Teologia Reformada

26 de dezembro de 2011
 

Mas quem é você, ó homem?

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Escrito por: Vincent Cheung
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Mas quem é você, ó homem?

Dir-me-ás então: “Por que se queixa ele ainda? Pois quem tem resistido à sua vontade?”. Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: “Por que me fizeste assim?” Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Rm 9.19-21, ESV)

Paulo havia demonstrado nos versículos anteriores que se um homem alcança salvação através de Jesus Cristo, isso não depende da vontade ou decisão da pessoa, mas de Deus, que escolhe mostrar misericórdia a ela. Assim, um homem mostra incredulidade ou mesmo se opõe a Deus não porque decide isso por si mesmo, mas porque Deus escolheu endurecê-lo para uma finalidade que ele próprio tem. O apóstolo conclui: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (v. 18).

Um homem crê em Jesus porque Deus o faz crer em Jesus. Outro homem é endurecido contra o evangelho porque Deus o torna endurecido. O caminho de cada pessoa é determinado antes de seu nascimento, mesmo na eternidade, antes da criação do mundo. As decisões de uma pessoa não determinam seu caminho, mas seu caminho preordenado determina essas decisões. O destino de um homem não é determinado, mas sim revelado por suas escolhas, isto é, por aquilo que Deus faz o homem decidir de acordo com o propósito divino.

Esta é uma das doutrinas bíblicas mais simples e explícitas. No entanto, é também a doutrina mais detestada, pois da forma mais clara possível revela Deus como sendo Deus, e até mesmo os cristãos que não gostam muito de Deus. Nesta doutrina ficamos frente a frente com o que significa ser Deus, e somos compelidos a mostrar se, de fato, reconhecemos Deus como o total soberano ou se buscamos manter controle sobre alguns aspectos de nós mesmos e acalentar a ilusão de que de fato é possível agirmos assim. Mesmo entre crentes e teólogos que professam a soberania de Deus da boca para fora, muito poucos recebem essa doutrina da causação divina direta e total de todas as coisas sem tentar criar por si mesmos uma saída para escapar disso. Ou eles podem condenar essa versão genuína de Deus e então resgatar Deus reduzindo-o a algo inferior.

Assim, Paulo antecipa a divergência. Ele espera que alguém lhe diga: “Então, por que Deus ainda nos culpa? Pois, quem resiste à sua vontade?” (NVI). Em outras palavras, se é Deus quem endurece uma pessoa para ela não poder buscar a justiça ou crer na verdade, por que Deus ainda condena ou pune o pecador? A objeção não faz sentido a menos que seja assumido que responsabilidade pressupõe liberdade, no sentido de que uma pessoa deveria ser livre para tomar as suas próprias decisões se tivesse de ser responsabilizada por elas. Mas Deus não concorda com essa suposição; na verdade, todos os versículos anteriores repudiam essa ideia. Uma pessoa é condenada e punida por seus pecados porque transgrediu os mandamentos de Deus. A causa de suas transgressões é irrelevante. Se ela transgrediu, é uma transgressora.

Paulo passa a responder ao desafio e no processo revela insights adicionais na doutrina. Declara que o oleiro tem o direito de fazer do mesmo barro um vaso para honra e outro para desonra. O apóstolo está fazendo contraste entre dois tipos de pessoas — os eleitos, aqueles que Deus predeterminou para se tornarem cristãos, e os réprobos, aqueles que Deus predeterminou para continuarem não cristãos. Assim, o vaso para honra representa o cristão e o vaso para desonra representa o não cristão. Provavelmente, o vaso para honra seria representado no ambiente doméstico como um testemunho da riqueza e requinte do proprietário. Por outro lado, o vaso para desonra seria provavelmente relacionado a uma lata de lixo ou até mesmo ao banheiro. Assim, Deus entende que os réprobos são as latas de lixo e os banheiros deste mundo. Sabemos do que são cheios os banheiros — de algo que fede a incredulidade, ciência e religião não cristãs.

A Bíblia contradiz o ponto de vista quase unânime de teólogos cristãos no fato de que a exposição que ela faz da doutrina não deixa espaço em nenhum sentido para a liberdade e a autodeterminação, ou à noção de que a soberania divina é compatível com essas coisas. Por que importa se o controle do oleiro sobre o barro é compatível com os desejos do barro? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: “Por que me fizeste assim?”. O homem não é representado como dizendo de uma forma ou de outra: “Por que passivamente ordenaste que eu deveria usar meu poder de autodeterminação para eu concorrentemente decidir me tornar o que decretaste para eu ser?”. Não, ele diz: “Por que me fizeste assim?”. Tu. Tu me fizeste. Tu me fizeste assim.

Por contato direto e com suas próprias mãos, o oleiro molda o barro no vaso que ele quer que venha a se tornar. Embora isso se aplique tanto ao vaso para honra como ao vaso para desonra, a objeção se refere àqueles a quem Deus “culpa” — a objeção está essencialmente interessada em como o vaso para desonra é fabricado. A resposta de Paulo significa que Deus é ativo em fazer do homem perverso aquilo que ele é. Deus faz isso usando “da mesma massa” da qual faz os vasos para honra e não de algum material com traços desonráveis já presentes. Em outras palavras, as características do réprobo vêm diretamente e totalmente das mãos de Deus e de nenhum outro lugar. Paulo não vê nada de errado nisso. Deus tem o direito de fazer de um homem a sua obra-prima e de outro o seu banheiro. Quem disse que um oleiro mestre não deve fazer um banheiro se ele assim o deseja? E quem é o banheiro para dizer ao oleiro: “Por que me fizeste assim?”. Mas até um banheiro queixoso pode fazer mais do que apenas lamuriar “Tenho livre-arbítrio!” ou mesmo “Eu não sou coagido!”.

A verdade da fé cristã é simples e óbvia. Nunca há uma boa objeção contra ela; ela deve ser reverentemente aceita. E porque a verdade é simples e óbvia, toda objeção à fé cristã é sempre estúpida e má. Porque toda objeção à fé cristã é estúpida e má, devemos atacar toda objeção, e para que não se alegue que evitamos o problema, devemos também respondê-lo. Mas, mais do que isso, é característica da Bíblia atacar a pessoa que faz a objeção. Isso ocorre porque sempre que uma pessoa questiona a fé cristã, necessariamente significa que há algo de errado com a pessoa.

Paulo não diz: “Ó homem inteligente e maravilhoso, por que faz uma objeção tão ultrajante contra Deus?”. Não, o apóstolo ataca o homem diretamente — “Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus?” É uma pergunta retórica — quer dizer que o homem não é ninguém e deve fechar a boca. Paulo não é estúpido como os nossos pregadores e teólogos. Eles nos dizem que os não cristãos podem ser sinceros e inteligentes, e mesmo assim fazer objeções contra Deus. De onde veio esse absurdo? Talvez eles aprenderam isso dos não cristãos, que estão sempre desesperados para afirmar a sua sinceridade e inteligência. Ou talvez os pregadores e teólogos querem saudar a sua própria rebeldia contra Deus. Mas Jesus disse que a boca fala do que está cheio o coração. O não cristão faz objeções porque é um pecador, um rebelde — ele não apenas age como um, mas é um. Qualquer cristão que faz uma contribuição significativa em pregações ou debates deve criticar e depreciar a pessoa — o próprio não cristão — e não apenas seus argumentos e suas ações.

Quem é você, ó não cristão, para desafiar a verdade de Deus, quando a Bíblia declara que você já sabe sobre ele? Como um covarde, como uma criancinha assustada, você reprime esse conhecimento para que não precise lidar com a realidade. Quem é você para rejeitar um veredito de culpado quando a Bíblia mostra que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus? Você retruca: “Quem é você para me julgar?”. Bem, quem é você para dizer que não devo declarar o julgamento de Deus sobre você? Quem é você para recusar o evangelho? Você não é ninguém. Você não é nada.

Quem é você, ó legalista, ó religioso hipócrita, para recusar a Jesus Cristo, quando a própria Lei diz a você para abandonar seus próprios esforços e depender de Jesus como seu mediador e defensor? Quem é você para pensar que pode ser seu igual ou superior? Quem é você para dizer que pode alcançar o céu com o que considera boas obras, quando Deus as rejeita como trapos de imundícia? Você não é ninguém. Você não é nada.

Quem é você, ó arminiano, para dizer que Deus não decreta e causa todas as coisas unicamente por sua própria vontade e para o seu próprio propósito, e sem considerar a fé e a decisão do homem, pois Deus causa a fé e a decisão do homem por causa de seu decreto eterno? Quem é você para pensar que o homem tem poder de escolher, até mesmo para decidir o seu destino eterno? Quem é você para dizer que Cristo poderia pagar o preço para redimir um homem e, contudo, perder o homem para a ira de Deus? E quem é você para dizer que um homem, uma vez apreendido por Deus, pode livrar a si mesmo das mãos de Cristo? Você não é ninguém. Você não é nada.

Quem é você, ó calvinista, para dizer que Deus não pode ser o autor do pecado e aquele que diretamente cria e endurece homens perversos? Quem é você para dizer que Deus meramente ignora os réprobos, quando as Escrituras afirmam que Deus forma eles por suas próprias mãos como um oleiro molda barro para fazer latas de lixo e banheiros? Seu hipócrita! Finge defender a justiça e a santidade de Deus, quando a questão apenas surge porque você julga Deus pelo padrão do homem. Com uma mão você rouba de Deus a sua soberania, e com a outra o indeniza com justiça humana. Quem é você, ó homem, para pensar que pode ir longe com isso? Você não é ninguém. Você não é nada.

Quem é você, ó teólogo reformado? Você é muito melhor que o arminiano? Repetidamente, ao firmar um pé na ortodoxia e um pé na blasfêmia, você gera inúmeros paradoxos e contradições e chama isso de grande mistério de Deus! Ó vaidade das vaidades, uma teologia de sistemática futilidade!

Fora com todos vocês! Deus exerce controle completo e imediato sobre todas as coisas, incluindo as decisões e destinos de todos os homens. Assim como molda seus escolhidos em suas obras-primas, ele molda os réprobos em recipientes de lixo e fezes. Ao contrário dos nossos pregadores e teólogos, o oponente de Paulo ao menos entende a doutrina: Deus endurece a quem quer (v. 18), para que eles não creiam e sejam salvos. Ele faz isso por seu poder ativo e direto, assim como um oleiro que molda o barro (v. 21). Esses homens são preparados para destruição (v. 22). Eles não podem resistir à vontade de Deus, mas mesmo assim ele os culpa e pune (v. 19). Ele pode fazer isso porque é Deus, e ninguém pode dizer uma palavra contra ele (v. 20).

 

Tradução: Marcelo Herberts



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.



 
 

 
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