SERMÃO PREGADO NA NOITE DO DIA DO SENHOR,
7 DE JANEIRO DE 1855,
PELO REV. C. H. SPURGEON,
NA CAPELA DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK.
“Fazei isto em memória de mim.” — 1 Coríntios 11.24.
Parece, pois, que os cristãos podem esquecer-se de Cristo. O texto pressupõe a possibilidade de nos esquecermos daquele de quem a gratidão e o afeto deveriam compelir-nos a lembrar. Não haveria necessidade desta amorosa exortação se não existisse a temível possibilidade de que nossa memória se mostrasse traiçoeira e nossa lembrança, superficial ou inconstante. E não se trata de mera suposição: infelizmente, nossa experiência a confirma muito bem, não como possibilidade, mas como fato lamentável. À primeira vista, parece um crime demasiado grave para ser imputado a homens convertidos. Parece quase impossível que aqueles que foram redimidos pelo sangue do Cordeiro agonizante possam algum dia esquecer-se de seu Redentor; que aqueles que foram amados com amor eterno pelo eterno Filho de Deus possam algum dia esquecer-se desse Filho. Mas, por mais espantoso que seja aos ouvidos, o fato é, infelizmente, demasiado evidente aos olhos para que possamos negá-lo. Esquecer-nos daquele que jamais se esqueceu de nós! Esquecer-nos daquele que derramou seu sangue por nossos pecados! Esquecer-nos daquele que nos amou até a morte! Será possível? Sim, não apenas é possível, mas a consciência confessa que, para nossa profunda tristeza, esta é uma falta de todos nós: conseguimos lembrar-nos de qualquer coisa, menos de Cristo. Aquele que deveríamos fazer o soberano de nosso coração é precisamente aquele de quem mais nos inclinamos a esquecer. Onde seria de esperar que a memória se demorasse e que o esquecimento fosse um intruso desconhecido, ali mesmo é o lugar profanado pelos pés do esquecimento, o lugar para onde a memória raramente se volta. Apelo à consciência de cada cristão aqui presente: podeis negar a verdade do que digo? Não percebeis que vos esqueceis de Jesus? Alguma criatura vos rouba o coração, e vos esqueceis daquele em quem deveríeis depositar vosso afeto. Algum negócio terreno absorve vossa atenção, quando deveríeis manter os olhos firmemente fixos na cruz. É a incessante sucessão de mundo, mundo, mundo; o ruído constante de terra, terra, terra, que afasta a alma de Cristo. Oh! Meus amigos, não é tristemente verdade que conseguimos lembrar-nos de tudo, menos de Cristo, e que de ninguém nos esquecemos com tanta facilidade quanto daquele de quem deveríamos lembrar-nos? Enquanto a memória conserva uma erva venenosa, deixa murchar a Rosa de Sarom.
A causa disso é bastante evidente: encontra-se em um ou dois fatos. Esquecemo-nos de Cristo porque, embora sejamos verdadeiramente regenerados, a corrupção e a morte ainda permanecem em nós. Esquecemo-nos dele porque carregamos conosco o velho Adão do pecado e da morte. Se fôssemos criaturas inteiramente nascidas de novo, jamais esqueceríamos o nome daquele a quem amamos. Se fôssemos seres completamente regenerados, nós nos assentaríamos para meditar em tudo quanto nosso Salvador fez e sofreu; em tudo quanto ele é; em tudo quanto gloriosamente prometeu realizar; e nossos afetos errantes jamais se desviariam. Antes, concentrados, cravados, eternamente fixos num só objeto, contemplaríamos continuamente a morte e os sofrimentos de nosso Senhor. Mas, infelizmente, temos um verme no coração, um lazareto, um ossuário dentro de nós, concupiscências, imaginações vis e fortes paixões malignas que, semelhantes a poços de águas venenosas, fazem brotar incessantemente correntes de impureza. Tenho um coração que, Deus o sabe, gostaria de poder arrancar do peito e arremessar a uma distância infinita; uma alma que é uma gaiola de aves imundas, um covil de criaturas repugnantes, onde habitam dragões e se ajuntam corujas, onde moram todas as feras malignas de mau agouro; um coração tão vil que não encontra semelhante — “enganoso […] mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto”. Eis por que me esqueço de Cristo. Mas esta não é a única causa; suspeito que haja também outra. Esquecemo-nos de Cristo porque existem tantas outras coisas ao nosso redor que atraem nossa atenção. “Mas”, direis, “elas não deveriam fazê-lo, pois, embora nos cerquem, nada são em comparação com Jesus Cristo; embora estejam perigosamente próximas de nosso coração, que são elas comparadas a Cristo?” Sabeis, porém, queridos amigos, que a proximidade de um objeto exerce enorme influência sobre seu poder? O sol é muitas e muitas vezes maior que a lua, mas a lua exerce maior influência sobre as marés do oceano que o sol, simplesmente porque está mais próxima e possui maior força de atração. Assim, descubro que um vermezinho que rasteja pela terra exerce mais influência sobre minha alma que o glorioso Cristo no céu; um punhado de terra dourada, um sopro de fama, um brado de aplauso, um negócio próspero, minha casa, meu lar, tudo isso me afeta mais que todas as glórias do mundo celestial; sim, mais que a própria visão beatífica; simplesmente porque a terra está próxima, e o céu, distante. Feliz o dia em que serei levado ao alto nas asas dos anjos para habitar eternamente junto de meu Senhor, aquecer-me ao sol de seu sorriso e perder-me no esplendor inefável de seu formoso semblante. Vemos, portanto, a causa do esquecimento; envergonhemo-nos dela; entristeçamo-nos por negligenciarmos tanto nosso Senhor e atentemos agora para sua palavra: “Fazei isto em memória de mim”, esperando que seus sons solenes afastem de nós o demônio da vil ingratidão.
Falaremos, em primeiro lugar, do bendito objeto da memória; em segundo, dos benefícios que podemos obter ao recordar essa Pessoa; em terceiro, do auxílio gracioso concedido à nossa memória — “Fazei isto em memória de mim”; e, em quarto, da ordem amorosa: “Fazei isto em memória de mim”. Que o Espírito Santo abra meus lábios e vosso coração, para que recebamos bênçãos.
I. O GLORIOSO E PRECIOSO OBJETO DA MEMÓRIA
“Fazei isto em memória de mim.” Os cristãos possuem muitos tesouros que devem guardar no escrínio da memória. Devem lembrar-se de sua eleição — “Escolhidos por Deus antes que o tempo começasse”. Devem recordar-se de sua origem, de que foram retirados do lamaçal e arrancados de um poço horrível. Devem lembrar-se de sua vocação eficaz, pois foram chamados por Deus e resgatados pelo poder do Espírito Santo. Devem recordar-se de seus livramentos especiais — de tudo quanto foi feito por eles e de todas as misericórdias que lhes foram concedidas. Mas há alguém que devem embalsamar na alma com as especiarias mais preciosas — alguém que, acima de todos os demais dons de Deus, merece ser perpetuamente lembrado. Disse alguém, pois não me refiro a um ato, não me refiro a um feito, mas a uma Pessoa cujo retrato eu gostaria de emoldurar em ouro e pendurar no salão de honra da alma. Desejo que sejais estudiosos diligentes de todos os feitos do Messias conquistador. Desejo que conheçais profundamente a vida de nosso Amado. Mas, oh, não vos esqueçais de sua pessoa, pois o texto diz: “Fazei isto em memória de MIM”. É a gloriosa pessoa de Cristo que deve ser o objeto de nossa lembrança. É sua imagem que deve ser entronizada em cada templo do Espírito Santo.
Mas alguns dirão: “Como podemos recordar a pessoa de Cristo, se nunca a vimos? Não sabemos qual era a forma peculiar de seu rosto; cremos que seu semblante era mais formoso que o de qualquer outro homem — embora mais desfigurado pela tristeza e pelo sofrimento —, mas, como não o vimos, não podemos recordá-lo. Nunca vimos seus pés percorrendo os caminhos de sua misericórdia; nunca contemplamos suas mãos quando ele as estendia cheias de bondade amorosa; não podemos recordar a maravilhosa entonação de sua voz quando, com eloquência superior à dos serafins, enchia a multidão de assombro e prendia seus ouvidos a cada palavra; não podemos imaginar o doce sorriso que sempre pairava em seus lábios, nem o terrível franzir de sua fronte quando lançava anátemas contra os fariseus; não podemos recordá-lo em seus sofrimentos e agonias, pois nunca o vimos”. Bem, amados, suponho que seja verdade que não podeis recordar sua aparência visível, pois ainda não havíeis nascido. Mas não sabeis que até o apóstolo declarou que, embora tivesse conhecido Cristo segundo a carne, dali em diante já não o conheceria desse modo? A aparência natural, a raça, a linhagem, a pobreza, as vestes humildes, nada disso tinha importância na avaliação que o apóstolo fazia de seu Senhor glorificado. Assim, embora não o conheçais segundo a carne, podeis conhecê-lo segundo o espírito; dessa maneira, podeis recordar Jesus agora tanto quanto Pedro, Paulo, João, Tiago ou qualquer daqueles privilegiados que outrora seguiram seus passos, caminharam a seu lado ou reclinaram a cabeça sobre seu peito. A memória aniquila a distância e transpõe o tempo, e pode contemplar o Senhor, embora ele esteja exaltado em glória.
Ah! Empreguemos cinco minutos recordando Jesus. Recordemo-lo em seu batismo, quando, ao descer às águas do Jordão, ouviu-se uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Contemplai-o emergindo das águas, ainda gotejante! Certamente, as águas conscientes devem ter corado por conterem seu Deus. Por um instante, ele repousou sob suas ondas, a fim de consagrar o sepulcro do batismo, no qual aqueles que morreram com Cristo são sepultados com ele. Recordemo-lo no deserto, para onde se dirigiu imediatamente após sua imersão. Oh! Muitas vezes tenho pensado naquela cena no deserto, quando Cristo, exausto e fatigado da jornada, se assentou, talvez sobre as raízes retorcidas de alguma árvore antiga. Havia jejuado quarenta dias e estava faminto quando, no extremo de sua fraqueza, apareceu o espírito maligno. Talvez este tivesse ocultado sua realeza demoníaca sob a aparência de algum velho peregrino e, apanhando uma pedra, dissesse: “Peregrino fatigado, se és o Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão”. Parece-me vê-lo, com seu sorriso astuto e seu olhar malicioso, enquanto segurava a pedra e dizia: “Se” — esse se blasfemo! — “se és o Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme numa refeição para mim e para ti, pois ambos estamos famintos, e será um ato de misericórdia; podes fazê-lo facilmente; basta dizer uma palavra, e ela será como o pão do céu; comeremos dela, e tu e eu seremos amigos para sempre”. Mas Jesus respondeu — e, oh, com que doçura o disse! —: “Não só de pão viverá o homem”. Oh! Com que magnificência Cristo combateu o tentador! Jamais houve batalha semelhante. Foi um duelo corpo a corpo, um combate singular, quando o leão campeão do abismo e o poderoso Leão da tribo de Judá lutaram entre si. Espetáculo esplêndido! Os anjos permaneceram ao redor, contemplando a cena, como os homens de outrora se assentavam para assistir aos torneios de guerreiros famosos. Ali Satanás reuniu todas as suas forças; ali Apoliom concentrou todo o seu poder satânico para, naquela luta gigantesca, derrubar a descendência da mulher. Mas Jesus era mais que páreo para ele; no combate, aplicou-lhe um golpe mortal e saiu mais que vencedor. Cordeiro de Deus! Recordarei tuas lutas no deserto quando voltar a combater Satanás. Quando novamente enfrentar o rugidor Diabolus, olharei para aquele que venceu de uma vez por todas e esmagou a cabeça do dragão com seus poderosos golpes.
Além disso, suplico-vos que o recordeis em todas as suas tentações diárias e provações de cada hora, naquela luta que se estendeu por toda a sua vida. Oh! Que poderosa tragédia foi a morte de Cristo! E sua vida também, não foi? Iniciada com um cântico, encerrou-se com um brado: “Está consumado!”. Começou numa manjedoura e terminou numa cruz; mas, oh, que triste intervalo entre ambas! Oh! As sombrias cenas de perseguição, quando seus amigos o abominavam; quando seus inimigos o fitavam com semblantes ameaçadores enquanto ele passava pelas ruas; quando ouvia os silvos da calúnia e era mordido pelos dentes imundos da inveja; quando a difamação dizia que ele tinha demônio e estava louco, que era beberrão e dado ao vinho; e quando sua alma justa se afligia com os caminhos dos perversos. Oh! Filho de Deus, preciso recordar-te; não posso deixar de recordar-te quando penso naqueles anos de trabalho e tribulação que viveste por minha causa. Mas conheceis meu tema predileto — o lugar onde sempre consigo recordar melhor a Cristo. É um jardim sombrio, repleto de oliveiras. Oh, aquele lugar! Quem me dera possuir eloquência para levar-vos até lá. Oh! Se o Espírito tão somente nos tomasse e nos colocasse junto aos montes de Jerusalém, eu diria: vede, ali corre o ribeiro de Cedrom, que o próprio Rei atravessou; e ali podeis ver as oliveiras. Possivelmente, foi ao pé daquela oliveira que os três discípulos se deitaram quando adormeceram; e ali, ah, ali vejo gotas de sangue. Detém-te aqui um instante, ó minha alma; aquelas gotas de sangue — tu as vês? Observa-as; não são sangue de feridas; são o sangue de um homem cujo corpo ainda não fora ferido. Ó minha alma, imagina-o quando se ajoelhou em agonia e suou — suou porque lutava com Deus; suou porque agonizava diante de seu Pai. “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice!” Ó Getsêmani! Tuas sombras são profundamente solenes para minha alma. Mas, ah, aquelas gotas de sangue! Certamente, ali se encontra o ápice do sofrimento; ali está o último dos poderosos atos desse maravilhoso sacrifício. Poderá o amor descer mais fundo que isso? Poderá humilhar-se a atos ainda maiores de misericórdia? Oh! Se eu tivesse eloquência, daria uma língua a cada gota de sangue que ali se encontra, para que vosso coração se insurgisse contra vossa indolência e frieza e se expressasse numa lembrança ardente e fervorosa de Jesus. E agora, adeus, Getsêmani.
Mas vos levarei a outro lugar, onde ainda contemplareis o “Homem de Dores”. Conduzir-vos-ei ao pretório de Pilatos e vos farei vê-lo suportar as zombarias dos soldados cruéis: os golpes das luvas de ferro; os socos de punhos cerrados; a vergonha; os cuspes; os cabelos arrancados; as bofetadas brutais. Oh! Não podeis imaginar o Rei dos Mártires, despido de suas vestes, exposto aos olhares de homens semelhantes a demônios? Não vedes a coroa sobre suas têmporas, cada espinho agindo como uma lanceta a perfurar-lhe a cabeça? Não percebeis seus ombros dilacerados e os ossos brancos despontando da carne ensanguentada? Oh, Filho do Homem! Vejo-te açoitado e flagelado com varas e chicotes; como poderei, daqui em diante, deixar de recordar-te? Minha memória seria mais traiçoeira que Pilatos se não clamasse continuamente: Ecce Homo — “Eis o homem”.
Agora, completai a cena de sofrimento contemplando o Calvário. Pensai nas mãos traspassadas e no lado ensanguentado; pensai no sol escaldante e, depois, nas trevas completas; recordai a febre abrasadora e a sede terrível; pensai no grito derradeiro: “Está consumado!”, e nos gemidos que o precederam. Este é o objeto da memória. Jamais nos esqueçamos de Cristo. Suplico-vos, por amor a Jesus, concedei-lhe o primeiro lugar em vossas lembranças. Não permitais que a pérola de grande preço escape de vossa mão descuidada e caia no oceano tenebroso do esquecimento.
Não posso, porém, deixar de dizer uma coisa antes de encerrar este ponto: alguns de vós podeis muito bem guardar o que acabo de dizer, porque já o lestes muitas vezes e o ouvistes anteriormente; contudo, ainda assim não podeis recordar espiritualmente coisa alguma a respeito de Cristo, porque ele nunca se manifestou a vós, e não podemos recordar aquilo que nunca conhecemos. Graças a Deus, não falo de todos vós, pois neste lugar há um precioso remanescente segundo a eleição da graça, e é a ele que me dirijo. Talvez eu pudesse falar-vos de algum velho celeiro, de alguma sebe ou cabana; ou, se morastes em Londres, de algum sótão, de alguma viela ou rua escura onde encontrastes Cristo pela primeira vez; ou de alguma capela na qual entrastes por acaso, e poderíeis dizer: “Graças a Deus, consigo lembrar-me do banco onde ele me encontrou pela primeira vez, sussurrou palavras de amor à minha alma e me disse que me havia comprado”.
“Lembras-te do lugar, daquele chão,
Onde Jesus veio encontrar-te?”
Sim, e eu gostaria de construir um templo naquele lugar e erguer ali algum monumento, onde Jeová-Jesus falou pela primeira vez à minha alma e se manifestou a mim. Mas ele se revelou a vós mais de uma vez, não é verdade? E podeis recordar dezenas de lugares onde o Senhor vos apareceu outrora, dizendo: “Com amor eterno eu te amei”. Se nem todos podeis recordar essas coisas, alguns de vós certamente podeis; e estou certo de que me compreenderão quando digo: vinde e fazei isto em memória de Cristo — em memória de todas as suas amorosas visitas, das doces palavras com que vos cortejou, dos sorrisos encantadores que vos dirigiu, de tudo quanto ele disse e comunicou à vossa alma. Recordai todas essas coisas nesta noite, se é possível à memória reunir a imensa soma da graça. “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.”
II. OS BENEFÍCIOS QUE PODEMOS OBTER DE UMA LEMBRANÇA AMOROSA DE CRISTO
O amor nunca pergunta: “Cui bono?” O amor nunca indaga que benefício obterá de amar. O amor, por sua própria natureza, é desinteressado. Ama por causa daquele a quem ama, e por nenhuma outra razão. O cristão não precisa de argumentos que o levem a amar Cristo, assim como uma mãe não precisa de argumentos que a levem a amar seu filho. Ela o ama porque amar faz parte de sua natureza. A criatura nascida de novo necessariamente ama Cristo; não pode deixar de amá-lo. Oh! Quem pode resistir aos encantos incomparáveis de Jesus Cristo? O mais formoso entre dez mil formosos, o mais amável entre dez mil amados. Quem pode recusar-se a adorar o príncipe da perfeição, o espelho da beleza, o majestoso Filho de Deus? Contudo, pode ser-nos proveitoso observar os benefícios de recordar Cristo, pois não são poucos nem pequenos.
Em primeiro lugar, a lembrança de Jesus tenderá a dar-vos esperança quando estiverdes sob o peso de vossos pecados. Observai alguns personagens aqui nesta noite. Entra uma pobre criatura. Olhai para ela! Durante o último mês, descuidou de si mesma; parece que mal tem comido o pão de cada dia. Que se passa contigo? “Oh!”, responde ele, “tenho vivido sob o sentimento de minha culpa; tenho lamentado repetidas vezes, pois temo jamais poder ser perdoado; outrora pensei que fosse bom, mas tenho lido a Bíblia e descobri que meu coração é ‘enganoso […] mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto’; tentei reformar-me, mas, quanto mais tento, mais fundo afundo no lamaçal; certamente não há esperança para mim. Sinto que não mereço misericórdia alguma; parece-me que Deus terá de destruir-me, pois declarou: ‘A alma que pecar, essa morrerá’; e morrer é o que me espera, ser condenado é o que me espera, pois sei que transgredi a lei de Deus”. Como consolareis tal homem? Que palavras ternas lhe direis para dar-lhe paz? Eu sei! Direi a ele que se lembre de Cristo. Direi que há alguém que pagou a imensa dívida de sofrimento. Sim, eu te direi, ó bêbado, blasfemador, ou seja lá o que tenhas sido — eu te direi que há alguém que realizou por ti uma expiação completa; se tão somente creres nele, estarás seguro para sempre. Lembra-te dele, pobre criatura agonizante e sem esperança, e serás levado a cantar de alegria e júbilo. Vede, o homem crê e, em êxtase, exclama: “Oh! Vinde, ouvi, todos vós que temeis a Deus, e vos contarei o que tem ele feito por minha alma”.
“Contai aos pecadores, contai:
Estou, estou livre do inferno.”
Aleluia! Deus dissipou meus pecados como uma nuvem espessa! Eis um benefício que podemos obter da lembrança de Cristo. Ela nos dá esperança quando sentimos o peso do pecado e nos diz que ainda há misericórdia.
Agora, preciso apresentar outro personagem. E que diz ele? “Não consigo suportar mais; tenho sido perseguido e maltratado porque amo Cristo; sou zombado, ridicularizado e desprezado. Tento suportar tudo, mas realmente não consigo. Um homem não deixa de ser homem; pisai num verme, e ele se voltará contra vós; minha paciência se esgotou por completo; encontro-me numa situação tão peculiar que não adianta aconselhar-me a ter paciência, pois não consigo tê-la; meus inimigos estão me caluniando, e não sei o que fazer”. Que diremos a esse pobre homem? Como lhe daremos paciência? Que lhe pregaremos? Ouvistes o que ele tem a dizer sobre si mesmo. Como o consolaremos nessa grande provação? Se sofrêssemos o mesmo, que desejaríamos ouvir de algum amigo? Diremos que outras pessoas suportaram tanto quanto ele? Ele responderá: “Vós todos sois consoladores molestos!” Não, eu lhe direi: “Irmão, estás sendo perseguido; mas lembra-te das palavras de Jesus Cristo, de como ele nos falou, dizendo: ‘Regozijai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu; pois dessa forma perseguiram os profetas que vieram antes de vós’”. Meu irmão! Pensa naquele que, ao morrer, orou por seus assassinos, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Tudo quanto tens de suportar não é nada comparado a seus imensos sofrimentos. Cobra ânimo; enfrenta tudo novamente como homem; nunca te declares vencido. Não deixes que tua paciência se esgote; toma diariamente tua cruz e segue Cristo. Faz dele teu lema; mantém-no diante dos olhos. E agora, depois de receber esse conselho, ouvi o que o homem dirá. Imediatamente vos declara: “Salve, perseguição; bem-vinda, vergonha. A desonra por Jesus será minha honra, e o desprezo, minha maior glória.
‘Agora, pelo amor que tenho a seu nome,
O que era lucro considero perda;
Derramo desprezo sobre toda a minha vergonha
E cravo minha glória em sua cruz’”.
Vedes, pois, outro efeito da lembrança de Cristo. Ela tende a dar-nos paciência sob a perseguição. É um cinturão que nos cinge os lombos, para que nossa fé persevere até o fim.
Queridos amigos, ocuparia demasiado vosso tempo se examinasse os diversos benefícios; por isso, mencionarei rapidamente apenas mais uma ou duas bênçãos que podemos receber. Ela nos dará força na tentação. Creio que todo homem passa por momentos em que enfrenta uma temporada de tentações terríveis. Nunca houve embarcação que singrasse o imenso oceano sem que, de tempos em tempos, tivesse de lutar contra alguma tempestade. Ali está ela, a pobre barca, sacudida para cima e para baixo pelas ondas enfurecidas. Vede como a lançam de uma onda para outra e a arremessam até as alturas do céu. Os ventos zombam dela. O velho Oceano toma o navio entre seus dedos gotejantes e o sacode de um lado para outro. Como os marinheiros gritam de medo! Sabeis como derramar óleo sobre as águas para que tudo se aquiete? Sim. Uma única palavra poderosa bastará. Que Jesus venha; que o pobre coração se lembre de Jesus, e então o navio navegará com firmeza, pois Cristo estará ao leme. Os ventos não soprarão mais, pois Cristo lhes ordenará que fechem suas bocas poderosas e nunca mais perturbem seu filho. Nada pode dar-vos força na tentação e ajudar-vos a atravessar a tempestade como o nome de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. E, além disso, que consolo vos dará o nome de Cristo no leito de enfermidade! Ele vos ajudará a ser pacientes com aqueles que cuidam de vós e a suportar os sofrimentos que tendes de enfrentar; sim, acontecerá convosco que tereis mais esperança na enfermidade que na saúde e encontrareis uma doçura bendita no amargor do fel. Em vez de sentirdes o gosto de vinagre na boca por causa de vossa tribulação, encontrareis a doçura do mel em meio a todas as provações e dificuldades que Deus vos enviar, “pois ele dá cânticos durante a noite”.
Mas, para encerrar os benefícios da lembrança de Cristo, sabeis onde ela vos será mais proveitosa que em qualquer outro lugar? Sabeis em que lugar mais vos alegrareis por vos haverdes lembrado dele? Eu vos levarei até lá. Silêncio! Silêncio! Estais subindo as escadas que conduzem a um quarto solitário. As cortinas estão baixadas. Alguém está ali, chorando. Há crianças ao redor da cama, e amigos também estão presentes. Vedes aquele homem deitado? Sois vós mesmos. Olhai para ele; seus olhos são vossos olhos; suas mãos são vossas mãos. Sois vós mesmos. Em breve estareis ali. Homem! És tu mesmo. Consegues ver? É um retrato de ti mesmo. Aqueles são teus olhos, que em breve se fecharão na morte; tuas mãos, que jazerão rígidas e imóveis; teus lábios, que ficarão secos e ressequidos, e entre os quais colocarão gotas de água. Aquelas são tuas palavras, que gelam no ar e caem tão lentamente de teus lábios moribundos. Pergunto-me se conseguirás lembrar-te de Cristo naquele momento. Se não conseguires, vou retratar-te. Contempla aquele homem, sentado ereto na cama; vê seus olhos saltando das órbitas. Seus amigos estão todos alarmados; perguntam-lhe o que está vendo. Ele reprime a emoção e lhes diz que não vê nada. Eles sabem que há alguma coisa diante de seus olhos. Ele se sobressalta novamente. Deus bondoso! Que é aquilo que vejo — que me parece ver? Que é? Ah! Um suspiro! A alma partiu. O corpo permanece ali. Que viu ele? Viu um trono de juízo em chamas; viu Deus assentado nele, com seu cetro; viu livros abertos; contemplou o trono de Deus e viu um mensageiro, com uma espada erguida no ar para abatê-lo. Homem! És tu mesmo; em breve estarás ali. Esse quadro é teu próprio retrato. Fotografei-te tal como és. Olha para ele. É assim que estarás dentro de alguns anos — sim, dentro de alguns dias. Mas, se conseguires lembrar-te de Cristo, queres saber o que farás? Oh! Sorrirás em meio à tribulação. Deixa-me retratar um homem assim. Colocam travesseiros atrás dele; ele se senta na cama, toma a mão da pessoa amada e diz: “Adeus! Não choreis por mim; o bondoso Deus enxugará dos olhos toda lágrima”. Dirige-se aos que estão ao redor: “Preparai-vos para vos encontrardes com vosso Deus e segui-me à terra da bem-aventurança”. Agora ele pôs sua casa em ordem. Tudo está feito. Contemplai-o, como o bom e velho Jacó, apoiado em seu bordão, prestes a morrer. Vede como seus olhos brilham; ele bate palmas; todos se reúnem ao redor para ouvir o que tem a dizer; ele sussurra: “Vitória!” e, reunindo um pouco mais de forças, exclama: “Vitória!” e, por fim, com seu último suspiro: “Vitória, por meio daquele que nos amou!” E morre. Este é um dos grandes benefícios que podemos obter da lembrança de Cristo: sermos capacitados a enfrentar a morte com bendita serenidade.
III. UM DOCE AUXÍLIO À MEMÓRIA
Na escola, usávamos certos livros chamados “Auxílios à Memória”. Estou certo de que me confundiam mais do que ajudavam. Sua utilidade equivalia à de um feixe de bordões debaixo do braço de um viajante: é verdade que ele poderia usá-los, um de cada vez, para apoiar-se ao caminhar, mas, enquanto isso, carregava uma porção de outros de que jamais precisaria. Nosso Salvador, porém, foi mais sábio que todos os nossos mestres, e os meios que instituiu para fazer-nos lembrar dele são auxílios verdadeiros e eficazes à memória. Suas provas de amor falam uma linguagem inconfundível e conquistam docemente nossa atenção.
Contemplai todo o mistério da sagrada Eucaristia. Temos pão e vinho, que são emblemas vivos do corpo e do sangue de Jesus. O poder que possuem para despertar a lembrança consiste no apelo que fazem aos sentidos. Aqui, os olhos, as mãos e a boca encontram uma ocupação jubilosa. O pão é saboreado e, ao entrar no corpo, atua sobre o paladar, um dos sentidos mais poderosos. O vinho é sorvido — o ato é palpável; sabemos que estamos bebendo, e assim os sentidos, que normalmente são entraves para a alma, tornam-se asas que elevam a mente à contemplação. Além disso, grande parte da influência dessa ordenança encontra-se em sua simplicidade. Como é belamente simples a cerimônia — pão partido e vinho derramado. Não há que chamar uma coisa de cálice, outra de patena e outra de hóstia. Aqui nada existe que sobrecarregue a memória — há apenas o pão e o vinho, em sua simplicidade. Seria preciso não ter memória alguma para não se lembrar de haver comido pão e bebido vinho. Observai, ainda, a extraordinária riqueza desses sinais — como são repletos de significado. Pão partido — assim foi partido vosso Salvador. Pão para ser comido — assim sua carne é verdadeira comida. Vinho derramado, o sumo da uva esmagada — assim vosso Salvador foi esmagado sob os pés da justiça divina: seu sangue é vosso vinho mais doce. Vinho para alegrar vosso coração — assim faz o sangue de Jesus. Vinho para fortalecer-vos e revigorar-vos — assim faz o sangue do poderoso sacrifício. Oh! Fazei desse pão e desse vinho, nesta noite, um doce e bendito auxílio para que vossa alma se lembre daquele Homem querido que outrora morreu no Calvário. Como a pequena cordeira, agora comeis o pão de vosso Senhor e bebeis de seu copo. Lembrai-vos da mão que vos alimenta.
Mas, antes que possais recordar devidamente Cristo aqui, deveis pedir a assistência do Espírito Santo. Creio que deve haver uma preparação antes da Ceia do Senhor. Não creio na preparação da senhora Toogood, que passou uma semana preparando-se e, ao descobrir que aquele não era o domingo da ordenança, disse que havia perdido a semana inteira. Não creio nesse tipo de preparação, mas creio numa santa preparação para a Ceia do Senhor: quando podemos, num sábado, se possível, passar uma hora em tranquila meditação sobre Cristo e a paixão de Jesus; quando, especialmente na tarde de domingo, podemos assentar-nos devotamente para contemplá-lo, então essas cenas se tornam realidades, e não encenações vazias, como são para alguns. Temo muito que haja entre vós alguns que comerão o pão nesta noite sem pensar em Cristo; alguns que beberão o vinho sem pensar em seu sangue; e sereis hipócritas vis enquanto o fizerdes. Acautelai-vos: “Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe” — o quê? — “juízo para si”. Esta é uma palavra clara e direta; prestai atenção ao que estais fazendo! Não o façais descuidadamente, pois, de todas as coisas sagradas que existem na terra, esta é a mais solene. Ouvimos falar de homens que se uniram numa aliança extraindo sangue dos próprios braços e bebendo-o uns após os outros; aquilo foi extremamente horrível, mas, ao mesmo tempo, extremamente solene. Aqui, deveis beber o sangue das veias de Cristo e sorver o regato que jorrou de seu próprio coração amoroso. Não é isso algo solene? Deveria alguém brincar com isso? Ir à igreja e participar da ordenança por seis pence? Vir juntar-se a nós apenas para receber benefícios de caridade? Que infâmia! É uma terrível blasfêmia contra o Deus Todo-Poderoso; e, entre os condenados no inferno, estarão entre os mais amaldiçoados aqueles que ousaram assim escarnecer da santa ordenança de Deus. Esta é a lembrança de Cristo. “Fazei isto em memória de mim.” Se não podeis fazê-lo em memória de Cristo, suplico-vos, pelo amor que tendes à vossa própria alma, que não o façais de modo algum. Oh! Homem ou mulher regenerado, não entreis no átrio dos sacerdotes, para que o Deus de Israel não se indigne com a intrusão.
IV. UMA DOCE ORDEM
E agora, para concluir, temos aqui UMA DOCE ORDEM: “Fazei isto em memória de mim”. A quem se aplica essa ordem? “Fazei isto VÓS.” É importante responder a esta pergunta: “Fazei isto VÓS.” A quem se refere? A vós, que depositais vossa confiança em mim. “Fazei isto em memória de mim.” Pois bem, deveis imaginar Cristo falando convosco nesta noite, dizendo: “Fazei isto em memória de mim”. Cristo vos observa à porta. Alguns de vós vão para casa, e Cristo diz: “Pensei que tivesse dito: ‘Fazei isto em memória de mim’”. Alguns de vós permaneceis sentados como espectadores. Cristo se assenta ao vosso lado e diz: “Pensei que tivesse dito: ‘Fazei isto em memória de mim’”. “Senhor, sei que disseste.” “Então, tu me amas?” “Sim, eu te amo; eu te amo, Senhor; tu sabes que te amo.” “Mas eu te digo: vai até lá, come daquele pão, bebe daquele vinho.” “Não gostaria de fazê-lo, Senhor; teria de ser batizado se me unisse àquela igreja, e tenho medo de apanhar um resfriado ou de que fiquem olhando para mim. Tenho medo de apresentar-me diante da igreja, pois acho que me fariam algumas perguntas às quais eu não saberia responder.” “Como?”, diz Cristo, “é só isso que me amas? É só esse o teu afeto por teu Senhor? Oh! Como és frio para comigo, teu Salvador! Se eu não te tivesse amado mais que isso, estarias no inferno; se essa fosse toda a extensão de meu afeto, eu não teria morrido por ti. Um grande amor suportou grandes agonias; e é esta toda a tua gratidão para comigo?” Alguns de vós não vos sentis envergonhados depois disso? Não dizeis em vosso coração: “Isso está realmente errado”? Cristo diz: “Fazei isto em memória de mim”, e não vos envergonhais de ficar de fora? Faço um convite franco a todos os que amam Jesus para que venham a esta mesa. Suplico-vos que não vos priveis desse privilégio recusando-vos a unir-vos à igreja. Se ainda viveis em negligência pecaminosa dessa ordenança, permiti-me lembrar-vos de que Cristo disse: “Qualquer que se envergonhar de mim nesta geração, dele também me envergonharei quando vier na glória de meu Pai”. Oh, soldado da cruz, não te comportes como covarde!
E, para não vos induzir a nenhum equívoco, preciso acrescentar apenas mais uma coisa, e então terminarei. Quando falo de participardes da ordenança da Ceia do Senhor, não imagineis, nem por um instante, que desejo fazer-vos supor que exista nela algum poder salvador. Alguns dizem que a ordenança do batismo não é essencial; tampouco o é a ordenança da Ceia do Senhor, se a considerarmos do ponto de vista da salvação. Ser salvo por comer um pedaço de pão! Que absurdo, que rematado absurdo! Ser salvo por beber uma gota de vinho! Ora, isso é demasiado absurdo para que o bom senso admita sequer discuti-lo. Sabeis que é o sangue de Jesus Cristo; é o mérito de suas agonias; é aquilo que seus sofrimentos adquiriram; é o que ele fez, e somente isso, que pode salvar-nos. Entregai-vos a ele; entregai-vos inteiramente, e então estareis salvos. Ouves, pobre pecador convencido de tua culpa, qual é o caminho da salvação? Se algum dia eu te encontrar no outro mundo, talvez me digas: “Passei uma noite, senhor, ouvindo sua pregação, e o senhor nunca me disse qual era o caminho para o céu”. Pois bem, tu o ouvirás. Crê no Senhor Jesus Cristo, confia em seu nome, encontra refúgio em sua cruz, apoia-te no poder de seu Espírito, confia em sua justiça, e estarás salvo, fora do alcance da vingança da lei e do poder do inferno. Mas confia em tuas próprias obras, e estarás perdido tão certamente quanto estás vivo.
Agora, ó eternamente glorioso Filho de Deus, aproximamo-nos de tua mesa para banquetear-nos com as iguarias da graça; permite que cada um de nós, confiando em teu Espírito, exclame com as palavras de um de teus próprios poetas:
“De ti me lembrarei, de todas as tuas dores,
E de todo o teu amor por mim —
Sim, enquanto houver pulso ou alento,
De ti me lembrarei.
E quando estes lábios enfraquecidos emudecerem,
E pensamento e memória fugirem;
Quando vieres em teu reino,
Jesus, lembra-te de mim!”

