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5 de fevereiro de 2012
 

O Exemplo do Ministro

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Escrito por: Vincent Cheung
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Ordene e ensine estas coisas. Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza. Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino. Não negligencie o dom que lhe foi dado por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros.

Seja diligente nessas coisas; dedique-se inteiramente a elas, para que todos vejam o seu progresso. Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem. (1 Timóteo 4.11-16)

Um idoso recentemente se referiu a mim e à minha esposa como “crianças”. Ele não tinha a intenção de ser depreciativo ou condescendente, mas isso refletiu a forma como ele nos percebia devido à diferença de idade, assim como eu poderia chamar alguém muito mais jovem do que eu da mesma forma. Embora eu tenha ensinado pessoas com sua idade desde que tinha dezesseis anos, após tantos anos a diferença permanece grande o suficiente que alguém da sua idade ainda me considera uma criança. Timóteo não era uma criança ou adolescente. Ele poderia ser mais velho do que eu, mas ainda era considerado jovem no contexto de sua cultura e relação com algumas das pessoas em sua congregação, de forma que talvez eles achassem difícil receber diretrizes dele ou aceitar sua autoridade. Não podemos saber se Timóteo enfrentou de fato esse problema, mas o apóstolo considerou isso uma possibilidade.

Os comentários de Paulo são instrutivos, e sugerem aplicações que são utéis além do contexto imediato. Quando ele diz no começo que um líder da igreja não deveria ser um novo convertido, isso não tem relação necessária com a idade de uma pessoa. Um idoso pode ser um novo convertido, e é possível para uma pessoa relativamente jovem ser um crente maduro. Antes de outras considerações, embora legítimas ou necessárias, é a verdade que conta. Ele não diz a Timóteo para falar por meio de uma pessoa mais velha, ou por meio de alguém que a comunidade naturalmente admira devido à idade, educação, riqueza, ou coisas semelhantes, mas sim que ele “ordene e ensine estas coisas”. Quanto à resistência ou suspeita que poderia surgir por causa de sua juventude, isso não deve ser sobrepujado apenas por uma repreensão severa contra o preconceito, embora o líder de uma igreja certamente possa desafiar suposições culturais que atrapalhem o ministério. Antes, Paulo diz a Timóteo para provar a si mesmo dando um exemplo de conduta e devotando-se à doutrina.

A insistência da Bíblia que um ministro deve “ser um exemplo” não deveria ser reduzida a outro clichê. Isso não tem nada a ver com o slogan estúpido que “as ações falam mais alto que as palavras”. Se as ações falam mais alto que as palavras, então eu quero que a pessoa que crê nisso feche a sua boca e, sem palavras, diga-me isso por meio de suas ações. Se as ações falam mais alto que as palavras, então diga-me isso por ações, e não por palavras. Isso salva-o de ser um hipócrita, e também permite que eu o ignore em paz e sossego. Em todo caso, mesmo que ele fosse me dar um soco na cara, sem expressar uma palavra de explicação, eu não derivaria da sua ação a proposição que ações falam mais alto que palavras. Aqueles que são mais barulhentos sobre o barulho das ações frequentemente não têm nenhuma ação notável para mostrar. Eles simplesmente assumem que isso é o que eles deveriam dizer. A popularidade desse slogan, na verdade, ilustra a necessidade da sã doutrina, visto que é devido ao pensamento descuidado que tal declaração antibíblica tem sido aceita como ensinamento cristão apropriado.

Ações e palavras são importantes, mas uma precisão maior é necessária para que possamos compreender como elas são importantes. Contrário ao slogan, as ações não falam de forma alguma da maneira que o fazem as palavras, de modo que as ações jamais podem falar “mais alto” que as palavras como se pudessem ser comparadas na mesma escala. É verdade que as ações podem “falar” num sentido puramente figurado, mas o falar não é de fato feito até que os pontos que as ações devem supostamente fazer sejam colocados em palavras. Todavia, essas declarações seriam interpretações das ações. Elas não são as ações em si, nem são declarações que necessariamente procedem das ações. Quer verdadeiras ou falsas, válidas ou inválidas, elas são interpretações verbais de coisas que em si mesmas não falam e não transmitem nenhuma informação.

Palavras verdadeiras são verdadeiras mesmo que as ações daquele que fala não correspondam a elas. Palavras verdadeiras impõem obrigações morais sobre os ouvintes para que assintam e obedeçam, mesmo que a pessoa que fala essas palavras seja um hipócrita. É comum os pregadores nos advertir que se não andarmos em amor ou viver uma vida santa, então “ninguém” acreditará em nosso evangelho, e alguns até mesmo dizem que ninguém deveria. Essa é a sabedoria do mundo, e a Bíblia é diretamente contra ele. Jesus disse aos seus discípulos que eles deveriam fazer o que os fariseus diziam quando falavam de acordo com Moisés, mas não deveriam seguir o exemplo deles, visto que eram hipócritas (Mateus 23.1-3). A verdade carrega em si o poder para obrigar o assentimento e a autoridade para impor obrigação. É pretencioso as pessoas suporem que esse poder e autoridade reside em sua conduta.

Ainda assim, nossas condutas são importantes, mas não são importantes para a comunicação de informação, e não são necessárias para persuasão. Antes, primeiro, é importante que nossa conduta seja consistente com a nossa doutrina porque essa é a nossa obrigação moral. O evangelho é verdadeiro quer nos conformemos a ele ou não, mas se somos discípulos verdadeiros de Jesus Cristo, então nos esforçaremos também para seguir os seus mandamentos e ensinos. Segundo, embora nossas ações não façam nada para transmitir a verdade, elas fornecem ilustrações para a verdade que transmitimos por nossas palavras, embora visto que ações não podem falar, essas ilustrações devam ser apontadas e explicadas por nossas palavras. Terceiro, quando nossa conduta é consistente com a nossa doutrina, isso serve como autenticação para a genuinidade da nossa fé e ministério. Não é necessário autenticar a fé de Jesus Cristo, que é verdadeira não importa o que façamos, mas isso serve para nos autenticar como seus discípulos.

Quarto, embora nossa conduta não tenha nenhuma relação necessária com a verdade da fé cristã, há muitas pessoas que fariam tal conexão em suas mentes, e assim, quando nossa conduta é consistente com a nossa doutrina, isso ajuda a convencer o irracional. Novamente, é um exagero grosseiro dizer que “ninguém” creria em nossa doutrina quando nossa conduta não corresponder a ela, visto que o Espírito de Deus não é impotente, e o evangelho – não nossa conduta santa – é o poder de Deus para a salvação. Pela graça de Deus trabalhando na mente dos seus escolhidos, nem todo o mundo é estúpido. Por que as inconsistências de cristãos me impediriam de crer no evangelho? A própria Bíblia ensina que os crentes não são perfeitos. Eu vi isso mesmo quando li a Bíblia quando era literalmente uma criança. Ela não é alguma verdade complicada e oculta. E por que eu tropeçaria por causa de algum escândalo na igreja, ou porque algum ministro famoso cometeu fraude ou adultério? Isso é inteiramente consistente com o que a Bíblia prediz, de forma que não existe nada no que tropeçar. Por que eu duvidaria da fé cristã quando o que ela me diz que acontece, de fato acontece? Mas algumas pessoas são estúpidas, e é a nossa obrigação nos certificarmos de não permitir que as nossas ações tornem-se pedras tropeço para eles, por mais irracional que seja eles percebê-las como tal.

Enquanto isso, não devemos tolerar essa conexão ilegítima entre conduta e verdade. Se permitirmos que isso seja perpetuado, concedemos implicitamente permissão às pessoas para não crerem ou abandonar o evangelho sobre a base das nossas falhas. Em vez disso, devemos ecoar a política de Jesus, isto é, os hipócritas são condenáveis, mas a verdade é verdade mesmo quando procede de suas bocas, e a obrigação moral imposta pela verdade permanece em plena força. Em nossa pregação e ensino, devemos expor a falsa conexão. Enquanto Jesus Cristo não for um hipócrita, o evangelho é verdadeiro, e deve ser crido e obedecido. E se você tropeçar por causa do fracasso de outra pessoa, você não é apenas estúpido, mas permanece culpável por violar a verdade do evangelho.

Embora nossa conduta não diga nada sobre a verdade da nossa doutrina, ela diz algo sobre nós, e sobre nosso comprometimento com a doutrina que exposamos. E embora mesmo um hipócrita, se fala a verdade, deva ser ouvido, como um hipócrita ele não está qualificado para liderar a igreja. Paulo diz que se Timóteo parece ser jovem para algumas das pessoas, então ele deveria mostrar ser maduro, e capaz de conduzir o povo de Deus e dar-lhes direção com autoridade. Não existe nenhum problema com a ideia de um ministro jovem, mas quer jovem ou velho, uma pessoa que assume a posição deve mostrar que foi ensinada e transformada pelo Ancião de Dias.

Temos focado nossa atenção sobre a conduta, mas somente para corrigir um mal entendido comum sobre sua relação com a doutrina e o ministério. O apóstolo também instrui seu filho na fé para observar atentamente sua doutrina e desenvolver diligentemente seu dom para o ministério. Novamente, se há uma tendência em algumas pessoas de desprezar o ministro por causa de sua juventude, ele deve provar a si mesmo por sua maturidade em caráter, sua dedicação e competência no ministério da palavra, e seu progresso contínuo. A obra do Espírito num homem é o próprio testemunho de Deus que o ministtro é legítimo, e essa obra de Deus é evidenciada por conduta, doutrina e capacidade espiritual.

Ele diz que o dom foi dado a ele por meio de uma mensagem profética quando alguns presbíteros impuseram suas mãos sobre ele. Muitos cristãos não mais permitem o profético, embora não tenham nenhuma garantia bíblica para isso. O medo do engano não deveria ser remediado negando-se as manifestações espirituais, mas testando todas as alegações de suas ocorrências. A Bíblia é suficiente para isso. Uma falta de ênfase sobre os dons espirituais, que é na verdadade uma falta de dependência do Espírito de Deus, explica a falta de poder na maioria das igrejas e ministérios. A ordenação é um gesto vazio, uma formalidade que assinala o mero reconhecimento humano sem nenhum poder divino acompanhando-o. Uma total destruição de todas as tendências carismáticas eliminaria, sem dúvida, todas as falsas alegações de poder sobrenatural, mas não demonstra uma fidelidade à Escritura. Paulo nos ordena a desejar os dons espirituais, as manifestações poderosas e capacitações do Espírito de Deus. Hoje em dia muitos cristãos parecem pensar que é carnal desejar dons espirituais, como se a própria Bíblia ensinasse isso. Quão distante caímos! Eu desejo o poder espiritual, porque a Bíblia ordena isso, e porque reconheço que sou inteiramente inadequado em mim mesmo. Eu preciso do poder do Espírito Santo, e quero que a fé das pessoas descanse no poder de Deus, e não nos meus talentos naturais.

Deus é misericordioso e generoso. Embora alguns de nós estejamos endurecidos pela tradição e incredulidade, ele ainda dá dons à sua igreja, se não por palavras proféticas ou imposição de mãos, então pela ação direta do Espírito, de forma que sua palavra possa ser disseminada e seu povo edificado. Se Deus quer fazer algo, e se quer fazer algo de certa forma, então todas as nossas tradições não podem deter isso. A igreja não pode deter. Os estudiosos não o podem. Os líderes denominacionais não podem deter isso. Credos, tradições e teologias falsas não podem. Ele ainda fará o que quer fazer. Todavia, as pessoas devem tomar cuidado para que não se achem lutando contra Deus por causa de suas tradições, e para esconder suas inseguranças, ciúmes e deficiências.

Existe uma aplicação mais ampla de tudo isso. Isto é, quando alguém despreza você por sua idade, raça, aparência, nível de educação formal, pano de fundo social ou econômico, ou alguma outra coisa que não deveria ter nenhuma relevância necessária para sua competência como um ministro do evangelho, a resposta bíblica é provar a si mesmo exibindo um caráter e conduta piedosos. Observe atentamente sua vida e doutrina. Lance-se inteiramente no aprimoramento dessas coisas, e na obra da pregação e ensino.

Você pode ser tentado a ameaçar as pessoas que lhe dão respeito superficial, mas se estiver satisfeito com isso, então você é de fato o perdedor espiritual e moral que eles pensam você ser, e isso simplesmente prova que o preconceito deles contra você é totalmente justificado. Talvez eles abriguem o preconceito por causa de pessoas como você. Você pode ameaçá-los e fazer com que silenciem, mas não pode fazer com que te apreciem e aceitem. Você não pode enganar todos eles. Eles saberão que você quer apenas silenciá-los sem admitir faltas e sem fazer melhorias, e desprezarão ainda mais em seus corações. É tempo de parar de se queixar e fazer escusas. Se o preconceito não tem fundamento, então admoeste-os, mas também contradiga-os exibindo excelência em sua conduta, atitude e doutrina.

 

Fonte: Reflections on First Timothy

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.



 
 

 
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