Apologética

5 de novembro de 2010
 

O Problema do Um e os Muitos

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Escrito por: R. J. Rushdoony
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A Natureza do Problema

Um dos problemas mais básicos e contínuos da história do homem é a questão do um e os muitos e a sua relação. O fato que em anos recentes os homens têm evitado a discussão desse assunto não deixou de fazer suas pressuposições não declaradas com respeito ao mesmo determinante do seu pensamento.

Grande parte da preocupação presente sobre as tendências desses tempos é literalmente gasta em esforço inútil porque aqueles que guiam as atividades não podem resolver, com as ferramentas filosóficas disponíveis a eles, o problema da autoridade. Isso está no cerne do problema da função apropriada do governo, o poder de tributar, de recrutar, de executar criminosos e travar uma guerra. A questão da autoridade é novamente básica para a educação, para a religião e a família. Onde a autoridade reside, na democracia ou em uma elite, na igreja ou em alguma instituição secular, em Deus ou na razão? As implicações do problema são religiosas, como será demonstrado, mas o fato que ele não é discutido permite uma equalização ignorante de várias religiões e diversas teologias. As diferenças entre cristianismo e ateísmo são básicas, assim como as diferenças entre budismo e cristianismo. A ortodoxia russa, o catolicismo romano, o anglicanismo, luteranismo e o calvinismo, cada um deles tem sua cultura característica de consequência na ação política e social de sua própria pressuposição. O fracasso em reconhecer o fato que todos os caminhos para Deus não são igualmente válidos ou relevantes para a manutenção da cultura ocidental, especialmente nos Estados Unidos, tem extensivamente obscurecido a possibilidade de uma resposta inteligível. A alegação que esta é uma cultura pluralista é meramente o reconhecimento do problema, não uma resposta. O problema da autoridade não pode ser respondido pela razão somente, e básico para a própria razão são as suposições pré-teóricas ou axiomas[1] – que representam essencialmente os comprometimentos religiosos. E um desses comprometimentos básicos diz respeito à questão do um e os muitos.[2] O fato que os estudantes podem se graduar em nossas universidades como bacharéis em filosofia sem qualquer ciência da importância ou centralidade dessa questão não torna o um e os muitos menos básico para o nosso pensamento. A diferença entre Oriente e Ocidente, e entre vários aspectos da história e cultura ocidental, reside em respostas a esse problema que têm sido feitas consciente ou inconscientemente. Quer reconhecido ou não, todo argumento e qualquer exposição teológica, filosófica, política, ou qualquer outra exposição é baseada numa pressuposição sobre o homem, Deus e a sociedade – sobre a realidade. Essa pressuposição governa e determina a conclusão; o efeito é o resultado de uma causa. E tal pressuposição básica refere-se ao um e os muitos.

Essa evitação do problema torna necessário umas poucas definições elementares como um prelúdio para uma discussão. O um refere-se não a um número, mas à unidade e unicidade; em metafísica, ele geralmente significa o absoluto, a suprema Ideia para Platão, o universo para Parmênides, o Ser como Tal para Plotino, e assim por diante. O um pode ser um todo separado, ou pode ser a soma de coisas em sua inteireza analítica ou sintética; isto é, ele pode ser algo transcendente, que é o fundamento de todo ser, ou pode ser algo imanente. O muitos referente-se à particularidade ou individualidade das coisas; o universo é cheio de uma multidão de seres; a verdade concernente a eles é inerente em sua individualidade, ou em sua unicidade básica? Se for em sua individualidade, então o muitos é fundamental e a fonte apropriada de autoridade, e temos o Nominalismo filosófico. Se for em sua unicidade, então o um é fundamental, e temos o Realismo. De acordo com o Realismo, os universais, que são termos aplicados a todo o universo e podem ser chamados “substâncias secundárias” reais, são aspectos da Ideia única e existem dentro dela. O pensamento egípcio, muito do pensamento grego, e o pensamento escolástico medieval tem sido “realista”. Para o “Nominalismo”, termos abstratos ou gerais não têm nenhuma existência real e são meros nomes aplicados a aspectos da realidade; a realidade pertence aos particulares, particulares físicos reais, de forma que a verdade do ser é simplesmente que coisas individuais existem. A verdade não é alguma abstração com respeito a coisas particulares, mas é simplesmente o fato da particularidade.

A Resposta Trinitariana

O cristianismo ortodoxo tem afirmado outra resposta ao problema, e para tornar clara essa resposta, certas distinções elementares são necessárias. A teologia e a filosofia distinguem entre a trindade ontológica e a trindade econômica ao falar de Deus. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são cada um deles uma personalidade, e juntos eles constituem o Deus trino e exaustivamente pessoal, totalmente auto-consciente. Deus é totalmente auto-consciente, significando que ele não tem nenhum aspecto oculto ou desconhecido de seu ser, nenhuma potencialidade não explorada. Ele é realmente auto-consciente e pessoal. Cada uma das pessoas da trindade é igualmente Deus.

Visto que tanto o um como o muitos são igualmente fundamentais em Deus, torna-se imediatamente aparente que esses dois aspectos aparentemente contraditórios do ser não cancelam um ao outro, mas são igualmente básicos para a trindade ontológica: um Deus, três pessoas. Novamente, visto que a unidade e pluralidade temporal são os produtos e a criação deste Deus trino, nem a unidade nem a pluralidade podem exigir o sacrifício do outro em prol de si mesma. Dessa forma, o homem e o governo são igualmente aspectos da realidade criada. O locus do cristianismo é tanto o crente como a igreja; eles não são independentes ou anteriores um ao outro. Os desejos do marido e da esposa não têm prioridade sobre o casamento, nem a instituição do casamento têm primazia sobre os parceiros dele; o casamento é de fato um protótipo de uma realidade eterna (Ef 5.22-25), mas o homem é ele mesmo criado à imagem de Deus (Gn 1.26-27). A educação deve ser voltada tanto para o indivíduo como para a sociedade, mas acima de tudo, a Deus.

[1] Suposições pré-teóricas ou axiomas são proposições religiosamente sustentadas e não provadas que são assumidas como sendo tão verdadeiras numa cultura que é ridículo questioná-las ou tentar prová-las. Elas existem como o próprio fundamento e premissa do pensamento. Eles são religiosamente sustentadas, mas são anteriores a qualquer pensamento religioso formal, bem como a qualquer especulação filosófica.

[2] O um e os muitos é talvez a questão básica da filosofia. A unidade ou a pluralidade, o um ou os muitos, é o fato básico da vida, a verdade fundamental sobre o ser? Se unidade é a realidade, e a natureza básica da realidade, então unicidade e unidade devem ganhar prioridade sobre o individualismo, os particulares ou os muitos. Se os muitos, ou a pluralidade, descrevem melhor a realidade fundamental, então a unidade não pode ganhar prioridade sobre os muitos; então o Estado, a igreja e a sociedade devem ser subordinados à vontade do cidadão, do crente e do homem em particular. Se o um é fundamental, então os indivíduos são sacrificados pelo grupo. Se os muitos é fundamental, então a unidade é sacrificada à vontade dos muitos, e a anarquia prevalece.

 

Fonte: Adaptado do livro The One and the Many: Studies in the Philosophy of Order and Ultimacy, futuro lançamento da Editora Monergismo.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. 05 de novembro de 2010



Sobre o Autor

R. J. Rushdoony
R. J. Rushdoony
O Rev. R.J. Rushdoony  (1916-2001), importante teólogo e filósofo calvinista, foi o fundador da Chalcedon Foundation. Ele era especialista no assunto Igreja/Estado e escreveu inúmeras obras sobre a aplicação da lei bíblica à sociedade.



 
 

 

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