Teologia

Maior bondade demonstrada a nós do que a Cristo por Mark Jones

By 4 de julho de 2018 No Comments

Os cristãos afirmam que Deus é bom, mas quão bom Deus é? Podemos falar de ele ser “infinitamente bom”, mas isso não ajuda muito as pessoas nos bancos das nossas igrejas. Elas precisam de coisas mais específicas.

É possível que Deus possa ter demonstrado maior bondade a seu povo do que a seu Filho amado?

Pense na verdade de que o Pai derramou a sua ira sobre o seu Filho, o seu Filho em quem ele sempre teve prazer (Mt 3.17; 17.5), desde a eternidade. Como entendemos esse mistério?

Em certo sentido, podemos dizer que Deus nunca esteve mais feliz com o seu Filho do que quando ele estava mais irado com ele. O que isso significa? Como John Owen diz:

“[O Pai] sempre se agradou da santidade da pessoa [de Cristo], a excelência e perfeições da sua justiça, e a doçura da sua obediência,  mas ele se desagradou dos pecados que foram postos sobre ele e, portanto, se agradou de moê-lo, fazendo enfermar aquele em quem ele sempre teve prazer”

Esse entendimento da nossa redenção sempre nos leva a dizer algo bem provocativo: que a bondade demonstrada a nós, o povo de Deus, é “uma bondade maior para nós do que a que foi manifestada, por um tempo, ao próprio Cristo” (Charnock).

A ira de Deus sobre o seu Filho foi tão intensa que ela poderia ter afogado milhões de mundos de homens e anjos pecadores (Owen). Cristo foi abandonado pelo Pai por um tempo a fim de que o Pai nunca nos abandonasse (Hb 13.5).

Recebemos uma promessa que até mesmo Cristo não recebeu: Hb 13.5, a promessa de que Deus nunca vai nos deixar, nem nos abandonar. De todas as promessas feitas a Cristo pelo Pai, nunca poderia ter sido dito a Cristo que o Pai não o deixaria, nem o abandonaria.

O santo de Deus foi declarado profano no Calvário a fim de que criaturas profanas como nós pudessem ser declaradas tão santas quanto o santo de Deus. Deus valorizava tanto a redenção dos eleitos que ele sentenciou o seu próprio Filho à humilhação na terra para que todos os que pertencem a Cristo possam ser exaltados no céu.

Então, ao falar da bondade de Deus, precisamos falar vividamente, às vezes provocativamente, sobre a forma com que a sua bondade é mostrada a nós:

“Deus desejava ouvi-lo gritando, e vê-lo gemendo para que não gritássemos sob as suas presas e sangrássemos sob a sua ira; ele não o poupou, para que pudesse nos poupar; recusou-se a não atingi-lo, para que ele pudesse se agradar de nós; molhou a sua espada com o sangue do seu Filho, para que ela nunca se molhasse com o nosso, mas que a sua bondade pudesse sempre triunfar pela nossa salvação; ele estava disposto a fazer com que o seu Filho fosse feito homem e morresse ao invés de que o homem, que se deleitou em se arruinar, tivesse de perecer; ele pareceu degradá-lo por um tempo do que ele era” (Charnock)

Afirmar que, por um tempo, Deus demonstrou maior bondade a nós do que a seu Filho é dizer que os gritos, gemidos e agonias espirituais de Cristo não eram fingidas, mas reais.

Estamos vivendo num tempo, creio eu, em que a pregação tem passado por tempos difíceis. Há muitas razões para isso, mas uma razão creio ser óbvia: os pastores tem um escopo limitado de vocabulário e não pintam figuras para o povo de Deus ser comovido com a bondade, amor, paciência, ira, etc. de Deus.

Deus é gracioso: tudo bem! Mas como Deus é gracioso? Esta é a tarefa do pregador: fazer o povo de Deus entender, amar e crer na graça de Deus para com ele.

Gesticulações rápidas estão tomando o lugar de palavras vívidas e memoráveis. As nossas palavras, e não balançar as mãos dramaticamente, devem manter a atenção do povo de Deus. A retórica sacra foi substituída pelo Karatê Kid.

A maior dádiva possível do Pai conceder a seu povo era a dádiva do seu Filho, o seu Filho a quem ele demonstrou menos bondade por um tempo do que a pecadores vis e que odeiam a Deus como você e eu. Assim, quando falamos da bondade de Deus, podemos dizer que a sua bondade é tal que ele demonstrou mais amor a nós do que, por um tempo, ele demonstrou aquele em quem ele não tinha razão para demonstrar ira contra, exceto que seria melhor para nós que ele o fizesse.

Fonte: More Goodness Showed To Us than to Christ

Traduzido por Guilherme Cordeiro.