Vida Cristã

Ideias ruins de igreja produzem consequências políticas ruins por P. Andrew Sandlin

By 4 de fevereiro de 2019 No Comments

Você pode ter ouvido o ditado “as ideias têm consequências”. Na verdade, isso é um famoso título de um livro escrito por um autor politicamente conservador logo depois da Segunda Guerra Mundial.1)Richard Weaver, Ideas Have Consequences (Chicago and London: University of Chicago, 1948).E é verdade. Ideias realmente têm consequências. E ideias ruins têm consequências ruins. Isso é tão verdade na cultura e na política quanto em qualquer outro lugar. Se você olhar para os males culturais e políticos que nos circundam hoje (aborto, “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, Obamacare, leis de confisco de armas, tirania judicial), a sua fonte são ideias ruins. É difícil se livrar da política ruim sem se livrar das ideias ruins que as alimentam e as nutrem.

Mas as ideias ruins que eu quero tratar agora não são tanto ideias ruins na cultura e na política. Eu quero falar sobre as ideias ruins na igreja que permitem essas ideias ruins na cultura florescer.

Muitos de nós estão em conflito hoje. Somos conservadores politicamente. Acreditamos no governo limitado, na dignidade da vida humana, na família tradicional. Nós acreditamos no que é chamado de “sociedade civil”: a igreja e a família e outras instituições “privadas” são amortecedores que protegem o indivíduo do Estado, e são competidores dele. Nós acreditamos nas virtudes cristãs: amor, fé, esperança, honestidade, sacrifício, trabalho duro, responsabilidade pessoal. Acreditamos que a lei moral de Deus vincula a todos, cristãos e não cristãos.2)Carl F. H. Henry, God, Revelation and Authority (Waco, TX: Word, 1983), 6:442–446.

Mas somos mais: muitos de nós são ativistas. O nosso país está num desvio perigoso — um governo federal monstruoso, erosão dos direitos dos estados da federação, aborto, pornografia, “casamento” gay, eutanásia, Obamacare, cada vez mais leis desarmamentistas — e estamos comprometidos com fazer algo sobre isso. Nós abraçamos ideias conservadores, mas essas ideias nos levam à ação: talvez ações que incentivem o voto [já que nos EUA, país do autor, o voto é facultativo], que tentem eleger candidatos cristãos e conservadores, que influenciem o direito com princípios conservadores. Somos agressivos.

É logo aí onde um conflito surge. Como cristãos, somos pessoas de igreja. Nós precisamos acreditar e pertencer a igreja. Mas muitas de nossas igrejas não são confortáveis com a nossa ação política conservadora como cristãos. Algumas igrejas que supostamente creem na Bíblia não são nem mesmo conservadoras politicamente. Mesmo igrejas que são conservadoras politicamente desprezam o ativismo político, aquilo a que dedicamos parte da nossa vida. Eles praticam o que eu gosto de chamar de “separação entre igreja e política”.

O pastor pode mencionar questões conservadoras, mas a ação política não é vista como parte de um chamado cristão. Talvez nem seja algo cristão. Talvez seja algo como escolher suas compras do mês ou participar de um jogo de futebol americano. Tudo bem fazer isso, mas não é nada de distintamente cristão. É só algo que escolhemos fazer. E somos tentados a pensar: “eu não posso ser um bom cristão e um conservador ativo” ou “eu preciso deixar a minha política do lado de fora da igreja ou deixar o meu cristianismo dentro da igreja”. É esse conflito que sentimos.

Eu gostaria de te convencer de uma coisa hoje: esse conflito não é real. Você pode ser um ativista político e um bom cristão ao mesmo tempo. Eu vou mais longe: você não pode ser um bom cristão a não ser que você seja zelosamente conservador.

Hoje eu vou refutar três ideias populares, mas ruins na igreja. Vocês podem ser mais confiantes não só como conservadores … mas como conservadores cristãos politicamente ativos também.

Pietismo

Por pietismo eu não o confundo com piedade. O que é piedade? É “a qualidade de ser reverente”. É adorar o Deus trino, é amar, é honrar, é confiar no seu Filho, Jesus Cristo. É um coração acertado com, e firmado em, Deus. Precisamos de mais piedade.

Além disso, por pietismo, eu não me refiro ao movimento dos séculos XVII e XVIII que reagiu contra a ortodoxia fria, dura e estéril do escolasticismo protestante.3)Dale Brown, Understanding Pietism (Grand Rapids: Eerdmans, 1978). Ele foi um movimento positivo e restaurou uma ênfase numa piedade calorosa e no amor a Jesus Cristo.

Eu me refiro ao pietismo num sentido mais recente e limitado. O que distingue esse pietismo é que ele limita a vida cristã à devoção privada ou à igreja (leitura bíblica, evangelismo pessoal, conferências escatológicas, “tempo devocional”, tabus pessoais). É uma religião majoritariamente vertical.

O pensamento pietista é mais ou menos assim: “Deus não liga para política (ou educação, arte, medicina, tecnologia, economia, música, filmes). Ele liga para a minha relação privada com ele”.

Igrejas pietistas pensam desta forma: “você cumpre os seus deveres cristãos quando ora, vai à igreja, lê a sua Bíblia e se voluntaria para a Escola Bíblica de Férias”.

Pastores pietistas pregam o seguinte: “a ação política nos distrai e desvia do verdadeiro cristianismo. O cristianismo de verdade na igreja se trata de um ginásio maior, um programa maior para o departamento infantil e vestes litúrgicas mais bonitas”.

O pietismo reduz o cristianismo a um “hobby cúltico pessoal”.4)Stephen C. Perks, The Great Decommision (Taunton, England: Kuyper Foundation, 2011), 12.

O grande problema com o pietismo é que ele mina o senhorio de Jesus Cristo. Todos conhecemos o simples dito: Jesus é Senhor. Na verdade, você sabia que esse foi o primeiro credo da igreja cristã? Bem antes do Credo Apostólico, havia um simples credo: Jesus é Senhor e Senhor = Mestre.5)Oscar Cullmann, The Earliest Christian Confessions (London: Lutterworth Press, 1949), 23.

Pergunta: Jesus é Senhor do quê? Eu acho que devemos responder que ele é Senhor de tudo. Próxima pergunta: política faz parte de tudo? Sim. Então, por uma simples lógica, Jesus é Senhor da política e isso é exatamente o que a Bíblia ensina.

O Senhor nos instruiu a orar: “venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus” (Mt 6.10). Na terra, não só na família e na igreja, mas em todo lugar.

Outra questão: como a vontade de Jesus é feita nos céus? Ela é feita perfeitamente. Os anjos e santos o obedecem sem pecado. É isso que precisamos orar para esta terra. E isso abrange a tudo, não só o nosso tempo privado e o nosso culto dominical, não só o lar e a igreja, mas também o estado, a escola e a Casa Branca.

E então lemos as palavras de despedida de Jesus aos seus discípulos em Mateus 28.18, a chamada Grande Comissão: “Toda autoridade me foi dada nos céus e na terra”. E então ele ordena seus seguidores a discipular às nações, não só indivíduos, mas nações. Ele quer trazer todas as nações, unidades políticas, sob a sua autoridade.6)Roderick Campbell, Israel and the New Covenant (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1954), caps. 15, 33.

Deus o Pai deu autoridade a Jesus para trazer todas as pessoas sob seu governo e nos mandou pregar o evangelho e batizar e instruir às nações a fazer exatamente isso.

Portanto, o pietismo dilui o senhorio de Jesus. Ele quer dizer a Jesus: “você pode ser Senhor aqui, mas não ali. Você pode ser Senhor da igreja, mas não do Estado”. Isso é uma negação do pleno senhorio de Jesus Cristo. 

O pietismo tem umas amizades estranhas. Os secularistas dizem: “o cristianismo deve permanecer na esfera privada”. Os pietistas respondem: “de acordo”. Os secularistas dizem: “os cristãos devem ficar fora da política”. Os pietistas respondem: “ de acordo”. Os secularistas dizem: “a palavra de Deus não tem nada a dizer a nossa sociedade”. Os pietistas respondem: “ de acordo”. Os secularistas dizem: “os incrédulos que devem fazer todas as decisões sobre a sociedade e a cultura”. Os pietistas respondem: “de acordo”. Os secularistas dizem: “o cristianismo é um ‘hobby cúltico privado’”. Os pietistas respondem: “de acordo”.

Eu acho que é hora dos cristãos pararem de concordar com os secularistas.

O pietismo entrega a cultura a Satanás: é uma ideia subcristã e perigosa.

Apocalipsismo

Apocalipsismo é um pensamento de “o fim está próximo” que inspira um cristianismo “fique onde está”, exceto para salvar almas de forma pietista: “o mundo está ficando cada vez pior; então é uma perda de tempo tentar mudar as coisas”. Como D. L. Moody disse uma vez: “eu considero este mundo um navio em naufrágio … Deus me deu um bote salva-vidas e me disse: ‘Moody, salve o máximo de gente possível’”.7)George M. Marsden, Fundamentalism and American Culture (New York: Oxford University Press, 1980), 38. É a ideia que, se a Bíblia ensina que o mundo vai piorar cada vez mais (e a Bíblia não ensina isso, na verdade),8)John Jefferson Davis, Christ’s Victorious Kingdom (Grand Rapids: Baker, 1986). é fútil tentar mudar as coisas. Deus predestinou o triunfo do mal, então por que tentar impedir isso?

Agora, há muitas visões diferentes de escatologia (visões do futuro). Pessoas que acreditam sinceramente na Bíblia possuem escatologias diferentes.9)Millard J. Erickson, Contemporary Options in Eschatology (Grand Rapids: Baker, 1977). Podemos concordar em discordar. Contudo, eu não ligo para qual é a sua escatologia, mesmo assim o apocalipsismo é errado. Lemos em Atos 1.6-8: “Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”. 

Jesus está dizendo: “vocês não precisam saber mais sobre ‘o fim dos tempos’. Vocês precisam levar a mensagem do meu evangelho de senhorio (que inclui política) a todo lugar”.10)John M. Frame, Selected Shorter Writings, Vol. 1 (Phillipsburg, NJ, 2014), 32–33.

Semelhantemente, lemos em Lucas 19.13 que Jesus disse a seus discípulos numa parábola: “Negociai até que eu volte”. Em suma, fiquem ocupados trabalhando pelo meu reino. Não fiquem aí sentados e esperem pela Segunda Vinda ou “o arrebatamento”.

Vinte anos atrás, em Ohio, eu estava pregando sobre isso para alguns pastores. EU estava lamentando o aborto, a pornografia, a homossexualidade e o socialismo. Eu estava exortando esses pastores a atenderem a seu chamado de se engajarem e se oporem a esses males.

Depois, um pastor me abordou e me disse: “sim, tudo isso de aborto, pornô, homossexualidade e socialismo é ruim, mas na verdade isso é bom de estar acontecendo, no final das contas, já que isso quer dizer que Jesus está voltando logo, logo”.

Se essa ideia parece uma perversão, é porque é isso que ela é.

As igrejas obcecadas com o “final dos tempos” (conferências, livros), enquanto a Planned Parenthood mata e vende partes de bebês e a Suprema Corte dos EUA permite o casamento de sodomitas, estão perigosamente enganadas. Elas estão nos vendendo para a escravidão cultural.

O apocalipsismo, assim como o pietismo, é uma ideia má.

Retiradismo

Recentemente, um líder na Convenção dos Batistas do Sul, bem conservadora, declarou: “perdemos as guerras culturais”.11)Leonardo Blair, “‘The Bible Belt Is Collapsing’; Christians Have Lost Culture War, Says ERLC President Russell Moore,” http://www.christianpost.com/news/the-bible-belt-is-collapsing-christians-have-lost-culture-war-says-erlc-president-russell-moore-102576/, acesso em 12 de outubro de 2015. A sua visão é: vamos só dar um bom testemunho; temos de ter cuidado com lutar por uma América cristã, excluindo as pessoas. Precisamos mudar a nossa estratégia.12)Sarah Pulliam Bailey, “Moore at the Margins,” Christianity Today, setembro de 2015, 32–33.

E as igrejas se alinham para bater em retirada: elas ficam longe da política, param de orar fora de clínicas de aborto, recusam a apoiar candidatos e legislações piedosos.

Líderes cristãos dizem: “vivemos num tempo em que a igreja está no deserto, no exílio. Vamos nos esconder do diabo. Admita. Perdemos. Vamos nos reagrupar e esperar para um tempo mais hospitaleiro culturalmente”.13)Ver John Yemma, “To Separate, Strengthen and Return,” The Christian Science Monitor Weekly, 12 de outubro de 2015, 7.

Isso é pura conversa fiada. Canaã era diabolicamente depravada quando Deus disse aos judeus para a conquistarem em seu nome (Gn 15.16). 14)É claro, os judeus como a única nação de Deus foram chamados a lutar com armas físicas, militares. As nossas armas não são físicas, militares, mas não são menos poderosas (Ef 6.10-20).

O Império Romano era um esgoto moral quando o nosso Senhor deu a sua comissão de conquistar o mundo para os seus discípulos. Ele não disse: “não tem jeito de ganharmos isso aqui, amigos, então vamos recuar para planejarmos um contra-ataque”. Os cristãos primitivos levaram o evangelho ao mundo conhecido e em menos de 300 anos o Império Romano foi forçado a se tornar cristão. Por quê? Porque os nossos antecessores se recusaram a bater em retirada durante tempos culturalmente depravados como os nossos.

Alguns cristãos parecem acreditar que se eles simplesmente pararem de confrontar o diabo na cultura, ele vai os deixar em paz nas suas igrejas e famílias. Isso é uma perigosa ilusão. Você pode se esconder do diabo, mas o diabo não vai se esconder de você. Se você fugir dele na esfera pública e na política, ele vai te caçar na privacidade do seu lar.

Então, por trás do retiradismo está uma ideia adicional de que o mundo pertence ao Diabo: “este mundo não é o meu lar, eu só estou de passagem”, como diz um antigo corinho evangélico. “Por que devemos lutar pela verdade no nosso mundo já que ele não pertence a Jesus, mas ao Diabo”.

Você já leu isso na Bíblia? Não.

O que você lê é o que está em 1Coríntios 10.26: “porque do Senhor é a terra e a sua plenitude”.

Este é o mundo de Deus; ele o criou; ele o sustenta. Ele o planejou para operar segundo a sua verdade. 

Deus permite a liberdade humana, então há uma grande batalha entre o bem e o mal. Mas se desistirmos da batalha por este mundo, traímos ao Rei; este mundo não é nosso, é dele.

Retiradismo é traição; ele entrega o mundo de Deus aos seus inimigos.

Conclusão

Pietismo, apocalipsismo e retiradismo: essas são ideias ruins para a igreja que produzem consequências políticas ruins. E se você quer saber a razão principal para a nossa cultura ser tão depravada hoje, é porque a igreja comprou essas ideias e isso cria um conflito nas mentes e corações de conservadores cristãos politicamente ativos.

Mas você não deveria sentir um conflito, porque não há conflito entre o cristianismo verdadeiro o ativismo político conservador. Na verdade, se não lutarmos pelo que hoje chamamos de princípios conservadores básicos, não estaremos lutando pelo cristianismo bíblico, porque esses princípios refletem a verdade bíblica.15)John M. Frame, Selected Shorter Writings, Vol. 1, 231–234.

O chamado de retirada da batalha política por Cristo, Rei, é uma mensagem subcristã.

Original aqui.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.

Referências   [ + ]

1.Richard Weaver, Ideas Have Consequences (Chicago and London: University of Chicago, 1948).
2.Carl F. H. Henry, God, Revelation and Authority (Waco, TX: Word, 1983), 6:442–446.
3.Dale Brown, Understanding Pietism (Grand Rapids: Eerdmans, 1978).
4.Stephen C. Perks, The Great Decommision (Taunton, England: Kuyper Foundation, 2011), 12.
5.Oscar Cullmann, The Earliest Christian Confessions (London: Lutterworth Press, 1949), 23.
6.Roderick Campbell, Israel and the New Covenant (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1954), caps. 15, 33.
7.George M. Marsden, Fundamentalism and American Culture (New York: Oxford University Press, 1980), 38.
8.John Jefferson Davis, Christ’s Victorious Kingdom (Grand Rapids: Baker, 1986).
9.Millard J. Erickson, Contemporary Options in Eschatology (Grand Rapids: Baker, 1977).
10.John M. Frame, Selected Shorter Writings, Vol. 1 (Phillipsburg, NJ, 2014), 32–33.
11.Leonardo Blair, “‘The Bible Belt Is Collapsing’; Christians Have Lost Culture War, Says ERLC President Russell Moore,” http://www.christianpost.com/news/the-bible-belt-is-collapsing-christians-have-lost-culture-war-says-erlc-president-russell-moore-102576/, acesso em 12 de outubro de 2015.
12.Sarah Pulliam Bailey, “Moore at the Margins,” Christianity Today, setembro de 2015, 32–33.
13.Ver John Yemma, “To Separate, Strengthen and Return,” The Christian Science Monitor Weekly, 12 de outubro de 2015, 7.
14.É claro, os judeus como a única nação de Deus foram chamados a lutar com armas físicas, militares. As nossas armas não são físicas, militares, mas não são menos poderosas (Ef 6.10-20).
15.John M. Frame, Selected Shorter Writings, Vol. 1, 231–234.