Jason M. Garwood
E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. — 2 Coríntios 3.18
Imagine por um instante que você e alguém a quem vem discipulando há muito tempo estão de pé na praia, contemplando o oceano. O sol está se pondo, e é a coisa mais bela que você já viu. Naquele momento, as cores do céu prendem toda a sua atenção. Tons de rosa e roxo se misturam e irradiam por entre as nuvens. É deslumbrante. Sentimentos de gratidão permeiam seu coração e sua mente. Você faz uma breve oração, agradecendo a Deus por uma criação tão bela.
Mas você decide não guardar aquilo só para si. Então se vira para seu amigo, a fim de ver se ele também está apreciando o pôr do sol, e o encontra olhando o celular para conferir o placar de uma partida de beisebol. Você lhe diz que olhe depressa para o pôr do sol, porque está lindo. Ele pede que espere um segundo, pois o celular está tentando carregar o placar do jogo. Você o julga e fica contrariado — não quer que ele perca aquilo! Por isso, insiste mais uma vez para que levante os olhos e contemple a cena.
Mas ele está irritado com o celular, fica com raiva, vira as costas e se senta. Não vê a beleza do pôr do sol.
Você volta a erguer os olhos e se vê inteiramente absorto naquele momento. Então seu celular toca…
O ato de contemplar
Paulo nos diz que “todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor”, somos transformados. Há uma imensa transformação de glória em curso na vida do cristão (“de glória em glória”).
Ele prossegue dizendo que isso vem “do Senhor, o Espírito”. Quando você se arrepende do pecado e confia somente em Cristo, passa da morte para a vida, do pecado para a justiça de Cristo, da incredulidade para a alegria e da morte espiritual para o novo nascimento. Você muda.
Mas observe a palavra que Paulo emprega aqui para caracterizar essa transformação. Ele diz que estamos “contemplando” (em grego, katoptrizō). A palavra significa “olhar para algo como num espelho; contemplar algo”. João Calvino, em seu comentário sobre esse versículo, escreve que ela “às vezes significa apresentar um espelho para que alguém nele se olhe e, outras vezes, olhar para um espelho que nos é apresentado… a segunda dessas acepções é a que melhor se ajusta à passagem diante de nós”. Em outras palavras, olhamos para o Senhor a fim de nos vermos como realmente somos.
A identidade daquele que contempla
Em outras palavras, contemplar leva a nos tornarmos semelhantes ao que contemplamos. Quando contemplamos algo ou alguém, começamos a assumir a identidade desse objeto. Para o cristão, assim como para nós ao contemplarmos o pôr do sol, a contemplação de algo nos leva a deleitar-nos nesse objeto. Onde estiver nossa adoração, nosso coração a acompanhará. Uma pergunta difícil de fazer no discipulado é: “Onde você busca significado e satisfação supremos?”. Seja sincero! O que você faz nas tardes de sábado? Fica obcecado com o placar de um jogo? Ou discipula sua família, conversando sobre o glorioso evangelho?
Eis aí o desafio: você está se deleitando na glória do Cristo do evangelho? O evangelho o deixa tão maravilhado quanto o pôr do sol? Ou você, como seu amigo, está ocupado demais com o celular para perceber sua beleza?
Contemple a beleza do evangelho
Como pastor, estou convencido de que a coisa mais importante que posso fazer para formar discípulos que fazem discípulos é apontar continuamente as pessoas para o evangelho. Certamente entendemos que as boas-novas são aquilo que nos aponta para Jesus e que, por conseguinte, tem poder para nos salvar (Romanos 1.16). Muitos, porém, deixam de perceber que é o evangelho que nos transforma, ou santifica. Cresci com esse entendimento. Confiei em Cristo para minha salvação, e ele me salvou. Mas, depois disso, cabia inteiramente a mim crescer como cristão, por meio de meu esforço moral tão fugaz. Como me envergonho disso agora!
Mas qual é o papel da beleza do evangelho no discipulado? Penso que é semelhante ao que acontece na interação com seu amigo. Ele mantém com você uma relação formal de discipulado e, ao chamar sua atenção para o belo pôr do sol, você está apontando para a beleza do evangelho. E, ah, como o evangelho é verdadeiramente belo! A beleza do evangelho deve deslumbrar nossos olhos, despertar nossas emoções, inflamar nossas afeições, motivar-nos para a missão e despedaçar nosso orgulho.
Você o desafia a renunciar aos ídolos mediante a contemplação de Jesus (Gálatas 6.8). Desafia-o a crescer em sua compreensão da santidade de Deus mediante a contemplação do próprio Deus (Isaías 6.1-7). Ajuda-o constantemente a examinar as Escrituras para compreender melhor sua nova identidade em Cristo (2 Coríntios 5.17). Com a ajuda e o poder do Espírito, você está ajudando seu amigo a apreciar de maneira mais íntima a beleza do evangelho.
A beleza acima da ruína
Mas é difícil apreciar alguma coisa quando nossa atenção está voltada para o lugar errado. É difícil enxergar a beleza do evangelho quando nosso coração está desalinhado e adorando ídolos. Quando adoramos coisas que não são Deus, nosso coração fica obscurecido e nosso discernimento se desvia. Viramos as costas para o belo pôr do sol e ficamos amuados em nossa idolatria.
E, no entanto, o evangelho continua falando conosco. O evangelho, como o sol que brilha sobre nós, alcança-nos em nossa depravação. Faz nosso coração voltar a bater, enquanto Cristo e seu Espírito vêm em nossa busca. Paulo diz que “isso vem do Senhor”. Em outras palavras, somos responsáveis por nossas ações, mas, ao mesmo tempo, inteiramente dependentes de Deus, que está pronto para nos receber como filhos (Filipenses 2.12-13; cf. Lucas 15.20). As boas-novas anunciadas por Jesus são notícias boas todos os dias, sem exceção. (Às vezes, simplesmente deixamos de acreditar que as notícias são boas!) Podemos nos voltar com confiança para Jesus, que ama incondicionalmente. Como já se disse, é pela adoração que entramos no pecado, e é pela adoração que dele saímos, contemplando a beleza e a grandeza do evangelho.
E esse é o papel da beleza do evangelho: ser o objeto de nossas afeições, o propósito de nossa identidade, a realidade de nossa existência e a alegria de nossa salvação. Ela nos atrai como um belo pôr do sol, põe em evidência a glória de Deus e nos desafia a realinhar todas as coisas. No discipulado, estamos simplesmente apontando as pessoas para essa beleza e pedindo que nela encontrem a felicidade.
Tradução: Equipe Monergismo



