Vida Cristã

20 de janeiro de 2012
 

O Papel do Homem/Marido na Família da Aliança

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Escrito por: Gerard Van Groningen
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ste capítulo reafirma tudo o que foi dito nos primeiros cinco capítulos e acrescenta novos esclarecimentos sobre as bases já estabelecidas. Chamamos particular atenção para o fato de que nós temos enfatizado que o casamento é uma aliança, que reflete, espelha, representa e dá expressão terrena à Aliança que Deus tem com o seu povo redimido. Neste capítulo queremos enfatizar o papel que o homem deve fielmente assumir e desenvolver no relacionamento do casamento. Esse relacionamento diz respeito particularmente à esposa bem como aos filhos.

Antes de prosseguirmos com a discussão do papel do homem/marido no casamento da Aliança, devemos incluir uma experiência necessária, humilhante e de aprendizado que eu tive com um psicólogo cristão.

Nós estávamos trabalhando em uma grande igreja no estado de Michigan. Aproximadamente 225 crianças e jovens participavam da classe de instrução bíblica. Eu ensinava a todos eles. Eu também dirigia o estudo bíblico dos homens todas as semanas, realizava muitos trabalhos pastorais, dirigia os programas de evangelização, participava de um projeto de tradução da Bíblia e ainda pregava duas vezes a cada domingo. Eu era muito ocupado.

Eu e minha esposa Harriet tínhamos cinco filhos e estávamos esperando o sexto para a metade do mês de novembro de 1957. Em outubro daquele ano, nós recebemos um chamado da direção da junta de missões da nossa denominação nos convidando para trabalhar em Victoria, Austrália. Eu sempre tive interesse em missões e já havia me voluntariado para trabalhar no Japão. O meu interesse pelo Japão devia-se aos dezenove meses que lá servi como militar depois do término da Segunda Guerra Mundial. Consultamos o ginecologista de Harriet e ele aconselhou que fôssemos somente após o nascimento da criança. Assim sendo, pedimos um prazo maior para dar a resposta, o que nos foi concedido. A criança nasceu no dia 17 de novembro e depois de alguns dias tornou-se óbvio que ela tinha um problema respiratório. O médico aconselhou-nos a esperar por mais seis semanas para dar a resposta à missão, caso tivéssemos a intenção de aceitar. Assim, conseguimos mais seis semanas de prazo. Nesse período a nossa igreja ficou bastante ansiosa e muitas pessoas solicitavam a nossa permanência. Os presbíteros nos pressionavam a responder “sim” ou “não” e assim aliviar a tensão no meio da igreja.

Durante aquelas seis semanas adicionais, todos nós, membros da família, realizamos vários tipos de exames físicos. Todos fomos declarados em boa saúde, com exceção da filha caçula. Na metade de janeiro de 1958, o médico nos informou que o clima australiano poderia ser o mais apropriado para o bebê. Aquele conselho nos deu tranquilidade para dizer “sim” à missão. Eu telefonei para o vice-presidente do conselho e disse a ele que avisaria a igreja publicamente no domingo, isto é, daí a três dias. Preparei meu sermão para dar o contexto da minha resposta positiva.

No sábado, repentinamente lembrei-me de que deveria avisar o secretário executivo da missão antes de fazer o anúncio público da minha decisão. Eu telefonei para ele às 11 horas da manhã. Sua resposta foi: “Você não pode fazer um anúncio público até que você e Harriet tenham tido um encontro com o psicólogo cristão que aconselha a missão quanto às atitudes pessoais, emocionais, volitivas e características do candidato a missionário.” Minha resposta foi que, desde que os problemas familiares tinham sido vencidos, os presbíteros haviam sido informados de que eu faria um anúncio público e de que nós estávamos certos de que Deus havia nos chamado para ir para a Austrália, eu estava agora obrigado a tornar público o meu chamado missionário. Sua resposta foi: “Vocês devem conversar com o psicólogo; eu ligarei para vocês o mais rápido possível.” Perto do meio-dia nós recebemos o seu telefonema. “O psicólogo vai vê-los às duas da tarde no consultório em Grand Rapids.” Demos comida para as crianças, arranjamos alguém para cuidar delas e dirigimos cerca 43 quilômetros até o lugar indicado. Harriet estava nervosa, suas mãos estavam geladas. Eu me sentia chateado, “por que este exame extra? Nós somos pessoas capazes”.

Na sala de espera do psicólogo, Harriet foi chamada primeiro. Ela entrou no consultório com uma expressão em seu rosto que, para mim, dizia: “Este é o fim; eu nunca vou passar neste exame.” Depois de quinze minutos ela estava de volta, sorrindo confiantemente. Eu fui chamado em seguida e pensei que se Harriet, que estava nervosa, tinha levado somente quinze minutos para convencer o psicólogo de que ela estava preparada, eu, que já havia morado no estrangeiro, tinha experiência em evangelismo e no ministério, gastaria somente uns cinco minutos.

Eu me sentei, e o psicólogo não olhou para mim nos primeiros minutos. De repente ele voltou-se para mim, olhou penetrantemente nos meus olhos e em voz alta e acusatória perguntou-me: “O que faz você pensar que poderá converter mais pessoas na Austrália do que você está convertendo aqui?”. Fiquei chocado. Respondi gaguejando: “Esta comparação nunca me passou pela mente.” Ele respondeu: “Eu conheço o seu tipo; já vejo a fotografia no boletim da igreja: homem e mulher com seis filhos vão para a Austrália. Olhe para mim, um verdadeiro “machão”. Ele fez muitos outros comentários e perguntas desse tipo. Eu estava completamente frustrado, perplexo e fui ficando com raiva e impaciente. Após uma hora e meia de interação torturante e exaustiva ele informou-me que já sabia o suficiente a meu respeito. Eu poderia ir para casa. Perguntei qual havia sido a sua conclusão e opinião. “Esta informação eu darei ao secretário executivo, para quem trabalho”, e prontamente mostrou-me a porta.

Nós voltamos para casa revisando a nossa experiência com um homem cristão que possuía um doutorado em psicologia. Estávamos perplexos e confusos. Chegamos em casa e tentamos relaxar um pouco. Então, tocou o telefone.

Era o secretário executivo que desejava falar comigo. Ele disse: “Harriet passou no teste psicológico brilhantemente. Você, George, não passou. O psicólogo não vai recomendar você como capaz para o trabalho missionário. Assim, não faça o anúncio da sua aceitação.” Fiquei chocado! Não pude falar por alguns minutos. Então eu disse da maneira mais calma possível: “Eu recebi o chamado da Igreja do Senhor Jesus para servi-lo na Austrália. Eu tenho a convicção, depois de três meses de deliberação, que devo aceitar.” Nós conversamos por mais quinze minutos. Não conseguíamos chegar a um acordo. Finalmente ele disse: “Por favor, venha me visitar esta noite. Venha com Harriet e jante conosco.”

Apressadamente, preparamos o jantar das crianças. Nossa babá estava disponível. Dirigimos 64 quilômetros até a casa do secretário. Ele nos saudou com cordialidade e conversamos um pouco. Depois do jantar ele me disse: “O psicólogo não recomenda você porque ele o considera um fracasso como esposo e pai. Você é viciado em trabalho. Como esposo e pai cristão você não dá a devida atenção à sua esposa e aos seus filhos. Seu trabalho consome você.” Ele continuou falando sobre as tristes experiências que a missão havia tido com cinco outras famílias de missionários. Os maridos/pais estavam tão ocupados “salvando e ensinando as almas” no campo missionário que negligenciavam seus próprios filhos. A maioria das crianças se tornou zangada e se voltou contra seus pais e a fé cristã. O secretário olhou nos meus olhos e disse: “A direção da missão da nossa igreja não vai colocar a sua esposa e seus filhos em perigo de perder a confiança em você e a fé no Senhor enquanto estiverem em um país estrangeiro.”

Eu estava paralisado, chocado e sem palavras. Eu, um fracasso. Eu, um traidor da mulher que amava profundamente! Um traidor dos seis filhos que Deus havia confiado a nós!

Reuni alguma coragem para dizer que estava convencido de que devíamos ir para a Austrália. O secretário disse que se fôssemos, eu já tinha sido avisado e que a igreja e o comitê iriam orar por nós mas que não seriam responsáveis por qualquer coisa que acontecesse com nossas crianças. Eu aceitei o desafio. Eu o assegurei que daquele momento em diante haveria uma mudança dramática e drástica em meu estilo de vida e em meus métodos e programas.

Navegamos para Austrália no final daquela primavera. Durante os dezesseis dias que passamos no azul do Oceano Pacífico, eu e Harriet fizemos planos sobre como nós trabalharíamos e viveríamos como família. Nós separamos partes de cada semana como “tempo familiar”. Estávamos determinados a ter reuniões devocionais pelos menos duas vezes por dia com a família inteira. Planejamos passeios para serem feitos durante o dia. O tempo em família estava prestes a se tomar o principal para nossas descobertas. Nós trabalharíamos, mas o trabalho não ditaria nossa vida.

O Senhor nos abençoou. Nós mantivemos nossos compromissos familiares. Nossos oito filhos cresceram no amor e temor do Senhor. Todos confiaram suas vidas a Jesus Cristo, sua igreja e seu reino.

Estamos escrevendo em 1996. Nós ainda agradecemos a Deus por ter usado aquele psicólogo cristão. Agradecemos a Deus pelo secretário da missão que não hesitou em me dizer a verdade. Na realidade, eu fiquei chocado! Senti-me humilhado e perplexo. Mas eu, como marido e pai, tive de passar por isso para que as mais ricas bênçãos do Senhor sobre nossa família fossem experiências duradouras.

Tem havido muita discussão pública nos últimos anos, vindas de muitas fontes, sobre o papel do homem na família. Dados recentes têm dito que os homens têm se tornado mais conscientes sobre o casamento e a família. Veja o que o movimento “Promise Keepers” [Guardadores da Promessa] tem feito a favor do papel dos homens. Tem sido muito louvável. A Igreja está começando a falar mais sobre esse tema, mas não tanto quanto acreditamos que deveria. O jornalista Michael McMann, que escreve no Baltimore Sun tem um livro intitulado “Marriage Savers” [Os salvadores do casamento]. Ele começa culpando a Igreja e dizendo: “As igrejas americanas são parte do problema do divórcio na América, e porque as igrejas são parte do problema do divórcio, a igreja também faz parte do problema dos homens não serem fiéis à sua esposa e filhos.” O livro “Fatherless America” [América sem pai] (New York: Basic Books, 1995), escrito por David Blankenhorn, que tem sido descrito como um livro provocativo (US News & World Report, 27 de fevereiro de 1995, começando na página 30), nos confronta com o nosso problema social mais urgente. Outros escritores que se referem a este livro só podem concordar. A ausência do pai é uma das tendências mais destrutivas de nossa geração. Existem outras fontes, tanto cristãs com não-cristãs, que lidam com esse problema específico no mundo, e infelizmente em muitos contextos cristãos. É o problema do homem, marido, pai, que não vive o papel que Deus designou-lhe na aliança do casamento. Volte ao esquema do capítulo anterior. Nós vimos que a família é básica e central. A família é colocada no centro do reino de Deus e, portanto, a tarefa da família é subgerenciar a totalidade do reino cósmico de Deus. Deus está acima de toda a sua criação mas ele colocou seu povo para ser subgerente dentro do todo da criação. A Igreja tem o seu papel, deve proclamar a graça, a salvação e realizar o culto; a Igreja, como instituição, no entanto, não deve se tornar família. Todos os membros de qualquer família devem se tornar ativos nas dimensões culturais da vida. Este não é um papel da Igreja mas da família. O papel principal dos aspectos cultural, social e espiritual no reino cósmico deve ser assumido pelo marido. Assim mulheres devem permanecer ao lado dos maridos e apoiá-los.

Mais um ponto introdutório. Uma vez que Deus nos criou homem e mulher à sua imagem, devemos, portanto, entender que nós, marido e mulher, somos membros da família de Deus. Nós nos relacionamos com Deus por termos sido feitos à sua imagem. Deus nos chama livremente de seus filhos, particularmente aqueles que são redimidos pelo sangue de Cristo e que foram regenerados pelo Espírito Santo. Nós não somos apenas membros da família de Deus, nós também somos participantes de muitas características de Deus. Ele nos deu a habilidade de amar, entender, conhecer, ser misericordiosos, graciosos e compassivos. Podemos, de modo muito limitado, fazer isso porque Deus partilha sua realeza conosco. Nós somos criaturas reais. O texto hebraico nos diz que a humanidade foi feita para sentir falta de Deus, (no Salmo 8, a expressão, “um pouco menor que anjos”, não é uma tradução correta). Nós não somos deuses. Somos terrenos, e ao mesmo tempo devemos enfatizar que estamos intimamente relacionados com Deus como suas criaturas e particularmente se somos criaturas redimidas. Portanto, homens, entendamos que somos reais; não somos ditadores, imperadores, nem reis soberanos. Nós somos, na verdade, príncipes pertencentes à família de Deus. Devemos agir como tais na família, na igreja, na sociedade e em todos os aspectos do reino cósmico de Deus. Devemos demonstrar nossa realeza porque somos subgerentes de Deus aqui neste cosmos.

Quase podemos ouvir alguém dizendo: “Mostre-nos um texto bíblico.” O salmista escreveu: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” (Sl 103.13). Deus é o pai, mas ele tem dado aos homens a habilidade de ser como ele, compassivo, amoroso, sustentador; em estar presente quando necessário. Como é que começa a oração do Pai Nosso? “Pai Nosso.” Como poderíamos orar assim como Jesus nos ensinou se ele não fosse realmente nosso pai, o grande e soberano rei, criador e governador do universo? Ele é nosso pai e nós que somos redimidos pelo sangue de Cristo sabemos que somos seus filhos por criação e redenção. Graças a Deus por isso. Nós temos nossa posição de seres criados, criados à sua imagem e semelhança. Nós devemos espelhá-lo e representá-lo. Ele tem compartilhado sua realeza conosco.

Vá ao Novo Testamento. Ali lemos: “fostes instruídos… vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.21-24). Esta passagem nos diz que existe um relacionamento íntimo entre nós e Deus, através da criação restaurada pela redenção.

Deus tem mais a nos ensinar. “Porque o marido é o cabeça da mulher, como Cristo é o cabeça da Igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo” (Ef 5.23). Existe um relacionamento real estabelecido entre a posição real de Cristo e a posição do marido. Nós comentaremos mais sobre esta verdade à medida que continuamos nossa discussão sobre o papel do homem.

Voltamos a Gênesis 2.18-25, onde foi claramente dito que não era bom que o homem estivesse só, e que deveria ter uma auxiliadora ao seu lado. Deus tirou do homem aquela que se tornou a mulher, carne de sua carne, ossos de seus ossos. A mulher e o homem foram criados por Deus, e a eles foi dado o status real, mas ao homem foi dado um papel único.

As sentenças iniciais e as referências bíblicas que consideramos são as fontes para o que diremos a seguir. Nós devemos entender que nunca poderemos ficar sem Deus. Nós devemos sempre manter nossos olhos nele. Estamos nos referindo particularmente ao marido no seu papel dentro do casamento. Paulo escreveu: “Sede, pois, imitadores de Deus” (Ef 5.1). Todas as pessoas têm Deus como modelo quando falamos em exercer o amor. Nós enfatizamos que Deus é o modelo para os homens que são maridos e pais. Devemos ser como Deus, não deuses.

Considere o fato de que Deus chama a si mesmo de El Shaddai (Gn 17.1). Esta afirmação se encontra no contexto do pecado de Abraão, ao tomar Hagar como concubina para produzir a semente no lugar de Sara. Foi então que Deus disse a ele: “Eu sou o Deus todo-poderoso.” Isso queria dizer que Abraão poderia sempre contar com ele. Ele iria prover. Ele proveria no seu tempo e da sua própria maneira. Nós enfatizamos aos homens, maridos e pais que, se Deus é realmente nosso modelo e devemos imitá-lo, devemos ser dignos de sermos seus subgerentes reais, e devemos provar, que assim como Deus, somos suficientes para nossa esposa e nossos filhos.

Devemos seguir o modelo de Deus quando consideramos como ele estabeleceu e confirmou a Aliança. Devemos prestar atenção particularmente a Gênesis 17.7 “…para ser o teu Deus e da tua descendência”. Foi Deus que iniciou o relacionamento da Aliança e o confirmou. Vocês são instruídos como homens a deixarem pai e mãe e unirem-se a suas mulheres (Gn 2.24). Vocês devem iniciar e manter o relacionamento da aliança seguindo o grande modelo: Deus, aquele que fez e cumpre a Aliança. Lembre-se de que o casamento é modelado pelo relacionamento da Aliança. Deus toma a iniciativa e diz ao homem: “Você é responsável, eu o responsabilizo por iniciar, desenvolver e manter o relacionamento do casamento.”

Uma outra passagem é muito instrutiva (Ex 19.1-4). Deus havia redimido Israel. Ele os havia tirado do Egito; os havia mantido a salvo. Ele lhes proveu o necessário através do deserto até o Monte Sinai. Lá ele disse: “Eu os tomei para mim e vocês são minha preciosa possessão, vocês são meus. Eu poderia ter escolhido tantos outros povos (todas as nações são minhas), mas eu os escolhi.” O homem deve imitar a Deus. Ele diz para sua esposa: existem outras mulheres, mas eu a escolhi. Você é preciosa, é prazer para os meus olhos. Homens, devemos falar e fazer como Deus o fez. Nós trouxemos nossa esposa para dentro da nossa comunhão; fizemos aliança com ela perante Deus. Sendo dignos do chamado, falamos de todo nosso coração, alma, força e mente para a pessoa com quem pactuamos em casamento: “Eu sou seu e você é minha.”

Podemos nos reportar ao que Deus mesmo disse: “Eu sou seu esposo.” Mesmo que tenhamos de colocar de lado, por um tempo, uma esposa infiel (Is 51), não quebraremos a aliança. Deus, por intermédio de Isaías, diz que “sou fiel, que sustento e mantenho minha aliança”. É isso que vocês como pais e maridos devem fazer.

Quando analisamos o que Paulo disse em Efésios, não há dúvida de que Paulo afirma que assim como Cristo é o cabeça da Igreja, assim o marido deve ser o cabeça da esposa. Sabemos que existe muita discussão sobre o que ser o cabeça significa. Podemos nos referir a alguns estudos muito bem definidos sobre o assunto mas o que mais nos ajudou foi aquele estudo que fala do “cabeça” no início do mundo grego, o mundo no qual Paulo viveu, mas a ideia do “cabeça” nunca se referiu à fonte. Nós não queremos negar que o começo de um rio é chamado de “cabeceira”, isto é, onde está a fonte, seja um lago, um ribeiro, etc. Nós usamos o termo “cabeça” quando pedimos a uma pessoa para mostrar algum tipo de inteligência ou sabedoria. A “cabeça” é a fonte de direção para o corpo, mas o uso mais comum do termo “cabeça” significa aquele que é chamado para exercer liderança e autoridade. A Bíblia deixa claro que Cristo é o “cabeça” da Igreja. Ele é quem está chamando a Igreja para si, é ao fazê-lo ele demonstra que é aquele que tem autoridade. Ele tem o direito de fazê-lo. Ele tem também a habilidade de fazê-lo. Autoridade e habilidade não podem ser separadas.

As Escrituras nos ensinam que o homem foi a matéria-prima da mulher. Ele imediatamente exerceu sua autoridade. Ele lhe deu nome assim como o fez com os animais sobre os quais lhe foi dado domínio. Nós queremos dizer imediatamente que não acreditamos que ser o cabeça implica em superioridade em relação a essência do nosso ser, não significa superioridade em comunhão, ou em redenção, nem significa maior importância como pessoa; homem e mulher foram ambos criados à imagem de Deus. Ambos são semelhantes a ele. Juntos, homem e mulher, representam e espelham Deus no mundo. O fato que permanece é que Deus nos deu posições e funções diferentes. Os mandatos espiritual e cultural foram dados a Adão, antes que sua auxiliadora estivesse ao seu lado; o mandato para homem para ser o “cabeça”, no sentido de fonte, e da responsabilidade de exercer autoridade, foi dado no ato do casamento.

Outra passagem muito debatida encontra-se em Gênesis 3.16. Depois de Deus ter pronunciado uma maldição absoluta contra Satanás dizendo que sua cabeça seria esmagada, Deus pronunciou a maldição atenuada (isto é, não total) para a mulher. Ele não tirou seu direito de ser mãe ou esposa. A bênção da criação continuaria, por isso não podemos falar de uma maldição completa sobre a mulher. Ela continuaria a ser esposa e mãe e iria ser a fonte da qual a semente sairia mas não o seria sem o poder gerador de seu marido. O ponto que enfatizamos é: quando o Senhor disse a Eva “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16), ele não está pronunciando uma maldição; nem mesmo uma maldição atenuada. Deus reafirmou aquilo que havia dito no momento da criação do homem e da mulher. Ele criou Adão e Eva em um relacionamento íntimo. Em um estudo bíblico sobre a família da Aliança ao ser lida a passagem em Gênesis 3.16 com uma interpretação que sugeria que o desejo da mulher era parte da maldição, uma jovem esposa levantou sua mão. Ela disse: “Certamente eu não tenho participado de algo que Deus proíbe, algo que Deus maldiz, quando tenho desejos intensos pelo meu marido, mesmo quando tenho desejos sexuais por ele, e somente ele. Estou pecando? Estou cumprindo parte desta maldição?” Essa senhora estava entristecida! Como cristã ela acreditava que estava cumprindo o seu papel de esposa, e ela estava certa. Então a passagem diz: “e ele dominará sobre você”. Deus estava dizendo simplesmente: “Eva, você assumiu um papel de iniciadora quando você ouviu a Satanás e levou o seu marido a fazer o mesmo, você violou o seu papel. Adão, você também, por implicação, violou o seu papel. Paulo refere-se a isso quando escreve a Timóteo; Eva foi enganada primeiro, e depois Adão. Se Adão tivesse exercido apropriadamente sua liderança naquele contexto da tentação, e se ele tivesse dito a Eva, “não, Eva, não”, o desvio e a quebra da comunhão com Deus não teriam acontecido. Eva tomou a iniciativa debaixo da influência e liderança de Satanás e o resultado foi devastador. Mas Deus disse: “Eva, tudo continuará como antes, e você não irá assumir a posição de liderança, você não tomará a posição de ser a autoritária em circunstâncias normais (reconhecemos que existem mães solteiras que deverão assumir o papel de marido e esposa, assim como o de pai e mãe).

Deus diz que a ordem da criação continuará. Nesse contexto devemos considerar quatro situações específicas em que o homem, como marido e pai, é chamado à liderança de forma peremptória.

A primeira é: ele deve amar. Ele deve ser o primeiro a expressar o amor no relacionamento do namoro e casamento; cabe a ele aumentar o amor. “Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama” (Ef 5.25-28). Deus coloca sobre os maridos e pais a responsabilidade de iniciar, manter, sustentar e desenvolver a relação amorosa entre marido e esposa, entre pais e filhos. Sabemos que muitos homens, na nossa sociedade, abdicam dessa responsabilidade. Eles estão prontos a ajudar uma mulher a conceber uma criança, mas depois fogem. Nós temos crianças sem pai em demasia, sem pai no sentido de que a criança, apesar de ter um pai que a gerou juntamente com a mãe, não vive junto com esse pai. Pais que não assumem a responsabilidade por essas crianças. Eles não exercem autoridade sobre elas e não as amam como foram chamados a fazê-lo. Homens, maridos e pais, é de vocês a prerrogativa de serem como Deus, e de representá-lo, ele, que amou tanto, a ponto de entregar-se a si mesmo. É nesse contexto que queremos contar um incidente que aconteceu quando éramos missionários.

O homem deve ser o primeiro a expressar o amor no relacionamento do namoro e casamento; cabe a ele aumentar o amor.

Nós morávamos a poucas milhas da costa sudeste do estado de Victoria, na Austrália. As águas da Antártica varriam a costa quando os fortes ventos do sul sopravam e as águas e o vento batiam contra os penhascos ao longo da costa. Aquelas águas turbulentas proviam uma boa pescaria para certo tipo de peixe. Famílias inteiras se alinhavam nos penhascos, dez, quinze, vinte metros acima das águas turbulentas. Uma certa manhã, uma família, composta por marido, esposa e três crianças (entre 3 e 8 anos) encontrava-se lá. Os pais insistiam constantemente com as crianças para que permanecessem longe da borda do penhasco. Tanto o pai quanto a mãe haviam lançado suas linhas, e daí a pouco o pai disse: “Eu peguei um”, começando a puxar sua linha na qual havia um grande peixe se debatendo. “Eu quero ver” disse o filho do meio, dando um passo à frente, escorregando e caindo na água penhasco abaixo. A mãe imediatamente tirou sua calça jeans e sua jaqueta e mergulhou atrás do menino. Ela era uma ótima mergulhadora e nadadora. Ela pegou a criança e conseguiu colocá-la numa rocha a cerca de um metro acima das águas turbulentas. O pai, olhando da beira do penhasco, deitado sobre sua barriga, viu que sua mulher havia salvado a criança. Ela, entretanto, não conseguiu alçar-se para cima da rocha. Ele imediatamente mandou que seu filho mais velho perguntasse às pessoas que estavam ali pescando se alguém teria uma corda. Mas antes que o menino voltasse o pai viu que sua esposa não conseguiria sobreviver naquelas águas turbulentas. Ele tirou suas calças, sua jaqueta e disse para a criança menor que estava lá: “Você precisa de sua mãe, eu vou salvá-la.” Ele mergulhou e ajudou sua esposa a subir no penhasco, mas antes que alguém pudesse chegar com uma corda que chegasse até onde ele estava, as águas o jogaram contra as rochas fazendo com que ele desmaiasse e fosse levado pelo mar. A mãe estava salva. O pai dera sua vida para que ela pudesse continuar a ser mãe. Mas a história não acaba aqui. Poucas semanas depois desse acontecimento me pediram para oficiar uma cerimônia de casamento e eu falei sobre Efésios 5. Assim como Cristo deu-se a si mesmo pela Igreja, o homem deve também dar-se por sua esposa. Eu repeti a história e perguntei ao noivo: “Você morreria por sua noiva nessa situação?” Ele ficou pálido, e mais tarde me disse: “Eu gostaria que o senhor não tivesse feito essa pergunta, pois eu não sei o que faria.” Homens, o que vocês fariam em uma situação como essa? O homem demonstrou seu amor por completo. Este é o tipo de amor que Deus mostrou e é o amor que os homens devem demonstrar.

Em segundo lugar, o homem deve exercer autoridade. Autoridade não é poder bruto, sempre a ser demonstrado pelo cônjuge mais forte no casamento. Homens, exerçam autoridade dizendo: “Você deve fazer isso como filho de Deus.” Salmo 78.1,2 nos dá um bom exemplo de como um pai exerce autoridade. Em Provérbios 1.8, 4.1, 8.32 um pai diz: “Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe. Ouvi, filhos, a instrução do pai e estai atentos para conheceres o entendimento. Agora, pois, filhos, ouvi-me, porque felizes serão os que guardarem os meus caminhos”. Isso não é somente ensinar ou orientar, mas é também exercer autoridade.

Em terceiro lugar, Provérbios 13.16 diz aos homens que o pai e marido deve demonstrar capacidade em liderar. Deus tem dado esta capacidade aos homens, maridos e pais. Homens são chamados para serem líderes, professores, planejadores, apesar de uns terem mais habilidade do que outros. Sabemos da existência da parábola dos talentos, mas se Deus em sua providência guia homens para se tornarem maridos e pais, Deus dá não somente sua graça, mas também a capacidade em qualquer medida que seja necessária para que eles sejam o que devam ser, exercendo sua posição como líderes, professores e planejadores.

Há um quarto aspecto. Os homens devem demonstrar a capacidade de prover. Homens devem ser provedores, esta é sua responsabilidade. Provérbios 6.8-11, 10.4,5; 12.11, e muitas outras passagens podem nos servir de referência. Cabe aos homens o privilégio de serem os provedores do lar. Se Deus realmente tem dado a capacidade, a autoridade de exercer liderança em amor, não deverá haver questionamento quanto ao prover. Uma das grandes tragédias da vida humana hoje em dia é que pais não têm provido às suas famílias; eles podem fazê-lo, têm o direito e a autoridade de fazê-lo mas eles não têm o amor. É aqui que o amor se encaixa. Pai, se você ama seus filhos, se você ama sua esposa, você assumirá o papel de provedor espiritual, social e cultural. Este é o privilégio de homens, maridos e pais, debaixo de Deus, que é aquele que provê.

O que dissemos no parágrafo anterior certamente inclui a responsabilidade pelos filhos, por nossa descendência, e nossa semente. Os homens devem, como pais e maridos, exercer sua responsabilidade sobre seus filhos (vamos desenvolver esse tópico mais completamente nos próximos capítulos quando lidarmos com os mandatos espiritual, social e cultural que devem ser exercidos na vida).

Uma passagem no Novo Testamento chama nossa atenção: Efésios 6.1, 2 – “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e tua mãe”. Vejamos o verso 4: “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor”. Faça o seu dever. Como você deverá cumprir com o seu dever? Amando-os, treinando-os com autoridade, e instruindo-os (nós falaremos sobre a diferença entre instrução e treinamento mais tarde). Se você não fizer isso, se você não assumir sua função de liderar, exercendo verdadeira liderança com seus filhos e filhas, você estará falhando com relação a eles. Você estará falhando com sua esposa, falhando com sua família e acima de tudo, você estará desobedecendo a Deus.

Ser marido e pai, como discutimos acima, certamente requer sabedoria. Sabedoria necessita de conhecimento, mas sabedoria também requer demonstração e ensinamento da verdade da vida. Todos devem receber a palavra de Deus. Todos devem conhecê-la, reverenciá-la, e todos devem confiar em Deus. Deus dará a sabedoria que é necessária (Pv 1-7; Jó 28.28). Abra em 1 Coríntios 1.30. Lemos que a sabedoria é personificada em Cristo; Cristo é a sabedoria personificada. Podemos dizer isso de duas formas. Se Cristo é verdadeiramente o Senhor da vida, o redentor, ele dará aos homens o dom da sabedoria em qualquer medida que seja necessária para que sejam maridos e pais verdadeiros como Deus quer que sejam. Cristo, que é a fonte da sabedoria deve ser chamado. Olhe para ele como um modelo. Procure ser como Cristo na família, assim como Cristo o é na Igreja. Ao seguir a Cristo, poderemos demonstrar amor, autoridade, capacidade, prontidão para prover, demonstrando sabedoria na nossa família.

Além disso, se realmente os homens forem liderados por Cristo e cheios de sua Palavra e seu Espírito, então como maridos e pais serão homens de compromisso. Eles se comprometerão e cumprirão com seu papel. Portanto, teremos homens dedicados, que darão de si mesmos completamente e de todo o coração para serem o marido e pai na família da Aliança. Eles serão perseverantes, dedicados e comprometidos. Quando surgirem dificuldades e problemas eles não fugirão mas confiarão completamente em Cristo e seu Espírito, vivendo de acordo com a Palavra de Deus. Os homens irão perseverar.

Se realmente os homens forem liderados por Cristo e cheios de sua Palavra e seu Espírito, então como maridos e pais serão homens de compromisso.

Finalmente, queremos nos referir a três grandes vícios que corrompem os relacionamentos familiares e portanto violam a vida dentro da família da Aliança. Os três que mencionamos não cobrem por completo todos os vícios. McCann, no seu livro, “Marriage Savers” [Salvadores de Casamentos], ressaltou que na nossa sociedade contemporânea, em que os direitos civis têm se tornado um dos grandes pilares para os indivíduos, o individualismo tem se exacerbado. Individualismo da parte do marido, ou do pai, pode ser muito dilacerador e destrutivo. Quando um pai diz: “Eu, eu, meu, meu, para mim, para mim, eu mesmo, eu mesmo”, ele exagera sua função autoritária e como cabeça. O individualismo é ressaltado “desde que eu sou o cabeça, eu farei como quiser”. Deus proíbe essa atitude, pois viola o amor, a sabedoria e o relacionamento com o Senhor Jesus Cristo.

Juntamente com esse individualismo crescente que tem destruído famílias, causado tantas mudanças negativas na vida e se tornado a raiz para o problema do crime no nosso país, está o egoísmo. Eu sei o que eu quero, e estou aqui por mim mesmo, e se eu não tomar conta de mim, quem o fará? O movimento dos direitos humanos, necessário em muitos aspectos, tem entretanto, trazido trágicas consequências. Tem tornado as pessoas extremamente egoístas. Podemos perceber isso quando vemos as pessoas buscarem milhões de dólares em processos por coisas pequenas, alimentando a si mesmas e ao seu egoísmo.

A terceira coisa contra a qual maridos e pais devem lutar, juntamente com o individualismo e o egoísmo, é a irresponsabilidade. Deus fez os homens para serem “os cabeças”, dando a eles a função de liderar, e eles devem ser responsáveis diante de Deus. A liderança não foi dada para que homens tenham a liberdade de fazer o que bem entendem como indivíduos e servirem a si mesmos. Ser líder significa ser servo. Cristo veio para servir, e Deus é aquele que nos serve dando-nos a salvação. Ele sabe que é responsável por nós, já que nos fez. Ele se importa conosco por causa do seu amor, sua misericórdia e sua graça. Ele se responsabilizou por nós e nos deu seu único Filho, para que crendo, confiando, seguindo, adorando, servindo a ele tivéssemos vida eterna.

Deus proíbe maridos e pais, líderes na sociedade, de se tornarem individualistas, egoístas, irresponsáveis; porque, se formos culpados desses três vícios, abdicamos de nosso papel na família da Aliança.

 

Fonte: Gerard Van Groningen, Família da Aliança (Cultura Cristã), p. 71-89.



Sobre o Autor

Gerard Van Groningen
Dr. Gerard van Groningen (Th.D. Melbourne University) foi professor de Teologia do Antigo Testamento no Reformed Theologial College, na Austrália; no Dordt College, Reformed Theological Seminary e Convenant Theological Seminary, nos EUA.



 
 

 
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