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História da Igreja

Por que a Reforma?

Nicholas R. Needham

Há quinhentos anos, a igreja na Europa Ocidental estava imersa em forças culturais e intelectuais que clamavam por uma reforma havia muito necessária. A maioria dessas forças provinha do Renascimento, cujos estudiosos cristãos confrontavam a igreja de seu tempo com aquilo que encontravam na Bíblia e nos escritos dos antigos pais da igreja. O maior desses estudiosos foi Desidério Erasmo de Roterdã, que, em 1516, havia publicado uma nova edição crítica do Novo Testamento grego. Ela rapidamente se tornou um instrumento nas mãos de reformadores de toda espécie. Antes disso, Erasmo havia publicado novas edições de muitos tratados dos pais da igreja, bem como escritos de sua própria autoria nos quais criticava o cristianismo de sua época em nome de uma fé mais bíblica e mais fiel aos pais da igreja. Não podemos, por exemplo, ler o popular Manual do cristão militante (1503), de Erasmo, sem reconhecer nele uma visão de um cristianismo reformado que se encontra no próprio limiar daquilo que poderíamos chamar de protestante.

No fim das contas, coube não a Erasmo, mas a Martinho Lutero, catalisar essas influências já existentes e transformá-las num movimento eficaz de reforma. Lutero, pastor e estudioso da ordem dos frades agostinianos na Universidade de Wittenberg, havia descoberto em sua própria ordem religiosa os recursos de uma teologia agostiniana da graça que desejava aplicar à igreja em geral. A teologia predominante ensinada nas universidades católicas romanas daquela época (a chamada via moderna, ou “caminho moderno”) era antiagostiniana, pois atribuía toda a ênfase ao livre-arbítrio e ao mérito humanos na obtenção da salvação. Para Lutero, isso constituía um desastre doutrinário e pastoral.

Tradicionalmente, o início da Reforma tem sido situado no protesto público de Lutero, em 31 de outubro de 1517, expresso em suas Noventa e Cinco Teses contra a venda de indulgências. Simplificando uma questão complexa, as indulgências eram certificados de perdão autorizados pelo papado que, segundo se acreditava, podiam reduzir o tempo de sofrimento no purgatório do comprador ou de seus parentes falecidos. Embora a Igreja Romana continue a oferecer indulgências, seria muito difícil encontrar hoje até mesmo o católico romano mais empedernido que se dispusesse a defender a “pregação de indulgências” terrivelmente manipuladora das emoções praticada pelo frade dominicano Johann Tetzel, com suas garantias de extremo mau gosto de que qualquer pessoa que comprasse uma de suas indulgências encontraria misericórdia da parte de Deus, mesmo que tivesse profanado a Virgem Maria. Apenas um pouco menos vulgar era o versinho de Tetzel: “Quando a moeda no cofre cai, uma alma do purgatório sai!”

Se o papado tivesse lidado melhor com o protesto de Lutero contra essa monstruosidade — apresentado inicialmente na condição de “reformador católico” —, uma história muito diferente poderia ter se desenrolado. Talvez todos nós estivéssemos rezando a São Martinho Lutero, padroeiro da reforma católica romana. Mas o papa Leão X reagiu de maneira desastrosamente exagerada ao protesto de Lutero, conduziu toda a questão de forma desastrada e conseguiu levar Lutero, passo a passo, a adotar uma postura cada vez mais combativa, até que a controvérsia acabou envolvendo a questão fundamental da autoridade. Quando Lutero compareceu como acusado de heresia perante a Dieta, ou assembleia imperial, de Worms, em janeiro de 1521, já havia rejeitado a autoridade suprema do papado dentro da igreja, afirmando, em seu lugar, que somente as Escrituras possuíam autoridade infalível para os cristãos. Teólogos posteriores chamariam isso de “causa formal” da Reforma: aquilo que confere forma, estrutura e sentido ao ensino da Reforma.

Embora não tenha figurado na Dieta de Worms, um segundo princípio — a “causa material” da Reforma — logo se entrelaçou ao movimento reformador de Lutero. Tratava-se da justificação somente pela fé. Quando Lutero e seus companheiros reformadores se voltaram para as Escrituras como a única autoridade infalível da igreja, encontraram em suas páginas o ensino de que os pecadores são justificados (aceitos como justos por Deus) somente pela fé em Jesus Cristo, e nele somente. Esse era o evangelho da Reforma. Os historiadores divergem quanto ao momento exato em que Lutero passou a crer nisso; alguns o situam já em 1514, enquanto outros sugerem uma data posterior, 1519 (a opção que prefiro). Não encontramos a justificação pela fé nas Noventa e Cinco Teses, mas a encontramos no decisivo tratado de Lutero de 1520, Da liberdade cristã, no qual ele expõe a doutrina com uma eloquência lírica e jubilosa.

Munidos desses dois princípios — a autoridade exclusivamente infalível das Escrituras e a justificação somente pela fé, somente em Cristo —, reformadores por toda a Europa se livraram do peso morto da autoridade papal e reformaram as igrejas já existentes, ora no âmbito de uma cidade, como na Genebra de Calvino, ora no âmbito nacional, como na Escócia sob a liderança de John Knox. Essa Reforma abrangeu não apenas o ensino teológico, mas também o culto congregacional e o governo eclesiástico, que foram remodelados para refletir a realidade e as implicações da autoridade bíblica e da justificação pela fé. Quando a poeira baixou, a Europa se viu dividida entre um norte vigorosamente protestante e um sul católico romano reacionário, com alguns países (notadamente a França, a Suíça e os Países Baixos) divididos internamente.

Nestes tempos ecumênicos, muitos lamentam essa divisão. O autor destas linhas, porém, a considera uma consequência necessária da trágica rejeição, pelo sul da Europa, da verdade libertadora e vivificante acolhida pelo norte. A Inglaterra, a Escócia, a Alemanha, a República Holandesa, toda a Escandinávia (Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia) e as regiões protestantes da França e da Suíça conheceriam uma história nova e ilustre como terras nas quais o evangelho era conhecido em sua maior plenitude e produzia, em sua forma mais pura, frutos morais, espirituais e literários. A Reforma não é algo a ser lamentado, mas celebrado — e imitado.

Sobre o autor: O Dr. Nicholas R. Needham é professor de história da igreja no Highland Theological College, em Dingwall, na Escócia. É autor da obra em vários volumes 2,000 Years of Christ’s Power.

Fonte: Tabletalk Magazine

Tradução: Equipe Monergismo