Teologia

Implicações práticas da esperança pós-milenista

By 15 de julho de 2020 No Comments

O pós-milenismo é uma doutrina que incute esperança no futuro. Outras visões escatológicas dirão, sem dúvida, que também oferecem uma visão de esperança no futuro. Mas a esperança futura do pré-milenismo e do amilenismo não diz respeito à era atual. Parece uma era futura que será introduzida pelo retorno de Cristo. Nenhuma dessas visões tem esperança no triunfo de Cristo, seu evangelho ou seu povo na era atual. Cada uma delas vê um declínio para o cristianismo e o aumento da falsa religião do mal como a história futura do mundo que antecede o retorno de Cristo.

O pós-milenismo não apenas espera ansiosamente a vitória do povo de Deus no final da história, mas também antecipa a vitória de Cristo e de seu povo antes da Segunda Vinda. Essa esperança pós-milenista exerce uma influência profunda sobre aqueles que a ela se apegam e afeta a maneira como vêem a vida e o ministério. Faz com que seus adeptos sejam orientados para o futuro – vivam hoje em vista do futuro triunfo para o Reino de Deus neste mundo.

 

Implicações específicas da esperança pós-milenista

 

  1. Pessoal. Sua visão escatológica determinará como você vê o mundo e seu papel como servo de Cristo. Se nesta dispensação, o mundo e seu futuro pertencerem ao diabo e a seus seguidores, você verá seu papel no mundo por consequência. Mas, se você acredita que Cristo veio com o objetivo específico de destruir as obras do diabo e de estabelecer o governo de seu Reino messiânico nos quatro cantos da terra (i.e., a esperança pós-milenar), sua perspectiva será radicalmente diferente.

 

Você verá todas as partes do mundo e todos os aspectos da vida como pertencentes a Cristo por concessão soberana do Pai. Você acreditará que tudo será um dia submetido a Cristo. Independentemente das condições atuais (e.g., perseguição, sofrimento ou falta de progresso), você crê que seu trabalho no Senhor não será em vão. Como o seu reino triunfará, você sabe que todos os seus justos labores contribuem para a ascensão final da justiça.

 

  1. Família. Os pré-milenistas dispensacionalistas e muitos amilenistas acreditam que somos a “geração terminal” (ou próxima a ela). Com essa visão sombria, não há gerações futuras para as quais uma família deve planejar. Entretanto, o pós-milenismo fornece a base para uma visão de fidelidade multigeracional em uma família por causa de sua visão de que a história ainda tem um longo caminho a percorrer e sua crença de que o Reino de Deus crescerá para abranger o mundo. A perspectiva vitoriosa e de longo prazo do pós-milenismo encoraja o objetivo de criar muitos filhos e filhas e treiná-los para a obra do Reino de Deus. A família cristã é um componente essencial do Reino de Deus. Ela não apenas participará da futura vitória do Reino de Cristo, mas também, através da fecundidade e fidelidade, contribuirá significativamente para essa vitória.

 

  1. Igreja. O corpo pactual dos crentes em Jesus Cristo que constitui a igreja deve interpretar o desígnio da Grande Comissão, se está fielmente servindo ao Senhor ressuscitado. A escatologia desempenha um papel importante nessa interpretação. O pós-milenismo ensina que a Grande Comissão convoca os cristãos a subjugar todas as áreas da vida ao Cristo Rei. Por meio do evangelismo, batismo e ensino de todo o conselho de Deus, a igreja prepara o povo de Deus para cumprir seu mandato de derrubar as fortalezas dos ímpios e trazer toda obra e todo pensamento cativo à obediência de Jesus Cristo. Escatologias defeituosas incentivam uma visão estreita da Grande Comissão, com foco na salvação e santificação individual, negligenciando o mandato cultural mais amplo.

 

  1. Política. O pós-milenismo proclama o reinado mediador de Cristo sobre todas as pessoas e todas as instituições. É um deleite informar às nações que Jesus Cristo, em virtude de sua exaltação à destra de Deus (At 2.32-36), é “o príncipe dos reis da terra” (Ap 1.5), “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6.15), e “o governador entre as nações” (Sl. 22.28).

 

Como os pós-milenistas acreditam no reinado mediador de Cristo, suas políticas estão centradas na pessoa de Cristo e na lei bíblica. Além disso, os pós-milenistas teonômicos entendem que o avanço na esfera política não se baseia no comprometimento da lei bíblica, mas apenas na sua constante defesa. Eles resistem à tentação de sacrificar o princípio pela promessa de alguma gratificação imediata de uma chamada “vitória política” que não promove os direitos da coroa de seu rei.

Os pós-milenistas acreditam que a obediência a Cristo é o único meio designado para o avanço de seu Reino – mesmo na esfera política. Por saberem que sua vitória final é certa, são pacientes e continuam a advogar uma abordagem explicitamente cristã da política, mesmo diante de probabilidades aparentemente intransponíveis. As perspectivas escatológicas que negam o atual reinado de Cristo sobre as nações e seus governantes tendem a visões e práticas políticas pluralistas e centradas no homem – sua razão, seus direitos e seu poder.

 

Implicações gerais da esperança pós-milenista

 

A esperança é energizante. Sem esperança, nos reconciliamos com o status quo e vivemos em submissão sombria a ele, ou mergulhamos em desespero e somos vencidos por ele. Se a esperança escatológica dos cristãos repousa apenas em uma vida de ressurreição além deste mundo, eles abandonam o mandato de domínio e desanimam de qualquer triunfo do evangelho ou da justiça no mundo. Sem esperança de uma transformação cultural onde a salvação de Cristo chegue “até onde a maldição é encontrada”, os cristãos se tornam desertores do exército de Cristo o qual foram encarregados de segui-lo no domínio de todos os Seus inimigos (Sl 110). Como sua esperança é exclusivamente um descanso celestial, eles dedicam todas as suas energias prepararando suas próprias almas e as almas dos outros para a eternidade.

A esperança pós-milenista contribui para um cristão diferente. Sim, o pós-milenista espera a ressurreição e a vitória no final da história; mas também está cheio de esperança para este mundo. Como um pós-milenista visualiza um mundo em que o conhecimento do Senhor cobrirá a terra assim como as águas cobrem o mar (Is 11.9), ele é estimulado a trabalhar não apenas pela salvação das almas, mas também pela transformação de todas as nações e de toda a vida.

A esperança pós-milenista resgata a escatologia do campo da irrelevância histórica. Jürgen Moltmann explica o impacto da esperança escatológica:

A escatologia há muito era chamada de “doutrina das últimas coisas” ou “doutrina do fim”. Por essas últimas coisas, entendiam-se eventos que um dia se abaterão sobre o homem, a história e o mundo no fim dos tempos. Eles incluíram o retorno de Cristo na glória universal, o julgamento do mundo e a consumação do reino, a ressurreição geral dos mortos e a nova criação de todas as coisas. Esses eventos finais deveriam irromper neste mundo de algum lugar além da história, e pôr um fim à história em que todas as coisas aqui vivem e se movem Porém, escatologia  de fato, significa a doutrina da esperança cristã, que abraça tanto o objeto esperado como também a esperança inspirada por ele. Do começo ao fim, e não apenas no epílogo, o cristianismo é escatologia, é esperança, é um olhar e um movimento para a frente, revolucionando e transformando o presente.1

 

O pós-milenismo restaura a esperança cristã de triunfo na história. Isso faz com que o cristão, seja em sua vida pessoal, na esfera da família, igreja ou estado,  esteja voltado e movido para a frente, e, portanto, revolucionando e transformando o presente”. 2

 

Notas:

  1. Jurgen Moltmann, Theology of Hope (Nova York: Harper & Row, Publishers, 1965), 15-16.
  2. Ibid.

 

Fonte: https://chalcedon.edu/magazine/practical-implications-of-the-postmillennial-hope#fbclid=IwAR1SniCyfg6w1RUtD0BouJb0ZZhCLsr73oYmh1_2gtFAepEs4tgZ5KfG_sk

 

Sobre o autor: William O. Einwechter atua como presbítero docente na Immanuel Free Reformed Church, em Ephrata, Pensilvânia. Ele também é vice-presidente da National Reform Association e editor do The Christian Statesman.

 

Tradução: Alan Kleber Rocha