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Teologia

O mendigo cego (sermão)

UM SERMÃO
PREGADO NA MANHÃ DO DIA DO SENHOR, 7 DE AGOSTO DE 1859, PELO
REV. C. H. SPURGEON,
NO MUSIC HALL, ROYAL SURREY GARDENS.

“E chegaram a Jericó. Quando Jesus saía de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho, mendigando. E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Muitos o repreendiam para que se calasse, mas ele clamava ainda mais alto: Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Jesus parou e mandou chamá-lo. Então chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo! Levanta-te, ele te chama. E ele, lançando de si a capa, levantou-se e foi até Jesus. Jesus lhe perguntou: Que queres que eu te faça? O cego respondeu: Senhor, que eu recupere a vista. Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.” — Marcos 10.46-52.

Esse pobre homem era afligido por dois grandes males: a cegueira e a pobreza. Já é bastante triste ser cego; mas, se um cego possui riquezas, há dez mil confortos que podem ajudar a alegrar a escuridão de seus olhos e aliviar a tristeza de seu coração. Ser, porém, ao mesmo tempo cego e pobre — eis uma combinação dos males mais severos. Parece-nos quase impossível resistir ao apelo de um mendigo cego que encontramos na rua. Compadecemo-nos do cego mesmo quando ele está cercado de luxo; mas, quando vemos um cego passando necessidade e vivendo de esmolas nas ruas movimentadas, dificilmente conseguimos deixar de parar para ajudá-lo. O caso de Bartimeu, entretanto, não passa de um retrato de nossa própria condição. Todos nós somos, por natureza, cegos e pobres. É verdade que nos julgamos perfeitamente capazes de enxergar; mas isso é apenas uma das manifestações de nossa cegueira. Nossa cegueira é de tal natureza que nos faz pensar que nossa visão é perfeita; ao passo que, quando somos iluminados pelo Espírito Santo, descobrimos que aquilo que antes julgávamos ser visão era, na verdade, cegueira. Espiritualmente, somos cegos; somos incapazes de discernir nossa condição de perdidos; incapazes de contemplar a negrura do pecado ou os terrores da ira vindoura. A mente não regenerada é tão cega que não percebe a beleza irresistível de Cristo; o Sol da Justiça pode nascer trazendo cura debaixo de suas asas, mas tudo será em vão para aqueles que não conseguem ver seu resplendor. Cristo pode realizar muitas obras poderosas na presença deles, mas não reconhecem sua glória; somos cegos até que ele nos abra os olhos. Mas, além de cegos, somos também pobres por natureza. Nosso pai Adão dissipou nossa herança de primogenitura, perdeu nossas propriedades. O Paraíso, o lar ancestral de nossa raça, caiu em ruínas, e fomos deixados na mais profunda miséria, sem nada com que possamos comprar pão para nossas almas famintas ou vestes para nossos espíritos desnudos; a cegueira e a mendicância são, espiritualmente falando, a sorte de todos os homens até que Jesus os visite em amor. Olhai ao redor, portanto, filhos de Deus; olhai ao redor nesta manhã, e vereis neste salão muitos que são o retrato do pobre Bartimeu, sentado à beira do caminho, mendigando. Espero que muitos dos que aqui vieram estejam nessa condição: embora cegos, nus e pobres, estão, não obstante, mendigando — ansiando por obter algo mais do que possuem, insatisfeitos com sua condição. Com vida e sensibilidade espirituais apenas suficientes para reconhecer sua miséria, vieram a este lugar como mendigos. Oh! Que, enquanto Jesus passa hoje por aqui, tenham fé para clamar em alta voz por sua misericórdia! Oh! Que seu coração gracioso seja comovido pelo clamor penetrante deles: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Oh! Que ele se volte e conceda visão a essas pessoas, para que possam segui-lo e prosseguir seu caminho com alegria!

Nesta manhã, dirigirei minhas palavras especialmente às almas pobres e cegas que hoje aqui se encontram. A fé do pobre cego descrita nesta passagem das Escrituras é uma representação apropriada da fé que peço a Deus que vos capacite a exercer para a salvação de vossas almas. Observaremos a origem de sua fé, como ela percebeu a oportunidade quando Jesus passou; ouviremos sua fé enquanto clama e suplica; contemplaremos sua fé enquanto salta em jubilosa obediência ao chamado divino; e, então, ouviremos sua fé expondo sua condição: “Senhor, que eu recupere a vista”; e confio que poderemos alegrar-nos juntamente com esse pobre homem de fé quando sua visão for restaurada, ao vê-lo, na beleza de sua gratidão e reconhecimento, seguir Jesus pelo caminho.

I. Primeiramente, portanto, observaremos A ORIGEM DA FÉ DESSE POBRE CEGO. Ele possuía fé, pois foi sua fé que lhe obteve a visão. Ora, onde a conseguiu? Esta passagem não nos diz como Bartimeu veio a crer que Jesus era o Messias; mas penso que podemos, com bastante segurança, arriscar uma conjectura. É absolutamente certo que Bartimeu não chegou a crer em Cristo por aquilo que viu. Jesus havia realizado muitos milagres; muitos olhos os haviam contemplado, e muitos corações haviam crido por causa do que viram. Bartimeu também creu, mas certamente não em consequência de sua visão, pois era completamente cego. Nenhum raio de luz jamais penetrara sua alma; estava encerrado em densas trevas e não podia ver coisa alguma. Como, então, veio a crer? Certamente não pode ter sido porque viajara muito pelo país, pois os cegos permanecem em casa; não se interessam em fazer longas viagens. Nada há que possam ver. Por mais bela que seja a paisagem, não podem sorvê-la com os olhos; por mais encantadores que sejam os lugares contemplados pelos outros, nada há que atraia seus olhares privados de visão. Por isso, ficam em casa. E, especialmente, um mendigo como esse; como poderia viajar? Talvez fosse desconhecido fora da cidade onde vivera seu pai, Timeu — isto é, Jericó. Não conseguiria despertar a caridade de estranhos, nem seria provável encontrar um guia que o conduzisse pelos longos e penosos caminhos daquela terra. Seria, quase necessariamente, um pobre cego condenado a permanecer em sua cidade. Como, então, adquiriu sua fé? Parece-me que pode ter acontecido da seguinte maneira. No barranco mais próximo que encontrasse fora de Jericó, sentava-se para mendigar à luz do sol; pois os cegos sempre gostam de aquecer-se ao sol. Embora nada vejam, há uma espécie de claridade que penetra o órgão da visão, e eles se alegram com isso. Pelo menos sentem o calor do grande astro do dia, ainda que não vejam sua luz. Pois bem, enquanto ali se encontrava sentado, ouvia os transeuntes conversarem a respeito de Jesus de Nazaré e, como os cegos costumam ser curiosos, pedia-lhes que parassem e lhe contassem a história — algum relato do que Jesus havia feito; e eles lhe contavam como ele ressuscitara os mortos e curara o leproso; e ele dizia: “Será que também pode dar visão aos cegos?” E aconteceu que, certo dia, lhe disseram que Jesus havia restituído a visão a um homem cego de nascença. Essa era, de fato, a maior de todas as histórias que o mundo tinha para contar, pois jamais se soubera antes, em Israel, que um homem nascido cego tivesse os olhos abertos. Penso que posso ver o pobre homem enquanto ouve a história: ele a absorve, bate palmas e exclama: “Então ainda há esperança para mim. Talvez o Profeta passe por este caminho e, se passar, oh! clamarei a ele, suplicarei que abra também meus olhos; pois, se o pior dos casos foi curado, certamente o meu também poderá ser”. Durante muitos e muitos dias, enquanto ali se sentava, chamava novamente algum transeunte e dizia: “Venha contar-me a história do homem que nasceu cego e de Jesus de Nazaré, que lhe abriu os olhos”; e talvez até se tornasse importuno, como os cegos costumam fazer. Precisava ouvir a história uma centena de vezes, e sempre surgia um sorriso no rosto do pobre homem quando ouvia aquela narrativa revigorante. Nunca poderiam contá-la vezes demais, pois ele adorava ouvi-la. Para ele, era como uma brisa fresca e revigorante sob o calor de um sol abrasador. “Conte-me, conte-me, conte-me outra vez”, dizia ele, “a doce história do homem que abriu os olhos dos cegos”. E parece-me que, enquanto permanecia ali sentado, inteiramente sozinho e incapaz de distrair a mente com muitas coisas, mantinha sempre o coração fixo naquela única narrativa, revolvendo-a na mente repetidas vezes, sem cessar, até que, em seus devaneios, quase acreditava ser capaz de enxergar e, por vezes, chegava a imaginar que seus próprios olhos também estavam prestes a ser abertos. Talvez, numa dessas ocasiões, enquanto meditava nessas coisas, lhe tenha ocorrido alguma passagem das Escrituras que ouvira na sinagoga; ouvira dizer que o Messias viria para abrir os olhos dos cegos e, rápido no raciocínio, possuindo olhos interiores melhores que os exteriores, chegou imediatamente à conclusão de que o homem capaz de abrir os olhos dos cegos não poderia ser outro senão o Messias; e, a partir daquele dia, tornou-se um discípulo secreto de Jesus. Talvez tivesse ouvido zombarem dele, mas não zombava. Como poderia zombar daquele que abrira os olhos dos cegos? Talvez tivesse ouvido muitos transeuntes injuriarem Cristo e chamá-lo de impostor, mas não conseguia unir-se às injúrias. Como poderia ser um enganador aquele que dava visão a pobres cegos? Imagino que esse fosse o sonho acalentado durante toda a sua vida. E talvez, ao longo dos dois ou três anos do ministério do Salvador, o único pensamento do pobre cego fosse: “Jesus de Nazaré abriu os olhos de um cego”. Aquela história que ouvira levou-o a crer que Jesus devia ser o Messias prometido.

Ora, vós que sois espiritualmente cegos, vós que sois espiritualmente pobres, como é que ainda não crestes em Cristo? Ouvistes falar das obras maravilhosas que ele realizou; “A fé vem pela pregação”. Soubestes como, um após outro, tantos receberam perdão; estivestes na casa de Deus e ouvistes a confissão do penitente e o grito jubiloso do crente, e, contudo, não credes. Ano após ano, tendes vindo ao santuário de Deus e ouvido muitas histórias — muitas narrativas gloriosas do poder de Cristo para perdoar; e como é, ó vós que sois espiritualmente cegos, que nunca pensastes nele? Por que não revolvestes repetidas vezes em vossa mente este pensamento: “Este homem recebe pecadores; não receberá também a mim?” Como é que não vos lembrastes de que aquele que removeu os pecados de Paulo e de Madalena pode remover também os vossos? Certamente, se uma única história contada aos ouvidos do pobre cego pôde dar-lhe fé, se sua fé veio apenas por ouvir uma vez, como é que vós, embora tenhais ouvido tantas vezes que não há salvação sem fé em Cristo e escutado tantos apelos fervorosos, ainda não crestes? Contudo, pode ser que entre esses pobres cegos haja alguns aqui hoje que já estejam começando a crer. Ainda não chegastes a apropriar-vos da fé, mas, nas profundezas de vossa alma, há algo que diz: “Sim, ele é capaz de salvar-me; sei que tem poder para perdoar”; e, às vezes, essa voz fala um pouco mais alto e anima vosso coração com um pensamento como este: “Vai a ele; não te lançará fora; jamais rejeitou alguém que se aventurasse a confiar em seu poder e sua bondade”. Pois bem, meu querido ouvinte, se essa é tua condição, és feliz, e eu sou um homem feliz por ter o privilégio de dirigir-me a ti. Não demorará muito até que a fé que há em teu íntimo, nascida pelo ouvir, adquira força suficiente para entrar em ação e alcançar a bênção. Eis a primeira coisa — a origem da fé do pobre Bartimeu; sem dúvida, ela veio pelo ouvir.

II. Agora, em segundo lugar, observaremos sua fé na PRONTIDÃO COM QUE APROVEITOU A OPORTUNIDADE GRACIOSA.

Jesus havia passado por Jericó e, quando entrava na cidade, havia um cego à beira do caminho, e Jesus o curou. Bartimeu, entretanto, parece ter morado do outro lado de Jericó, de modo que não recebeu a bênção até que Cristo estivesse prestes a deixar a cidade. Ele está sentado em seu lugar habitual à beira do caminho, onde algum amigo o deixou para que ali permanecesse o dia inteiro mendigando, quando ouve um grande alvoroço e o tropel de muitos pés. Pergunta-se o que está acontecendo e indaga a um transeunte: “Que barulho é esse? Por que toda essa agitação?” E a resposta é: “Jesus de Nazaré está passando”. Isso é muito pouco para encorajá-lo; contudo, sua fé havia alcançado tal vigor que lhe bastava saber que Jesus de Nazaré estava passando. A incredulidade teria dito: “Ele está passando; não haverá cura para ti. Ele está passando; não há esperança de misericórdia. Está prestes a partir e não te dá atenção”. Ora, se vós e eu precisássemos de encorajamento, desejaríamos que Cristo parasse; precisaríamos que alguém dissesse: “Jesus de Nazaré está parado, procurando por ti”. Sim, mas a fé desse pobre homem era de tal natureza que conseguia alimentar-se de qualquer côdea seca com a qual nossa fé diminuta teria morrido de fome. Ele era como aquela pobre mulher que, ao ser repelida, disse: “É verdade, Senhor, não passo de um cão; contudo, os cães comem das migalhas que caem da mesa de seus donos”. Ele apenas ouviu: “Jesus de Nazaré está passando”; mas isso lhe bastou. Era uma oportunidade exígua. Poderia ter raciocinado consigo mesmo desta maneira: “Jesus está passando, está justamente saindo de Jericó; certamente não poderá parar agora que está de viagem”. Não; antes, raciocinou assim: “Se está saindo de Jericó, tanto maior é a razão para que eu o detenha, pois esta pode ser minha última oportunidade”. E, portanto, aquilo que a incredulidade teria apresentado como motivo para fechar-lhe a boca apenas o fez abri-la ainda mais. A incredulidade poderia ter dito: “Ele está cercado por uma grande multidão; não poderá chegar até ti. Seus discípulos também estão ao redor dele; estará tão ocupado em lhes falar que jamais dará atenção ao teu fraco clamor”. “Pois bem”, disse ele, “tanto maior é a razão para que eu clame com todas as minhas forças”; e faz da própria multidão mais um argumento para gritar em alta voz: “Jesus de Nazaré, tem misericórdia de mim!” Assim, por mais exígua que fosse a oportunidade, ela o encorajou.

E agora, meus queridos ouvintes, voltamo-nos novamente para vós. Talvez a fé esteja em vosso coração há muitos dias, mas quão insensatos tendes sido! Não aproveitastes as oportunidades encorajadoras como poderíeis ter feito. Quantas vezes Cristo não apenas passou, mas parou e bateu à vossa porta, e permaneceu em vossa casa! Ele vos cortejou e convidou, e, contudo, não quisestes vir; ainda trêmulos e vacilantes, não ousastes exercer a fé que possuís, arriscar-vos às consequências e vir ousadamente a ele. Ele permaneceu em vossas ruas — “eis que há tantos anos” — até que os cabelos do pobre cego teriam embranquecido com a idade. Ele está na rua hoje — hoje se dirige a vós e diz: “Pecador, vem a mim e vive”. Hoje a misericórdia vos é oferecida gratuitamente; hoje se faz a declaração: “Quem quiser, venha e receba de graça a água da vida”. Ó pobre coração incrédulo, não queres, não ousas aproveitar o encorajamento para vir a ele? Os encorajamentos que recebeis são infinitamente maiores que aqueles oferecidos a esse pobre cego; não permitais que sejam desperdiçados. Vinde agora, neste exato momento; clamai a ele em alta voz agora, pedi-lhe que tenha misericórdia de vós, pois agora ele não apenas passa, mas se apresenta de braços estendidos e clama: “Vinde a mim, e eu vos darei descanso, vida e salvação”.

Tal era o encorajamento da fé desse homem, e quem me dera que alguma coisa no culto desta manhã pudesse encorajar algum pobre Bartimeu que aqui esteja sentado ou em pé.

III. Em terceiro lugar, depois de observarmos como a fé do cego descobriu e aproveitou essa oportunidade, a passagem do gracioso Salvador, devemos OUVIR O CLAMOR DA FÉ. O pobre cego, ali sentado, é informado de que se trata de Jesus de Nazaré. Sem um instante de hesitação ou demora, levanta-se e começa a clamar: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Mas Jesus está em meio a um belo discurso, e seus ouvintes não gostam que seja interrompido: “Cala a boca, cego. Vai-te embora! Ele não pode dar-te atenção”. Contudo, o que diz a narrativa a respeito dele? “Clamava ainda mais alto”; não apenas clamava mais alto, mas muito mais alto. “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” “Oh!”, diz Pedro, “não interrompas o Mestre. Por que fazes tanto barulho?” “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” — ele repete. “Tirai-o daqui”, diz alguém, “ele está interrompendo todo o culto; levai-o embora”; e assim tentam removê-lo; contudo, ele clama com vigor e veemência ainda maiores: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Parece-me ouvir seu grito. É impossível imitá-lo; nenhum ator conseguiria imprimir à voz tamanha veemência ou tamanha emoção quanto as que esse homem colocaria em seu clamor: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Cada palavra teria força, cada sílaba encerraria um argumento; toda a força, todo o vigor, todo o sangue e todos os nervos da vida daquele homem seriam empregados nesse clamor. Ele seria como Jacó lutando com o anjo, e cada palavra seria uma mão a agarrá-lo para impedir que partisse. “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Temos aqui um retrato do poder da fé. Em todos os casos, pecador, se queres ser salvo, tua fé precisa manifestar-se em clamores. A porta do céu só pode ser aberta de uma maneira: batendo-se com todo o fervor por meio da oração. Não podes ter os olhos abertos enquanto não abrires a boca. Abre a boca em oração, e ele abrirá teus olhos para que vejas; assim encontrarás júbilo e alegria. Observai bem: quando um homem tem fé na alma, acompanhada de fervor, ele verdadeiramente ora. Não chameis de orações essas coisas que ouvis ser lidas nas igrejas. Não imagineis que sejam orações aqueles discursos que ouvis em nossas reuniões de oração. A oração é algo mais nobre que tudo isso. Há oração quando a pobre alma, em meio a alguma grande aflição, desfalecida e sedenta, ergue os olhos banhados em lágrimas, torce as mãos, bate no peito e então clama: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Vossos discursos frios jamais alcançarão o trono de Deus. É a lava ardente da alma que traz dentro de si uma fornalha — um verdadeiro vulcão de aflição e tristeza —, é essa lava incandescente da oração que encontra o caminho até Deus. Nenhuma oração jamais alcança o coração de Deus se não procede de nosso coração. Nove em cada dez orações que ouvis em nossos cultos públicos têm tão pouco fervor que, se obtivessem alguma bênção, seria verdadeiramente o milagre dos milagres.

Meus queridos ouvintes, estais agora buscando a Cristo em oração fervorosa? Não tenhais medo de ser fervorosos ou perseverantes demais. Ide a Cristo neste dia, agonizai e lutai com ele; suplicai-lhe que tenha misericórdia de vós e, se ele não vos ouvir, ide a ele novamente, e novamente, e mais uma vez. Sete vezes por dia, invocai-o e resolvei em vosso coração que jamais cessareis de orar até que o Espírito Santo tenha revelado à vossa alma o perdão de vosso pecado. Quando o Senhor leva um homem a esta resolução: “Serei salvo. Se eu perecer, ainda assim irei ao trono da graça e só ali perecerei”, esse homem não pode perecer. É um homem salvo e contemplará com alegria a face de Deus. O nosso grande mal é que oramos com um pouco de fervor espasmódico e depois paramos. Recomeçamos e, então, mais uma vez, o fervor se extingue e abandonamos nossas orações. Se quisermos conquistar o céu, não devemos tomá-lo por um único assalto desesperado, mas por um cerco contínuo. Devemos conquistá-lo com os projéteis incandescentes da oração fervorosa. Mas esses projéteis precisam ser disparados dia e noite, até que, por fim, a cidade celestial se renda a nós. O reino dos céus é tomado por violência, e os violentos precisam apoderar-se dele à força. Contemplai a coragem desse homem. Muitos procuram impedi-lo, mas ele não cessa de orar. Assim, se a carne, o diabo e vosso próprio coração vos ordenarem que cesseis vossas súplicas, jamais o façais; antes, clamai ainda muito mais alto: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”

Devo observar aqui a simplicidade da oração desse homem. Naquela ocasião, ele não precisava de uma liturgia nem de um livro de orações. Havia algo de que necessitava, e foi isso que pediu. Quando nossas necessidades estão diante de nós, geralmente elas mesmas nos sugerem as palavras apropriadas. Lembro-me de uma observação do velho e singular Bunyan, falando daqueles que compõem orações para os outros: “O apóstolo Paulo disse que não sabia pelo que devia orar e, contudo”, diz ele, “há muitos, infinitamente inferiores ao apóstolo Paulo, que conseguem escrever orações; que não apenas sabem pelo que orar e como orar, mas sabem como os outros devem orar; e não somente isso, mas sabem como eles devem orar desde o primeiro dia de janeiro até o último dia de dezembro”. Não podemos dispensar a influência sempre renovada do Espírito Santo, que nos sugere as palavras com as quais podemos expressar nossas necessidades; e, quanto à ideia de que alguma fórmula de oração possa algum dia satisfazer um crente despertado e iluminado, ou ser adequada e apropriada aos lábios de um pecador penitente — não consigo sequer imaginá-la. Esse homem clamou de coração, com as primeiras palavras que lhe vieram — as mais simples que poderiam expressar seu desejo: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Vai e faze o mesmo, pobre pecador cego, e o Senhor te ouvirá, assim como ouviu Bartimeu.

Acima do burburinho e do alvoroço da multidão e do ruído dos passos, ouve-se uma voz suave, que fala de misericórdia, amor e graça. Mas, acima dessa voz, ouve-se um grito penetrante — um grito repetido muitas e muitas vezes — que ganha força a cada repetição; e, embora a garganta que o profere esteja rouca, o clamor se torna cada vez mais alto e mais forte: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” O Mestre para. O clamor de uma miséria que suplica fervorosamente por alívio jamais pode ser ignorado por ele. Olha ao redor: ali está Bartimeu, sentado. O Salvador pode vê-lo, embora ele não possa ver o Salvador. “Trazei-o aqui a mim”, diz ele; “deixai-o vir a mim, para que eu tenha misericórdia dele”. E agora aqueles que lhe haviam ordenado que cessasse seu clamor mudam de tom e, reunindo-se ao redor dele, dizem: “Tem bom ânimo! Levanta-te, ele te chama”. Ah, pobres consoladores! Não quiseram confortá-lo quando ele precisava. Que lhe importava agora tudo o que tinham a dizer? O Mestre havia falado; isso bastava, sem a ajuda intrometida deles. Não obstante, exclamam: “Levanta-te, ele te chama”; e o conduzem, ou estão prestes a conduzi-lo, a Cristo; mas ele não precisa ser conduzido. Afastando-os para os lados, lança para trás a veste com que se cobria à noite — sem dúvida, um trapo esfarrapado — e, ao atirá-la de si, o cego parece já enxergar de verdade. O som o guia e, com um salto, deixando a capa para trás e agitando as mãos de pura alegria, eis que está diante daquele que lhe dará a visão.

IV. Detenhamo-nos aqui para observar COM QUE PRONTIDÃO ELE OBEDECEU AO CHAMADO. Bastou que o Mestre falasse, que parasse e ordenasse que o chamassem, e ele veio. Não foi necessário pressioná-lo. Pedro não precisou puxá-lo por um braço, nem João pelo outro. Não; ele salta para a frente, alegre por poder vir. “Ele me chama, e eu haveria de ficar para trás?”

E agora, meus queridos ouvintes, quantos de vós tendes sido chamados ao ouvir a pregação e, contudo, não viestes? Por quê? Pensastes que Cristo não falava sério quando disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”? Por que continuais em vossos trabalhos e ainda estais sobrecarregados? Por que não vindes? Oh, vinde! Saltai para aquele que vos chama! Suplico-vos que lanceis fora as vestes de vosso mundanismo, a roupa de vosso pecado. Lançai fora o manto de vossa justiça própria e vinde, vinde sem demora. Mas por que vos convido? Certamente, se não vierdes ao chamado do Salvador, não vireis ao meu. Se vossas próprias necessidades prementes não vos levam a atender ao seu gracioso chamado, certamente nada do que eu possa dizer jamais vos comoverá. Ó meus pobres irmãos e irmãs cegos! Vós que não conseguis ver em Cristo vosso Salvador, vós que estais cheios de culpa e temor, ele vos chama:

“Vinde, cansados, sobrecarregados, Perdidos e arruinados pela queda.”

Vinde, vós que não tendes esperança nem justiça; vós, rejeitados, desanimados, aflitos, perdidos, arruinados, vinde! Vinde! Hoje. A quem quiser, a misericórdia clama hoje aos ouvidos: “Levanta-te, ele te chama!” Ó Salvador! Chama-os eficazmente. Chama-os agora; que o Espírito fale. Ó Espírito do Deus vivo, ordena ao pobre prisioneiro que venha e permite que salte de alegria ao livrar-se de suas correntes. Sei que aquilo que por muito tempo me afastou do Salvador foi a ideia de que ele nunca me havia chamado; contudo, quando fui a ele, descobri que muito antes já me havia convidado, mas eu tapara os ouvidos; pensava que certamente convidara todos os outros a virem a ele, mas que eu deveria ficar de fora, o mais pobre e o mais vil de todos. Ó pecador! Se essa é tua convicção, então és alguém a quem o convite se dirige especialmente. Confia nele agora, exatamente como estás, com todos os teus pecados; vem a ele e pede-lhe que te perdoe; invoca seu sangue e seus méritos, e não podes, não haverás de suplicar em vão.

V. Aproximamo-nos da conclusão. O homem veio a Cristo; OUÇAMOS SUA SÚPLICA. Jesus, com amorosa condescendência, toma-o pela mão e, para pô-lo à prova e para que toda a multidão pudesse ver que ele realmente sabia o que queria, pergunta-lhe: “Que queres que eu te faça?” Quão clara é a declaração do homem! Nem uma palavra a mais; não poderia tê-lo dito com uma palavra a menos: “Senhor, que eu recupere a vista”. Aqui não houve hesitação nem gagueira, nem disse ele: “Senhor, mal sei o que dizer”. Simplesmente declarou de imediato: “Senhor, que eu recupere a vista”.

Ora, se há nesta casa algum ouvinte que possui uma fé secreta em Cristo e que ouviu o convite nesta manhã, permiti-me suplicar-vos que volteis para casa, ao vosso quarto, e ali, ajoelhados ao lado da cama, imagineis pela fé o Salvador dizendo-vos: “Que queres que eu te faça?” Caí de joelhos e, sem hesitar, contai-lhe tudo; dizei-lhe que sois culpados e que desejais que ele vos perdoe. Confessai vossos pecados; não escondais nenhum deles. Dizei: “Senhor, imploro-te que perdoes minha embriaguez, minha linguagem profana”, ou qualquer outra coisa de que sejais culpados; e então continuai imaginando que o ouvis dizer: “Que queres que eu te faça?” Dizei-lhe: “Senhor, desejo ser preservado de todos esses pecados no futuro. Não me contentarei em ser perdoado; quero ser renovado”. Dizei-lhe que tendes um coração endurecido; pedi-lhe que o abrande; dizei-lhe que tendes olhos cegos e não conseguis enxergar a parte que tendes em Cristo. Pedi-lhe que os abra; confessai diante dele que estais cheios de iniquidade e sois propensos a vos desviar; pedi-lhe que tome vosso coração e o lave, e depois o fixe nas coisas do alto, não permitindo mais que se apegue às coisas da terra. Contai tudo claramente, fazei uma confissão franca e completa em sua presença; e que aconteceria, meu querido ouvinte, se neste mesmo dia, enquanto estás em teu quarto, Cristo te concedesse o toque da graça, removesse teus pecados, salvasse tua alma e te desse a alegria de saber que agora és filho de Deus e herdeiro do céu? Imita o cego na clareza e na franqueza de sua declaração e de seu pedido: “Senhor, que eu recupere a vista”.

Mais uma vez, quão animador é o fato de que o cego mal havia expressado seu desejo quando imediatamente recuperou a visão! Oh! Como deve ter saltado naquele instante! Que alegrias devem ter inundado seu espírito! Ele não viu homens como árvores andando, mas recuperou a visão de uma só vez; não foi um tênue clarão, mas uma explosão plena e brilhante de luz solar que incidiu sobre seus olhos mergulhados em trevas. Algumas pessoas não acreditam em conversões instantâneas; não obstante, elas são fatos. Muitos homens entraram neste salão carregando todos os seus pecados e, antes de sair, sentiram que seus pecados haviam sido perdoados. Vieram para cá como réprobos endurecidos, mas saíram para, daquele dia em diante, levar uma nova vida e andar no temor de Deus. O fato é que há muitas conversões graduais; mas a regeneração, afinal, pelo menos naquela parte denominada “vivificação”, deve ser instantânea, e a justificação é concedida ao homem tão rapidamente quanto o clarão de um relâmpago. Estamos cheios de pecado num momento, mas, num instante, ele é perdoado; e os pecados passados, presentes e futuros são lançados aos quatro ventos dos céus em menos tempo do que o relógio leva para marcar a morte de um segundo. O cego enxergou imediatamente.

E agora, o que imaginais que esse homem faria assim que seus olhos fossem abertos? Terá ele um pai? Não irá vê-lo? Terá uma irmã ou um irmão? Não ansiará por voltar ao convívio de sua família? Acima de tudo, terá uma companheira que partilhou sua pobre existência de cego? Não irá procurá-la para contar-lhe que agora pode contemplar o rosto daquela que por tanto tempo o amou e chorou por ele? Não desejará agora ir ver o templo e suas glórias? Não desejará contemplar as colinas e todas as suas belezas, e observar o mar, suas tempestades e todas as suas maravilhas? Não; há apenas uma coisa pela qual esse pobre cego agora anseia: poder contemplar sempre o homem que lhe abriu os olhos. “E seguia Jesus pelo caminho.” Que belo retrato de um verdadeiro convertido! No momento em que seus pecados são perdoados, a única coisa que deseja fazer é servir a Cristo. Sua língua começa a coçar de vontade de contar a alguém a misericórdia que encontrou. Anseia por ir à loja mais próxima e contar a algum companheiro de trabalho que todos os seus pecados foram perdoados. Não consegue conter-se. Acha que agora poderia pregar. Colocai-o no púlpito e, ainda que houvesse dez mil pessoas diante dele, não se envergonharia de dizer: “Ele me tirou do lamaçal e do poço horrível, colocou meus pés sobre uma rocha, pôs um novo cântico em minha boca e firmou meus passos”. Tudo o que agora pede é: “Senhor, quero seguir-te aonde quer que fores. Que eu jamais perca tua companhia. Torna eterna minha comunhão contigo. Faze crescer meu amor. Que meu serviço seja contínuo e que, nesta vida, eu ande com Jesus; e, no mundo vindouro, tudo o que peço é poder viver com ele”.

Vedes agora a multidão seguindo seu caminho. Quem é aquele homem no meio dela, com o rosto tão alegre? Quem é aquele homem que perdeu a veste de cima? Vede, ele usa roupas de mendigo. Quem é ele? Não imaginaríeis que houvesse nele qualquer sinal de mendicância, pois seu passo é firme e seus olhos reluzem e cintilam; e ouvi-o: enquanto caminha, às vezes entoa um pequeno hino ou cântico; outras vezes, quando os demais estão cantando, ouvi sua voz, a mais alta de todas. Quem é esse homem, sempre tão feliz e tão cheio de gratidão? É o pobre Bartimeu, outrora cego, que se sentava à beira do caminho para mendigar. E vedes aquele homem ali adiante, seu irmão e seu protótipo? Quem é que canta tão fervorosamente na casa de Deus e que, sentado naquela casa ou caminhando pela estrada, está continuamente cantarolando alguma melodia de louvor? Oh! É aquele bêbado cujos pecados foram perdoados; é aquele blasfemador cuja linguagem profana foi purificada; é aquela que outrora era prostituta, mas agora é uma das filhas de Jerusalém; é aquela que antes conduzia outros ao inferno e agora lava os pés de seu Redentor e os enxuga com os cabelos de sua cabeça. Oh! Que Deus conceda que essa história de Bartimeu se escreva novamente em vossa experiência, e que todos vós, por fim, vos encontreis onde a luz eterna de Deus terá dissipado toda a cegueira e onde os habitantes jamais dirão: “Estou doente”.

Tradução: Equipe Monergismo
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