Teologia

Para adorar a Deus devemos adorá-lo como o Deus Trino – por R. J. Rushdoony

By 29 de abril de 2019 No Comments

A trindade

27 de julho de 1954

Bom dia, amigos. Na reserva indígena em que passei oito anos e meio antes de vir para Santa Cruz, havia um ancião cuja vida e experiência limitava-se àquela área. Como resultado, as únicas árvores que ele conhecia eram pinheiros, juníperos, cedros, choupos, salgueiros, álamos tremedores e que tais, árvores da região, nenhuma delas grandiosa. Pode-se imaginar seu desgosto quando, alguns anos atrás, ele ouviu um missionário falar sobre as grandes sequoias na encosta da Sierra, descrevendo uma árvore em particular como tão grande que um carro, ou até mesmo um ônibus, poderia atravessar o centro oco daquela sequoia viva. O velho índio levantou-se e saiu imediatamente, comentando do missionário: “Esse homem é o maior mentiroso que já vi”.

Agora, antes de rir daquele homem idoso, seria melhor lembrar-nos de nossa própria tendência a duvidar do que está além de nossa experiência. Tendemos a limitar o possível ao que sabemos e ao que cremos que seja possível.

Temos outra fraqueza. Tendemos a interessar-nos pelas coisas somente por causa de sua relação conosco. Tendemos a interessar-nos pelas pessoas somente pelo que representam para nós, em vez de pelo que são em si mesmas. O dinheiro delas, às vezes, mas com muito mais frequência a personalidade delas, o contexto delas, nossas opiniões e interesses em comum, essas coisas nos unem e nos mantêm unidos. No entanto, se a pessoa fica doente, desamparada e afastada de nossa vida cotidiana, o laço imediatamente começa a romper-se. Sentimos pena da pessoa, mas a maioria de nós acha cada vez mais difícil manter o contato a menos que também estejamos passando por uma experiência similar. O homem dá sentido às coisas à medida que as vivencia e, de modo semelhante, as destitui de sentido à medida que se tornam remotas e inexpressivas para ele. Eis o egoísmo básico e a pecaminosidade se revelando.

Como cristãos, tendemos a fazer exatamente a mesma coisa em relação a Deus. Só estamos ligeiramente interessados em Deus tal como ele é, o Deus trino, mas estamos muitíssimo interessados em Deus em sua relação conosco. Queremos pensar em Deus exclusivamente sob a ótica da nossa salvação e do cuidado providencial, sob a ótica do que ele pode fazer por nós, sob a ótica de nossa experiência dele, em vez de tomá-lo ele mesmo como referência. É fácil despertar o interesse das pessoas por temas como “O que Deus pode fazer por você” ou “Como obter a felicidade pela fé”, mas falar a respeito da Trindade é distante e irrelevante para elas. Assim como algumas pessoas estão interessadas em nós somente pelo que temos, e como consequência não nos conhecem de fato, assim também muitas pessoas que se interessam por Deus em sua relação com o homem na verdade jamais veem a Deus como ele é.

Deus, tal como é em si mesmo, é o Deus Trino – Pai, Filho e Espírito Santo, cada um igualmente Deus, completo e absoluto, três pessoas, mas um só Deus, cada um possuindo a essência divina indivisível em todo poder e perfeição. Deus se revela como um Deus que é trino. Isso está além de nossa experiência e imaginação, embora possamos ver indícios de seu significado na criação; o mundo é uno, mas vário, um mundo com uma existência e lei comum, embora contenha uma variedade impressionante de formas, sem que nada desfigure a unidade. De fato, a multiplicidade e a variedade da criação fala do modo mais eloquente de sua unidade, derivada do Criador.

Deus é completo em si mesmo e é trino desde a eternidade. A criação não era uma necessidade ou carência da parte de Deus, e Deus, portanto, não se exaure em seu relacionamento com a criação; ou seja, há mais em Deus do que o relacionamento, assim como há mais em nós do que nosso contato com as pessoas durante o curso de um dia. Se as pessoas não têm interesse em ver-nos ou conhecer-nos além de nosso relacionamento com elas, então não nos conhecem mais do que conhecemos um garçom que aparece, tira nossos pedidos, serve-nos e se vai. Porque Deus é nosso Criador, toda a criação o revela, e todo o seu cuidado conosco manifesta sua natureza, mas o próprio Deus, que em sua tri-unidade está além de nossa imaginação, em seu ser está além de nossa experiência. Porque ele é Criador, todas as coisas têm significado e são compreensíveis à luz dele mesmo, e ele é mais do que podemos compreender ou abarcar.

O que tudo isso quer dizer? Simplesmente o seguinte: para adorar a Deus devemos adorá-lo como o Deus Trino; devemos vê-lo, não meramente no que ele faz por nós, mas como Deus mesmo; Pai, Filho e Espírito Santo, a Trindade três vezes santa, cuja adoração é a única adoração verdadeira. Gloriar-se no Senhor não pode significar gloriar-se no que ele faz por nós, pois então o que adoramos seria a nós mesmos e nossa gratificação, nossa satisfação. Gloriar-se no Senhor significa gloriar-se nisto, em que ele é o Senhor, “a única origem de todo o ser; dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Confissão de fé de Westminster, cap.  2.2).

 

“Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Ap 4.11).

 

“O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. […] Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?”  (Dn 4.25, 35).

 

“E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb 4.13).

 

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!  Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 11.33-34).

 

“Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir” (Sl 147.5).

 

Tradução: William Campos da Cruz

 

Fonte: Bom dia, amigos (vol. 1), de R. J. Rushdoony (futuro lançamento ad Monergismo).