Abaixo transcrevemos o prefácio que recebemos de Carl Trueman para a edição monergista de um clássico moderno.

 

Nos dias de hoje, é provável que os escritos de Peter Taylor Forsyth sejam pouco conhecidos fora dos círculos de especialistas teológicos. Com efeito, se de algum modo for conhecido é quase sempre como precursor da neo-ortodoxia tardia, uma espécie de barthiano antes de Barth. O que não é apenas um entendimento simplista de sua teologia, mas também uma grande vergonha: vale à pena ler Forsyth por seus próprios méritos. Ele, sem dúvida, não era ortodoxo no sentido de um Calvino, ou de um Turrentin, ou de um Hodge, no entanto, em sua reação contra o liberalismo ritschliano do século 19 de seus primeiros estudos, sua visão pessimista da natureza humana e sua ênfase na centralidade da cruz para o cristianismo, ele pode com certeza ser descrito como preocupado com os grandes temas da ortodoxia bíblica. Como tal, é alguém cujo pensamento é digno de nossa atenção. Mesmo que não consigamos concordar com ele em muitas questões. De fato, é assim que ele me tem sido útil desde que o descobri quando estudava em nossa comum ex-universidade, a University of Aberdeen, no final da década de 1980.

Forsyth veio do ambiente empobrecido da classe trabalhadora, seu pai era carteiro, mas sua genialidade levou-o ao topo de seu ano na Aberdeen School of Grammar e daí para a Aberdeen University. De lá, foi para Göttingen, onde estudou com Albert Ritschl, o principal teólogo liberal alemão da época. Forsyth serviu em vários pastorados, inclusive na influente igreja congregacional, Emmanuel, em Cambridge, antes de ser Diretor do Hackney College, em 1901.

Influenciado por Ritschl, Forsyth começou sua carreira como teólogo liberal, mas cada vez mais veio a percebê-la como base inadequada para lidar com as questões mais profundas da vida, e em particular com o problema da culpa. Isso o fez romper com o sentimentalismo da teologia de sua juventude e a reconstruir seu pensamento focado com muito maior clareza na morte expiatória de Cristo como a chave para a teologia cristã. De fato, isso produziu frutos inesperados e importantes após sua morte: foi lendo o pequeno livro de Forsyth, The Cruciality of the Cross, que o jovem Dr. Lloyd-Jones foi transformado de pregador da regeneração para pregador de Cristo crucificado.

De todas as obras de Forsyth, minha particularmente favorita que eu defenderia como a mais duradoura e importante , é esta que o leitor segura no momento: A pregação positiva e a mente moderna. Este livro, assim acredito, é simplesmente o melhor livro disponível sobre a teologia da pregação. Ele não contém diretrizes sobre como fazer exegese de passagens, como partir da exegese para a síntese doutrinal, ou sobre como tirar aplicações práticas; o que ele faz é explicar o que a pregação é de fato.

Se há uma fraqueza na pregação hoje, creio que esteja em grande parte no fato de os pregadores não conseguirem entender com exatidão o que eles estão fazendo. Os que acham que estão apenas explicando a Bíblia ou transmitindo informações tendem a palestrar ou tornam-se preocupados com as questões de técnica pedagógica. Não há dúvida que a comunicação clara é parte importante da pregação: o homem incapaz de se comunicar não é chamado para pregar, embora ele possa entender o contrário. Por isso é importante que os seminários ensinem boas habilidades de comunicação. No entanto, a preocupação da era moderna com a comunicação ao ponto de um destacado pastor defender seriamente a stand-up comedy como o melhor modelo para o púlpito revela mais do que tudo a incapacidade de entender que pregação é mais, muito mais, do que mera comunicação.

A pregação é em última análise o meio pelo qual homens e mulheres são confrontados pelas reivindicações de Deus, com quem são eles diante dele, e, essencialmente, com o próprio Deus. A pregação confronta, define, demanda. Porque toma Deus como seu ponto de partida, todas as questões de contextualização são relativizadas. É Deus quem, no fim das contas, define a realidade, e não os sociólogos, ou os abutres culturais, nem a onipresente e sempre elusiva “pessoa comum das ruas”. A pregação cristã tem portanto a imperiosa qualidade do “Assim diz o Senhor” que exige uma resposta existencial. Resposta que talvez seja um coração endurecido; talvez, um coração libertado pela graça; mas não que pode ser um coração deixado apenas indiferente ou inalterado. Há, portanto, um aspecto profético, sobrenatural, ao ato de pregar que transcende a transmissão da informação. A pregação, pode-se dizer, não é menos instrumento de informação, do que instrumento de transformação.

A rebelião de Forsyth contra o liberalismo sentimental de Ritschl não foi tão completa como muitos de nós gostaríamos. Ele conservou visões altamente críticas da Bíblia e sua cristologia continuou a incorporar elementos que põem seu pensamento em conflito com Calcedônia. No entanto, ele entendeu de fato a necessidade que o pregador tem de não consentir com os gostos da humanidade caída nem com a cultura insípida que ela criou para si mesma. Antes, o pregador deve ter a sua agenda estabelecida pela Bíblia. Ele tem de proclamar Deus nos seus dias e na sua geração não um Deus qualquer inventado pela mente de pecadores mortais, mas Deus conforme revelado por ele mesmo na Escritura e em Cristo. Cultura ou psicologia humana não deve determinar a plausibilidade do sistema de referência para o método ou o conteúdo da pregação: somente o próprio Deus é quem deve fazer isso.

É com isso em mente que recomendo este livro a pregadores de todas as partes. Se quiser pregar bem, antes de qualquer coisa, você tem que entender exatamente o que está fazendo quando prega. E creio que este é simplesmente o melhor livro para lhe ajudar nesse aspecto. Ele o humilhará e quebrantará sua autoconfiança pois quem é suficiente para essas coisas? Mas ele também lhe dará uma grande confiança da coisa certa porque você entenderá que a pregação fiel depende de Deus, não de você, para sua eficácia.

Encerro com as grandes palavras do próprio Forsyth com as quais ele abre estas aulas: talvez seja um ousadíssimo começo, mas arrisco-me a dizer que, com sua pregação, o cristianismo fica de pé ou cai.

Amém.

— Carl R. Trueman
Agosto de 2012