Vida Cristã

Elogio do Tédio por James K. A. Smith

By 25 de janeiro de 2019 No Comments

No seu livro The World Beyond Your Head [O Mundo para além da sua Cabeça], Matthew Crawford fala sobre o que ele chama de “ecologias de atenção”, a infraestrutura social que molda e canaliza a maneira que interagimos com o mundo. Outrora, espaços mais quietos cultivavam o tipo de atenção que te davam a liberdade de ler Guerra e Paz. Na ecologia frenética que agora é o nosso padrão, você não pode abastecer o carro ou entrar num elevador sem alguma empresa tentar roubar a sua atenção.

Precisamos das artes para imaginar o mundo de outra forma. Mas tal invasão da imaginação, tal convite a outro mundo, precisa vencer os seus competidores. Isso sempre foi verdade, é claro. A eterna árdua tarefa humana de se obter a mera sobrevivência, que ainda é uma realidade diária em muitos lugares, sempre ameaçou consumir tempo e energia demais para dar espaço ao lazer. Os reis-filósofos de Platão baniram a poesia da cidade, enquanto que os reis-empresários do consumismo são mais sutis, tornando todo empenho numa mercadoria. Fascistas fecham o teatro enquanto que os tecnodeuses fecham apenas o programa musical.

Mas o anseio humano sempre deu um jeito de superar tais ameaças a fim de fazer uma arte que retrata o que está além. De alguma forma, os nossos antigos antepassados, exaustos de caçar e coletar, conseguiram tempo para criar a antiga beleza que adorna as paredes das cavernas em Lascaux. Um pastor hebreu, e os pobres de Appalachia, fez com que instrumentos de cordas cantassem. Os oprimidos pela escravidão nos legaram o jazz e o blues. Não merecemos A Love Supreme. Dos indizíveis horrores da Shoah [nome judaico para o holocausto], Night apareceu.

Toda obra de arte que é verdadeira ou bela é, pode-se dizer, uma piéce de résistance, falando a verdade sobre como o mundo realmente é e nos oferecendo um portal para o que fomos chamados para ser. Tal arte resiste mentiras, apatia e todas as forças que nos diminuam a meros consumidores ou inimigos ou peças de carne que copulam. Tais obras imaginativas são tanto desconcertantes quanto sedutoras. Elas nos lembram de que não somos tão bons quanto pensamos ser e elas nos chamam para ser muito mais do que isso. Como no filme de Terrence Malick Thin Red Line [Além da Linha Vermelha], uma luz entrecortada perpassa pela catedral de palmeiras enquanto a guerra corre solta embaixo, fazendo-nos olhar para cima com deslumbramento. E esperança.

Mas como superar a distração? Como romper o brilho ofuscante das nossas telas, a última ameaça de se fazer de anjo de luz?

O problema não é simplesmente que as tecnologias de distração nos impedem de fazer ou apreciar a arte. Não é simplesmente uma competição por atenção. A preocupação é mais forte: a nossa distração nos rebaixa. Como o temível Entretenimento no Infinite Jest de David Foster Wallace, os nossos feeds de redes sociais são estimulantes de dopamina. De uma forma que Wallace nem poderia imaginar, carregamos nos nossos bolsos a possibilidade de picos incessantes de novas experiências. Só precisamos abrir o Facebook ou o Instagram. Sempre tem algo novo nos nossos feeds: algum prazer fugidio, alguma nova causa de indignação e, acima de tudo, alguma nova afirmação: uma curtida, um favoritar, um comentário, como uma injeção intravenosa de reconhecimento.

Se aprendemos algo de Santo Agostinho, é um realismo bem atento com a nossa tendência de estragar as coisas. E então, como era de se esperar, até as nossas distrações foram distorcidas pelos piores anjos da nossa natureza. Agora, procuramos esses aparelhos vez após vez para obter aquela peculiar alegria da modernidade tardia: a alegria da indignação. O prazer que temos de reconhecer o que é detestável. A beatitude desfigurada da ofensa. O transe soberbo de se espantar com a última transgressão. Não podemos acreditar que ele disse aquilo e, secretamente, não podemos esperar para que aconteça de novo. Como o negativo do amor, a alegria da indignação é expansiva: ela só cresce quando é compartilhada.

E então gastamos os nossos dias encolhendo não só a nossa atenção, mas também as capacidades das nossas almas. Em algum sótão cósmico, o nosso retrato coletivo, como o de Dorian Gray, está absorvendo todos os efeitos dos nossos hábitos. Com cada faminto “atualizar da página”, cada retweet zombeteiro e cada desprezo presunçoso, esse retrato da nossa alma está murchando até ficar irreconhecível. Somos melhores do que isso.

Qual é a vocação da arte num mundo assim? E como as artes podem romper esses hábitos, talvez até nos ensinar a nos desapontarmos com a distração? Quem vai cantar a música que nos faz viajar?

Eu não pretendo dar uma resposta simples, nem acho que já resolvi tudo na minha cabeça. Deus sabe o quanto tempo eu já perdi no Twitter e quantas vezes tive de pedir perdão. Eu não planejo deletar a minha conta numa busca por pureza.

Mas eu sei disto, pelo menos: o Instagram não vai nos salvar e tweetar um versículo não vai desfazer o que fizemos conosco. Mas não há uma magia especial em ler só coisa impressa. Então isto aqui não é um reduto ludita, canonizando nostalgicamente o códice ou a tela como se a história tivesse acabado num glorioso passado. Cada meio de comunicação agora nos alcança dentro da ecologia de atenção programada pelo Vale do Silício. Nós tiramos foto dos nossos livros e do nosso café, gente! O ponto não é a plataforma, mas o desejo: o que queremos quando pegamos os nossos celulares? Nós não queremos meios de comunicação melhores, nem romantizamos os antigos. Precisamos mudar o que queremos.

Num mundo de incessante distração, a saída pode ser aprender a como ficar entediado. Um pouco de tédio pode adiantar muito; pode ser o guarda-roupas de que precisamos agora. Precisamos aprender a como ficar entediados a fim de nos desfazermos da distração e nos abrirmos aos outros e ao Outro, para nos tornarmos disponíveis para as irrupções da graça.

Numa conversa recente com Terry Gross, o cineasta Paul Schrader fez uma observação provocante: “as pessoas não deixam de ir à igreja porque elas estão entediadas”, sugeriu; “elas vão à igreja para ficarem entediadas”. (A ressonância que isso tem para mim pessoalmente pode vir da nossa formação compartilhada em igrejas reformadas). Mas o que Schrader quer dizer com “tédio” aqui é algo mais parecido com serenidade, o estar quieto que é condição para a contemplação. A quietude que é um prelúdio para a reverência. Para ouvir. Talvez até para escutar.

Para uma cultura enredada em entretimentos e distrações, essa serenidade vai parecer e sentir como se fosse tédio. E vai ser indescritivelmente difícil, tão impossível quanto uma vaca dançar balé.

Mas e se a arte, paradoxalmente, pudesse nos ensinar a como ficar entediados? Não é por acaso que a afinidade de Schrader com o santo tédio traça um paralelo com a sua devoção ao estilo transcendental nos filmes e a sua apreciação pelo “cinema lento” (mesmo que ele insista numa diferença entre ambos). Na nova edição do seu livro, Transcendental Style in Film, Schrader discute o tédio como uma ferramente estética. É a manifestação cinematográfica de um princípio: “Negue aos espectadores o que eles querem. Negue, negue, negue”. (Por que eu estou pensando no calvinismo de novo?)

“Por que um espectador aguentaria tal ultraje? Tal tédio?” Pergunta Schrader. “Bem, a maioria não aguenta”, admite ele. E pode haver uma verdade mais ampla para nós considerarmos aí. Mas ele prossegue para notar outra possibilidade. Filmes lentos, diz ele, podem “fisgar o espectador”.  Os mestres do cinema lento, aponta:

… usam o tédio como uma ferramenta estética. O tédio se confunde com o hipnotizante. Esses são os filmes realmente importantes. Por que nos submetemos a isso? O tédio. A distância … Porque cineastas efetivos do cinema lento são mestres de antecipação. Empregando imagens impressionantes e truques auditivos e um pouco de atividade, o diretor de filmes lentos segura o espectador suspenso, fazendo-o achar que há uma recompensa, uma “compensação” logo na próxima esquina. É uma chantagem ardilosa. Se eu parar de assistir, eu vou perder algo pelo que eu tenho esperado. Até o espectador experiente do cinema lento antecipa algo. Algum momento. Alguma surpresa. A espera vai valer a pena.

Precisamos de artistas com a coragem de nos ensinar a ficarmos entediados. Que nos provoquem com expectativa até quando estamos atordoados com o poema. Cuja prosa exige uma atenção que queremos dar por causa das promessas ali escondidas. Cuja escultura nos prende e nos frustra e rasga a nossa alma e nos perturba com o reconhecimento. Os criadores que nos ensinam a ficar entediados estarão cultivando em nós hábitos de atenção serena em que finalmente poderemos ouvir o nosso criador.

Assentado no canto do Jardim Tuileres, às margens do Sena, está o notável Musée de l’Orangerie, uma joia que exibe 145 pinturas colecionadas por Paul Guillaume. A coleção é um “quem é quem” da pintura francesa do começo do século XX, incluindo obras de Cézanne, Gauguin, Matisse, Modigliani, Renoir e muitos outros.

Mas numa visita recente eu fiquei impressionado com o papel desempenhado pela famosa obra de Claude Monet, Nymphéas, oito telas enormes de vitórias-régia pintadas especialmente para o espaço do museu. Antes de você descer para a coleção principal, você é convidado a dois recintos oblongos onde a surda luz natural desce gentilmente da claraboia. Ocupando quase a totalidade das paredes, estão as imagens arrebatadoras dos jardins de Monet em Giverny. Na primeira sala, você habita o jardim ao longo do tempo: da madrugada, passando pelo sol nascente e pela hora dourada do meio-dia até a beleza sinistra do entardecer. Na segunda sala, somos convidados a ver, ou talvez seja melhor dizer, a sentir, os lagos e flores e salgueiros de ângulos diferentes, a se perder no jardim, como se fosse, a flutuar nos seus lagos.

Há uma intencionalidade por trás de tudo isso, uma parceria entre o artista e o museu. Monet prometeu doar a sua obra um dia após o armistício de 1918. Ele queria criar um monumento para a paz e dar um presente para o povo da França. Mas ele também sabia algo sobre o mundo em que ele vivia: a fumaça da guerra; a depressão de uma cidade suja e exigente; a fatiga do trabalho. Então, à medida que ele visualizou a sua obra e o seu papel nesse espaço, ele estava conscientemente querendo criar um santuário. Concebendo o lugar de antemão, escreveu Monet: “os nervos drenados pelo trabalho relaxariam na sua presença, seguindo o exemplo tranquilo de suas águas paradas, e para aquele que vivesse nele, este quarto ofereceria um refúgio para uma pacífica meditação em meio a um aquário florido”.

Nem todo mundo vai conseguir chegar a uma meditação tão pacífica (“a maioria não”, lembra-nos Schrader). Monet imaginou toda a competição fora da galeria: a sombra da guerra, os fardos da indústria e do comércio. Ele não podia imaginar que todos os competidores conseguiriam entrar ali: os guias de tour exigentes batendo palmas para manter os seus clientes na trilha; os paus de selfie e as posturas exageradas daqueles que reduzem a sua obra a um pano de fundo. Não é fácil ficar entediado. É mais difícil do que simplesmente flutuar.

Ensinem-nos, artistas, a ficarmos entediados de novo. Convidem-nos ao tédio que é a antecâmara do deslumbramento. Provoquem-nos com alguma surpresa. Nos deixem tão entediados que Deus possa perfurar as nossas almas e para que possamos nos reencontrar.

Original publicado aqui.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.