CosmovisõesUncategorized

Desigualdade Erótica por Peter Leithart

By 19 de outubro de 2018 No Comments

Não vamos confundir diferença com desigualdade

É uma verdade reconhecida universalmente: 2 + 2 = 4. Qualquer 2 pode entrar no lugar de um dos dois 2 na equação e o resultado vai ser um mesmo. Um problema de adição representa uma igualdade absoluta, uma igualdade enquanto identidade.

Fora dos confins rarefeitos da matemática, a igualdade nunca é tão simples. Dizer que 2 maçãs + 2 maçãs = 4 maçãs especifica uma igualdade somente com respeito ao número de maçãs. As primeiras duas maçãs podem ser verdes e da marca Granny Smiths e as outras duas, da Yellow Delicious. Quando você as soma, você tem quatro maças, mas o conjunto das quatro é dividido em dois por cor, variedade e sabor. Eu tenho duas maçãs maduras e você tem duas maçãs podres. Podemos dizer que o total é quatro, mas se precisarmos delas para alimentar quatro crianças famintas do jardim de infância, o fato de que temos quatro não vale nada. 2 + 2 ainda é igual a 4, mas quem liga? Você só tem duas que são úteis para a tarefa. Assim que você mete maçãs na matemática, a igualdade se torna uma característica limitada, qualificada e muitas vezes irrelevante.

Diferença não é o mesmo do que desigualdade e diferenças são compatíveis com ser igual em certos aspectos.

Quando você mete pessoas na matemática, as coisas ficam ainda mais complicadas. Cada ser humano é complexo, talvez a um grau infinito. Somos parecidos uns com os outros de algumas formas, mas ninguém é intercambiável com outro. Nenhum ser humano é absolutamente igual a outro. Até características “idênticas” são flexionadas com diferença. Nenhuma parte de dois humanos são absolutamente a mesma. A maioria dos humanos tem narizes, mas nenhum nariz é perfeitamente igual em formato, tamanho ou funcionalidade olfativa com outro. Para a maior parte dos fins, o fato de que 2 humanos + 2 humanos = 4 humanos é um fato superficial, a não ser que os humanos possuam outras qualidades fora o fato de ser humanos. 2 crianças + 2 crianças = 4 crianças, mas isso não ajuda muito se você está escolhendo os times para uma partida de basquete. Quem tem habilidade e tamanho? E nesse contexto, 1 LeBron = um número indeterminado de crianças.

Desigualdades Boas

Para qualquer grupo funcionar bem, ele precisa harmonizar as igualdades e as desigualdades dos seus membros, as suas semelhanças e as suas diferenças. Cada membro de um time de basquete é humano (presumivelmente) e são idênticos em ser jogadores de basquete, saber as regras básicas, cultivar certas habilidades, etc. Mas um time de basquete de cinco jogadores idênticos não é um bom time de basquete (com a exceção, como sempre, da possibilidade de clonar LeBron ou Michael Jordan). Cinco jogadores diferentes não formam um ataque ou uma defesa ao irem para o mesmo lugar ao mesmo tempo. Você forma um ataque fazendo com que jogadores diferentes façam coisas diferentes: spread the court, weave, pick and roll e passe. Deve haver especialistas em arremessos, especialistas em passe, especialistas de rebote, especialistas de defesa. Jogadores excelentes combinam várias especialidades, mas nenhum jogador combina todas.

Igualitaristas inteligentes reconhecem tudo isso. Eles sabem que seres humanos só são iguais em alguns aspectos e a maioria vai reconhecer que certas formas de desigualdade são necessárias para sociedades funcionarem bem. Norberto Bobbio o coloca com uma simplicidade eloquente em Esquerda e Direita: Razões e Significados de uma Distinção Política: virtualmente todo mundo reconhece que as pessoas são tanto iguais quanto desiguais em sentidos diferentes. Elas são iguais em serem todas humanas, no seu valor e dignidade fundamentais como humanos; elas são desiguais na sua habilidade, treinamento, características físicas, formação familiar e conexões. Igualitaristas não ignoram as desigualdades, mas “acreditam que o que eles têm em comum tem maior valor na formação de uma boa comunidade”, enquanto não igualitaristas acreditam que a “diversidade tem maior valor na formação de uma boa comunidade”.

Isso é simplório demais. Se o igualitarismo se resumisse a nada mais do que colocar maior valor na uniformidade, os debates sobre igualdade pareceriam intratáveis. Mais importante do que valor para igualitários é a suposição de que a igualdade é uma condição de base. Igualdade é a condição original, natural dos seres humanos. John Rawls, um dos principais teóricos políticos do século passado, foi um influente defensor de uma ordem política igualitária. Na sua teoria atualizada do contrato social, Rawls imagina que os seres humanos começam em termos iguais e buscam formar uma sociedade justa. Ninguém sabe bem onde vai estar na escala social; eles formam a sua sociedade por trás de um “véu da ignorância”. Rawls pensa que esse experimento mental ajuda a mostrar como uma sociedade justa deveria ser. Para Rawls e para muitos teóricos políticos, a igualdade também é uma condição de base porque ela forma uma pedra de toque para medir a justiça social. Desvios da igualdade perfeita ocorrem, mas, para ser justo, cada desvio precisa ser justificado. As igualdades não precisam ser justificadas.

A igualdade é frequentemente considerada natural, enquanto que a desigualdade é tratada como um produto artificial de condições sociais e econômicas. Somos iguais no fato de que todos nascemos como seres humanos, com certos direitos e uma certa dignidade. As coisas que nos tornam desiguais não são naturais, mas artificiais. Eu não decidi me tornar um médico e um professor de piano, mas foi isso que aconteceu, e isso me separou em alguns aspectos importantes de outras pessoas. Eu não sou responsável pelas vantagens que vieram da minha família, então essas vantagens não recebem a mesma relevância na esfera política que o fato de eu ter nascido como humano.

Para se aplicar no mundo real, a igualdade natural precisa ser construída num sentido bem estrito, porque nenhum ser humano é igual naturalmente a outro em todos os aspectos. Igualitaristas frequentemente distinguem desigualdades relevantes e irrelevantes recorrendo ao mérito e à responsabilidade. As vantagens que são atribuídas a alguém em virtude do seu nascimento ou educação são moral e politicamente irrelevantes, até mesmo suspeitas. Qual o direito do marquês andar na sua esplêndida carruagem por Paris ou tomar um gole de chocolate na suntuosa segurança do seu palácio? Tudo que ele tem a seu favor é a sua ancestralidade e isso não é uma justificação adequada para a sua superioridade em riqueza e poder. Se os meus pais têm condições financeiras de me enviar para as melhores escolas, e eu enriqueço, por consequência, isso é uma desigualdade injusta. Eu não mereci o meu lugar na família e, sob premissas igualitaristas, algo precisa ser feito para melhorar a condição daqueles que não têm pais ricos (ou, talvez, para minimizar a minha vantagem). Se, em contrapartida, eu dedico o meu treinamento e talentos mais energética, cautelosa e habilmente do que outra pessoa, e eu acabo com uma condição melhor no fim, eu mereci a distribuição desigual de bens que eu acumulei. As minhas circunstâncias podem ser tão desiguais quanto as do marquês em relação às circunstâncias do garoto que a sua carruagem atropela na rua, mas a minha é uma desigualdade justificável porque eu a mereci. Hoje em dia, a maior parte das teorias igualitaristas dá espaço para desigualdades meritocráticas.

Até essa concessão deixa dificuldades para o igualitarismo. A riqueza acumulada é artificial e não merecida, então a herança de riqueza acumulada parece ser inerentemente injusta. Mas redistribuir a riqueza a cada geração seria difícil na prática, senão impossível, e privaria a sociedade de benefícios consideráveis da riqueza acumulada: onde estaria a Fundação Rockefeller sem gerações de Rockefellers? Ou o Smithsonian sem ricos Smithsons ou a Fundação Ford sem Fords? John Rawl enfrenta a questão com o seu “princípio da diferença”, que demanda que pessoas ricas e talentosas considerem a sua riqueza e talentos como bens comuns, de propriedade da sociedade e usados propriamente somente para o melhoramento da sociedade. Nesse contexto, Rawls diz que os indivíduos só são completos “na união social” e que membros de uma sociedade “participam na natureza um do outro”, de tal forma que o “eu é realizado nas atividades de muitos eus”. Rawls é capaz de lidar com a realidade do capital somente quando troca da sua premissa inicial da individualidade autônoma para uma visão da natureza humana que admite a formação de um “nós” que não é mais do que dois “eus” lado a lado.

O que Rawls chama de “princípio da diferença” é revelador, principalmente porque sugere furtivamente uma alternativa para uma teoria social igualitária, uma que considera a desigualdade não um problema a ser resolvido, mas um esclarecedor ponto de partida. Todo ser humano é desigual em alguns aspectos em relação a todos os outros, mas as desigualdades entre um homem e uma mulher são de uma ordem diferente. O meu nariz é (levemente) diferente do nariz do meu irmão, mas a minha esposa tem partes do corpo que eu nem tenho, e vice versa. A nossa bioquímica é diferente, assim como os ritmos dos nossos relógios corporais. É especialmente aqui, onde a diferença natural é mais óbvia, que as tensões inerentes ao igualitarismo se tornam mais agudas. O igualitarismo feminista tem se deparado com oposição política, mas não é só isso: há um desafio conceitual a filtrar as diferenças de homem e mulher para emparelhá-los numa condição de base de igualdade.

Diferença não é o mesmo de igualdade e diferenças são compatíveis com ser igual em alguns aspectos. Homem e mulher são diferentes, mas igualmente humanos, igualmente dignos, igualmente feitos à imagem de Deus. Mas o fato de que essas igualdades são cruzadas pela diferença sexual é um fato relevante da socialidade humana, obscurecido por algumas formas de igualitarismo. pode-se insistir que masculinidade e feminilidade são construções sociais  de cabo a rabo, mas então é difícil explicar o útero ou o pênis. Pode-se ignorar a diferença corporal e insistir que a igualdade relevante é descorporificada, mas isso pareceria ser um insulto à singularidade do corpo feminino. Pode-se tomar homem ou mulher como norma e se considerar o outro como a versão defeituosa, mas essa venerável tática aristotélica está longe de ser igualitária. Por outro lado, quando você considera as diferenças corporais importantes, fica mais difícil sustentar um igualitarismo absoluto.

Especialmente em suas formas feministas, o igualitarismo obscurece uma concepção mais rica e mais frutífera da socialidade humana, uma que emerge dos capítulos de abertura de Gênesis. Na Bíblia, a condição de base não é individualista ou igualitária. É erótica.

Desejando a Diferença

Gênesis 1 estabelece um ritmo complexo. Dia segue dia, cada um deles repetitivo, cíclico, sobressaltando de um para o próximo como a terza rima da Divina Comédia de Dante. Repetitivo como é, o ciclo vai adiante. O mundo no fim do segundo dia não é o mundo no fim do terceiro dia, nem a bondade do terceiro dia é idêntico à bondade do quarto. Os dias de um a seis são bons, mas não bons o suficiente. Eles se tornam bons somente quando a criação acaba. No fim da semana, e somente no fim da semana, temos um mundo que é muito bom.

Para renovar a sociedade civil, porém, precisamos questionar os pressupostos igualitaristas da nossa cultura.

O ritmo se desenvolve em Gênesis 2, um ponto infelizmente perdido quando a crítica divide os dois primeiros capítulos da Bíblia em relatos diferentes da criação. Adão é formado, um jardim, plantado, Adão é colocado no jardim, mas as coisas ainda não estão boas o suficiente. Pela primeira vez, Deus julga algo negativamente: Adão só não é bom e o mundo de Deus não está bom até que ele arranque uma costela de Adão e construa uma mulher. Adão não é completamente ele mesmo, não é plenamente bom, até que ele tenha uma parceira adequada. Já vemos como a política erótica da Escritura diverge da teoria moderna, quer igualitarista (Rawls) quer não igualitarista (Robert Nozick e outros libertários). Longe de ser ideal, Adão, o indivíduo autônomo, é uma anomalia no bom mundo de Deus, um não bem ambulante. A autonomia isolada é a posição inicial, mas é um não bem que precisa ser reparado.

Como os animais, Adão foi feito do chão. Ele é adam porque ele foi tomado do adamah. A despeito da origem comum com outras criaturas terrestres, Adão não encontra uma parceira adequada dentre os terrestres. A sua parceira não vem do chão, mas dele. Aqui está a primeira não identidade entre os humanos originais. Adão, a alma vivente (Gênesis 2.7), é o produto do céu e da terra, o pó terreno e a vida celestial soprada nas suas narinas. Eva, todavia, emerge da combinação de céu e terra; ela não se torna uma alma vivente, mas é construída a partir do corpo de uma alma vivente. Vemos uma antecipação de um clímax cristológico, quando a nova Eva da igreja também vai nascer do lado rompido de um último Adão celeste-terreno. De forma mais prática, mais sociológica, Paulo enfatiza como a criação da Eva a partir de Adão aponta para a dependência mútua de macho e fêmea. A primeira mulher veio do primeiro homem, mas todo homem desde então nasceu de uma mulher. Portanto, “nem o homem é independente da mulher, nem a mulher, do homem”. Eles são mutuamente interdependentes e ambos dependem do Criador (1Coríntios 11.8-12). Uma socialidade erótica é uma socialidade não só da diferença, mas da interdependência mútua.

Vamos supor que Yahweh tivesse tirado uma costela de Adão e construído um segundo ser, adequado para Adão, que fosse idêntico a ele em todos os aspectos. Podemos imaginar que Adão e o seu parceiro homem se tornariam amigos rapidamente, talvez até amantes. Eles se uniriam espiritual, emocional e fisicamente de todas as formas que dois homens conseguem se unir. Gilgamesh e Enkidu, Aquiles e Pátroclo, Adão e Ivo. Mas não foi isso que Yahweh fez, na realidade. E o fato de que ele não ter feito indica não só um ponto fundamental da ética sexual bíblica, mas aponta para uma ontologia e antropologia fundamental. Feitos como homem e mulher, e com todos os seus complexos padrões de igualdades e desigualdades, Adão e Eva podem formar uma unidade maior do que a que Adão tinha por si só. Adão por si só é um não bem, mesmo que o seu corpo tivesse integridade, todos os ossos no lugar e a sua carne estivesse intacta. Esse não bem vira bem só quando é rompido e reunido de uma nova forma. Juntos, Adão e Eva formam uma unidade maior do que a unidade de Adão-com-todas-as-costelas. Como João Paulo II colocou, homens e mulheres são criados com “corpos nupciais”, com as suas diferenças corporais orientadas para a união em uma só carne. Eles podem formar um tipo único de comunhão precisamente porque eles não são iguais em todos os aspectos. Novamente, a igualdade não é a condição de base; a condição de base é um complexo de igualdade e desigualdade, uma fita de Mobius de semelhança e diferença.

Por causa da não identidade entre homem e mulher, eles podem unir de forma frutífera, de uma forma que um homem não pode se unir com outro homem. Vamos ficar com a realidade biológica crua e nua: um homem e mulher podem compartilhar os seus cromossomos e criar um novo ser humano que os une. Caim não é Adão, e ele não é Eva, e ele não é meramente a soma dos dois. Todavia, Caim une Adão e Eva como um terceiro não idêntico que não poderia existir sem a realidade da não identidade sexual, da desigualdade sexual. Não só a pura existência de Caim, mas a relação intergeracional de pais e filhos refletem e dependem da socialidade erótica original de Adão e Eva.

O caráter frutífero da socialidade erótica não é meramente procriativo. Antes de Adão conhecer a sua esposa e ela conceber a Caim, a sua própria presença o transforma. Adão, como eu disse, vem de adamah, o chão, e até a mulher ser feita ele continua adam. A mulher, todavia, não é tomada do pó, mas da carne viva de Adão. Quando Yahweh a traz para o homem, ele é transformado. A mudança no vocabulário hebraico marca a mudança. Por todo Gênesis 2, o homem é adam, não “o humano”, mas  o “ser da terra”.  Yahweh faz uma ishshah (uma mulher, fêmea, esposa)  da sua costela aparecer e, quando Yahweh a traz a Adão, ele não é mais adam, mas um ish (um homem): “ela será chamada ishshah porque ela foi tomada de ish” (2.23). Tanto ish quanto ishshah brincam com a palavra hebraica esh, a palavra para fogo. Formado do chão, Adão é um altar terreno, ainda não aceso, um não bem. Quando a mulher chega, ele se torna a chama no altar. Ele é da terra, terreno; quando Eva chega, ele se acende como as estrelas incandescentes do céu, como um homem celestial. Na presença do outro, Adão se torna mais do que Adão; ele se torna Adão-com-desejo, Adão-pegando-fogo.

Adão se torna mais ele mesmo quando Eva chega e desde então uma erótica da desigualdade se torna a condição bíblica de base para toda a socialidade humana. Analogias sexuais do relacionamento pactual entre Israel e Yahweh são comuns. Yahweh tira Israel do Egito para o Sinai, e ali entra em aliança com eles, uma aliança posteriormente descrita como casamento. Por meio de Oseias, Yahweh promete atrair Israel de volta para o deserto como ele fez nos dias do êxodo. E naquele dia o povo o chamaria de “Meu Marido” e “naquele dia, farei a favor dela aliança” e “Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao Senhor” (Oseias 2.14-20).

Traçando o Padrão de Desigualdades Eróticas

Rei e nação também formam um quase-casamento, numa teologia política erótica que se expressa em Cantares. A liderança não é se trata só de exercer autoridade ou poder bruto, mas se trata de desejar e provocar o desejo. Grandes líderes amam seu povo apaixonadamente e o seu povo se agarrará a eles até que a morte os separe. Lutero argumentou que Cantares era sobre a relação de Salomão com Israel, a sua “noiva”, e as descrições de Cantares do amante e da amada se referem a lugares, à fauna e à flora, e a características geográficas da terra.

Ele é “como um racimo de flores de hena nas vinhas de En-Ged” (1.14). O cabelo dela é como um rebanho de cabras “que descem ondeantes do monte de Gileade” (4.1). Ele se parece com o “Líbano, esbelto como os cedros” (5.15) e os olhos dela são como as piscinas de Hesbom e o cabelo dela a coroa como o monte Carmelo (7.4). O rei se deleita na sua noiva como ele se deleita na sua terra; ela se deleita no seu amado como ela se deleita na terra. Como Adão, Salomão arde pelo seu povo; o seu desejo pelo seu bem o torna uma estrela brilhante no firmamento. A leitura de Lutero destaca a dimensão erótica da vida política.

O tom é diferente, mas as descrições do Novo Testamento do corpo de Cristo (1Coríntios 12) são enraizadas nessa socialidade fundamentalmente erótica. Cada membro do corpo é singular, diferente dos outros. Alguns são ouvidos, alguns, olhos, alguns, mãos. Cada um contribui com os seus dons particulares para o todo: olhos veem pelo corpo todo, mãos servem aos ouvidos e pés, os pés carregam os olhos, mãos, ouvidos e cabeça para todo lugar. Nenhuma das partes do corpo são idênticas entre si e Paulo destaca o absurdo de um corpo com partes corporais idênticas e intercambiáveis: “Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde, o olfato?” (1Coríntios 12.17). Nem mesmo a honra que eles recebem é igual. Alguns membros do corpo recebem uma honra mais abundante do que outros (1Coríntios 12.24). A igreja existe como a comunidade que é na medida em que as interações dos membros se modelam pelas relações eróticas de homem e mulher. A igreja é uma comunhão formada não por partes intercambiáveis, mas por membros que são equipados diferentemente, cada um ardendo pela presença do outro, cada um se tornando plenamente ele mesmo ao cultivar os dons do Espírito para o bem comum.

Para Paulo, há uma igualdade, uma “mesmice”, para o corpo. Vários dons vêm do mesmo (auto) Espírito; várias formas de servir vêm do mesmo (auto) Senhor Jesus; energias diferentes dos membros vêm do mesmo (auto) Deus que energiza todas as coisas em todas as coisas (1Coríntios 12.4-6). A identidade dos membros da igreja não está dentro dos membros da igreja. Paulo não enraiza a sua igualdade em qualquer qualidade localizada internamente. Nada que eles possuem os torna contribuintes iguais para a vida do corpo. O que os vincula, o que os equaliza, o que os torna iguais, não é algo neles, mas algo no Espírito, no Filho e em Deus que forma e vivifica o corpo. A igualdade é extática, enraizada em Deus e não em nós mesmos.

A igreja é a sociedade modelo, mas essa ordem pode ser espelhada, ainda que de forma opaca, na sociedade civil. Vizinhanças exibem desigualdade erótica quando vizinhos usam os seus talentos e riqueza para beneficiar a outros vizinhos. Os negócios assumem uma dimensão erótica quando fornecedor, vendedor e consumidor, cada um vê o seu trabalho cumprido nas trocas de benefício mútuo do mercado. A cultura intelectual prospera quando cada participante reconhece, como disse Agostinho, que os bens intelectuais são possuídos somente ao se despossuírem, somente ao serem compartilhados.

Para renovar a sociedade civil, porém, precisamos questionar os pressupostos igualitários da nossa cultura. Quando a teoria política começa com indivíduos autônomos, igualitários, quando o direito e as instituições se baseiam nessa visão da natureza humana, quando a igualdade é concebida como a condição de base da sociedade humana, se torna difícil, senão impossível, adicionar a isso a socialidade erótica que a Bíblia trata como fundamental. Seres humanos iguais provavelmente serão seres humanos rivais e invejosos, inclinados a buscar os seus próprios interesses no lugar do bem comum. Ao contrário dos revolucionários franceses, a igualdade não necessariamente é amiga da fraternidade e a busca da igualdade pode erodir a erótica da comunidade, que prospera por meio da desigualdade erótica, quando a socialidade erótica serve como condição de base e como medida da comunidade.

 

Peter J. Leithart, presidente do Theopolis Institute, e professor adjunto sênior de Teologia e Literatura no New Saint Andrews College, é o autor do livro Vestígios da Trindade (Editora Monergismo, 2018, compre aqui). Este artigo foi publicado originalmente aqui.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.