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Medo e o futuro

By 29 de janeiro de 2021 No Comments

por R. J. Rushdoony

 

Bom dia, amigos. Quando governado pelo medo, o homem se torna incapaz tanto de viver no presente quanto de encarar o futuro. Seus dias são marcados pela constante incapacidade de enfrentar a realidade do tempo e pela relutância em gozar a vida hoje. A vida é vivida, não no mundo real, mas num reino de fantasia que não tem relação com a causalidade e ainda menos com a verdade sobre si mesmo.

Este homem está constantemente sonhando com um futuro ideal, em que todos os fardos lhe serão tirados dos ombros, todos os problemas resolvidos e todas as responsabilidades substituídas por prazeres e recompensas imerecidas. Todas essas pessoas sonham ardorosamente com o futuro, mas na verdade têm medo tanto da vida quanto do futuro, porque não estão dispostos a conformar-se consigo mesmas como criaturas submetidas a Deus. Fantasias acerca do futuro muitas vezes assumem uma importância política tremenda, da qual o comunismo marxista é um exemplo contemporâneo especialmente óbvio. O sonho marxista de um mundo sem estado, sem crime, sem pecado, sem problemas é a fantasia de homens doentes que têm medo da verdade divina acerca deles mesmos e estão tentando criar um mundo em que causa e efeito não prevalecem e em que Deus não existe. Seu credo fanático atrai apenas homens que, como eles mesmos, estão tentando esquivar-se do juízo ao proscrevê-la, e tentando escapar da verdade acerca de sua lamentável condição de pecador ao chamar a si mesmos de justos e suas obras de façanhas de super-homens. Nada, entretanto, pode ocultar o fato de que são pecadores orgulhosos e revoltosos tentando fugir da ira de um Deus justo.

Como tais homens não podem encarar a verdade acerca de si mesmos – o fato de que são pecadores diante de Deus –, não podem enfrentar mais nada com honestidade ou verdade. Não conseguem aceitar a causalidade, pois esta declara que o que se semeia é o que se ceifa e que o salário do pecado é a morte. Não podem encarar o presente ou o futuro, porque ambos o confrontam com a consequência – e, para o pecado, toda consequência é morte e juízo. Portanto, encontram refúgio na fantasia, no mundo encantado em que o pecador toma o paraíso e os justos são entregues à danação.

Este sonho inteiro é uma fuga do mundo do tempo e da causalidade, e toda esta evasão é uma fuga de nós mesmos. Todas essas tentativas de evitar encarar a nós mesmos são nascidas do pecado e envolvem uma tentativa de esquivar-se do fato de que o homem pecou contra Deus. O único resultado desta evasão é medo e mais medo.

Somente o homem que vê a si mesmo como pecador aos olhos de Deus e vive pela graça de Deus e na salvação de Jesus Cristo pode encarar a si mesmo com sinceridade e sem fugir. Somente o cristão coerente pode viver consigo mesmo, pois, ao fazê-lo, agora vive com o novo homem, Jesus Cristo. Somente o cristão coerente pode viver pronta e vitoriosamente no mundo real, em termos de causalidade, em termos de tempo, passado, presente e futuro, porque só ele se livrou do juízo em Jesus Cristo e venceu até a morte. Só ele acha o mundo real mais maravilhoso do que o mundo dos sonhos, porque sabe que Deus governa e prevalece no mundo real, mas que no mundo dos sonhos é a natureza doente e pecaminosa que está em ação e no poder. É melhor viver em meio aos problemas com o Deus triúno do que viver na opulência doentia de sonhos gerados pelo pecado original.

Só o cristão coerente pode enfrentar todo e qualquer dia, não importa o que este possa trazer, e dizer: “Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sl 118.24). Esta é a verdadeira fé, viver na realidade, vitoriosa e confiantemente.

Tradução: William Campos da Cruz

Fonte: Bom dia amigos, volume 2 (Editora Monergismo, no prelo).