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22 de janeiro de 2012
 

O Reino de Cristo não é deste mundo, mas Cristo Governa este Mundo

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Escrito por: Steve C. Halbrook
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[Nota: A frase “o reino de Deus” tem significados diferentes, dependendo do contexto. Para um tratamento completo da doutrina do reino de Deus, veja The Kingdom of God de Brian Schwertley]

Existem pessoas que creem que a declaração de Cristo “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36b) significa que o reino de Deus está estreitamente confinado a coisas como céu, o indivíduo, e/ou a igreja; como tal, o reino de Cristo não tem nada a ver com os reinos deste mundo. Mas essa visão têm vários problemas.

Primeiro, não existe razão para insistir que “deste mundo” signifique “nada a ver com o mundo”. Os discípulos de Cristo estão no mundo, mas “não são do mundo” (João 15.19b). Dessa forma, “o mundo” em João 15 não exclui os discípulos de Cristo de estarem envolvidos com o mundo. Nem significa que eles não devem trabalhar, pela graça de Deus, para transformar o mundo — e de fato, a Grande Comissão requer que os discípulos de Cristo tentem fazer exatamente isso (Mt 28.18-20).

Segundo, embora o reino de Cristo não seja deste mundo, ele está sobre este mundo: “O SENHOR tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmos 103.19) (ênfase minha). Cristo, dessa forma, é Rei sobre o mundo (1Tm 6.15; cf. Ef 1.20-22).

O mesmo Cristo que disse a Pilatos “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36b) também disse a Pilatos “Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado” (João 19.11b). O reino dos homens está subordinado ao reino de Deus:

Esta sentença é por decreto dos vigias, e esta ordem por mandado dos santos, a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer, e até ao mais humilde dos homens constitui sobre ele. (Daniel 4.17)

A Grande Comissão reconhece que o reino de Cristo é sobre o mundo: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28.18).

O Oração do Senhor nos ensina a desejar que todos os homens na terra – o que inclui os governantes civis – reconheçam e se submetam ao Reino de Deus.

É porque os reinos terrenos estão subordinados ao reino de Deus, e por isso devem se submeter a este, que Pilatos pecou em seu tratamento para com Jesus. Como Jesus disse a Pilatos em João 19.11c, “Mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem”. Havia um pecado maior que o de Pilatos, mas a despeito disso Pilatos havia pecado. Por outro lado, se o reino de Deus não tem nada a ver com este mundo, então os reinos terrenos não teriam nenhuma responsabilidade moral diante de Deus, e portanto Pilatos não teria pecado.

Terceiro, “deste mundo” tem a ver com fonte de poder. “O reino de Cristo não deriva a sua origem do mundo” [1] — assim, o reino de Cristo não é deste mundo no sentido que ele não existe a partir do mundo. De fato, o mesmo versículo que diz “Meu reino não é deste mundo” continua para dizer a mesma coisa — “mas o meu reino não é daqui” (Jo 18.36d). “Pelo contrário, o seu reino foi lhe dado por seu Pai (Dn 7,14)”, [2] e portanto, Deus tem tudo a ver com governo civil.

Quarto, em João 18.36 também lemos: “Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus”. Alguns interpretam isso como significando que os governantes não podem usar a espada para fazer cumprir as leis civis de Deus. Mas devemos rejeitar isso de pronto, visto que os governantes são obrigados a usar a espada para punir os malfeitores de acordo com as exigências de Deus (Rm 13.4).

É verdade que os servos de Cristo “não ‘pelejam’ para estabelecer o Seu reino, ou mesmo para espalhar o Seu reino sobre a terra”.[3] O reino de Cristo avança “pelo Espírito Santo regenerando pecadores à medida que o evangelho é proclamado: ‘Não por força, mas pelo meu Espírito’, diz o Senhor dos Exércitos’ (Zc 4.6)”.[4] “Isso, contudo, não significa que o Estado não deve proteger o reino de Cristo de ataques, pois os magistrados civis devem garantir que o povo de Deus possa viver ‘uma vida quieta e sossegada, em toda piedade e honestidade’ (1Tm 2.2)”.[5]

Observemos a razão que Jesus dá para dizer que os seus servos pelejariam se o Seu reino fosse deste mundo: “Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus” (ênfase minha). Nada há nessa razão que se oponha a fazer cumprir a lei civil bíblica, visto que fazer cumprir a lei civil bíblica e impedir Jesus de ser entregue aos judeus são dois conceitos inteiramente diferentes. Em outras palavras, o uso da espada pelos servos de Jesus para impedir que Jesus fosse entregue aos seus inimigos e o uso da espada pelo Estado para reforçar a justiça de Deus não são a mesma coisa.

Talvez a razão pela qual Cristo conecta um reino terreno com os Seus servos lutando para impedi-lo de ser entregue aos judeus é que se ele fosse um mero rei terreno, e seus inimigos o destruíssem, o seu reino cessaria de existir. O único recurso seria os seus servos lutarem, para protegerem o seu rei e o seu reino. Mas Cristo não é um mero rei terreno; sendo Deus, ele governa sobre todos. Ele ser entregue aos judeus era parte do plano soberano de Deus, e dessa forma os inimigos de Cristo não podiam fazer nenhum dano ao Seu reino. Assim, não havia necessidade dos servos de Cristo lutarem para impedi-lo de ser entregue aos judeus.

Devemos adicionar que tivesse os discípulos de Cristo impedido a sua crucificação com uma revolta armada, de modo algum haveria qualquer base para o aspecto-igreja do reino avançar, visto que o avanço desse reino depende da obra salvadora de Cristo.

Quinto, aqueles que consistentemente enfatizam a ideia de que os cristãos nunca deveriam ter algo a ver com a espada devem ser pacifistas em toda situação concebível. Isso significaria o absurdo de não haver qualquer base moral para os cristãos se envolverem com o governo civil, guerra justa, autodefesa, e defesa de outros.

Sexto, e finalmente, não esqueçamos a Oração do Senhor, que menciona “Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9b-10). Dessa forma, os cristãos devem desejar ver que todos os homens na terra – o que inclui os governantes civis – reconheçam e se submetam ao Reino de Deus. Assim, sustentar que o reino de Cristo não tem nada a ver com os reinos deste mundo é negar a própria Oração do Senhor.

NOTAS:

[1] Daniel F. N. Ritchie, A Conquered Kingdom: Biblical Civil Government (Saintfield, Northern Ireland: Reformed Worldview Books, 2008), 92.

[2] Ibid.

[3] Ibid., 93.

[4] Ibid.

[5] Ibid. Sobre a frase “pelejariam os meus servos”, João Calvino escreve: “Ele [Jesus] prova que não tinha como objetivo um reino terreno, pois ninguém se move, ninguém se arma em seu favor; pois se um indivíduo particular reivindica autoridade real, ele deve conquistar o poder por meio de homens sediciosos. Nada desse tipo é visto em Cristo; e, portanto, segue-se que ele não é um rei terreno.

“Mas aqui surge uma questão: não é lícito defender o reino de Cristo com armas? Pois quando os Reis e Príncipes são ordenados a beijar o Filho de Deus (Salmo 2.10-12), não somente são eles intimados a se submeter à Sua autoridade em suas atribuições privadas, mas também a empregar todo o poder que possuem para defender a Igreja e manter a piedade. Respondo, primeiro, que aqueles que extraem essa conclusão, que a doutrina de Evangelho e a adoração pura de Deus não deveriam ser defendidas por armas, são raciocinadores inábeis e ignorantes; pois Cristo argumenta somente a partir de fatos do caso em questão, de quão frívolas eram as calúnias que os judeus tinham trazido contra ele. Em segundo lugar, embora reis piedosos defendam o reino de Cristo pela espada, ainda assim isso é feito de uma maneira diferente daquela pela qual os reinos mundanos são costumeiramente defendidos; pois o reino de Cristo, sendo espiritual, deve estar fundamentado sobre a doutrina e o poder do Espírito. A sua edificação também é promovida da mesma maneira; pois nem as leis nem os decretos dos homens, nem os castigos infligidos por eles, entram nas consciências. Todavia, isso não impede os princípes de acidentalmente defender o reino de Cristo; em parte estabelecendo disciplina externa, e em parte protegendo a Igreja contra os homens ímpios. Contudo, por causa da depravação do mundo, o reino de Cristo é fortalecido mais pelo sangue dos mártires do que pela ajuda das armas.” John Calvin, Commentary on the Gospel According to John: Volume Second, William Pringle, trans. (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1949), 210, 211.

 

Fonte: http://theonomyresources.blogspot.com/

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – janeiro/2012



Sobre o Autor

Steve C. Halbrook
O autor é professor de teonomia, apologética e história no New Geneva Christian Leadership Academy. Sua tese de mestrado em Governo foi sobre apologética teonomista, a qual foi publicada com o título "God is Just: A Defense of the Old Testament Civil Laws".



 
 

 
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