Vida Cristã

O QUE OS ANJOS DISSERAM

By 12 de dezembro de 2019 No Comments

O QUE OS ANJOS DISSERAM

Boa vontade para com os homens

Essa visão do otimismo histórico† não é tão comum no mundo cristão, e por isso pode parecer bem peculiar às vezes. Mas, felizmente, uma vez por ano a nação inteira parece aderir à nossa maneira de pensarVocê pode estar comprando aqueles produtos de último minuto e não se surpreender ao ouvir os alto-falantes lembrando que “ele vem para fazer suas bênçãos fluírem aonde houver maldição”. Pense neste livro como um pequeno esforço para fazer com que os cristãos creiam em suas canções de Natal o ano inteiro.

Temos problemas com isso porque o Natal é sobre graça, e uma das coisas mais difíceis neste mundo é o pecador entender o que é a graça. E, então, tão logo nos damos conta dessa dificuldade, começamos a competir para ver quem “entendeu”, dando aos que apresentam a “resposta certa” o prêmio de melhor da competição. Mas a graça não segue as nossas regras. Graça implica dizer que alguns cujas respostas estavam erradas serão salvos e outros, cujas respostas estavam certas, não.

Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura. E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens. (Lc 2.8-14, ACF)

Como todos já ouvimos muitas vezes, havia pastores naquela área, vigiando seus rebanhos pela noite (v. 8). Mas não imagine uma pitoresca cena pastoril — esse grupo estava mais para um bando de brutamontes tatuados do que para qualquer outra coisa. Os pastores não faziam parte dos estratos superiores da sociedade israelita. Um anjo apareceu a eles, e a glória do Senhor brilhou em redor, e eles ficaram apavorados (v. 9). Há boas chances de que o anjo os tenha interrompido no meio de uma piada. O anjo lhes disse que não temessem – ele trouxe boas novas, novas de grande alegria, e a mensagem era para todas as pessoas (v. 10). A base de tal a alegria era o fato de que Cristo, o Senhor, havia nascido em Belém naquele dia (v. 11). Um sinal foi dado — o bebê seria envolto e posto em uma manjedoura (v. 12). Depois que o anjo do Senhor terminou, esta grande mensagem de paz foi reforçada por um exército celestial (v. 13). A multidão (muitos milhares) disse isto (v. 13) em seu louvor a Deus:

 

  1. Glória a Deus nas alturas
  2. Paz na terra
  3. Boa vontade para com os homens

A diferença entre a versão Almeida Corrigida Fiel e algumas outras traduções é uma questão de manuscrito, não de tradução, e por razões que se tornarão evidentes em breve, continuaremos seguindo aqui a ACF.

Temos problemas com algo tão direto como “boa vontade para com os homens”. Temos medo de nos entusiasmar demais com a graça e por isso queremos inserir na frase algumas restrições. Isso surge em algumas das outras leituras. “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.14, ARA). Isso é consistente com a visão de que a paz é limitada a umas vinte e oito pessoas — certamente, Deus não ficaria satisfeito com mais do que isso. Boa vontade e paz são dispensadas com uma colher de chá a um clube seleto, e não precisamos mais nos preocupar com os modos aparentemente pródigos de Deus.

Mas há muitas passagens que tornam clara e evidente a intenção salvadora e graciosa de Deus para com o mundo inteiroE nós simplesmente as ignoramos ou as transferimos para algum lugar celestial, em um outro mundo, para que não se apliquem a nós aqui e agora. Mas temos de fazer algo com os versículos que geralmente aparecem nos cartões de Natal. Será que não significam realmente que a boa vontade de Deus é estendida a todos os homens em geral? Significam, sim! Primeiro, fora da questão manuscriturística, observe o que o anjo do Senhor disse antes de que todo o exército celestial aparecesse e cantasse em coro. Ele disse que aquela era uma “boa nova de grande alegria” e era “para todo o povo” (v. 10).

Ora, a graça se espalha à sua própria maneira. O fato de Deus ter toda a intenção de salvar o mundo inteiro é uma mensagem graciosa. E aqueles que temem que nos deixarmos levar pela conversa da graça indiscriminada não precisam se preocupar. Herodes não era um mensageiro desta graça (embora fosse dela instrumento involuntário). Os falsos mestres não são mensageiros desta graça (embora também estejam incluídos nos propósitos de Deus). A graça é firme e sabe definir-se. A graça não é uma palavra que devemos usar como “abre-te, sésamo” da igreja. A graça não é algo que fazemos. A graça não é algo que podemos controlar. A graça não é algo que podemos administrar. E isso significa que nós, na igreja, precisamos reconhecer que os guardiões da graça são geralmente os inimigos mais perigosos. A graça é a intenção declarada de favor de Deus para o mundo inteiro, quer gostemos disso ou não.

A palavra usada aqui para “boa vontade” é semelhante às expressões de prazer que Deus pronunciou a respeito de seu Filho. “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Claramente não nos encontramos nesta posição de favor por causa de alguma grande realização moral própria — na cidade de Davi nasceu um Salvador. O Salvador trouxe libertação e perdão, os quais nós, em nosso estado de pecado, precisávamos desesperadamente. Isto declaramos, pregamos e anunciamos, pois é o modo divino de espalhar esta boa notícia. E se Deus dissesse a toda a humanidade naquela primeira noite de Natal: “Não me importa o seu passado de podridão… aqui, na cidade de Davi, nasceu um Salvador”, quanto mais disposto ele estaria a dizer a você: “Não me importa o seu passado de podridão. Entendeu isso? Eu não me importo”?

Conhecemos a Bíblia o bastaste para saber que a graça, devidamente compreendida, não leva a uma vida de indignidade moral. “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” (Rm 6.1). De modo nenhum! Conhecemos as Escrituras a esse respeito, mas receio que não conheçamos o nosso próprio coração. A graça de Deus é um tsunami que nos arrastará e nos deixará em lugares que não imaginávamos — e tudo bem com isso. Analisamos essa questão com cuidado e queremos que a graça seja para nós como água verdadeira e real, tal qual a de um tsunami, mas que esteja na forma de um plácido lago em um dia de verão, o qual possamos atravessar sem perigos, com pezinhos de bailarina sobre o que pensamos ser o leito seguro da nossa própria moralidade. Como diz aquele velho blues, todos querem ir ao céu, mas ninguém quer morrer. Todos querem atravessar o Jordão, mas ninguém quer se molhar.

Mas precisamos voltar aos pastores. Deus declarou, por meio de seus emissários angélicos, sua boa vontade para com o nosso mundo. Declarou suas intenções de paz. Se não o fizesse, teria restringido drasticamente a mensagem a um minúsculo “clube da paz e boa vontade”. O evangelho é para o mundo. E a razão de termos problemas com isso é que pensamos que isso significa que o mundo se encaixaria em nosso minúsculo clube. Mas não se encaixará, e nem quer. Isso não resolveria nada. Então, Deus tomou uma ação decisiva e, através de seus anjos, fez uma declaração bastante unilateral a alguns pastores.

E, assim, houve tarde e manhã, o oitavo dia. Não devemos nos surpreender com o padrão de luz após trevas, padrão que vemos não só na criação do mundo, mas também na recriação de todas as coisas.

Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas. Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã. (Ap 22.16)

Vários destes eventos do primeiro Natal ocorreram à noite. Os anjos anunciaram as boas novas aos pastores enquanto estes observavam seus rebanhos à noite (Lc 2.8). Os sábios seguiram a estrela para Jerusalém e depois para Belém, o que significava que a observavam de noite (Mt 2.9). José fugiu para o Egito com Maria e Jesus, e o fez de noite (Mt 2.14). E uma das coisas mais óbvias sobre o Natal, quando damos um passo atrás e o observamos, é que o primeiro Natal aconteceu na noite escura do mundo. Noite, e então manhã, o oitavo dia. Não é sem motivo que nossas canções de Natal tocam neste tema — “ele veio na luz da meia-noite”, “acorda, acorda, pois a noite já vai indo”, “quão linda brilha a estrela da manhã”, “como a Luz das luzes desce sobre os reinos num dia sem fim, que as forças do inferno se dissipem junto com a escuridão”, “no meio do frio do inverno, quando já ia alta a noite” e “dispersa as nuvens tenebrosas da noite e faz fugir as sombras escuras da morte”.

Mas quando o sol nasce, ele não é como a luz que se acende na sala quando você liga o interruptor. O sol nasce lentamente. No começo, você não sabe que algo aconteceu. Pode estar tão escuro quanto um momento atrás, mas talvez não. E algum tempo depois, você percebe que o lado leste do céu não está como antes. Há um pouco de luz ali. As estrelas, visíveis durante toda a noite, começaram a desaparecer. Logo há apenas uma de um lado — a estrela da manhã, o planeta Vênus, a última da noite. O que acontece a seguir é que o sol realmente se levanta para o dia que começa. Cristo nasceu de noite, e seu nascimento foi a chegada da estrela da manhã.

Observe a linguagem de João novamente. Cristo é a raiz e geraçaõ de Davi, e é a estrela da manhã. Ele é aquele que nasceu à noite, e seu nascimento foi a chegada da estrela da manhã. É importante deixarmos que as Escrituras nos digam que horas são. Se você ainda não soubesse que hora é, não poderia distinguir a diferença entre a escuridão que precede o alvorecer e a do ocaso. O sol está subindo ou descendo? A Bíblia nos diz.

Cristo mesmo é a Palavra de Deus, e ainda assim os cristãos podem ter a Palavra de Deus em suas mãos e lê-la. Cristo mesmo é a Estrela da manhã, a estrela da alva, e, no entanto, Pedro nos diz que prestar atenção às Escrituras é ter a Estrela da manhã em nosso coração.

Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. (2Pe 1.19-21)

Jesus Cristo é a luz do mundo. No coração de cada pessoa convertida, ele é a luz interior, a estrela da alva no coração. Mas sejam os homens convertidos ou não, cegos ou não, ele é a Estrela da manhã do mundo, o sol nascente do mundo inteiro.

A vida estava nele e a vida era a luz dos homensA luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz, a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. (Jo 1.4-9)

Não devemos pensar que, quando os homens são convertidos, cada um deles se torna uma pequena lâmpada, e que se gente o bastante se converter, poderão criar uma concessionária de energia e juntar as lâmpadas para tentar formar um sol. A visão da vindoura glória do sol pleno não depende em nada da nossa tentativa de cooperação. O sol raiou, e continuará a fazer o que faz um sol nascente.

Claro, uma resposta individual é importante, mas é igualmente importante perceber ao que estamos respondendo. O sol nasceu. Cristo chegou. Ele é o rei. A luz raiou sobre o mundo. Um retorno à meia-noite pagã é uma impossibilidade. Aqueles que agora andam em trevas o fazem em um mundo banhado de luz. E isso não é fácil — você precisa permanecer cego ou se esconder nas sombras. Há maneiras de permanecer longe da luz solar, mas não é nada simples. E não só isso, à medida que o dia avança, vai ficando ainda mais difícil.

Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha. Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas. Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço. Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos. (1Jo 2.8-11)

A tarefa do evangelismo, agora que Cristo ressuscitou, não é tanto correr pela noite apontando nossas lanternas para as esquinas e porões escuros. Antes, a tarefa evangelística está mais para abrir cortinas. “Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará.” (Ef 5.13-14). Saia dessa cama! Cristo brilhará em você!

É por isso que os secularistas não gostam do primeiro Natal, e tampouco dos subsequentes. O que eles vão fazer? Aprovar uma lei? Isso seria pior do que a parábola apresentada pelo rei Canuto quando ordenou que a maré não subisse — seria assim se o Congresso aprovasse uma lei que ordenasse ao sol não brilhar nos locais onde a constituição estiver em vigor.

A boa nova do “alvorecer” não implica dizer que não existem trevas espirituais ou um julgamento final sobre a humanidade. Significa que a luz prevalece sobre as trevas (Jo 1.5). Tais leis, tais resistências tolas, podem causar alguns problemas a curto prazo. Pense novamente em Herodes e nos bebês que ele assassinou. Mas pense também em quão ineficaz isso foi. Ele deteve o surgimento da estrela da manhã? Impediu a chegada do dia? Do mesmo modo, devemos saber que a mensagem do Natal não é que temos de persuadir alguém de coisa alguma. A mensagem é muito mais uma declaração de boas notícias do que uma argumentação.

Questões para discussão:

Todos os pontos do evangelho apontam na direção da salvação do mundo. Mas por alguma razão, mais pessoas estão preparadas para ouvir sobre isso no Natal. Talvez possamos começar aí e abrir espaço em alguns dos outros feriados.

  1. A quem primeiro foi anunciada a mensagem de Natal? Que o significado isso carrega?
  2. Quando Cristo veio, ele era a estrela da manhã ou a estrela da noite? Um sol nascente ou poente? Que diferença isso faz?
  3. Se evangelismo consiste em trazer luz aos não-crentes, que métodos normalmente usamos com esse objetivo? Quais métodos podem ser mais eficazes

† Otimismo histórico: a convicção de que a história vai terminar em gloriosa vitória, não em catástrofe.

 

Tradução Márcio Sobrinho.

Extraído de “Paraíso deslocado” (no prelo, Editora Monergismo)