O conceito de “clássico”
O conceito de clássico estende-se virtualmente a todas as esferas da vida e não se limita às obras de literatura e arte. “É um clássico”, diz minha esposa sobre uma peça de roupa que estou pensando em comprar. “Dê o presente de um clássico atemporal”, diz um anúncio de relógio. “Clássico instantâneo”, declara com solenidade o canal esportivo ESPN Classic a respeito de um jogo de futebol americano ou de basquete recém-concluído. Nas preguiçosas noites de quarta-feira do verão, pode-se passear pelo centro de Wheaton, Illinois, e ver exposições de carros clássicos. Se o conceito de clássico se estende de modo tão amplo, dificilmente merece o estigma de elitismo que progressistas “politicamente corretos” gostam de atribuir aos clássicos literários.
Que qualidades algo precisa possuir para merecer o título de clássico? Ao me voltar para uma resposta, estarei falando especificamente de obras de literatura, com o entendimento de que as qualidades que estou prestes a atribuir a um clássico literário se aplicam igualmente a muitas outras áreas da vida e às artes irmãs (as artes visuais e a música).
Qualidade
Para começar, um clássico é considerado pelo público em geral como o melhor de sua classe, ou como o de mais alta qualidade dentro de um conjunto. Uma obra literária que não atinge elevados padrões de qualidade não está na disputa para ser considerada um clássico. Isso não significa dizer que devamos ler apenas clássicos, mas simplesmente que algo aquém da excelência, conforme julgado por aqueles que são mais peritos em um campo, não pode ser considerado um clássico (embora eu observe abaixo uma exceção parcial).
Impacto
Se um clássico é tão grande quanto dei a entender, um traço relacionado que podemos lhe atribuir é o de nos impactar profundamente. Nós o valorizamos por causa de seus efeitos. Sou afeiçoado à afirmação de um estudioso da literatura que fala de como um clássico “modifica o nosso próprio ser e nos faz sentir que não somos os mesmos homens e mulheres que éramos quando o começamos”.
Reconhecimento
Porque um clássico é amplamente reconhecido como grande, ele ocupa um lugar importante na história de uma nação ou cultura ou subcultura (incluindo a subcultura cristã). Um destacado estudioso da literatura escreve, numa introdução a The Scarlet Letter [A letra escarlate], de Hawthorne, que “falamos de um livro como um clássico quando ele conquistou para si um lugar em nossa cultura e, consequentemente, tornou-se parte de nossa experiência educacional”. Os clássicos têm o hábito de se tornar parte da experiência compartilhada de toda uma cultura ou grupo. Temos o primeiro contato com muitos dos clássicos que conhecemos na escola.
Permanência
Além disso, os clássicos normalmente resistiram à prova do tempo. Muitos deles vêm de um passado distante. Parte da emoção que sentimos ao ler um clássico é a consciência de que nos juntamos a um grupo muito ilustre de leitores em muitos lugares e épocas. Os clássicos possuem permanência. Evidentemente, eles não poderiam alcançar tal durabilidade se não fossem capazes de ser reinterpretados e reaplicados à medida que os anos passam. Cada época vê a sua própria experiência em um clássico. Os clássicos são, de fato, atemporais e sempre atuais.
C. S. Lewis tinha uma perspectiva interessante sobre o que faz de algo um clássico quando disse que um clássico “é inteiramente insubstituível, no sentido de que nenhum outro livro chega sequer perto de nos lembrar dele ou de ser, ainda que por um momento, um substituto para ele”. Os clássicos são “únicos”.
Acolhendo os clássicos
Quero concluir com algumas reflexões adicionais que talvez tornem os clássicos um pouco menos intimidantes do que às vezes parecem. Além dos clássicos culturalmente consagrados, é importante que todos nós tenhamos a nossa própria lista privada de clássicos — livros que, para nós, correspondem às qualidades que observei acima. Além disso, toda categoria de literatura tem os seus clássicos. Há histórias infantis clássicas, contos de fadas, limeriques, romances policiais, poemas curtos, hinos e muitos outros gêneros. Por fim, a Bíblia é o maior clássico. Isso deve nos levar a respeitar o conceito de clássico. Ademais, o que sabemos sobre o conceito de clássico literário pode enriquecer a maneira como experimentamos a Bíblia.
Sobre o autor
Leland Ryken (PhD, Universidade do Oregon) atuou como professor de inglês no Wheaton College por quase cinquenta anos. Serviu como estilista literário da Bíblia English Standard Version e é autor ou editor de mais de sessenta livros, incluindo The Word of God in English e A Complete Handbook of Literary Forms in the Bible.
Tradução: Fabrício Tavares de Moraes