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7 de maio de 2015
 

O pequeno segredo sujo dos endossos

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Escrito por: Tim Challies
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Umas duas semanas atrás Carl Trueman postou uma resenha de um novo livro do G. R. Evans. Trueman tinha lido The Roots of the Reformation: Tradition, Emergence and Rupture na esperança de que poderia usá-lo como texto para suas aulas de História da Reforma.[1] Muito rapidamente ele chegou à conclusão de que o livro não era adequado, dizendo: “Infelizmente, a seção sobre a Reforma está repleta de erros quanto aos fatos históricos, alguns dos quais são bastante graves, mesmo que alguns deles possivelmente se devam a questões tipográficas. Tantos erros juntos tornam deficiente seu uso em sala de aula e prejudicam seu propósito de livro-texto.”

Após documentar uma longa lista de erros — e mesmo aí somente os percebidos numa primeira leitura — ele chega a esta conclusão:

Tristemente, a multiplicidade de equívocos factuais contidas neste livro inviabiliza seu uso em sala de aula. A despeito das recomendações laudatórias de alguns dos mais lidos eruditos reformados em atividade, eu não posso recomendá-lo, exceto como uma salutar lição do que acontece quando alguém escreve muito afoita e confiantemente sobre algo que está fora de sua área de especialização. Como professor, não posso usar este livro porque ele não cumpre aquilo que se exige de um livro-texto, que é ser um guia confiável para nomes, datas e acontecimentos.

O editor respondeu de forma adequada e imediatamente tirou o livro de circulação e passou a trabalhar em uma edição revisada que corrigirá os erros. Eles também prometeram fornecer um exemplar da segunda edição a todos que haviam adquirido a primeira. Essa é uma resposta louvável.

Muito bem. The Roots of the Reformation é uma obra histórica, acadêmica, daquelas que poucos de nós chegaríamos a conhecer, não fosse pela resenha de Trueman. Contudo, considero essa situação interessante porque penso que isso aponta para uma questão mais ampla, que há algum tempo venho desejando discutir. Trueman toca nesse assunto na conclusão de sua resenha:

Em resumo, esse é um livro bastante curioso: pelo fato de que um erudito perspicaz como o professor Evans tenha produzido um trabalho com tantas falhas; e pelo fato de que eruditos altamente respeitados tenham dado seu “imprima-se” a essa edição por meio de recomendações hiperbólicas. Tristemente, na linha daquele antigo provérbio, você não pode julgar este livro pela capa.

É de fato curioso que tantos eruditos altamente respeitados —J.I. Packer, Timothy George, e outros entre eles — tenham escrito endossos a esse livro. O que você pensaria de um livro que recebe elogios do tipo “magnífico”, “notável” e “leitura essencial”, mesmo contendo tamanha quantidade de erros graves?

Você pode muito bem concluir que muitos dos que endossaram não leram o livro ou, no mínimo, não o leram com atenção. E sem acusar qualquer das pessoas cujo nome aparece na quarta capa, esse pode muito bem ter sido o caso.

 

Qual o propósito de um endosso ou recomendação?

Em essência, um endosso é um meio pelo qual alguém atrela sua credibilidade a outra pessoa. Aquele que endossa está dizendo: “Se você acha que eu tenho alguma credibilidade, então a estenda a essa pessoa e a essa obra”. Desse modo, os que recomendam são uma parte importante do mundo editorial, e isso se dá especialmente quando alguém conhecido endossa a obra de alguém menos conhecido. Bons endossos podem fazer a diferença entre um best-seller e uma obra que será completamente ignorada.

Mas aqui está um pequeno segredo sujo do universo editorial. Quando você olha para a capa de trás de um livro e vê uma lista de recomendações, é possível — e mesmo provável — que a maioria daquelas pessoas não tenha lido o livro ou não o tenha lido de forma cuidadosa. Há algumas pessoas que somente endossarão um livro se tiverem lido cuidadosamente cada palavra, mas o mais comum é que as pessoas simplesmente folheiem o livro antes de escrever suas sinopses; outros passem a vista e ainda outros tenham assistentes para essa tarefa.

Duvido que existam pessoas que gostem de escrever endossos baseados em algo menos do que uma leitura cuidadosa, contudo, é isso que frequentemente acaba acontecendo. E por muitas razões. Aqui está uma delas: As pessoas têm boas intenções, mas pouco tempo disponível. Alguém recebe um manuscrito em junho — um documento no Word via e-mail ou uma pilha de papel encadernado — com o aviso de que o endosso deve ser entregue até 31 de agosto. É uma honra ser chamado para fazer um endosso e o sujeito genuinamente quer servir àquele autor. Ainda falta muito tempo e aquilo tudo parece ser bastante simples. Mas quando 29 de agosto desponta no horizonte, o editor envia um lembrete de que o livro está perto de ir para a gráfica e os endossos devem ser entregues em dois dias. Agora não há tempo para ler o manuscrito cuidadosamente, então o sujeito folheia o material rapidamente, tenta captar a ideia principal, e rabisca umas poucas palavras, enviando-as ao editor em cima da hora.

Ou talvez o manuscrito seja de um autor bem conhecido, alguém que já tenha quarenta ou cinquenta livros escritos. Esse novo livro irá tratar de um tema que ele já abordou anteriormente. Só em folhear o livro já se pode facilmente ver como o argumento irá ser formulado e a que conclusões ele irá conduzir. Então ele faz uma leitura superficial e escreve seu extrato.

Ou talvez esse livro tenha sido escrito por um amigo. Aquele que fará o endosso conhece a posição de amigo sobre o assunto; talvez tenha tido conversas sobre isso ou ouvido ele explicar o tópico numa conferência. Ele então esboça um endosso baseado naquilo que sabe ser verdade sobre seu amigo.

Em todo caso, há muitos modos pelos quais os endossos podem refletir menos do que uma leitura completa de um livro completo. Isso é algo que seria bom que todos nós tivéssemos em mente.

Comecei prometendo a mim mesmo que só endossaria livros dos quais eu tivesse lido cuidadosamente cada palavra, mas ao longo do tempo me encontrei fazendo um pouquinho menos — lendo ligeiramente próximo ao dia de entrega. Recentemente me refiz e reafirmei meu compromisso de endossar menos livros e de fazer isso somente após ler o livro inteiro. Considero importante que qualquer credibilidade que eu ofereça a uma obra carregue o máximo de peso possível.

Deixe-me dar a você duas saídas:

Primeira, como regra geral, não conceda importância indevida aos endossos. Um ceticismo incontido pode não ser algo adequado, mas nem por isso você deve necessariamente presumir que cada endosso é tão significativo quanto se esperaria. No mínimo, não compre, creia e aplique o que está num livro baseado somente em seus endossos.

Segunda, procure saber quais autores escrevem endossos que são dignos de crédito. Há alguns poucos cujos endossos têm peso e significado (Mark Dever e John Piper me vêm imediatamente à mente — homens que endossam poucos livros, mas que, até onde sei, só o fazem após cuidadosa leitura); procure saber quem são os autores desse tipo e lhes conceda maior peso do que aos demais.

 

 

Original: The Dirty Little Secret of Endorsements[2]

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

[1] http://www.reformation21.org/articles/you-cannot-judge-this-book-by-its-cover-a-review.php

[2] http://www.challies.com/articles/the-dirty-little-secret-of-endorsements



Sobre o Autor

Tim Challies
Tim Challies
É pastor da igreja Grace Fellowship, em Toronto, no Canadá, editor do site de resenhas Discerning Reader e cofundador da Cruciform Press. Casado com Aileen e pai de três filhos, ele também é blogueiro, web designer e autor de várias obras.



 
 

 

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