Teologia

Esperança para além da frustração por Peter Leithart

By 5 de novembro de 2018 No Comments

Sabedoria bíblica para o apocalipse cultural

Pode ser frustrante ser um cristão. Alegamos conhecer o segredo do universo e o conhecemos pessoalmente. Jesus é o centro da história, o Caminho, a Verdade e a Vida, aquele em quem tudo, tudo, se ordena. As nossas boas novas são boas novas sobre tudo e para todos, o tipo de notícia que todo mundo precisa saber se é para evitar o desastre total.

Grandes números de pessoas não ouvem. Não importa quão atrativo tornamos a fé cristã. Não importa que expliquemos que as boas novas seguem o fluxo do desígnio do mundo. Para muitos, isso viola completamente o senso comum. Eles não pensam ser minimamente plausível. Quando falamos das boas novas, eles não reconhecem e não podem reconhecer como boas novas.

A frustração provavelmente tem sido uma tentação perene, mas ela é especialmente intensa hoje. Argumentamos que o aborto é um ataque contra os mais vulneráveis, que ele constitui uma guerra contra uma das glórias da mulher: a capacidade de conceber, dar à luz e nutrir um novo ser humano. Insistimos que o casamento foi feito para ser uma união-em-diferença que prefigura o destino último do cosmos. Argumentamos que as biotecnologias contemporâneas mecanizam e comercializam seres humanos. Poucos ouvem. Poucos consideram os nossos argumentos relevantes, muito menos persuasivos. Os cristãos reclamam sobre caricaturas midiáticas, mas não tem conspiração midiática aqui. Quando resistimos ao aborto ou insistimos que um casamento precisa ser entre um homem e mulher, tudo que eles ouvem é o preconceito retrógrado de puritanos intrometidos.

Muitos leitores terão percebido uma alusão ao que os sociólogos do conhecimento chamam de “estruturas de plausibilidade”. Estruturas de plausibilidade são arranjos sociais que fornecem apoio para crenças num contexto de relatividade moral e epistemológica. Todos somos hereges agora, argumentou Peter Berger, porque, nas condições da modernidade, nenhum de nós endossa inquestionavelmente um estilo de vida tradicional. Todos escolhemos o jeito que vivemos e o fazemos completamente conscientes das outras escolhas que poderíamos ter feito. Isso é altamente desorientador e então precisamos de apoio social para manter os estilos de vida que escolhemos. “Estrutura de plausibilidade” destaca o fato de que as nossas crenças sobre o mundo se formam e são sustentadas dentro de certos contextos sociais e culturais. Precisamos estar perto de outros que creem e agem como nós e os co-crentes que nos cercam podem tornar as nossas crenças aparentemente inevitáveis. Se todo mundo que eu conheço é amish, ser amish parecerá tão natural quanto narcisos na primavera.

Quando as instituições da mídia, da educação, do direito, da ciência social e assim por diante, todas nos dizem que o casamento não é nada mais do que uma parceria erótica temporária, que fetos são aglomerados de tecido que uma mulher tem o direito de remover do seu corpo, que desejos e atos homossexuais são moralmente indiferentes, há uma pressão para acreditar nisso. Como você pode argumentar contra a ciência? Qualquer um que desacredite vai ficar de fora. Qualquer um com uma mensagem diferente será taxado como insustentavelmente arrogante.

A frustração é uma resposta inteligível, mas é uma postura pública ineficaz e perigosa. Pode levar ao isolamento. Entrega uma dose de amargura à nossa retórica pública. Pode explodir em violência. Precisamos de um antídoto para a frustração que vai habilitar uma postura pública infundida com as virtudes teológicas de fé, esperança e amor. Como podemos cultivar isso? Bem, uma das maneiras pelas quais aprendemos as virtudes é por meio de exemplares. Eu sugiro que há lições a serem aprendidas a partir das Escrituras exatamente neste ponto.

Por que o cristianismo não é “conservador”

No começa da sua história, faltava a Israel tudo que tornava uma nação antiga uma nação. Não tinha rei, nem templo, nem sacerdócio, nem terra, nem, praticamente, um povo. Os patriarcas iam de um lugar para o outro, colocando uma cidade-tenda temporária aqui e ali, construindo um altar onde quer que eles parassem. Yahweh tinha chamado Abrão de Ur e lhe prometido, como diz Paulo, o mundo. Contudo, como o autor de Hebreus celebremente o colocou, Abraão morreu sem ver o cumprimento de qualquer uma dessas promessas. Eventualmente, as promessas foram cumpridas e elas ainda estão sendo cumpridas. A descendência de Abraão ainda está se multiplicando como areia e estrelas, abençoando nações, herdando a terra. Para Abraão, todavia, era uma questão de fé; ele viu somente a forma indistinta de uma cidade num horizonte distante.

No êxodo, o mundo de Israel mudou. Moisés desceu do Sinai com instruções para um novo estilo de vida e de culto. Abrão não tinha de se preocupar com regulações de pureza; Sara não ficou impura depois do parto; Jacó não foi excluído da presença de Deus por causa da emissão noturna. Abrão podia estabelecer um altar onde quer que ele quisesse e ele não tinha de depender de uma casta de especialistas sacrificiais para se aproximar de Deus. Ele era o seu próprio sacerdote. Depois de Sinai, ficou tudo diferente. Israel tinha de obedecer regras de pureza e evitar a imundícia. Nem todo mundo podia se aproximar ou tocar num altar, mas somente alguns seletos, os descendentes de Arão, que eram os únicos designados como sacerdotes.

Alguns não gostaram das inovações. A rebelião de Corá era uma reação “conservadora” contra Moisés. Corá insistia que todo israelita era um sacerdote, plenamente qualificado para se aproximar do altar. Julgado estritamente pela tradição, ele estava completamente correto: ele estava do lado da religião patriarcal dos tempos antigos. O templo de Salomão era outra inovação, centralizando o sacrifício num único santuário (como em Deuteronômio 12). Em contrapartida, os lugares altos de Israel eram centros da religião “mais conservadora”. Muitos lugares altos tinham sido lugares de culto muito mais do Monte Moriá. A tradição de culto nos lugares altos era forte e bem estabelecida. Israel tinha sempre adorado em cada colina e debaixo de cada árvore frondosa, e quem era Jeremias para contrariar?

Como Moisés e Salomão, Jesus foi um revolucionário, assim como Paulo. A vinda do Reino trouxe uma mudança radical ao sacerdócio e ao culto. As regras de pureza e oantigos tons e gradações de santidade subitamente se tornaram obsoletos. Saduceus, fariseus e judaizantes posteriores eram os conservadores da sagrada tradição. Não é à toa que eles atacaram Jesus e os apóstolos com tanta veemência. Jesus abalou os fundamentos da vida judaica e ameaçou o futuro de Israel.

Fé, esperança e amor no meio tempo

A partir dessa explicação parcial e altamente seletiva, podemos extrair algumas lições. A lição número um é sobre a fé. Abraão organizou a sua vida toda em torno das promessas de Deus que ele não viveu para ver. Ele colocou mais confiança na promessa de Deus do que na sua própria observação. É isso o que significa viver pela fé. A fé é humilde, mas ela pode parecer absurdamente soberba. Se era para crer nas promessas de Yahweh, Abrão, um sheik rico, mas não tão poderoso, perambulando pela Caldeia e pelo Egito, carregava o destino da raça humana na sua mochila.  Egito lutava as suas guerras, Babilônia construía as suas torres, mas os eventos de importância duradoura estavam acontecendo num cantinho: no pesadelo aterrorizante de um idoso, a sua esperança de um herdeiro, o dia que ele cortou os prepúcios de todos os homens da sua casa, uma visita de três homens na tenda de Abraão, o nascimento e quase-sacrifício de um filho.

Pela fé, nós organizamos as nossas vidas ao redor do que Deus prometeu, não do que podemos ver. O que foi prometido? A montanha da casa de Yahweh será estabelecida como a principal das montanhas, a que as nações fluirão para aprender do ensino de Yahweh, para transformar as suas espadas em arado e nunca mais aprender a guerra. A pequena pedrinha do rei transforma o monumento do império em pó, então cresce até ser uma montanha que cobre a terra. A semente mais pequena floresce numa árvore onde os pássaros e bestas encontram refúgio. Jesus é da descendência de Abraão e é o filho de Davi, que recebeu as nações como sua herança para as governar.

A lição número 2 é sobre esperança. A fé de Abraão era “esperar contra a esperança” (Romanos 4.18). Sara era infértil; Deus disse que Sara teria um filho; crendo em Deus, Abraão esperava por um filho. Abraão não tinha uma terra; Deus lhe prometeu o mundo; crendo em Deus, ele esperava herdar o que lhe foi prometido.

A esperança é fundamentada numa “ontologia”, crenças sobre como o mundo é, crenças refletidas na história da inovação revolucionária de Israel e fundamentada na criação. Deus criou tudo do nada. Como Senhor, Ele pode e vai refazer o mundo. Como o pensador germano-americano Eugen Rosenstock-Huessy o colocou: confessar o credo é confessar que o mundo acaba de novo e de novo. No fundo, os conservadores da Bíblia — Corá, os sacerdotes dos lugares altos, os sacerdotes saduceus — negavam que Deus é o criador. Eles não acreditavam que o Deus que fez o mundo continuava ativo nele. Os “conservadores” não podem ter esperança; eles não querem ter esperança. Eles querem que o mundo continue num estado inerte para sempre. A esperança olha para um Senhor vivo, um Deus ativo que trabalha e retrabalha, que faz o vaso, o quebra e então o faz de novo.

A esperança é anti-frustração porque a esperança nos dá confiança de que o mundo não vai continuar como ele é agora para sempre. No presente, o evangelho e o caminho da vida implica sons que parecem como o bronze que soa e um címbalo que retine. Os olhos e ouvidos de muitos estão fechados. Mas servimos a um Deus que cura os cegos e abre ouvidos com um toque. Hoje, as estruturas de plausibilidade neutralizam a nossa mensagem, mas o Deus vivo arrebenta plausibilidades para erguer novas plausibilidades.

Em esperança fiel, sabemos que algo mais do que a história está do nosso lado. Não precisamos nos apressar; não precisamos nos enfurecer; podemos controlar a nossa aspereza. Podemos falar com generosidade gentil até com os nossos inimigos; podemos mortificar o nosso instinto de se deixar provocar pela oposição e fracasso. Assim, chegamos na lição número 3: em esperança e fé, podemos falar e agir em amor.

Peter J. Leithart, presidente do Theopolis Institute, e professor adjunto sênior de Teologia e Literatura no New Saint Andrews College, é o autor do livro Vestígios da Trindade (Editora Monergismo, 2018, compre aqui). Este artigo foi publicado originalmente na Comment.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.