Apologética

30 de janeiro de 2012
 

O Senhor das Tentações

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Escrito por: Vincent Cheung
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Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, o e pecado após ter se consumado, gera a morte.

Meus amados irmãos, não se deixem enganar. Toda boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes. Por Sua decisão Ele nos gerou pela palavra da verdade, a fim de sermos os primeiros frutos de tudo o que Ele criou. (Tg 1.13-18)

Séculos de tradição religiosa tem insistido em que Deus não pode ser o autor do pecado. Eu tenho refutado isto em um número de lugares.[1] Existe a aceitação de que para Deus ser a causa metafísica direta de todo o mal comprometeria a Sua retidão. Eu tenho demonstrado que isto não tem base e não é inteligente, e negar que Deus é o autor do pecado é negar também a Sua soberania e providência. De fato, é um ataque ao Seu próprio Ser e posição como Deus.

Pois que todo acontecimento, seja bom ou mal, tem de ter uma causa metafísica. Se não existe causa, então este acontecimento seria ele próprio Deus; contudo, não estamos falando sobre Deus, mas sobre o que acontece na Sua criação. Se a causa não é Deus, então deve ser alguma outra coisa. E se for alguma outra coisa, então este acontecimento e a sua causa estão fora do controle direto de Deus. Isto é uma forma da heresia do dualismo, a de que existem duas ou mais forças mais elevadas trabalhando no universo, talvez uma para reger o bem e a outra para reger o mal. É uma filosofia pagã, e é resultado da doutrina de que Deus não é o autor do pecado.

Todos os tipos de aceitações arbitrárias são contrabandeadas para dentro da discussão. Algumas pessoas pensam que para Deus ser o “autor” do pecado é o mesmo que Ele “cometer” pecado – isto é, para Deus causar o mal no sentido metafísico seria para Ele o mesmo que praticar o mal no sentido moral. Mas esta suposição é destruída apenas por se afirmá-la claramente deste modo. É óbvio que as duas pertencem a duas diferentes categorias de ações e acontecimentos. Acrescentando, uma vez que Deus é quem define o Bem e o mal, para Ele cometer o mal, Ele antes deve estabalecer que seria um mal Ele fazer tal coisa, e então ir adiante e fazê-la. Em outras palavras, a menos que Deus desaprove a Si mesmo, então o que for que Ele faça é justo por definição. Não cabe aos teólogos definir o mal para Ele, dizendo-Lhe que, mesmo sendo Deus sobre todas as coisas, Ele não deve reinar diretamente sobre o mal, mas que Deus tem que ser Deus somente sobre o bem, e satã deve ser o deus sobre o mal, para reger um reino que o próprio Deus não pode tocar. Tal doutrina é uma blasfêmia da mais alta categoria. Insistimos que Deus é o autor de todas as coisas; portanto Deus é o autor do pecado.

Algumas pessoas fazem a objeção de que se Deus controla diretamente todas as coisas, então isto se transforma na doutrina do panteísmo. Esta objeção nos economiza tempo porque ela imediatamente nos mostra a falta de inteligência deles e a sua habilidade inferior como pensadores, de modo que não os levaremos muito a sério daqui para frente. A objeção brota do absurdo princípio de que Deus se identifica com o que Ele controla, de modo que se Deus controla diretamente todas as coisas, então Ele é identificado com todas as coisas, o que é panteísmo. Sendo esta aceitação arbitrária e sem justificativa, nós eliminamos a objeção simplesmente pela exposição e rejeição da hipótese.

A pessoa que exibe a suposição é então deixada com um infeliz dilema. Ou seja, já que eles assumem que Deus se identifica com aquilo que Ele controla, então eles têm de negar que Deus controla diretamente qualquer parte da Sua criação, ou têm de afirmar que Deus é identificado com qualquer coisa que Ele tenha controle direto. Eles precisam então afirmar que Deus não tem controle direto sobre qualquer coisa, ou que Deus é identificado com pelo menos uma parte da Sua criação. Qualquer das duas opções faria deles não-Cristãos. Em sua tentativa de apresentar uma objeção inteligente contra a total soberania de Deus e controle direto sobre todas as coisas, eles se tornaram pagãos e heréticos.

A tradição antibíblica e irracional de que Deus não pode ser o autor do pecado subestima o Seu poder e necessidade quando se trata da existência e funcionamento da criação. Parece que as pessoas pensam que Deus é apenas uma pessoa muito boa, e o diabo uma pessoa muito má. Mas a diferença é muito maior que isto. Deus não é unicamente a força oposta na mesma categoria de satã, mas Ele está numa categoria completamente diferente. Ele é o poder direto e necessário e contínuo em todas as coisas. O próprio satã depende do poder direto e constante de Deus para lhe causar cada um dos seus pensamentos e movimentos. Sem Deus, nada pode existir ou continuar a existir, e sem Ele, absolutamente nada pode acontecer, seja bom ou mau.

Tiago não pode estar tentando distanciar Deus da existência do mal, ou dizer que não é o autor do pecado, porque a questão não faria sentido aqui quando o contexto explícito diz respeito a provações e tentações. Como demonstrarei adiante, não faria sentido, primeiro, porque a questão não seria condizente com o que o restante da Bíblia ensina, e, segundo, porque ele não teria sucesso em defender a questão assim – este não é o modo de resolver o assunto. Em outras palavras, se Tiago está tentando de algum modo “exonerar” Deus do mal, o resto da Bíblia mostra que Deus não precisa ser exonerado, e que mesmo que precisasse, Ele não poderia ser exonerado pelo que se afirma. Se Deus parece ser “culpado” pela existência do mal e da tentação, este texto nada faz para anular isso. Mas nada há de errado com Tiago. O problema real é que a passagem tem sido mal interpretada – ele não está afirmando o que as pessoas fazem-no dizer.

Deus sempre tem sido revelado como alguém que leva as pessoas à tentação. Nós reconhecemos que há diferenças entre um teste de sofrimento, um teste de obediência e um teste de sedução. Mesmo parecendo que o último seja o de maior relevância, é bom que se inclua todos eles nesta discussão por duas razões. Primeira, eles não são completamente separáveis, visto que, por exemplo, um teste pode ter a ver com a persistência em obediência de uma pessoa diante da sedução. Isto descreveria a tentação que Adão e Eva experimentaram. Segunda, e apoiada pela primeira razão, mesmo um teste de sofrimento, ou de obediência, pode ser o que é simplesmente porque ele apela para o desejo de uma pessoa, até um desejo mal, de modo que passar no teste ou suportar com sucesso a dificuldade requer uma medida de autocontrole, ou uma negação dos próprios desejos. Assim sendo, todos os tipos de teste são relevantes para o texto de Tiago, de modo que o controle de Deus sobre estes tipos de testes também podem ser citados para lançar luz à discussão. Contudo, a inclusão não se faz necessária, mas serve apenas para produzir uma explicação mais abrangente, uma vez que veremos que Deus controla até o teste de sedução e guia as pessoas para os enfrentar.

Consideremos o teste de Abraão (Gn 22). Deus ordenou-lhe que sacrificasse o seu filho Isaque. A criança era o cumprimento da divina promessa. Não havia uma boa razão para que ele perecesse; sem dúvida, a Escritura diz que Abraão acreditou que se ele sacrificasse Isaque, Deus o levantaria das cinzas. A questão aqui é que Deus instituiu o teste e criou a oportunidade para Abraão pecar. E mesmo ele crendo que a criança seria levantada da morte, Abraão teria pecado se tivesse permitido que seu desejo de isentar o seu filho da provação sobrepujasse o seu desejo de agradar a Deus. De qualquer modo, Deus, e somente Ele, instituiu o teste e levou o patriarca a uma possível rebelião. Abraão não concebeu isso. Satã estava fora disso.

Em 2 Sm 24.1, a Bíblia diz que Deus incitou Davi a pecar por efetuar o censo. Então, em 1 Cr 21.1, está dito que foi satã quem incitou Davi a isto. Estranhamente, considerando a passagem em Tiago, um comentarista escreve que 1 Cr 21.1 revela a “causa real” de 2 Sm 24.1. Dependendo do que ele tem em mente, isto é no mínimo uma observação descuidada. Se Deus foi quem dirigiu satã a incitar Davi ao pecado, então como Deus não é em certo sentido, e num melhor sentido, a causa “real”? Dada a teologia do comentarista, ele talvez devesse dizer “causa imediata”. Contudo, eu ainda discordaria do uso de “causa imediata”. Exatamente como nós vivemos, nos movemos e temos a nossa existência em Deus, o próprio Satã não pode ser a causa imediata de coisa alguma de modo a descartar a causação direta de Deus. Neste sentido, Deus é a causa única ou imediata de qualquer objeto, pensamento ou acontecimento, seja bom ou ruim. As criaturas são, no máximo, a causa relativa, aparente, perceptível ou descritiva. Segue-se daí que quando se trata de metafísica, não existe uma “causa secundária” – as palavras “secundária” e “causa” são ambas enganadoras. O termo pode, no máximo, se referir a uma causa relativa ou aparente, uma relação perceptível entre dois objetos ou acontecimentos, mas nunca poderá servir como explicação metafísica. É melhor abandonar o seu uso.

Então o comentarista está errado em chamar satã a causa “real”, caso ele, no mínimo, reconheça que foi Deus quem dirigiu satã a incitar Davi ao pecado. Mas se por “real” ele se refere à causa metafísica, então é ainda pior. Isso poderia significar que 2 Sm 24.1 não tem lugar na Bíblia, e neste caso o comentarista negou a inerrância bíblica, mostrando que ele é um descrente e não tem autoridade para ensinar aos cristãos o que a passagem de Tiago quer dizer, ou poderia significar que ele faz de satã a explicação metafísica para Deus, caso em que o comentarista rejeitou a Deus e se tornou adorador de satã. Qualquer destas possibilidades faria a sua opinião sobre Tiago pior que inútil. Em vez disso, nós dizemos que 2 Sm 24.1 é a explicação para 1 Cr 21.1, e que Deus é a explicação metafísica para satã.

Deuteronômio 8.2 diz: “Lembrem-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto, durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de conhecer as suas intenções, se iriam obedecer os Seus mandamentos ou não”. Foi Deus, não outro, quem os guiou através do deserto para testá-los, para revelar se eles iriam ou não guardar os Seus mandamentos. Em outras palavras, Deus os guiou através de situações nas quais eles poderiam – e aparentemente muito mais que não – desobedecer aos Seus mandamentos. Então em Deuteronômio 13, Moisés diz que quando um falso profeta anuncia um sinal ou milagre que sem dúvida acontece, mas então diz ao povo que adore um falso deus, “O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma”. O que é que o comentarista vai dizer, que um falso profeta é uma explicação para Deus? Ou que o falso profeta é a causa “real”? Com tantos tolos como este ao longo de toda a história da igreja para defender a honra de Deus, os ateus e os céticos dificilmente se fazem necessários – os teólogos fazem o trabalho deles suficientemente bem. Não, Deus é a explicação para os falsos profetas. Ele controla os falsos profetas e os usa para testar o Seu povo.

Em 1 Reis 22, o Senhor perguntou: “Quem enganará Acabe para que ataque Ramote-Gileade e morra lá?” E um mau espírito respondeu: “Eu o enganarei… Irei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os profetas do rei”. O Senhor disse que o espírito seria bem sucedido. Então o profeta Micaias explicou: “O Senhor pôs um espírito mentiroso na boca destes seus profetas. O Senhor decretou a sua desgraça”. Os demônios e os falsos profetas enganaram Acabe porque o Senhor havia “decretado o desastre” para ele. Em 1 Samuel 2, quando Eli alertou os seus filhos dos pecados deles, o versículo 25 diz: “Seus filhos, contudo não deram ouvidos à repreensão de seu pai, pois o Senhor queria matá-los”. Assim Deus controla as más escolhas dos homens. Ele pode fazer uma pessoa crer em qualquer coisa, pensar em qualquer coisa e decidir qualquer coisa. Deus é a explicação para o mal, tanto para a tentação como para a rendição à tentação. Ele reina sobre todas as coisas – ele controla o tentador, a tentação e o tentado.

O próprio Jesus foi “levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4:1). É verdade que Jesus resistiu à tentação por nossa causa; contudo, permanece que foi o Espírito Santo quem levou Jesus à tentação. Se estiver errado por uma questão de princípios para Deus levar alguém para a tentação, então seria errado para Ele levar Jesus à tentação. Mas nada houve de errado nisto, e Deus tem levado o Seu povo à tentação desde a criação da humanidade. Isto tanto é o caso que quando Jesus ensinou os Seus discípulos a orar, Ele os ensinou a dizer “e não nos induzas à tentação” (ACF, ARC), porque é Deus quem faz isto. E então Ele acrescentou, “mas livra-nos do mal”, ou do maligno, porque é Deus quem ordena satã a incitar o mal.

Voltando ao nosso texto, como é que tudo isto se encaixa com o versículo 13, que diz que “Deus não pode ser tentado pelo mal, e Ele não tenta a ninguém”? O versículo é verdadeiro, e ele combina com o restante das Escrituras. Nas outras passagens que acabamos de examinar, ainda que Deus decrete o pecado e o mal, Ele não se torna o tentador para seduzir as pessoas, mas envia espíritos maus e falsos profetas para apresentarem a verdadeira tentação. Novamente, isto não distancia Deus do pecado e do mal, visto que “nele vivemos, movemos e somos”, e Ele tem de ser a energia direta que impulsiona todo pecado e todo o mal. Contudo, como expliquei, Deus não se identifica com o que Ele cria e com o que Ele causa. Quando Deus cria uma pedra, Ele não se torna uma pedra. Quando Deus destrói um planeta, Ele mesmo não é destruído. Aqueles que estão desesperados para se opor ao ensinamento bíblico da absoluta soberania divina asseveram que esta doutrina equivale ao panteísmo, mas quando eles fazem esta afirmação, ela se torna uma hipótese no próprio sistema deles, requerendo que aceitem pelo menos um panteísmo parcial para preservar algum controle a Deus, ou neguem a Deus absolutamente qualquer controle no universo. Qualquer opção faria deles não-cristãos. Mas nós permanecemos sem dano ao rejeitar esta hipótese estúpida. Deus não é aquilo que Ele cria, causa ou controla.

Então, Deus controla diretamente todos os aspectos da tentação, mas Ele próprio não é o tentador. Ele não tenta as pessoas no sentido em que satã tentou Eva e o Senhor Jesus. Ele não fala instruindo as pessoas a cometerem o erro. De fato, é impossível para Ele ser o tentador por causa de Sua própria natureza – visto ser Ele quem define o certo e o errado, qualquer coisa que Ele dissesse a alguém para fazer seria a coisa certa a ser feita. Se Ele tivesse dito a Eva que comesse o fruto, então teria sido certo a ela comê-lo. Não teria havido tentação, pois ao dizer a ela para comer o fruto Ele suspenderia a proibição original. Mas se Ele tivesse levado satã a dizer isto, então teria havido a tentação. E foi isto o que aconteceu com Eva, com Davi, com Acabe e assim por diante. Semelhantemente, se Ele tivesse dito a Jesus para transformar pedras em pão, isto não teria sido uma tentação; de fato, se isto tivesse vindo como uma declaração ou mandamento, Jesus teria de fazer tal coisa para cumprir a vontade do Pai.

Portanto, Deus é o autor do pecado, mas Ele não é o tentador. É obvio que isto de modo algum distancia Deus do mal, mas somente especifica o Seu relacionamento com ele. Assim temos de supor que quando Tiago enfatiza que Deus não tenta, não tem a intenção de distanciar Deus do pecado. Isto se torna até mais claro quando Ele não nomeia satã como o tentador, mas dirige o foco para o mau desejo de uma pessoa, o qual é o fator espiritual e psicológico que a leva a sucumbir à tentação. Se Tiago está interessado na identificação do tentador, porque é que ele não aponta para o diabo? A Escritura o retrata como tal em Gênesis, quando tentou Eva, e nos Evangelhos, quando tentou Jesus. E mais adiante na carta, Tiago mostra que ele está consciente do demônio quando ele escreve: “Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês” (4: 7). Se a intenção dele é identificar o tentador, especialmente em contraste com Deus, este seria o lugar para fazê-lo. Mas ele não menciona o demônio aqui porque ele tem um propósito diferente.

Assim, afirmar que Deus não é o autor do pecado baseando-se no versículo 13 é se desviar da finalidade do texto, e esta utilização errada termina por roubar o estudante das Escrituras de sua valiosa instrução. Se Tiago quer distanciar Deus do mal, ainda que fosse possível, o que ele escreve aqui não é a maneira de fazê-lo. Alguém pode se queixar de que mesmo que Deus não seja o autor do pecado, e mesmo não sendo Ele o tentador, por que permite o mal, e por que permite a tentação? E se for sem dúvida necessário distanciar Deus do mal para exonerá-LO, a única maneira de fazer isto do modo significativo e numa amplitude adequada é destronando Deus e estabelecendo satã como uma força de competição que controla diretamente o mal. Mas se satã estiver livre do controle direto de Deus, então o próprio satã será um outro “Deus”, se é que ainda pudéssemos de algum modo chamar cada um de Deus. Por esta razão é tão perigoso e blasfemo negar que Deus é o autor do pecado. Não que estejamos especialmente interessados em conectar Deus com o mal, mas que estamos especialmente interessados em afirmar que Deus é verdadeiramente Deus, que Ele exerce controle direto sobre todas as coisas, e temos de insistir que este controle inclui o mal quando as pessoas tentam negar isto, como querendo fazer um favor a Deus.

Tudo isso é para remover falsas tradições religiosas de modo a podermos ler a passagem e aprender o que ela realmente ensina. Em Gênesis satã foi o tentador, e quando ele falou à mulher, ele apelou para os seus maus desejos: “Quando a mulher viu que o fruto da árvore era bom para se comer e agradável a vista, e assim desejável para se obter sabedoria, ela pegou e comeu dele” (3.6). Tiago não está falando de metafísica, e não está tentando identificar o tentador. Ele quer que assumamos a responsabilidade e que confrontemos a tentação. Isto não se alcança culpando a soberania de Deus. O decreto divino não é algo que possamos ditar ou negociar. Isto também não é feito culpando o diabo por ser o tentador. Nós não temos soberania sobre o diabo, e não podemos impedi-lo de ser o tentador. Porém, somos responsáveis pelo exame dos nossos desejos, e se eles nos fazem suscetíveis às tentações, temos de resisti-los. Devemos estar sempre atentos aos nossos pensamentos e motivos, para cultivarmos aqueles que nos mantêm no caminho da retidão e anularmos aqueles que nos arrastariam para longe de Deus, levando-nos para o caminho da rebelião e da transgressão. Esta é a maneira de dominar as tentações.

Dos nossos desejos nasce o pecado (v. 15), mas da verdade de Deus nasce nossos espíritos renovados como crentes em Jesus Cristo (v. 18), de modo que “pudéssemos ser como que as primícias de toda a criação”. Naturalmente, os cristãos são as primícias, mas não no sentido cronológico, visto que as outras coisas na criação foram feitas antes de nós, e as nossas conversões aconteceram em diferentes ocasiões no tempo. Para ser exato, somos as primícias de tudo que Ele criou em termos de categoria, honra e prioridade. Isto traz à tona a diferença em status entre cristãos e não-cristãos. Nós somos as primícias porque Deus nos fez nascer na fé cristã, apesar de outros serem humanos como nós, eles não são conversos, e assim não são as primícias. Os cristãos, portanto, são de uma qualidade inteiramente superior da humanidade. Assim, não é de admirar que Tiago tenha escrito: “Meus amados irmãos, não se deixem enganar. Toda boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes” (vv 16-17). Que insulto é, se tudo o que tiramos desta passagem for a falsa inferência de que Deus não é o autor do pecado. Que doutrina patética. Que teologia fraca. Tiago não está interessado nisto.

Cristãos, não se deixem enganar. Não permaneçam na escravidão de tradições religiosas que declaram reverenciar a Deus e defender a Sua retidão, mas que de fato estão cheias de descrença, arrogância e que impõem a Deus limitações concebidas pelos homens que Ele nunca colocou em Si mesmo. Não aceitem qualquer coisa a menos do que o apóstolo nos diga. Se Deus deu a você o nascimento espiritual pelo Evangelho de Jesus Cristo, então fez de você as primícias da criação. Ele é o Seu Pai. Ele não é seu inimigo. Deus é o Senhor que controla as tentações, e pela mesma razão Ele é também o Senhor que o ensina a superá-las e a crescer na fé neste processo. Portanto, quando enfrentar sofrimentos e tentações, não se torne amargo e nem use a Sua soberania contra Ele, mas examine os seus próprios pensamentos e motivos. A maneira de lidar com tentações é afirmando a bondade de Deus e confrontar as suas compulsões, necessidades e ambições. Se você aprender a dominar os seus maus desejos, então você porá um fim ao pecado antes que ele tenha a chance de conceber. Isto foi o que Deus disse a Caim, mas ele não deu ouvidos, e matou o seu próprio irmão (Gn 4.6-7).

NOTAS:

[1] – Veja Vincent Cheung, Teologia Sistemática, Comentário sobre Efésios, O Autor do Pecado e Blasfêmia e Mistério.

 

Fonte: Sermonettes ~ Volume 4 

Tradução: Claudino Marra

Revisão: Jazanias de Oliveira



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.



 
 

 
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