por J. I. Packer
Hoje é o Dia da Reforma, que marca o 509º aniversário da afixação das 95 teses de Martinho Lutero à porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha, dando início à Reforma Protestante. Em meados da década de 1960, J. I. Packer participou das Conferências Anuais de Estudos Puritanos e Reformados, em Londres, e apresentou o seguinte trabalho sobre a vida e a influência de Lutero.
Lutero foi o pai da Reforma no mesmo sentido em que George Stephenson foi o pai das ferrovias — isto é, foi o pioneiro de todo o desenvolvimento posterior. Sem Lutero, as revoltas nacionalistas contra o papado e o império ainda teriam ocorrido; o absolutismo e o capitalismo ainda teriam remodelado a vida comunitária; o princípio de que o poder civil determina a forma de religião em seu próprio território (cuius regio, eius religio, princípio fundamental da Paz Religiosa de Augsburgo, de 1555) ainda teria sido estabelecido na Europa Ocidental; o Renascimento ainda teria seguido seu curso, secularizando a cultura e desafiando todas as formas de autoritarismo; mas o evangelho não teria sido recuperado, nem a fé e a vida cristãs teriam sido renovadas, nem teria havido qualquer fermento evangélico a atuar na vida pujante dos novos Estados nacionais europeus. Não teria havido Bucer, Tyndale, Cranmer ou Calvino, pois todos eles foram discípulos de Lutero. Sem Lutero, a Reforma histórica é tão incompreensível quanto seria Hamlet sem o príncipe.
Lutero apresentou a ideia de que, sempre que Deus pretende agir decisivamente em sua Igreja, suscita um homem extraordinário (Wundermann), um herói (vir heroicus), um grande líder individual, para servir de instrumento seu. Certamente, esse princípio se exemplificou no próprio Lutero. Em 1521, ele já havia conquistado a imaginação de toda a Europa. Era idolatrado como um cruzado de estatura sobre-humana, o campeão da Alemanha, da liberdade e da verdade. Uma caricatura de Holbein, de 1522, retrata-o como “o Hércules alemão”. No mesmo ano, Spalatin comparou-o a Elias, e a descrição pegou: um medalhão saxão chama-o de “Elias dos últimos tempos” (Elias ultimi saeculi), e Melanchthon comunicou a notícia de sua morte aos estudantes de Wittenberg adaptando 2Reis 2.12: “Ai de nós! Partiram os carros de Israel e seus cavaleiros”. Que espécie de homem era esse, perguntamos, para suscitar tais avaliações a seu respeito?
Que espécie de homem era esse, perguntamos, para suscitar tais avaliações a seu respeito?
A primeira coisa a dizer é que ele era, por natureza, um homem extraordinário. Embora de origem humilde (seu pai administrava uma mina de cobre), com uma maneira de falar viva e familiar e aquilo que hoje chamamos de facilidade de se relacionar com as pessoas comuns, não era um camponês grosseiro, como às vezes se supõe. Na verdade, era um professor universitário talentoso, um estudioso brilhante, um trabalhador incansável e um mestre cativante. Em 1505, tendo concluído em quatro anos um curso de seis, obteve o primeiro lugar no exame de mestrado em Erfurt. Em 1512, aos vinte e nove anos, tornou-se doutor em teologia e professor de estudos bíblicos em Wittenberg. Foi um professor excepcional desde seu primeiro semestre até a morte. Homem de grande força pessoal — seus olhos, diziam, pareciam atravessar quem estivesse diante dele —, mas também de grande encanto e vivacidade, teria conquistado a afeição das pessoas e se destacado como líder em qualquer ambiente. Além disso, era um homem de temperamento talhado para a batalha, que mostrava sua maior força no debate e na polêmica, como demonstrou sua carreira de reformador. Uma vez que compreendeu a verdade da graça soberana encerrada na expressão bíblica “a justiça de Deus” — acontecimento que provavelmente se deu em 1513, quando tinha trinta anos e preparava suas primeiras preleções sobre os Salmos —, tornou-se um vulcão evangélico. Na universidade, desafiou “Aristóteles” (a escolástica legalista semipelagiana) em nome de “Agostinho” (o raciocínio sobre o pecado, a graça e a fé em Cristo, regido pelas Escrituras). Num cenário mais amplo, contestou a teoria das indulgências em 1517, com suas Noventa e cinco teses, e, em 1519, na Disputa de Leipzig com João Eck, permitiu que seu adversário evidenciasse o fato de que, na realidade, ele estava questionando todo o fundamento da jurisdição papal. Em 1520, desafiou o papa queimando publicamente a bula que o excomungava e lançando também ao fogo o direito canônico; gesto a que deu continuidade tornando-se panfletário e publicando seus três grandes manifestos da Reforma — Do cativeiro babilônico da Igreja, À nobreza cristã e Da liberdade cristã. Em 1521, depois de manter-se firme diante do imperador em Worms, foi proscrito pelo império. Mas Frederico, o Sábio, e, mais tarde, outros príncipes o mantiveram em segurança, e ele continuou até sua morte, em 1546, ensinando em Wittenberg e escrevendo em prol do avanço da Reforma nos reinos alemães. Estima-se que, durante muitos anos, tenha produzido, em média, um tratado a cada quinze dias. Suas obras completas ocupam noventa e quatro volumes de cerca de 750 páginas cada um, na edição-padrão de Weimar. Escreveu quase o dobro de Calvino!
Naturalmente, uma figura tão colossal recebeu avaliações diversas. Quatro séculos de alemães o viram primordialmente como um patriota. Thomas Carlyle viu nele o arquétipo do “homem livre”, que desafia a tradição e as convenções para seguir sua visão interior — um protoliberal, na verdade! Mas Lutero via a si mesmo simplesmente como teólogo e pastor, pregador e mestre da Palavra de Deus. Nunca se considerou sequer um reformador; a Reforma, insistia, não era obra sua, mas obra de Deus por meio de sua Palavra, em primeiro lugar, e depois, sob a direção de Deus, dos príncipes alemães que obedeciam à Palavra divina. Sua própria participação consistira apenas em deixar a Palavra agir livremente. Assim, sua abordagem da Reforma se apresenta como inteiramente teológica e teocêntrica. Para ele, a Reforma, em sua essência, não era uma realização humana, assim como a salvação tampouco o era, mas a obra do próprio Deus, que, pelo poder de sua Palavra, restaurava sua Igreja de um estado de ruína a um estado de vida e saúde.
A expressão “a Palavra de Deus”, ou simplesmente “a Palavra”, é fundamental no pensamento de Lutero. Para ele, não significava apenas as Escrituras consideradas formalmente como inspiradas (embora, naturalmente, pressupusesse sua inspiração, como faziam todos os homens da Igreja em sua época), mas algo mais amplo — a saber, a mensagem e o conteúdo das Escrituras, isto é, o evangelho acerca do Senhor Jesus Cristo, que constitui a essência de tudo o que Deus tem a dizer ao homem. Com frequência, aliás, Lutero aplica a expressão “a Palavra de Deus” ao próprio Cristo e, quando a emprega para se referir ao ensino bíblico, o pensamento acerca da Palavra viva, apresentada pela Palavra escrita, nunca está longe de sua mente. Somente examinando a compreensão que Lutero tinha da “Palavra de Deus” podemos apreender plenamente sua abordagem da Reforma; é a essa tarefa, portanto, que agora nos voltamos.
A teologia de Lutero
A teologia a que Lutero chegou por meio do estudo, da oração e do conflito interior entre 1512 e 1517, e que, a partir de então, ensinou praticamente sem alterações, apresentava três características gerais. Era exegética, pois era exposta pelo método de deixar que cada texto falasse por si; era evangélica, pois constituía uma afirmação contínua do evangelho da graça de Deus aos pecadores; e era polêmica, pois dirigia seus ataques, sucessivamente, à superstição romana, ao “entusiasmo” protestante radical e à insensatez e futilidade dos caminhos deste mundo orgulhoso e pecaminoso. Representava, essencialmente, uma redescoberta do Deus vivo, Pai, Filho e Espírito Santo. O título da introdução de P. S. Watson ao pensamento de Lutero, Deixe Deus ser Deus!, expressa bem sua motivação dominante. Lutero afirma com extraordinário vigor a soberania ativa de Deus na providência e na graça. Todas as coisas criadas, diz ele, são “máscaras” de Deus (larvae Dei) — isto é, por trás de tudo o que acontece com tamanha aparência de acaso neste mundo que vemos e sentimos estão o rosto oculto, a mão orientadora e a mente governante de seu Criador. E, em Da vontade cativa, seu ataque frontal a Erasmo, Lutero fala da verdade da absoluta escravidão natural do homem ao pecado e a Satanás, e de sua consequente dependência absoluta da graça divina soberana para a salvação, como o “eixo” em torno do qual girava, na realidade, todo o conflito teológico da Reforma.
O objetivo constante de Lutero era inculcar o conhecimento bíblico de Deus e, para isso, voltava incessantemente aos seguintes cinco temas fundamentais, explorando-os sob diferentes aspectos: (1) a autoridade da Palavra bíblica de Deus, (2) a grandeza do pecado, (3) a graça de Cristo, (4) a vitalidade da fé e (5) a natureza espiritual da Igreja.
Lutero afirmava a autoridade da Palavra bíblica de Deus contra a prática de recorrer a tradições não escritas, pronunciamentos papais, direito canônico e sofismas triviais da exegese alegórica — recursos que, segundo sustentava, tinham todos o efeito de amordaçar as Escrituras, impedindo que sua verdadeira voz fosse ouvida. Sua concepção das Escrituras era essencialmente a seguinte. A Bíblia é um livro claro e direto, pois “o Espírito Santo é o mais claro escritor e orador do céu e da terra”. Portanto, deve ser compreendida em seu “sentido literal, comum e natural”, deixando que um texto e uma expressão esclareçam outros. (Ao que parece, foi por esse meio que ocorreu a iluminação evangélica de Lutero: as palavras “livra-me por tua justiça”, no Salmo 31:1 e 71:2, sugeriram-lhe que “a justiça de Deus”, em Romanos 1:17, também significava a manifestação não de uma justiça vindicativa, mas da misericórdia salvadora.) Assim compreendidas “literalmente”, as Escrituras revelavam conter uma dupla comunicação da parte de Deus: uma revelação da lei, destinada a levar o homem ao conhecimento de si mesmo e ao desespero quanto a si próprio, e uma proclamação das promessas, e de Cristo como a essência e o conteúdo dessas promessas, para que fossem objeto da fé e da esperança. Desse ponto de vista, as Escrituras, particularmente as do Novo Testamento, apresentam-se como “as faixas em que Cristo está envolto”. Romanos é a chave da Bíblia, “a verdadeira obra-prima do Novo Testamento, o evangelho mais puro de todos. […] Encontramos nesta epístola, com a maior abundância, aquilo que um cristão deve conhecer, a saber, o que são Lei, Evangelho, Pecado, Castigo, Graça, Fé, Justiça, Cristo, Deus, Boas Obras, Amor, Esperança, a Cruz. […] É como se Paulo quisesse resumir brevemente nesta epístola todo o ensino evangélico cristão e oferecer uma introdução a todo o Antigo Testamento. […]”. Esse ensino evangélico é a verdadeira regra da fé cristã: devemos pedir que o Espírito Santo nos capacite a compreendê-lo, ensinando-nos sua aplicação a nós mesmos, e que sejamos capacitados a permanecer firmemente apegados a ele em meio às distrações e aos erros pelos quais Satanás procura nos afastar dele.
Lutero afirmava a grandeza do pecado contra o ensino escolástico corrente acerca da capacidade natural e da perfeição (isto é, ausência de pecado) das boas obras de um cristão. Era nesse ensino que se fundamentava a doutrina do mérito então vigente, uma afirmação descarada da salvação pelas obras e pelo esforço. Na verdade, Lutero dirigia-se aos expositores dessa doutrina com as palavras de Anselmo: “Ainda não considerastes o peso do pecado (quanti ponderis sit peccatum)”. Reivindicando Agostinho como seu precursor, Lutero enfatizava a incapacidade total do homem natural e a culpa do cristão, mesmo em seus melhores momentos, porque todo o seu serviço a Deus está manchado pelo pecado. Como Agostinho, Lutero atribuía grande importância a Romanos 7:14–25 como prova deste último ponto. Romanos, o livro-chave da Bíblia, como vimos, foi escrito, segundo a impressionante afirmação de Lutero, “para derrubar, arrancar e destruir toda a sabedoria e justiça da carne, por maior que seja […] e para implantar, estabelecer e engrandecer o pecado […]”; pois somente depois que essa obra estiver concluída e a justiça própria tiver sido finalmente abolida é que poderemos compreender as dimensões da misericórdia divina. Não podemos conhecer a grandeza da graça, diz Lutero, até que tenhamos aprendido a grandeza do pecado.
Não podemos conhecer a grandeza da graça, diz Lutero, até que tenhamos aprendido a grandeza do pecado.
Em contraste com a imagem popular de Jesus como um juiz severo e terrível, de quem os homens pecadores não ousam sequer aproximar-se diretamente, Lutero enfatizava que a encarnação, a humilde humanidade e o sofrimento paciente do Filho de Deus demonstram, todos eles, a graça de Cristo, cuja atitude para conosco é, na realidade, de amor transbordante. O pensamento de que Jesus voluntariamente se identificou conosco em nosso desamparo e miséria e, na cruz, na mais profunda escuridão e angústia espiritual (anfechtung), e de que continua a compadecer-se daqueles que são tentados, era fundamental para o ensino de Lutero acerca da vida de fé. Além disso, Lutero contestava todas as formas da doutrina da salvação pelas obras, fosse pelo mérito pessoal, pela compra de indulgências ou pela oferta da missa como sacrifício propiciatório, apelando à suficiência da morte expiatória de Cristo como fundamento da salvação plena para “todo aquele que crê”. Lutero foi o primeiro teólogo a dar destaque ao pensamento de que a satisfação oferecida a Deus pelo pecado, que, conforme Anselmo havia estabelecido, Cristo realizou em nosso favor na cruz, era de natureza penal e substitutiva. Anselmo havia concebido a satisfação como uma alternativa à imposição da pena devida, um ato compensatório de homenagem que “reparava” o dano sofrido por Deus em decorrência de nossos pecados. “Indenização”, de fato, é o equivalente moderno exato da concepção de expiação de Anselmo. Mas Lutero percebeu que, nas Escrituras, a satisfação oferecida a Deus significa a satisfação das exigências penais da lei divina — isto é, uma punição suportada vicariamente. O seguinte trecho do comentário de Lutero sobre Gálatas 3:13 mostra com que vivacidade ele expunha esse pensamento:
A doutrina do evangelho […] nada fala de nossas obras, nem das obras da lei, mas da inestimável misericórdia e amor de Deus para com os mais desgraçados e miseráveis pecadores; a saber, que nosso misericordiosíssimo Pai […] enviou seu Filho unigênito ao mundo e colocou sobre ele todos os pecados de todos os homens, dizendo: Sê tu Pedro, aquele que negou; Paulo, aquele perseguidor, blasfemador e cruel opressor; aquele pecador que comeu a maçã no Paraíso; aquele ladrão que foi pendurado na cruz — em suma, sê tu a pessoa que cometeu os pecados de todos os homens; cuida, portanto, de pagar e satisfazer por eles. Vem então a lei e diz: Encontro nele um pecador, alguém que tomou sobre si os pecados de todos os homens, e não vejo pecados senão nele; portanto, que morra na cruz; e assim se lança sobre ele e o mata. Por esse meio, o mundo inteiro é purificado […] Deus não veria em todo o mundo, se este cresse, coisa alguma senão pura purificação e justiça.
Isso levou Lutero a apresentar a expiação e a justificação como as duas etapas complementares da “grande troca” de São Paulo, conforme exposta em 2Coríntios 5:21: “Aprende a conhecer Cristo, e este crucificado; aprende a cantar-lhe e a dizer: Senhor Jesus, tu és a minha justiça, eu sou o teu pecado. Tomaste sobre ti o que era meu e colocaste sobre mim o que era teu. Tornaste-te o que não eras, para que eu me tornasse o que não era”. A resposta de Lutero, portanto, às ideias de salvação pelas obras e pela mediação sacerdotal consistia em apresentar a promessa da plena aceitação — a imputação da justiça e a não imputação do pecado, juntamente com a concessão da condição de filhos de Deus e da liberdade em relação à lei — a todos os que depositam sua fé diretamente em Jesus Cristo e em seu sangue expiatório. Essa era a “teologia da cruz”, o conhecimento salvífico de Deus recebido por meio do evangelho, que Lutero contrapunha à fútil “teologia da glória”, as tentativas convencionais dos teólogos escolásticos de conhecer a Deus por meio da lógica especulativa abstrata. Conhecer a Deus, dizia Lutero, é conhecer a graça de Cristo, e esse conhecimento só vem mediante a contemplação humilde do Calvário.
Conhecer a Deus, dizia Lutero, é conhecer a graça de Cristo, e esse conhecimento só vem mediante a contemplação humilde do Calvário.
Lutero contestava a suposição corrente de que a fé é essencialmente crença (fides) e, como tal, uma obra meritória, insistindo que a fé é essencialmente confiança (fiducia) e que, longe de ser meritória, consiste em confiar em Cristo com base no claro reconhecimento de que não se possui mérito algum, mas de que todo o mérito, do princípio ao fim, se encontra somente nele. A fé é, assim, uma mão vazia estendida para receber Cristo, que se apodera dele e o retém firmemente. “A fé se apodera de Cristo, possui-o presente e o mantém encerrado em si, assim como o anel encerra a pedra preciosa.” A fé é dom de Deus, concedido como parte de sua obra graciosa de “chamamento” (vocação eficaz, como diriam as gerações posteriores). A fé, assim concedida sobrenaturalmente, é um princípio vital, resistente e ativo, triunfante no conflito e de energia inesgotável:
Quando a fé é daquela espécie que Deus desperta e cria no coração, então o homem confia em Cristo. Fica, então, tão firmemente fundamentado em Cristo que pode desafiar o pecado, a morte, o inferno, o diabo e todos os inimigos de Deus. Não teme mal algum, por mais duro e cruel que venha a ser. […]
A verdadeira fé é algo operado em nós pelo Espírito Santo, que nos transforma, convertendo-nos a uma nova natureza. […] A fé é coisa viva, poderosa em suas obras, valorosa e forte; de modo que é impossível que aquele que dela foi dotado não pratique sempre boas obras, sem cessar […] pois essa é a sua natureza. […]
Lutero rejeitava a identificação convencional da Igreja com o sistema romano. De fato, antes de sua excomunhão em 1520, já havia aceitado a ideia, anteriormente surgida entre os radicais medievais, de que o papado era o Anticristo, e insistia constantemente que, segundo o Novo Testamento, a Igreja não devia ser concebida, em primeiro lugar, como um sistema ou organização. Lutero sustentava que a Igreja é essencialmente, como diz o Credo, uma comunhão dos santos (communio sanctorum), “os cordeiros que ouvem a voz do pastor”, conforme expressou nos Artigos de Esmalcalda. Embora a Igreja tenha um aspecto visível, isto é, sua vida comunitária de adoração e serviço, ela é essencialmente invisível, pois a relação de fé em Cristo não é o tipo de realidade que os homens possam ver. Somente o Senhor conhece os que lhe pertencem. Alguém pode pertencer a uma congregação (Gemeine) e, ainda assim, estar fora da Igreja tal como Deus a conhece; igualmente, alguém pode ser expulso das congregações organizadas (como aconteceu com Lutero quando o papa o excomungou) e, mesmo assim, continuar pertencendo à Igreja. A vida visível pela qual se reconhece a presença da Igreja apresenta duas características principais: o ministério da Palavra e dos Sacramentos e o exercício do sacerdócio de todos os crentes, que, para Lutero, significava o serviço mútuo em todos os níveis, com base no reconhecimento da responsabilidade recíproca. Às vezes se pensa que Lutero não atribuía importância alguma à disciplina como marca da Igreja, mas isso não é verdade. Em duas obras publicadas em 1539 e 1540, respectivamente, ele incluiu a disciplina entre as sete marcas da Igreja visível: a pregação; o Batismo; a Ceia do Senhor; “as chaves da disciplina cristã e do perdão”; um ministério ordenado; o culto público; e “o sofrimento, a posse da santa Cruz”.
Examinamos agora os cinco temas que constituíam o conteúdo central da “Palavra” conforme Lutero a compreendia. Era nesse campo que se concentravam todas as suas principais preocupações. Foi aí, e não em suas especulações um tanto irrefletidas e obstinadas acerca, por exemplo, da regeneração batismal mediante a fé infantil (contra os anabatistas), ou da recepção física de Cristo no pão e no vinho não transubstanciados da Ceia do Senhor (contra Roma e Zuínglio), que ele prestou sua contribuição duradoura à teologia. Temos aqui, portanto, “a Palavra” que, segundo Lutero, sob a direção de Deus, deve reformar a Igreja.
Fonte: Extraído de Puritan Papers, vol. 4: 1965–1967, organizado por J. I. Packer. Publicado pela P&R Publishing. Copyright © 2004 pelo Comitê da Conferência de Westminster.
Tradução: Equipe Monergismo




