Apologética

1 de fevereiro de 2016
 

Um Grupo de Pandas

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Escrito por: Vincent Cheung
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~ 1 ~

Sou cristão, filósofo/logicista novato e cientista em biologia molecular. Estou lendo seus livros Questões Últimas e Confrontações Pressuposicionais. Neste último, você afirma o seguinte sobre a confiabilidade da ciência:

No caso de alguma pessoa ter dificuldade em entender o que é dito acima sobre experimentos científicos, talvez o problema da “afirmação do consequente” seja de compreensão mais fácil. Considere a seguinte linha de argumento:

1. Se X então Y

2. Y

3. Portanto, X

Essa forma de raciocínio, chamada de “afirmação do consequente”, é sempre uma falácia formal na lógica; isto é, sabemos que o argumento é inválido simplesmente notando sua estrutura. Só porque Y é verdadeiro não significa que X seja verdadeiro, pois uma quantidade infinita de coisas pode substituir X de modo a ainda termos Y. Correlação não equivale à causação ― mas pode a ciência mesmo descobrir correlação? Assim, se a hipótese é “Se X então Y”, o fato de aparecer Y não faz absolutamente nada para confirmar a hipótese.

Se o que você diz sobre a ciência é verdadeiro, isso não me enraivece ou impede de fazer o que eu faço; gostaria, porém, de entender o que você está dizendo. Do meu ponto de vista, quando estou no laboratório o argumento segue assim:

Se esta solução se tornar esverdeada (X), a substância química Y está presente (Y).

2. A solução se tornou esverdeada (X).

3. Logo, a substância química Y está presente (Y).

Isso não é válido? Em que sentido eu não estaria entendendo o que você disse?

Seu exemplo é válido, mas isso é algo que ocorre após a crítica ao método científico. Isto é, o método científico leva a conclusões falsas, e estas conclusões são então aplicadas.

Considere o seguinte:

Argumento A

A1. Se eu esmurrar Tom no rosto (X), Tom ficará machucado (Y).
A2. Tom está machucado (Y).
A3. Logo, esmurrei Tom no rosto (X).

 

Argumento B

B1. Se Tom está machucado (P), é porque esmurrei Tom no rosto (Q).
B2. Tom está machucado (P).
B3. Logo, esmurrei Tom no rosto (Q).

O argumento B é válido, mas a premissa B1 depende do argumento A, e o argumento A é inválido, pois comete a falácia de afirmação do consequente.

A premissa B1 depende do argumento A, já que em si mesma ela não elimina um número infinito de alternativas. Se Tom está machucado, isso não necessariamente significa que eu esmurrei seu rosto. Talvez ele tenha ido contra uma parede. Talvez ele tenha caído ao descer alguns degraus. Ou talvez Harry, Mary, Jones ou um número infinito de outras pessoas ou objetos possíveis, num número infinito de combinações possíveis, tenha batido no seu rosto (e.g. um alienígena com um martelo, um macaco com uma chave inglesa ou um grupo de pandas).

Assim, o argumento B é válido, mas não sólido, pois o argumento A é inválido. O argumento A corresponde à experimentação científica (a tentativa de descobrir relações de causa e efeito pela formulação e teste de hipóteses). O argumento B corresponde a uma aplicação das conclusões da experimentação científica (aplicação de uma relação de causa e efeito supostamente verdadeira).

Assim, embora o argumento B seja válido, ele é completamente inútil.

Para tornar isso ainda mais claro com um exemplo:

Se a água é úmida (X), Vincent Cheung é presidente (Y).

A água é úmida (X).

Logo, Vincent Cheung é presidente (Y).

Válido, mas falso e inútil.

Voltando ao seu exemplo, sua premissa 1 é similar à premissa B1 acima. Por si só ela não exclui um número infinito de alternativas. Assim:

Se esta solução se tornar esverdeada (X), um alienígena cuspiu nela (Y).

Esta solução se tornou esverdeada (X).

Logo, um alienígena cuspiu nela (Y).

É a isso que equivale todo o empreendimento científico: primeiro, a uma repetição sistemática da falácia de afirmação do consequente, e segundo, a uma aplicação sistemática das conclusões falsas assim obtidas.

A intenção não é insultar os cientistas, mas lembrá-los a permanecer humildes perante Deus e reconhecer sua ignorância, pois Deus tornou louca a sabedoria deste mundo. Até onde o homem mantiver a si mesmo no centro do conhecimento, julgando que por seu próprio poder descobrirá todas as coisas, não conseguirá descobrir de fato nada.


 

~ 2 ~

Concordo plenamente com o seu último parágrafo. Penso que a comunidade científica é muito arrogante e supõe ser o ponto final ou último da verdade. É claro, isso se deve provavelmente ao fato da comunidade ser conduzida majoritariamente por humanistas seculares que dificilmente acreditam em verdade objetiva.

Seja como for, sinceramente, ainda tenho problemas. Você aborda a questão no Confrontações Pressuposicionais ― se trata da noção de controles. Você remete a isso dizendo que poderia existir um número infinito de parâmetros precisando ser “controlados” num experimento (i.e., algum componente não detectado numa solução). Contudo, se os controles são elaborados adequadamente, não estaríamos finalmente compensando essas variáveis?

Segundo o método científico, você precisa identificar as variáveis e realizar experimentos controlados. Mas o problema das alternativas infinitas permanece o mesmo.

Suponha que um cientista balance um pêndulo, faça certos objetos baterem uns nos outros ou realize algum tipo de experimento similar. Ele identifica certas variáveis como altura, peso, temperatura e assim por diante. Contudo, ele jamais poderá dizer que identificou todas as variáveis, como uma intromissão alienígena no seu experimento a partir do espaço, ou um espírito invisível e rebelde impedindo seu projeto, com o único propósito de se divertir.

Estas últimas possibilidades podem parecer absurdas, mas de acordo com qual padrão elas são absurdas? Unicamente de acordo com as suposições dos próprios cientistas. Ademais, mesmo se admitirmos que essas possibilidades são absurdas, há ainda um número infinito de variáveis que podem estar ou não presentes. O cientista pode estar se esquecendo de toda uma categoria de variáveis. E se, por exemplo, o cientista não tivesse um conceito de temperatura? Neste caso não lhe seria possível medir e controlar a temperatura num experimento. Mas ela poderia ser um fator decisivo. Se o cientista não sabe nada sobre temperatura, ele não pode nem mesmo dizer que não sabe nada sobre ela. Nem também dizer que sabe que essa categoria de variáveis não existe. Ele ignora um número infinito de possíveis categorias de variáveis. Assim, o cientista jamais pode dizer que levou em conta todas as variáveis relevantes, e jamais pode afirmar ter “elaborado adequadamente” um experimento.

O cientista simplesmente não sabe ― ele assume sem argumento, sem evidência e sem prova. Ele pode fazer o que quiser, mas se afirmar que isso tudo é racional, a declaração será simplesmente uma arbitrariedade. De fato, mesmo a partir de uma simples análise da ciência, não há qualquer forma de um cientista afirmar ter algum contato racional com a realidade. E certamente, ele não teria direito de chamar o cristão de irracional.

A ideia é simples. Para saber que um experimento é “elaborado adequadamente” o conhecimento do cientista precisa ser “maior” do que o experimento. Mas se o seu conhecimento já é “maior” do que o experimento, ele dificilmente precisa realizar o experimento para obter um conhecimento que é limitado pelo experimento. A única forma de alguém ter certeza de haver identificado e controlado todas as variáveis que possam afetar o experimento é possuir onisciência. A conclusão é que somente Deus nos pode falar sobre o universo.

~ 3 ~

Após refletir um pouco sobre o que você escreveu, a questão que permanece é a seguinte: eu posso, primeiro como cristão e segundo como cientista, ser consistente ao confiar em meus resultados no laboratório até onde eles tenham em vista a verdade? Certamente, como cristão tenho a mente de Cristo e reconheço seu senhorio sobre toda a criação, mas simplesmente admitir que eu não sei nada e que Deus sabe tudo, e também confiar nele em meu trabalho de explorar sua criação, são coisas que conferem a mim a capacidade de descrever meus achados como uma verdade? Ou seria a verdade real a compreensão de que os meus achados são verdadeiros apenas dentro da caixa que representa o “estudo científico”, conforme descritos por humanos falíveis, ao invés de verdadeiros no sentido de Cristo ser a Verdade? Se é apenas verdadeiro numa caixa, é de fato verdadeiro?

Penso que, agora que as coisas que você disse sobre a ciência fazem sentido para mim, fico pensando no meu trabalho e em como posso adorar e glorificar a Deus em meu trabalho, tendo em vista que o próprio trabalho não se propõe a achar a verdade fora da caixa da ciência.

Não existe justificativa racional para dizer que há realmente alguma verdade na ciência. A irracionalidade inerente e até mesmo a impossibilidade epistemológica são desenvolvidas a partir das suas suposições e métodos. Não há forma de justificar o empirismo, a indução e o método científico.

Uma escola de pensamento afirma que se usarmos a Bíblia como princípio primeiro do nosso pensamento, ela poderá justificar ou pelo menos “responder” por essas coisas que são injustificáveis quando consideradas por si mesmas (sensação, indução, ciência etc.). Contudo isso apenas piora a situação. Uma coisa é dizer que essas coisas podem de algum modo ser racionais em si mesmas, e que o único problema é não existir um fundamento racional sobre o qual situá-las, embora isso talvez já seja, em primeiro lugar, dizer um absurdo. Mas é muito pior reconhecer que essas coisas são irracionais em si mesmas, tal que não podem ser justificadas por qualquer fundamento epistemológico, e então insistir que Deus e a Bíblia poderiam justificá-las. Essa posição faz com que Deus seja cúmplice da irracionalidade e da falsidade. É uma blasfêmia. Mesmo se partirmos com Deus, ainda não poderemos justificar coisas que são falsas em si mesmas como “1 + 1 = 83629473.9273” ou “O diabo é um golden retriever chamado Skip”. Um princípio primeiro verdadeiro destrói a falsidade; ele não a justifica ou sustenta.

Quanto à ciência, ela pode permanecer até onde não reivindique muito para si mesma. Por favor, veja “Uma carreira na ciência”, no meu Doutrina e Obediência.

~ 4 ~

O que dizer sobre os resultados que a ciência tem produzido? Tecnologia, medicina, os computadores que usamos neste momento para nos comunicar, o micro-ondas que usei esta manhã, a máquina de ultrassom usada para ver meu filho que ainda não nasceu? Se tomarmos algum tipo de remédio, estaremos relegando nossa saúde à irracionalidade da ciência? Se podemos ou não descrever com precisão a verdade, esta pode ser outra questão, mas dificilmente pode ser negado que a ciência tem produzido resultados que nos são úteis.

Você disse que a ciência pode permanecer até onde não reivindique muito para si mesma, e concordo novamente. Ela não tem seu lugar, seu papel para desempenhar em nossa existência?

Eu respondi a essa questão em “Em Deus confiamos”, no meu Blasfêmia e Mistério. Mas farei aqui também algumas considerações sobre este ponto.

Pense no que está dizendo. É como se dissesse “Eu sei que isso não é verdade, mas…” Bem, se temos a primeira parte, precisamos ouvir a segunda?

Apelar ao efeito da ciência (medicina, micro-ondas etc.) é simplesmente mais um apelo à falácia de afirmação do consequente. Afirmação do consequente é apenas outra forma de expressar um apelo ao resultado ou efeito. A suposição é que se você aparentemente está obtendo o resultado que deseja ou prediz, deve existir alguma verdade por trás da suposição que produz esse resultado. Mais uma vez, isso é uma falácia lógica. Correlação não indica causação. Mas a minha contenda é que a ciência não pode nem mesmo detectar ou estabelecer correlações.

Evidentemente, a ciência tem um papel. É um sentimento irracional no escuro. Ela jamais pode alegar que possui a verdade, e não apenas em matéria de religião. Nesse diálogo com você omiti os problemas com a sensação e a indução, e foquei no método da ciência (o processo de raciocínio com base na confiabilidade da sensação e da indução foi assumido sem prova, assumido inclusive a despeito da prova do contrário). Ao fazer a reintrodução dessas coisas no diálogo, não teríamos nem mesmo condições de avançar a ponto de poder discutir o método. Ou seja, não é que o cientista sinta uma escuridão a sua frente. Ele nem mesmo tem armas.

Talvez fosse do seu agrado podermos dizer mais em favor da ciência, mas de que jeito? Não há base racional para dizer mais. A ciência apregoa ser um empreendimento racional, mas aqui estou eu, fornecendo argumentos que até uma criança da escola primária poderia assimilar e aplicar, fazendo uma completa destruição da ciência. Ciência é essencialmente, difusamente, incontestavelmente, incuravelmente e amiúde arrogantemente irracional. Crer que ela pode descobrir a verdade não passa de superstição.



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.



 
 

 
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