Ministério da Igreja

13 de maio de 2010

A Ceia do Senhor: Mistificada e Miniaturizada

Mais artigos de »
Escrito por: Vincent Cheung
Tags:

Três conjuntos de versículos estão ligados à ceia do Senhor. O primeiro procede dos evangelhos sinóticos: Mateus 26.26-29, Marcos 14.22-25 e Lucas 22.14-20. O segundo é 1 Coríntios 11.20-34 e o terceiro provém de João 6.53-57.

A última passagem mencionada é comumente incluída na exposição da doutrina; contudo, é muito improvável que ela se refira à ceia do Senhor e, por isso, deve ser excluída. Robert Reymond apresenta quatro motivos.[1] Primeiro, o contexto não se enquadra. Jesus dirigia-se a pessoas que jamais teriam entendido a referência a uma ordenança ainda não instituída. Segundo, “carne” não é a palavra usada por ele mais tarde ao instituir a ordenança. Terceiro, suas palavras são absolutas e dizem respeito à salvação. É impossível que, para obter a salvação, Jesus tenha requerido a participação de uma ordenança sem a ter instituído. E na verdade, o ensinamento bíblico é que a pessoa obtém a salvação antes de participar da ordenança. Quarto, o contexto enfatiza a audição de suas palavras e a crença nelas (v. 63), de modo que comer sua carne e beber seu sangue são mais bem compreendidos como metáforas da aceitação de seus ensinos.

Para ilustrar o quarto ponto, Jesus chamou a si mesmo de pão do céu, ou maná (Jo 6.30-40); no entanto, essa designação referia-se à nutrição espiritual mediante a fé nele, e não à obra da expiação simbolizada pelo pão partido. Ele destaca esse ponto no contexto: “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna” (v. 40). Desse modo, seria um equívoco identificar o pão da nutrição como o pão da ceia.

Portanto, a doutrina neotestamentária da ceia do Senhor subsiste principalmente nos versículos sinóticos e paulinos.

A doutrina reformada da ceia do Senhor é indubitavelmente superior à abominação do catolicismo. Mesmo assim, ela possui problemas peculiares. Ainda que menos severos, eles continuam mantendo a tradição e a superstição dos homens acima do ensino nítido da Escritura. É claro que eles não se resumem à tradição reformada. Alistarei aqui dois deles.

Primeiro, a ceia do Senhor tem sido mistificada. Isso se vê em dois aspectos da doutrina reformada: a presença “real” e a nutrição espiritual associada aos elementos. A formulação de Calvino é indefinida e ininteligível, e até mesmo absurda. Como Reymond destaca, Charles Hodge a considerava “peculiar”, e William Cunningham disse que ela era “tão ininteligível quanto a consubstanciação de Lutero” e “talvez, o maior defeito na história dos labores de Calvino como instrutor público”. Robert Dabney denunciou-a como “estranha” e “não apenas incompreensível, mas também impossível”.[2] Talvez o próprio Calvino tenha percebido essas dificuldades, recorrendo, por fim, à designação de mistério — desculpa favorita dos teólogos reformados para afirmar algo que são incapazes de defender, ou que não podem descrever de modo inteligível.[3]

Em todo o caso, o obstáculo definitivo é que os versículos sinóticos e os paulinos não mencionam ou indicam qualquer tipo de presença ou nutrição procedente da ceia do Senhor. Não há base bíblica para elas. Elas parecem ter sido elaboradas apenas para romantizar a ordenança e dar-lhe piedade mística. Dessa maneira, a formulação de Calvino não pode ser salva. Assim, as variantes reformadas que sustentam esses dois aspectos da formulação perpetuam o absurdo.

Segundo, a ceia do Senhor foi miniaturizada. Os versículos sinóticos indicam que a ordenança foi instituída no contexto de uma refeição completa. Os versículos paulinos afirmam que a ceia era servida em quantidade suficiente para satisfazer a fome de uma pessoa e até para embebedar alguém. O apóstolo ordenou que os crentes esperassem uns pelos outros antes de comer, ou se estivessem com muita fome, que comessem em casa (1Co 11.20,21,33). Isso não faria sentido se a ordenança consistisse apenas em cálices diminutos e pequenos pedaços de pão ingeridos em poucos segundos.

A ceia do Senhor é uma figura da festa junto à mesa do Mestre. Nas culturas orientais e, com menos intensidade, em algumas culturas ocidentais, jantar com alguém é sinal de amizade, e indicação de rejeição a recusa em comer com alguém (1Co 5.11). Sentar-se à mesa do rei era uma honra tremenda (2Sm 9.7), e apenas seus amigos e companheiros mais queridos alimentavam-se junto dele. Na ceia do Senhor, os cristãos se sentam à mesa do Rei — independentemente de raça, status ou sexo — para comer e beber em sua honra, recordando seu sacrifício por nós, e em antecipação de sua volta. Esta união, por virtude de seu compromisso com o Rei dos reis, é mais forte que os vínculos sanguíneos, e a mesa provê o contexto para a manifestação e desenvolvimento desse compromisso.

Tudo isto se obscurece quando a ordenança é reduzida a uns calicezinhos e pedacinhos de pão. Perdem-se a refeição completa junto à mesa, a comunhão íntima, a alegria e o riso, o consolo, o encorajamento e a recordação cabal durante várias horas de conversa sobre o que o Senhor fez. Todos os debates concernentes aos elementos limitam-se em significado enquanto se discute sobre cálices e pães, pois durante todo esse tempo não se menciona a ceia real, e toda a prática tem se tornado menos bíblica, mais ritalista e sem sentido do que as pessoas imaginam.

[1] Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith (Thomas Nelson, 1998), p. 963-964.

[2] Reymond, p. 961.

[3] Vincent Cheung, Blasphemy and Mystery.

 

Tradução: Rogério Portela



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.




 
 

 

Aos pais pedobatistas

O batismo infantil inflige o temor de Deus em mim. Ele realmente estabelece — de uma forma pública e visível — um relacionamento pactual. Um relacionamento de amor, envolvendo promessas e responsabilidades, bênçãos e m...
por Mark Jones
 

 
 

A religião mais restritiva no mundo

A religião cristã é ao mesmo tempo a mais abrangente e a mais restritiva no mundo. É uma fé que admite todo tipo possível de pessoa. Mas as admite em apenas um caminho. Há somente um Deus. Somente um. Se houvessem dois d...
por Tim Challies
 

 
 

Um apelo aos presbíteros

Fui lembrado pelos eventos de ontem[1] o quanto dependo dos meus presbíteros. A tarefa do presbítero é pastorear o pastor. Se eles não fizerem isso, ninguém mais o fará. Isso significa que haverá tempos quando o presbít...
por Carl Trueman
 

 

 

Dia do Senhor

Sermão do Rev. Augustus Nicodemus sobre o Dia do Senhor. [Download]
por Augustus Nicodemus Lopes
 

 
 

Fé para Operar Milagres

Durante o último século, dois erros cardeais foram cometidos a respeito de muita coisa contida nos Evangelhos – erros que têm prevalecido muito entre cristãos professos e que têm produzido grande destruição. Cada um de...
por Arthur W. Pink
 

 
 

As Responsabilidades do Presbítero

Em textos como Atos 20.28, 1 Pedro 5.1-3 e Hebreus 13.17, fica claro que os presbíteros são (a) pastores do rebanho de Deus. Eles devem cuidar, guiar e alimentar o povo de Deus com a verdade de sua Palavra, assim como bons pa...
por G. I. Williamson
 

 




0 Comments


Be the first to comment!


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *