PREGADO NA MANHÃ DE DOMINGO, 9 DE SETEMBRO DE 1855, PELO
REV. C. H. SPURGEON,
NA CAPELA DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK.
“Em robusta velhice entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.” — Jó 5.26.
NÃO acreditamos em tudo o que os amigos de Jó disseram. Muitas vezes falaram como homens não inspirados, pois encontramos em suas palavras muitas coisas que não são verdadeiras; e, se lermos o livro de Jó até o fim, poderemos dizer a respeito deles: “Vós todos sois consoladores molestos”, pois não disseram a respeito de Jó, servo de Deus, o que era reto. Não obstante, proferiram muitas sentenças santas e piedosas, dignas de toda a consideração, pois vieram dos lábios de três homens que se distinguiram em sua época pelo saber, pelo talento e pela capacidade; três veneráveis anciãos que, graças à experiência, podiam falar daquilo que conheciam. Não devemos admirar-nos de seus erros, pois não dispunham ainda daquela luz clara, brilhante e resplandecente de que desfrutamos nestes tempos modernos. Tinham poucas oportunidades de se reunir; havia naqueles dias poucos profetas que lhes ensinassem as coisas do reino. O que nos admira é que, sem a luz da revelação do evangelho, tenham conseguido descobrir tanto da verdade quanto descobriram. Contudo, devo fazer uma observação a respeito deste capítulo: não posso deixar de considerá-lo, em sua maior parte, não tanto uma declaração do homem que aqui fala — Elifaz, o temanita —, mas a própria palavra de Deus; não tanto uma simples afirmação do insensato consolador que censurava Jó, mas a fala do grande Consolador que consola seu povo e que só profere o que é reto. Essa opinião se justifica pelo fato de o capítulo ser citado pelo apóstolo Paulo. Elifaz diz, no versículo 13: “Ele apanha os sábios na sua própria astúcia”. E encontramos o apóstolo Paulo dizendo, em Coríntios: “Porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles”, conferindo assim sua aprovação a essa passagem como inspirada por Deus ou, pelo menos, como indubitavelmente verdadeira. Certamente, a experiência de um homem como Elifaz merece grande consideração; e, quando ele fala da condição geral do povo de Deus, dizendo que seus membros estão abrigados do açoite da língua, que não temem a assolação quando ela vem, que se riem da assolação e da fome, e assim por diante, podemos aceitar suas palavras como comprovadas pela experiência e autenticadas pela inspiração. “Em robusta velhice entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.” Temos aqui uma comparação belíssima: a do cristão idoso — pois é esse, a meu ver, o sentido mais evidente do texto — com um feixe de trigo. Ide ao campo na época da colheita e vereis o quanto o trigo vos faz lembrar o crente idoso. Quantas preocupações foram dedicadas àquele campo! Quando a semente começou a brotar, o lavrador receou que os vermes mordessem os tenros rebentos e devorassem as primeiras folhas, ou que alguma geada rigorosa destruísse a planta ainda pequenina, fazendo-a murchar e morrer. E depois, mês após mês, à medida que as estações se sucediam, com quanta ansiedade ele olhava para o céu, desejando que viessem as chuvas ou que o sol benfazejo derramasse sobre o campo suas torrentes vivificantes de luz! Quando a plantação atingiu certo grau de maturidade, quanto temeu que a ferrugem e os ventos abrasadores crestassem as preciosas espigas! Agora o trigo está de pé no campo e, sob certos aspectos, o lavrador está livre de suas preocupações. Os meses de suas fadigas terminaram. Ele esperou pacientemente pelos preciosos frutos da terra, e agora eles estão ali. Assim acontece com o homem de cabelos brancos. Quantos anos de cuidados lhe foram dedicados! Em sua juventude, quantas vezes pareceu provável que a morte o abatesse! Contudo, atravessou em segurança a juventude, a idade adulta e a velhice. De quantos acidentes diferentes foi preservado! Quantas vezes o escudo do Guardião providencial esteve sobre sua cabeça, protegendo-o das flechas da peste ou da mão pesada de algum acidente que poderia ter-lhe tirado a vida! Quantas preocupações ele próprio teve! Quantas tribulações atravessou! Contemplai esse veterano de cabelos brancos! Reparai nas cicatrizes que as aflições lhe deixaram na fronte! E vede, profundamente gravadas em seu peito, as sombrias lembranças das lutas e provações terríveis que suportou! Agora suas preocupações estão quase terminadas; ele se encontra muito perto do porto de descanso. Mais alguns breves anos de provações e tribulações o farão aportar às belas praias de Canaã; e nós o contemplamos com o mesmo prazer com que o lavrador contempla o trigo, pois as preocupações passaram e aproxima-se o tempo do descanso. Reparai como a haste enfraqueceu! Como qualquer vento a faz oscilar de um lado para outro; está murcha e ressequida! Vede como a espiga se inclina para a terra, como se estivesse prestes a beijar o pó e a mostrar de onde veio! Observai também o homem idoso: seus passos são vacilantes, “se escurecem os que olham pelas janelas, cessam os moedores, por já serem poucos, e o gafanhoto se torna um peso”. Contudo, mesmo nessa fraqueza há glória. Não é a fraqueza do broto tenro; é a fraqueza do trigo plenamente maduro; é uma fraqueza que revela sua maturidade, uma fraqueza que o reveste de glória. Assim como a cor do trigo é dourada, tornando-o mais belo do que quando se cobria do verde de sua folhagem, também o homem de cabelos brancos traz sobre a cabeça uma coroa de glória. Em sua fraqueza, ele é mais glorioso do que o jovem em sua força ou a donzela em sua beleza. E não é o feixe de trigo uma bela representação da condição humana também porque muito em breve terá de ser levado para casa? O ceifeiro está chegando. Já posso ouvir a foice sendo afiada. O ceifeiro lhe deu um bom fio, e logo cortará o trigo. Vede! Ele vem atravessando o campo para recolher sua colheita; e então, pouco depois, o trigo será levado ao celeiro e guardado em segurança, já não sujeito à ferrugem, ao mofo, aos insetos ou às doenças. Ali ficará protegido, onde nenhuma neve poderá cair sobre ele e nenhum vento poderá molestá-lo. Estará são e salvo; e alegre será o momento em que se anunciar o recolhimento da colheita e o feixe de trigo, plenamente maduro, for levado ao celeiro do lavrador. Assim acontece com o homem idoso. Também ele será levado para casa em breve. A Morte já está afiando sua foice, e os anjos estão preparando seu carro de ouro para transportá-lo aos céus. O celeiro está construído; a morada está preparada; em breve o grande Senhor dirá: “Atai o joio em feixes para ser queimado e recolhei o trigo no meu celeiro”.
Nesta manhã, consideraremos a morte dos cristãos em geral, e não apenas a do cristão idoso, pois vos mostraremos que, embora o texto pareça referir-se ao cristão idoso, na realidade fala em alta voz a todo homem que é crente. “Em robusta velhice entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.”
Há quatro coisas que observaremos no texto. Primeiro, consideraremos que a morte é inevitável, pois o texto diz: “Entrarás”. Segundo, que a morte é bem-vinda, pois não lemos: “Eu te farei ir para a sepultura”, mas “entrarás nela”. Terceiro, que a morte sempre chega no tempo certo: “Em robusta velhice entrarás para a sepultura”. Quarto, que a morte do cristão é sempre honrosa, pois a promessa lhe declara: “Em robusta velhice entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo”.
I. A primeira observação, a saber, que a morte, mesmo para o cristão, é INEVITÁVEL, é tão conhecida, simples e comum que quase não precisaria ser feita; contudo, julgamos necessário fazê-la para introduzir uma ou duas considerações a seu respeito. Como é batida a ideia de que todos os homens devem morrer! Que mais podemos dizer sobre isso? E, no entanto, não nos envergonhamos de repeti-la, pois, embora seja uma verdade tão conhecida, nenhuma outra é tão esquecida; embora todos acreditemos nela em teoria e a aceitemos intelectualmente, quão raramente ela se grava em nosso coração! A visão da morte nos faz recordá-la. O dobre solene do sino nos fala dela. Ouvimos a voz profunda do tempo quando o sino anuncia as horas e nos prega sobre nossa mortalidade. Mas, em geral, esquecemo-nos dela. A morte é inevitável para todos. Entretanto, desejo fazer uma observação a respeito da morte: embora esteja escrito que “aos homens está ordenado morrerem uma só vez”, chegará um tempo em que alguns cristãos não morrerão de modo algum. Sabemos que, se Adão nunca tivesse pecado, não teria morrido, pois a morte é o castigo do pecado; e sabemos que Enoque e Elias foram trasladados para o céu sem morrer. Parece decorrer daí, portanto, que a morte não é absolutamente necessária para o cristão. Além disso, as Escrituras nos dizem que haverá alguns que estarão “vivos e permanecerão” quando Jesus Cristo vier; e o apóstolo diz: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta”. Haverá alguns que serão encontrados vivos, dos quais o apóstolo diz: “Depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor”. Sabemos que carne e sangue não podem herdar o reino; mas é possível que sejam refinados por algum processo espiritual que dispense a necessidade da dissolução. Oh! Tenho pensado muito nessa ideia e me perguntado se não seria possível que alguns de nós estivéssemos entre aquele número feliz dos que não verão a morte. Mesmo que não estejamos, há algo muito animador nesse pensamento: Cristo venceu a morte de tal maneira que não apenas liberta o cativo legítimo de sua prisão, mas também salva um grupo das mandíbulas do monstro e o conduz ileso diante de seu covil! Ele não apenas ressuscita os mortos e infunde nova vida naqueles que foram abatidos pela terrível foice, mas também leva alguns ao céu por um caminho secundário. Ele diz à morte: “Para trás, monstro! Nestes jamais porás a mão! Estes são homens e mulheres escolhidos, e teus dedos gelados jamais congelarão a corrente de sua alma. Estou levando-os diretamente para o céu, sem passar pela morte. Transportá-los-ei em seus corpos para o alto, até o céu, sem que atravessem teus portais sombrios ou sejam cativos em tua lúgubre terra das sombras”. Quão glorioso é o pensamento de que Cristo venceu a morte, de que alguns homens não morrerão! Mas vós me direis: “Como pode ser isso? Pois o corpo traz a mortalidade misturada à sua própria essência”. É verdade que homens eminentes nos dizem que existe na natureza uma necessidade de que haja morte, visto que um animal precisa alimentar-se de outro; e, mesmo que todos os animais pudessem ser ensinados a renunciar às suas presas, ainda teriam de alimentar-se de plantas e, assim, devorar certos insetos minúsculos que nelas estivessem escondidos. A morte, portanto, parece ser a lei da natureza. Lembrai-vos, porém, de que os homens já viveram muito além do período que hoje lhes é concedido, e parece facílimo conceber que uma criatura capaz de subsistir por mil anos possa ultrapassar esse período. Mas essa objeção não é válida, pois os santos não viverão para sempre neste mundo, e sim serão transportados para uma habitação onde as leis da glória substituirão as leis da natureza.
II. E agora chegamos a um pensamento agradável: para o cristão, a morte é sempre BEM-VINDA — “Entrarás para a sepultura”. O velho Caryl faz a seguinte observação sobre esse versículo: “Disposição e alegria para morrer. Tu entrarás; não serás arrastado nem levado à força para a sepultura, como se diz daquele rico insensato em Lucas 12: ‘Esta noite te pedirão a tua alma’. Mas tu entrarás para a sepultura; morrerás, por assim dizer, tranquilamente e com um sorriso; irás para a sepultura como que sobre teus próprios pés, caminhando para o túmulo, em vez de seres carregado até ele”. O ímpio, quando morre, é impelido para a sepultura, mas o cristão vai até ela. Permiti-me contar-vos uma parábola. Eis que dois homens estavam sentados na mesma casa quando a Morte veio buscar cada um deles. Ao primeiro, ela disse: “Tu morrerás”. O homem olhou para ela, seus olhos se encheram de lágrimas e, tremendo, disse: “Ó Morte, não posso, não quero morrer”. Procurou um médico e lhe disse: “Estou doente, pois a Morte me fitou. Seus olhos empalideceram minhas faces, e temo que tenha de partir. Médico, aqui estão minhas riquezas; dá-me saúde e deixa-me viver”. O médico tomou-lhe as riquezas, mas, com toda a sua perícia, não lhe devolveu a saúde. O homem trocou de médico, experimentou outro e pensou que talvez conseguisse prolongar um pouco mais o fio da vida. Mas, ai dele! A Morte veio e disse: “Dei-te tempo para experimentar tuas diversas desculpas; vem comigo, pois morrerás”. E amarrou-o de mãos e pés, obrigando-o a seguir para aquela terra sombria das sombras. Enquanto caminhava, o homem agarrava-se a todos os postes que encontrava pelo caminho; mas a Morte, com suas mãos de ferro, continuava a arrastá-lo. Não havia uma árvore ao longo do caminho à qual ele não tentasse agarrar-se, mas a Morte dizia: “Adiante! És meu prisioneiro e morrerás”. E assim, tão contrariado quanto o estudante relutante que caminha lentamente para a escola, ele percorreu a estrada com a Morte. Não foi ele quem se dirigiu à sepultura; a Morte é que o levou até lá — a sepultura veio buscá-lo.
Mas ao outro homem a Morte disse: “Vim buscar-te”. Ele respondeu sorrindo: “Ah, Morte! Eu te conheço, já te vi muitas vezes. Tenho mantido comunhão contigo. És serva de meu Senhor; vieste buscar-me para levar-me para casa. Vai dizer a meu Senhor que estou pronto; quando quer que seja de seu agrado, ó Morte, estou pronto para ir contigo”. E juntos seguiram pela estrada, desfrutando de agradável companhia. A Morte lhe disse: “Tenho usado estes ossos de esqueleto para amedrontar os ímpios, mas não sou assustadora. Vou deixar-te ver quem realmente sou. A mão que escreveu na parede de Belsazar era terrível porque ninguém via coisa alguma além da mão; mas”, disse a Morte, “vou mostrar-te meu corpo inteiro. Os homens só viram minha mão ossuda e ficaram aterrorizados”. E, enquanto caminhavam, a Morte despojou-se de seu disfarce para que o cristão pudesse ver seu corpo, e ele sorriu, pois era o corpo de um anjo. Tinha asas de querubim e um corpo glorioso como o de Gabriel. O cristão lhe disse: “Não és aquilo que eu pensava; irei contigo de bom grado”. Por fim, a Morte tocou o crente com a mão — foi como quando uma mãe, brincando, dá uma leve palmada no filho. A criança gosta daquele beliscão carinhoso no braço, pois é uma demonstração de afeto. Assim também a Morte pôs o dedo sobre o pulso do homem e o fez parar por um instante, e o cristão descobriu que, pelo toque bondoso da Morte, havia sido transformado em espírito; sim, descobriu que era irmão dos anjos; seu corpo fora espiritualizado, sua alma purificada, e ele próprio estava no céu. Vós me direis que isso é apenas uma parábola; mas permiti-me apresentar-vos alguns fatos que a confirmam. Vou contar-vos algumas das palavras pronunciadas por santos em seus leitos de morte e mostrar-vos que, para eles, a Morte foi uma visitante agradável, da qual não tinham medo. Não desacreditareis homens que estão morrendo. Seria terrível representar o papel de hipócrita numa hora dessas. Quando a peça termina, os homens tiram as máscaras; e assim aconteceu com esses homens quando lhes chegou a hora de morrer: apresentaram-se na solene realidade, despojados de todos os disfarces.
Primeiro, deixai-me contar-vos o que disse o Dr. Owen, aquele célebre príncipe dos calvinistas. Enquanto suas obras puderem ser encontradas, não recearei que faltem aos homens argumentos para defender o evangelho da livre graça. Um amigo foi contar ao Dr. Owen que havia enviado à impressão suas Meditações sobre a glória de Cristo. Um brilho momentâneo iluminou seus olhos enfraquecidos quando respondeu: “Alegro-me em saber disso. Oh!”, disse ele, “chegou enfim o momento há tanto desejado, em que verei aquela glória de uma maneira diferente de tudo quanto já vi ou fui capaz de ver neste mundo”.
Mas talvez digais que esse homem era apenas um teólogo; ouçamos, então, um poeta.
George Herbert, depois de algumas lutas severas, e tendo pedido à esposa e às sobrinhas, que choravam em extrema aflição, que saíssem do quarto, confiou seu testamento aos cuidados do Sr. Woodnott, exclamando: “Estou pronto para morrer. Senhor, não me desampares agora; minhas forças me faltam, mas concede-me misericórdia pelos méritos de meu Senhor Jesus. E agora, Senhor, recebe minha alma”. Então recostou-se e entregou a Deus seu último suspiro. Assim morre o poeta. Sua imaginação gloriosa, que poderia ter pintado coisas sombrias se assim lhe aprouvesse, estava repleta apenas de visões arrebatadoras de anjos. Como ele próprio costumava dizer: “Parece-me ouvir os sinos das igrejas do céu tocando”. E parece-me que realmente os ouviu quando se aproximou do rio Jordão.
“Mas”, direis, “um era teólogo e o outro poeta; tudo isso pode ter sido mera imaginação.” Ouvi agora o que disse um homem de ação, um missionário: Brainard.
Ele disse: “Estou quase na eternidade. Anseio por estar lá. Minha obra está concluída. Já me despedi de todos os meus amigos. O mundo inteiro agora nada significa para mim. Oh, estar no céu, louvando e glorificando a Deus com seus santos anjos!” Foi isso que disse Brainard, aquele que considerou todas as coisas como perda por causa da sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo e foi pregar o evangelho entre os índios selvagens, desprovidos de instrução.
Mas é possível que digais: “Esses eram homens de épocas passadas”. Pois bem, ouvireis agora homens dos tempos modernos.
E, primeiro, ouvi o que disse Haldane, o grande e eminente pregador escocês. Ele se ergueu um pouco e repetiu distintamente estas palavras: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória”. Perguntaram-lhe então se achava que estava indo para casa. Respondeu: “Talvez ainda não exatamente”. A Sra. Haldane disse-lhe afetuosamente: “Então não nos deixarás tão cedo”. Ele respondeu com um sorriso: “Partir e estar com Cristo é incomparavelmente melhor”. Quando lhe perguntaram se sentia muita paz e felicidade, repetiu duas vezes: “Preciosas e mui grandes promessas”. Disse então: “Mas preciso levantar-me”. A Sra. Haldane respondeu: “Não tens forças para te levantar”. Ele sorriu e respondeu: “Eu me satisfarei com a tua semelhança, quando acordar”. Ela perguntou: “É a isso que te referias quando falaste em levantar-te?”. Ele respondeu: “Sim, é desse levantar-me que estou falando. Preciso levantar-me!”
E agora, o que disse Howard, o grande filantropo, homem que, embora possuísse a verdadeira religião e fosse um dos mais eminentes e distintos cristãos, jamais seria suspeito de fanatismo ou entusiasmo religioso, devido ao bom senso simples e prático com que agia? Poucos dias antes de sua morte, quando os sintomas de sua enfermidade começaram a assumir um aspecto extremamente alarmante, disse ao almirante Priestman: “O senhor procura desviar meus pensamentos da morte, mas meus sentimentos são muito diferentes. A morte não me causa terror algum. Sempre a aguardo com alegria, quando não com prazer”.
Mas talvez digais: “Nunca conhecemos nenhuma dessas pessoas. Gostaríamos de ouvir falar de alguém que conhecemos”. Pois bem, ouvireis falar de alguém a quem já me ouvistes mencionar com afeto. Não era de nossa denominação, mas era um verdadeiro príncipe em Israel — refiro-me a Joseph Irons. Muitos de vós ouvistes as coisas doces e benditas que saíam de seus lábios e talvez possais confirmar o que dele se diz. De tempos em tempos, repetia breves trechos das Escrituras e frases escolhidas, como: “Até quando, Senhor?”, “Vem, Senhor Jesus!”, “Anseio por ir para casa e descansar”. Vendo sua querida esposa derramar lágrimas, disse: “Não chores por mim; estou esperando aquele eterno peso de glória, acima de toda comparação”. Depois de uma pausa para recuperar o fôlego, acrescentou: “Aquele que me preservou até aqui jamais me deixará nem me desamparará. Não temas: tudo está bem. Cristo é precioso. Estou indo para casa, pois sou um feixe de trigo plenamente maduro”. Ora, esse é um homem que muitos de vós conhecestes. E isso comprova o que afirmei: para o cristão, a morte é bem-vinda, venha quando vier. Estou certo de que posso dizer, juntamente com muitos de meus irmãos aqui presentes, que, se neste momento me fosse concedido o maior favor que os mortais poderiam desejar, eu pediria para morrer. Nunca desejo que me seja dada a escolha; mas morrer é a coisa mais feliz que pode acontecer a um homem, pois significa livrar-se da ansiedade, pôr fim às preocupações, desfrutar daquele sono especial dos amados. Para o cristão, portanto, a morte deve ser bem-vinda.
O cristão nada tem a perder com a morte. Vós dizeis que ele perderá os amigos. Não estou tão certo disso. Muitos de vós talvez tenhais mais amigos no céu do que na terra; alguns cristãos têm mais entes queridos lá em cima do que aqui embaixo. Muitas vezes contais os membros de vossa família, mas fazeis como aquela menina de quem fala Wordsworth, quando disse: “Senhor, somos sete”? Alguns deles haviam morrido e ido para o céu, mas ela insistia que todos continuavam sendo irmãos e irmãs. Oh! Quantos irmãos e irmãs temos lá em cima, no aposento superior da casa de nosso Pai; quantos entes queridos, unidos a nós pelos laços de parentesco, pois continuam sendo nossos parentes agora tanto quanto eram antes! Embora na ressurreição nem se casem nem se deem em casamento, quem disse que, naquele grande mundo, os laços de afeição serão rompidos, de modo que nem mesmo ali reconheceremos nosso parentesco uns com os outros, assim como nosso parentesco com Jesus Cristo? O que temos a perder com a morte? Venha ela quando vier, não deveríamos abrir-lhe a porta? Gostaria de sentir-me como aquela mulher que, ao morrer, disse: “Sinto-me como uma porta com o trinco apenas encostado, pronta para ser aberta e deixar meu Senhor entrar”. Não é uma condição agradável ter a casa pronta, de modo que nada precise ser posto em ordem? Quando a morte vem buscar o ímpio, encontra-o firmemente amarrado às suas amarras; rompe-lhe o cabo e lança seu navio ao mar. Mas, quando vem buscar o cristão, encontra-o recolhendo a âncora e lhe diz: “Quando terminares teu trabalho e tiveres içado a âncora, eu te levarei para casa”. Com um sopro suave, a Morte sopra sobre ele, e o navio é conduzido delicadamente ao céu, sem qualquer saudade da vida, mas com anjos na proa, espíritos guiando o leme, doces cânticos ressoando por entre o cordame e as velas prateadas pela luz.
III. Em terceiro lugar, a morte do cristão sempre vem no TEMPO CERTO — “Em robusta velhice entrarás para a sepultura”. “Ah!”, diz alguém, “isso não é verdade. As pessoas boas não vivem mais do que as outras. O homem mais piedoso pode morrer na flor da juventude.” Mas examinai meu texto. Ele não diz simplesmente que chegarás à sepultura em idade avançada, mas em “idade plena”. Pois bem, quem sabe o que é uma “idade plena”? É a idade em que Deus deseja levar seus filhos para casa. Há certas frutas, como sabeis, que demoram a amadurecer, e não consideramos seu sabor bom antes do Natal ou antes de terem passado pelas geadas; enquanto outras já estão próprias para a mesa. Nem todas as frutas amadurecem e atingem seu melhor sabor na mesma estação. Assim acontece com os cristãos. Estão em “idade plena” quando Deus decide levá-los para casa. Estão em “idade plena” se morrem aos vinte e um anos; não estarão mais maduros se viverem até os noventa. Alguns vinhos podem ser bebidos pouco depois da vindima. Outros precisam ser guardados. Mas que importa isso, se, quando o vinho é posto a servir, descobre-se que alcançou todo o seu sabor? Deus nunca abre seu barril antes que o vinho tenha atingido a perfeição. Há duas misericórdias concedidas ao cristão. A primeira é que ele jamais morrerá cedo demais; a segunda, que jamais morrerá tarde demais.
Primeiro, ele jamais morrerá cedo demais. Spencer, que há alguns anos brilhou com tanto esplendor e pregou de maneira tão admirável, levou muitos a esperar que uma grande luz continuaria a brilhar constantemente e que muitos seriam guiados ao céu; mas, quando de repente aquela luz se apagou nas trevas e ele morreu afogado, ainda jovem, os homens choraram e disseram: “Ah! Spencer morreu cedo demais”. Assim também se cantou a respeito de Kirk White, o poeta, que trabalhava tão arduamente em seus estudos. Como a águia que descobre que a flecha que a atingiu trazia uma pena de seu próprio corpo, assim também os estudos do poeta foram a causa de sua morte; e disseram que ele morreu cedo demais. Não era verdade. Ele não morreu cedo demais; nenhum cristão jamais morre. Mas alguns dizem: “Quão úteis poderiam ter sido se tivessem vivido!”. Ah! Mas quanto dano também poderiam ter causado! E não seria melhor morrer do que fazer posteriormente alguma coisa que trouxesse vergonha para si mesmos e desonrasse o caráter cristão? Não seria melhor que dormissem enquanto sua obra prosseguia, em vez de destruí-la mais tarde? Temos visto alguns casos tristes de cristãos que foram muito úteis à causa de Deus, mas que depois sofreram quedas lamentáveis e desonraram a Cristo, embora tenham sido salvos e, por fim, restaurados. Quase poderíamos desejar que tivessem morrido em vez de continuar vivendo. Não sabeis qual poderia ter sido a carreira daqueles homens que foram levados tão cedo. Tendes absoluta certeza de que teriam feito tanto bem? Não poderiam ter feito muito mal? Se pudéssemos ter um sonho do futuro e ver o que poderiam ter-se tornado, diríamos: “Ah, Senhor! Que tudo termine enquanto vai bem”. Deixai-o dormir enquanto a música toca; talvez venham depois sons horríveis. Não desejamos permanecer acordados para ouvir aquelas notas lúgubres. O cristão morre bem: não morre cedo demais.
Além disso, o cristão nunca morre tarde demais. Aquela senhora idosa tem oitenta anos. Está sentada num quarto miserável, tremendo junto a um fogo quase apagado. Vive da caridade alheia. É pobre e infeliz. “Para que serve ela?”, dizem todos. “Já viveu demais. Há alguns anos, talvez ainda pudesse ter alguma utilidade; mas olhai para ela agora! Mal consegue comer, a menos que alguém lhe ponha a comida na boca. Não consegue mover-se; de que adianta sua existência?” Não critiqueis a obra de vosso Senhor. Ele é um lavrador bom demais para deixar seu trigo no campo por tempo excessivo, até que os grãos comecem a desprender-se das espigas. Ide visitá-la e sereis repreendidos. Deixai-a falar: ela poderá contar-vos coisas que jamais aprendestes em toda a vossa vida. Ou, se nada disser, sua serenidade silenciosa e sem murmurações, sua constante submissão, vos ensinarão a suportar o sofrimento. Portanto, ainda há algo que podeis aprender com ela. Não digais que a folha velha permanece tempo demais na árvore. Um inseto ainda pode enrolar-se nela e transformá-la em sua morada. Oh, não digais que aquela folha velha e ressequida já deveria ter sido levada pelo vento há muito tempo. Aproxima-se a hora em que cairá suavemente sobre o solo; mas permanece ali para pregar aos homens irrefletidos sobre a fragilidade de sua vida. Ouvi o que Deus diz a cada um de nós: “Em robusta velhice entrarás para a sepultura”. Cólera! Podes atravessar a terra e contaminar o ar: morrerei em “idade plena”. Posso pregar hoje e tantos outros dias da semana quantos me aprouver, mas morrerei em idade plena. Por mais ardentemente que eu trabalhe, morrerei em idade plena. A aflição pode vir drenar o próprio sangue de minha vida e secar a seiva e a medula de meu ser. Ah! Mas tu, aflição, não virás cedo demais: morrerei em idade plena. E tu, homem que esperas! E tu, mulher que aguardas! Estás dizendo: “Ó Senhor, até quando? Até quando? Deixa-me voltar para casa”. Não serás mantido longe de teu amado Jesus nem uma hora além do necessário; terás o céu assim que estiveres preparado para ele. O céu já está suficientemente preparado para ti, e teu Senhor dirá: “Sobe para mais alto!”, quando tiveres chegado à idade plena — nunca antes, nem depois.
IV. Agora, a última coisa é que o cristão morrerá com HONRA: “Entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo”. Ouvís os homens falarem contra as honras fúnebres, e certamente manifesto meu protesto contra a extravagância terrível com que muitos funerais são realizados e contra os costumes absurdamente estúpidos que tantas vezes se introduzem neles. Seria uma felicidade se algumas pessoas conseguissem romper com esses costumes e se as viúvas não fossem obrigadas a gastar o dinheiro de que tanto necessitam com uma cerimônia desnecessária, que torna a morte não honrosa, mas antes desprezível. Contudo, parece-me que, embora a morte não deva ser ostentada com plumas vistosas, existe algo que se pode chamar de funeral honroso, e todos nós podemos desejar ter um. Não queremos ser levados como um simples feixe de joio; preferiríamos que homens piedosos nos conduzissem à sepultura e fizessem grande lamentação por nós. Alguns de nós já vimos funerais que muito se assemelhavam a uma festa da colheita. Lembro-me do funeral de um santo ministro sob cujo ministério certa vez me assentei. O púlpito estava coberto de negro, e multidões se reuniram; e, quando um veterano idoso do exército de Cristo se levantou para pronunciar a oração fúnebre sobre seus restos mortais, ali estava um povo em lágrimas, lamentando que naquele dia um príncipe houvesse caído em Israel. Então, verdadeiramente, senti o que o Sr. Jay deve ter experimentado quando pregou o sermão fúnebre de Rowland Hill: “Uiva, cipreste, porque caiu o cedro”; havia ali uma grandeza tão melancólica! E, no entanto, minha alma parecia iluminar-se de alegria ao pensar que seria possível que alguns de nós desfrutássemos do mesmo afeto e que as mesmas lágrimas fossem derramadas por nós quando chegasse nossa hora de morrer. Ah, meus irmãos aqui presentes, meus irmãos no ministério, meus irmãos desta igreja, talvez console um pouco vosso coração saber que, quando partirdes, vossa morte será para nós motivo da mais profunda tristeza e da mais pungente dor. Vosso sepultamento não será aquele profetizado para Jeoaquim — o sepultamento de um jumento, sem ninguém que chore por ele —, mas homens piedosos se reunirão e dirão: “Aqui jaz o diácono que durante anos serviu tão fielmente a seu Senhor”. “Aqui jaz o professor da escola dominical”, dirá a criança, “que desde cedo me ensinou o nome do Salvador”; e, se o ministro vier a cair, parece-me que uma multidão de pessoas acompanhando-o ao túmulo lhe proporcionaria um funeral tão digno quanto o de um feixe de trigo quando “se recolhe a seu tempo”. Creio que devemos tratar com grande respeito os corpos dos santos que partiram. “A memória do justo é abençoada.” E mesmo vós, santos pequeninos da igreja, não penseis que sereis esquecidos quando morrerdes. Talvez não tenhais uma lápide; mas os anjos saberão onde estais tão bem sem uma lápide quanto com ela. Haverá alguns que chorarão por vós; não sereis levados às pressas, mas conduzidos à sepultura em meio a lágrimas.
Mas parece-me que há dois funerais para cada cristão: um, o funeral do corpo; o outro, o da alma. Funeral, disse eu, da alma? Não, não foi isso que quis dizer; não foi isso; é o casamento da alma, pois, assim que ela deixa o corpo, os anjos ceifeiros estão prontos para levá-la. Talvez não tragam um carro de fogo como outrora trouxeram para Elias; mas possuem suas asas amplas e estendidas. Alegro-me em crer que os anjos virão como escolta para acompanhar a alma através das planícies etéreas. Vede! Anjos à cabeceira sustentam o santo que sobe e contemplam amorosamente seu rosto enquanto o transportam para o alto; e anjos a seus pés ajudam a conduzi-lo lá para cima, através dos céus. E, assim como os lavradores saem de suas casas e exclamam: “Que alegre festa da colheita!”, também os anjos sairão pelas portas do céu e dirão: “A colheita chegou! A colheita chegou! Eis mais um feixe de trigo plenamente maduro recolhido ao celeiro”. Penso que a coisa mais honrosa e gloriosa que jamais contemplaremos, depois da entrada de Cristo no céu e de sua glória ali, é a entrada de um membro do povo de Deus no céu. Posso imaginar que se faça festa sempre que um santo entra ali; e isso acontece continuamente, de modo que vivem em festa perpétua. Oh! Parece-me que, sempre que um cristão entra no céu, dele se ergue uma aclamação mais alta do que o estrondo de muitas águas. As aclamações trovejantes de um universo são abafadas, como se não passassem de um sussurro, por aquele grande brado que todos os remidos levantam quando exclamam: “Mais um, e ainda mais um está chegando!”; e o cântico continua a crescer com o acréscimo de novas vozes, enquanto entoam: “Bendito lavrador, bendito lavrador, teu trigo está chegando ao lar; feixes de trigo plenamente maduros estão sendo recolhidos ao teu celeiro”. Pois bem, esperai um pouco, amados. Dentro de mais alguns anos, vós e eu seremos transportados através do éter sobre as asas dos anjos. Parece-me que estou morrendo, e os anjos se aproximam. Estou sobre as asas dos querubins. Oh, como me elevam! Com que rapidez e, ao mesmo tempo, com que suavidade! Deixei para trás a mortalidade com todas as suas dores. Oh, quão veloz é meu voo! Há pouco passei pela estrela da manhã. Agora os planetas brilham muito atrás de mim. Oh, quão depressa voo, e quão suavemente! Querubins! Quão doce é vosso voo, e quão bondosos são estes braços em que me apoio! E, enquanto seguimos, beijais-me com beijos de amor e afeição. Chamais-me irmão. Querubins, sou vosso irmão? Eu, que até há pouco era prisioneiro numa morada de barro, sou vosso irmão? “Sim!”, dizem eles. Oh, escutai! Ouço uma música de harmonia extraordinária! Que sons doces chegam aos meus ouvidos! Estou me aproximando do Paraíso. É isso mesmo. Não são espíritos que se aproximam com cânticos de alegria? “Sim!”, dizem eles. E, antes que possam responder, eis que chegam — uma escolta gloriosa! Avisto-os enquanto realizam uma grande revista às portas do Paraíso. E, ah! Ali está a porta de ouro. Entro e vejo meu bendito Senhor. Nada mais posso contar-vos. Tudo o mais seria coisa que não é lícito à carne proferir. Meu Senhor! Estou contigo — mergulhado em ti — perdido em ti, assim como uma gota é absorvida pelo oceano, assim como uma única tonalidade se perde no glorioso arco-íris! Estou perdido em ti, ó glorioso Jesus? E minha felicidade está consumada? Chegou enfim o dia das bodas? Vesti realmente as vestes nupciais? E sou teu? Sim! Sou. Nada mais existe agora para mim. Em vão soam vossas harpas, ó anjos. Tudo o mais é em vão. Deixai-me por algum tempo. Conhecerei vosso céu daqui a pouco. Dai-me alguns anos, sim, dai-me alguns séculos para permanecer aqui, reclinado sobre o doce peito de meu Senhor; dai-me metade da eternidade e deixai-me aquecer-me à luz daquele único sorriso. Sim, concedei-me isso. Falaste, Jesus? “Sim, com amor eterno eu te amei, e agora és meu! Estás comigo.” Não é isto o céu? Nada mais desejo. Digo-vos mais uma vez, ó espíritos benditos, verei a vós daqui a pouco. Mas agora, com meu Senhor, desfrutarei de meu banquete de amor. Oh, Jesus! Jesus! Jesus! Tu és o céu! Nada mais desejo. Estou perdido em ti!
Amados, não é isso chegar “à sepultura em robusta velhice, como um feixe de trigo” plenamente maduro? Quanto mais cedo chegar esse dia, mais nos alegraremos. Oh, rodas vagarosas do tempo! Apressai vosso curso. Oh, anjos, por que vindes com asas tão lentas? Oh! Voai através do éter e ultrapassai o clarão do relâmpago! Por que não posso morrer? Por que permaneço aqui? Coração impaciente, aquieta-te um pouco. Ainda não estás preparado para o céu; do contrário, não estarias aqui. Ainda não terminaste tua obra; do contrário, já terias teu descanso. Trabalha um pouco mais; há descanso de sobra na sepultura. Ali o terás. Avante! Avante!
“Com meu alforje às costas e meu bordão na mão, Marcharei apressado por terra inimiga. Embora áspero, o caminho não pode ser longo; Com a esperança o suavizarei, e com um cântico o alegrarei.”
Meus queridos amigos que ainda não vos convertestes, não tenho tempo para vos dizer coisa alguma nesta manhã. Quem dera o tivesse! Mas oro para que tudo quanto disse possa ser vosso. Pobres corações, lamento não poder dizer-vos que tudo isso já vos pertence. Quem dera pudesse pregar a cada um de vós e dizer que todos estareis no céu! Mas Deus sabe que alguns de vós estais no caminho do inferno; e não suponhais que entrareis no céu se seguirdes pelo caminho do inferno. Ninguém esperaria chegar ao sul se estivesse seguindo para o norte. Não; Deus precisa mudar vosso coração. Pela simples confiança em Jesus, se vos entregardes à sua misericórdia, ainda que sejais os mais vis dos vis, cantareis diante de sua face. E parece-me, pobre pecador, que me direis o mesmo que uma pobre mulher me disse na última quarta-feira, depois que terminei de pregar, quando creio que todos estavam chorando, do menor ao maior, até mesmo o pregador no púlpito. Quando desci, perguntei a uma pessoa: “Sois palha ou trigo?”. E ela disse: “Ah! Como tremi esta noite, senhor!”. A outra, eu disse: “Pois bem, irmã, espero que estejamos logo no Paraíso”. E ela respondeu: “O senhor talvez esteja”. Cheguei então a outra pessoa e perguntei: “Pois bem, pensais que sereis recolhida com o trigo?”. E ela respondeu: “Uma coisa posso dizer: se Deus algum dia me permitir entrar no céu, eu o louvarei com todas as minhas forças. Cantarei sem parar e jamais acharei que estou cantando alto o bastante”. Isso me fez lembrar o que certa vez disse um velho discípulo: “Se o Senhor Jesus simplesmente me salvar, ele nunca mais deixará de ouvir falar disso”. Louvemos, pois, a Deus eternamente,
“Enquanto durarem a vida, o pensamento ou a existência, Ou enquanto perdurar a imortalidade!”
E agora, que o Deus triúno vos despeça com sua bênção.

