo de um modo naturalista, sem referência ao criador. Hoje em dia, muitos alegadamente abdicaram desses esforços pelo conhecimento absoluto, ou disseram a si próprios que são indiferentes às demandas de nossas mentes e corações. Este livro, portanto, continua a ser útil. Continua sendo importante demonstrar que mentes e corações podem satisfazer-se com a revelação de Deus. Nos nossos dias, não é mais difícil (nem mais fácil) convencer o homem da necessidade de pensar a partir de fundamentos revelacionais do que sempre o foi. Quaisquer que sejam as formas de incredulidade com que nos deparamos — seja naturalista ou sobrenaturalista, confiante ou pessimista —, o poder e tempestividade dos argumentos de Bavinck neste livro não diminuíram. A tarefa do filósofo cristão continua sendo a resposta ao chamado da revelação de Deus.

— Dr. James Eglinton
— Rev. Gustavo Monteiro