Teologia

Jesus “amarrou o valente” e o que isso significa para você, por Brandon Crowe

By 25 de Abril de 2018 No Comments

Jesus “amarrou o valente” e o que isso significa para você (Brandon D. Crowe)

Todos os cristãos reconhecem que os Evangelhos são vitais para o discipulado hoje. Mas interpretar e aplicar os Evangelhos pode ser difícil, uma vez que eles tratam sobre coisas que aconteceram há muito tempo atrás, “naquela época”. Que diferença esses eventos antigos fazem para as nossas vidas diárias?

Os Evangelhos são relevantes porque eles exibem a vitória que Jesus Cristo, por meio de sua obediência durante sua vida, conquistou por nós. A vitória que ele conquistou naquela época tem consequências cósmicas e pessoais que nos afetam agora.

Para demonstrar tal relevância, vamos examinar uma difícil parábola de Jesus: o amarrar do valente, como se vê em Marcos 3.22-30. Embora essa passagem possa te fazer coçar a cabeça, ela é melhor entendida como uma parábola explicando a missão de Jesus.

Em Marcos 3, a missão de Jesus está sob ataque. Depois de anunciar a vinda do reino de Deus (Mc 1.14-15), ele começa a curar os enfermos, expulsar os demônios, ensinar com autoridade, chamar os discípulos e até perdoar os pecados. Mas nem todo mundo está satisfeito com isso. Em Mc 3.22-30, os escribas desafiam a fonte da autoridade de Jesus, reivindicando que ela vem de Belzebu, o maioral dos demônios (Satanás). Em resposta, Jesus aponta que os seus ataques contra o reino de Satanás invalidam a acusação de que ele está cooperando com Satanás.

Jesus diz que ele veio amarrar o valente (isto é, Satanás) a fim de que ele mesmo, como mais valente ainda (cf. Mc 1.7), possa roubar os bens da casa de Satanás. É essa a explicação de Jesus dos eventos que encontramos em Marcos 1—3.

 

  1. Jesus veio para esmagar o Diabo

Primeiro, Jesus veio derrotar o Diabo. Podemos perder esse ponto de vista, já que os Evangelhos contêm muitas narrativas. Mas, num nível fundamental, os Evangelhos são sobre a vitória de Jesus sobre Satanás (cf. 1Jo 3.8). Antes de chegarmos a Marcos 3, um texto que figura Jesus, o Diabo e o Espírito Santo, os leitores de Marcos já teriam encontrado a tentação no deserto (1.12-13) figurando os mesmos três personagens. Portanto, somos encorajados a ler a amarração do valente à luz da obediência de Jesus no episódio da tentação.

Então, como devemos entender o episódio da tentação? Mais provavelmente, devemos ver o desafio tríplice do Diabo e a resposta escriturística de Jesus como um exemplo para nós ao lutarmos contra a tentação. Essa é uma aplicação válida e Jesus de fato é um modelo para nós.

Mas é só isso? Quando lemos o relato de Marcos, ficamos chocados sobre quão notável isto é: Jesus estava com as feras e os anjos o serviram. Como isso é um modelo para nós? É melhor pensar sobre a tentação de Jesus primariamente como um evento singular na história da redenção quando o Filho ungido de Deus batalhou com e amarrou o Diabo como parte de sua obra do reino.

Ler o relato de Marcos da tentação como a vitória inicial de Jesus sobre Satanás se encaixa bem com Marcos 3.22-30. A explicação de Jesus sobre amarrar o valente emprega a linguagem do reino (3.24-27), e somente depois da obediência de Jesus na tentação é que ele anuncia a vinda do reino (1.14-15). Jesus é o rei que estabelece o reino com base na sua própria obediência. A batalha com Satanás não acaba em Marcos 1 ou Marcos 3 (Jesus irá acabar sacrificando a sua vida para estabelecer plenamente o reino), mas um golpe decisivo já foi dado.

 

  1. Jesus pode perdoar os seus pecados

Segundo, Jesus amarrar o valente significa que ele pode conceder remissão de pecados. Vemos isso no relacionamento lógico entre Marcos 3.27 e 3.28. Jesus diz que aquele que amarra o valente pode roubar a casa do valente (3.27). Então, ele imediatamente diz que “tudo será perdoado”, “os pecados e as blasfêmias” (exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo) (3.28). Em outras palavras, o perdão explicado em 3.28 é um resultado de Jesus amarrar o valente como é contado em 3.27.

Embora não tenhamos espaço para discutir a blasfêmia contra o Espírito Santo, não devemos perder o incrível escopo do perdão que Jesus concebe em 3.28: tudo será perdoado, pecados ou blasfêmias. De forma mais simples, não há pecado ou blasfêmia fora do escopo da autoridade de Jesus para perdoar. Novamente, esse perdão tão amplo resulta da amplitude da obediência de Jesus pela qual ele amarrou o inimigo (ver também Irineu, Contra as Heresias, 5.21.3).

Aqui está o cerne da questão: porque Jesus é mais valente do que o valente, ele pode oferecer aos que confiam nele perdão completo e irrestrito de todo pecado.

 

  1. Jesus dá vida onde Adão trouxe morte

Terceiro, o relacionamento literário entre amarrar o valente e a tentação de Jesus nos mostra que Jesus é o novo Adão que traz vida no lugar da morte. A provação de Jesus aconteceu no deserto, uma paisagem inóspita em decorrência do pecado de Adão. A coexistência pacífica de Jesus com as feras o mostra exercendo domínio benevolente sobre a criação, o que a humanidade pecaminosa falhou em fazer (cf. Is 11.1-9).

Enquanto que Adão deveria ter expulsado a a serpente que questionou a Palavra de Deus, Jesus prevaleceu sobre o Diabo, e realmente o prendeu (cf. Ap 20.2), como parte de sua fidelidade a sua tarefa messiânica.

Adão deveria ter obedecido para a vida; ao invés disso, Adão pecou e trouxe a morte. Jesus obedeceu plenamente, mesmo até a morte, e a sua obediência traz vida eterna. Jesus amarrou o valente mediante a obediência à vontade de Deus. E somente este Salvador plenamente obediente tem a autoridade de te conceder a vida e perdoar os seus pecados.

 

Tradução: Guilherme Cordeiro

Nota dos editores: veja mais sobre no livro de Brandon Crowe (a ser publicado pela Editora Monergismo): The Last Adam: A Theology of the Obedient Life of Jesus in the Gospels (Baker Academic, 2017).

Brandon D. Crowe é professor associado de Novo Testamento no Westminster Theological Seminary. Suas obras recentes incluem The Last Adam: A Theology of the Obedient Life of Jesus in the Gospels, e (em coedição com Carl Trueman) The Essential Trinity: New Testament Foundations and Practical Relevance.