UM SERMÃO PREGADO NA MANHÃ DO DIA DO SENHOR, 30 DE OUTUBRO DE 1870,
POR C. H. SPURGEON,
NO TABERNÁCULO METROPOLITANO, NEWINGTON.
“Para louvor da glória de sua graça.” — Efésios 1.6.
Nenhuma verdade é ensinada com mais clareza na Palavra de Deus do que esta: a salvação dos pecadores se deve inteiramente à graça de Deus. Se há algo de claro nas Escrituras, é que nelas se declara expressamente que os homens se perdem por suas próprias obras, mas são salvos pelo favor gratuito de Deus; sua ruína é merecida com toda a justiça, mas sua salvação é sempre fruto da misericórdia imerecida de Deus. Expressa de diversas maneiras, porém sempre com clareza e firmeza, essa verdade é declarada repetidas vezes. Contudo, por mais evidente que seja, e embora devesse influenciar cada parte de nossas convicções doutrinárias, ela é frequentemente esquecida. Muitas das heresias que dividem a igreja cristã nascem de uma compreensão nebulosa desse ponto. Se tão somente a palavra “graça” fosse devidamente lida, observada e aprendida, todo o grande sistema evangélico seria sustentado com muito mais firmeza e pregado com muito mais clareza; mas esquecer que “pela graça sois salvos” é falta comum a homens de todas as condições. Os pecadores se esquecem disso e procuram a salvação pelas obras da lei; recusam-se a render-se à graça soberana de Deus e se entrincheiram atrás da cerca cambaleante de sua própria justiça. E os santos também se esquecem disso; por conseguinte, sua mente se obscurece, seu espírito cai na servidão da lei e, quando deveriam regozijar-se incessantemente no Senhor, tornam-se desanimados e cheios de temores incrédulos. Irmãos, estou incessantemente pregando aqui as doutrinas da graça, que se tornam cada vez mais preciosas para mim; mas, por mais vezes que as pregue, confio que não lhes sejam enfadonhas; e, se o fossem, esse triste fato não me levaria a calar-me a respeito delas, mas me impeliria, antes, a proclamá-las com maior frequência e fervor, pois o enfado de vocês seria prova evidente de que precisam ouvi-las de novo, e de novo, e de novo, até que suas almas encontrem nelas deleite. Não há, fora do céu, música comparável ao som da palavra “graça”, salvo a melodia celestial do nome de Jesus. Um dos antigos pais foi chamado Doutor Angélico; certamente o mais angélico é quem mais prega sobre a graça. Entre os atributos, a graça é Crisóstomo, pois tem boca de ouro; é Barnabé, pois está cheia de consolação; é Boanerges, pois troveja contra a justiça própria. É a estrela da esperança do homem, a fonte de sua vida eterna, a semente de sua futura bem-aventurança.
I. Extrairemos do texto nossa primeira observação. NA SALVAÇÃO COMO UM TODO, VEMOS A GLÓRIA DA GRAÇA DE DEUS.
Assim nos diz o apóstolo: “Para louvor da glória de sua graça”. Cada atributo de Deus tem sua oportunidade própria de se manifestar; cada qualidade da natureza divina possui uma glória, e o Senhor cuida para que chegue o momento em que essa glória seja vista de tal maneira que se torne motivo de louvor entre as criaturas inteligentes. Há grande glória em seu poder, e há muito tempo aquele que fala, e tudo se faz, que ordena, e tudo passa a existir, criou os céus e a terra. Foi um grande triunfo do poder, e outros grandiosos atributos concorreram para tornar essa manifestação ainda mais gloriosa; ali estava a sabedoria para equilibrar as nuvens, a prudência traçou um círculo sobre a face do abismo, a verdade determinou os tempos e as estações, e a bondade preparou as regiões habitáveis da terra para os seres vivos e para os filhos dos homens. Todos os atributos de Deus foram exercidos, mas o poder foi grandemente exaltado, o poder que criou por uma palavra e que, pelo simples exercício de sua vontade, fez todas as coisas surgirem. Naquela ocasião, quando a glória do poder de Deus foi revelada, “as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus”. Eles viram a glória do poder divino e lhe prestaram jubilosa homenagem. Naquela ocasião solene, muitos dos atributos de Deus foram exaltados, mas não havia lugar para “o louvor da glória de sua graça”. A graça não encontrou, numa criação pura, objetos nos quais pudesse manifestar toda a sua glória; havia lugar para a benignidade, a benevolência, o favor, a bondade e o amor, mas a graça, em seu sentido mais verdadeiro e profundo, necessita de criaturas que nada mereçam, sobre as quais possa atuar, de criaturas pecadoras que possam ser perdoadas, de criaturas caídas que possam ser restauradas, de criaturas condenadas que possam ser justificadas; e nenhuma criatura assim existia na criação tal como saiu das mãos divinas.
Posteriormente, o Senhor encontrou ocasião para manifestar a glória de sua justiça. Não sabemos precisamente quando nem como, pois o relato não é completo nem claro, mas conhecemos os contornos deste fato: houve certa vez uma grande rebelião no céu; algumas daquelas inteligências resplandecentes que conhecemos como anjos, por um motivo ou outro, revoltaram-se contra o governo divino sob a liderança daquele resplandecente filho da alva que agora é chamado para sempre de Príncipe das Trevas. Houve guerra no céu contra o domínio do Eterno. Então partiram os raios da força de Jeová, e os rebeldes foram imediatamente subjugados por seu poder irresistível. Então sua justiça resplandeceu em toda a sua glória, pois lemos acerca da cova escavada para os ímpios e do fogo eterno do inferno, preparado para o diabo e seus anjos. Lançados das ameias do céu, caíram nas profundezas da perdição; expulsos do trono de sua glória, tornaram-se errantes sem esperança pelos domínios da miséria. O louvor da glória da justiça divina pode ser lido nestas terríveis palavras: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia”. A justiça divina ainda será manifestada naquele dia tremendo em que o grande trono branco será estabelecido, todas as nações serão reunidas diante dele e os injustos receberão a vingança devida por sua rebelião contra a majestade de Deus. Glorioso será o atributo da justiça “quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”. Em tudo isso não vemos nenhuma revelação da “glória de sua graça”. Aos anjos caídos ele dispensou justiça; sobre eles a santidade lançou seu fogo consumidor, mas nenhuma palavra de misericórdia foi ouvida, nenhuma esperança de restauração foi oferecida; o Mediador não socorreu os anjos, mas socorreu a descendência de Abraão. Assim também, no último e terrível julgamento, a justiça, não a misericórdia, dominará aquela hora; ele retribuirá a cada um segundo as suas obras. Contudo, é necessário que haja uma oportunidade para glorificar o atributo da graça. Sempre que podemos perceber claramente que um atributo existe em Deus, podemos razoavelmente inferir que haverá algo sobre o qual esse atributo se exercerá. É sempre uma circunstância que inspira esperança saber que há misericórdia em Deus e que essa misericórdia dura para sempre; pois parece inevitável que a misericórdia seja exercida e, portanto, quando vemos o pecado no mundo, esperamos ver a misericórdia manifestar seu poder. Vejo ali, no dispensário do cirurgião, um remédio poderoso, e isso me sugere que determinada doença chega ao seu conhecimento; e, quando ela se alastra, naturalmente espero ver o remédio ser muito utilizado. Quando vocês leem acerca da graça no coração de Deus, da compaixão, do favor gratuito, da misericórdia soberana, está claramente implícito que haveria culpados sobre os quais esse favor gratuito seria, no devido tempo, derramado. Assim, descobrimos que Deus escolheu a salvação dos filhos dos homens como palco para a manifestação de sua graça, a fim de que, em seus eleitos, sua graça possa revelar sua glória, assim como, em outros acontecimentos, foi revelada a glória de seu poder ou de sua justiça.
Quero que observem que a manifestação da glória de qualquer atributo não é mera prova de que esse atributo existe, mas uma revelação e exaltação extraordinárias desse atributo, de tal modo que desperte a atenção e o assombro de todos os que a contemplam. Permitam-me voltar mais uma vez à manifestação do poder e recordar-lhes um acontecimento memorável na história deste mundo, ocorrido no período abrangido por nossos próprios registros históricos. Lemos a respeito de Faraó: “Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder”. Faraó, homem de temperamento singularmente obstinado, de espírito altivo e orgulhoso, resolveu resistir às ordens de Jeová e manter Israel em escravidão. Jeová determinou revelar nele o que seu poder podia fazer. Depois de primeiro adverti-lo por meio de seus servos Moisés e Arão, que realizaram grandes prodígios diante dele, o Senhor começou a tratar com aquele rei soberbo. Transformou em sangue as águas do Egito e matou seus peixes; a terra produziu rãs em abundância, até nos aposentos de seus reis. “Ele falou, e vieram enxames de moscas e piolhos em todo o seu território. Por chuva deu-lhes saraiva e labaredas de fogo, na sua terra. Feriu-lhes as vinhas e os figueirais e quebrou as árvores dos seus termos. Ele falou, e vieram gafanhotos e pulgões em quantidade sem número, os quais devoraram toda a erva da sua terra e comeram o fruto dos seus campos”. Fez descer densas trevas sobre toda a terra, trevas que se podiam apalpar. O coração do rei se acovardou por algum tempo, mas, numa obstinação desesperada, ele endureceu ainda mais o coração, revestiu-se de insolência e tornou a dizer: “Quem é Jeová para que eu lhe ouça a voz? Não deixarei ir o seu povo”. Descarga após descarga, a artilharia do céu foi lançada contra ele; o Senhor, poderoso na batalha, não concedeu trégua ao inimigo. Uma a uma, trouxe suas tropas de reserva e pôs novas flechas no arco. O monarca arrogante viu-se aturdido pelos golpes repetidos e desnorteado pelos terrores de seu adversário onipotente. Por fim, veio o golpe decisivo que pôs o tirano de joelhos. O anjo destruidor foi enviado para ferir todos os primogênitos do Egito. E naquela noite terrível, de cada casa se ergueu um clamor extremamente grande e amargo; pois todos os primogênitos foram mortos, desde o primogênito de Faraó, que se assentava no trono, até o primogênito da serva que estava junto à mó. Foi então que o monarca atônito se levantou durante a noite e disse a Moisés e Arão: “Levantai-vos, saí do meio de meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; ide, servi ao SENHOR, como tendes dito”. Não tardou, porém, que Faraó endurecesse outra vez o coração e perseguisse os israelitas com cavalos e carros. Vocês conhecem a história, mas vamos contá-la uma vez mais, pois grande é o Senhor e mui digno de ser louvado, e seus poderosos feitos de outrora devem ser lembrados perpetuamente. Até no céu se cantará o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro; relembremo-lo, portanto, aqui embaixo. Vocês se lembram de como Faraó, em seu orgulho, perseguiu os filhos de Israel, dizendo: “Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; deles se fartará a minha alma; arrancarei a espada, a minha mão os destruirá”. Em sua soberba presunção, ousou seguir os escolhidos do Senhor até o coração do mar. Então “na vigília da manhã, o SENHOR, na coluna de fogo e de nuvem, viu o acampamento dos egípcios e alvoroçou-o. Emperrou-lhes as rodas dos carros e fê-los andar dificultosamente. Então, disseram os egípcios: Fujamos da presença de Israel, porque o SENHOR peleja por eles contra os egípcios”. Mas em vão se voltaram para fugir, pois, num instante, quando Moisés estendeu sua vara, as águas, por ordem de Deus, voltaram e cobriram os carros, os cavaleiros e todos os exércitos de Faraó; afundaram como chumbo nas águas impetuosas, os abismos os cobriram, e não restou deles sequer um. Então se viu a glória do poder de Jeová, e então se ouviu o louvor dessa glória, pois Miriã tomou seu tamborim e saiu dançando, enquanto as filhas de Israel a seguiam, e todas as hostes de Israel entoaram o refrão de seu cântico: “Cantai ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro”. Então se manifestou o louvor da glória do poder de Jeová. Ora, irmãos, na obra da salvação do homem vocês têm um caso semelhante, pois um atributo não é mais glorioso do que outro. “O louvor da glória de sua graça”, ao resgatar o homem da profunda ruína em que havia caído, ao entregar o Bem-Amado para sangrar e morrer, ao derrotar o pecado, a morte e o inferno, ao levar cativo o cativeiro, ao elevar-nos ao céu e tornar-nos participantes de sua glória pelos méritos de Jesus Cristo, nosso Senhor — em tudo isso, digo, a graça é tão gloriosa quanto foi o poder no mar Vermelho. Portanto, essa obra de salvação, destinada ao louvor da glória de um atributo tão grande e tão querido quanto a graça de Deus, não será coisa mesquinha, não será assunto de pouca monta, não será tema para murmúrios ou palavras ditas em voz abafada, mas algo grandioso, magnífico e glorioso. Tenho procurado imaginar o que seria a graça em sua expressão máxima; mas quem, investigando, poderá descobrir Deus? É impossível à mente humana conceber o poder em sua expressão máxima. A derrota de Faraó dá apenas uma ideia do que a onipotência do Senhor é capaz de realizar: pode reduzir todos os mundos a pó, dissolver o universo e aniquilar a criação. O poder em sua expressão máxima, quem poderá abrangê-lo? E a graça, meus irmãos, a graça em sua expressão máxima! Eu estava prestes a dizer que vocês a veem no Senhor Jesus; e estarei errado se assim falar? Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade; ele é o unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. Mas, meus irmãos, nossa mente não consegue enxergar o poder supremo da graça — o intelecto humano não é suficientemente vasto para compreendê-lo por inteiro; mas creiam-me: se em algum lugar se vê plenamente o louvor da glória da graça de Deus, é na salvação dos filhos dos homens que ele escolheu. Quando todos os escolhidos estiverem reunidos, e a igreja de Deus no céu estiver completa, sem faltar uma só pedra viva em todo o edifício, então, sobre esse edifício, estará escrita em letras luminosas esta inscrição: “Para louvor da glória de sua graça”. A obra da salvação, do princípio ao fim, em sua totalidade, foi concebida e realizada, e será aperfeiçoada para louvor da glória da graça de Deus. Isso basta quanto ao primeiro ponto. A salvação pertence ao Senhor, e nela a graça reina sem rival.
II. Em segundo lugar, ISSO É VERDADEIRO EM CADA DETALHE DA SALVAÇÃO.
Deduzo isso da posição do meu texto. O quinto versículo fala da predestinação e da adoção, e o sexto fala da aceitação no Amado; e a posição do meu texto coloca as três coisas sob a mesma inscrição: todas são “para louvor da glória de sua graça”. Irmãos, o mar é salgado em sua totalidade, e cada uma de suas gotas é salgada na mesma medida: se toda a obra da salvação provém da graça, cada detalhe dessa obra provém igualmente da graça. Os raios do sol, considerados em conjunto, possuem certas propriedades; analisem um único raio de sol e encontrarão nele todas essas propriedades. Acabo de dizer que toda a salvação poderia ser comparada a um grande templo, em cuja fachada estaria escrito: “Para louvor da glória de sua graça”; ora, alguns dos antigos edifícios orientais foram erguidos por determinados monarcas e dedicados a eles, e não apenas toda a construção se destinava à sua honra, mas cada tijolo trazia estampado o cartucho ou brasão real; não apenas a estrutura inteira, mas cada tijolo individualmente trazia a marca de seu construtor; assim também acontece com a salvação: o todo provém da graça, e cada uma de suas partes manifesta igualmente, na medida que lhe corresponde, o favor gratuito de Deus. Permitam-me começar pelo princípio e recapitular muito brevemente as diferentes etapas da salvação de um pecador.
Houve, antes de tudo, a eleição dos homens por Deus antes de todos os tempos. Foi ele quem escolheu para si um povo que proclamasse seu louvor. Essa escolha não foi feita, em medida alguma, por causa de qualquer dívida para com o homem, nem por algum mérito que existisse nos homens ou que se previsse vir a existir; foi por um ato de favor gratuito da parte de Deus que alguns foram escolhidos para se tornarem seus filhos e filhas. “Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” é a resposta do Salvador à pergunta sobre por que Deus ocultou essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos. Se algum homem é escolhido, não é por causa de uma dignidade natural, de algum direito à preferência ou de alguma excelência essencial nele que exigisse de Deus tal escolha. Éramos filhos da ira, como também os demais. Nenhuma obra, seja qual fosse, foi levada em consideração. A escolha divina, segundo Paulo, no capítulo nove de Romanos, foi “não por obras, mas por aquele que chama”. “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Talvez isso se torne ainda mais claro quando chegamos à etapa seguinte, a saber, a redenção. Cristo redimiu seu povo da maldição da lei, fazendo-se maldição por ele. Poderá alguém contemplar o Filho de Deus expirando no Calvário, levando sobre si o pecado do homem, e dizer que aqueles por quem ele morreu eram dignos de que Cristo morresse por eles? É rematada blasfêmia associar qualquer ideia de mérito a uma dádiva tão imensa e gratuita quanto a de Jesus Cristo para nos redimir de nossos pecados. Ora, senhores, ainda que todos nós fôssemos perfeitos e tivéssemos guardado as leis de Deus sem uma única omissão, assim como fazem os serafins no céu, ainda assim teríamos feito apenas o que era nosso dever fazer; e não poderia haver em nosso serviço mérito algum que nos tornasse dignos de que Cristo morresse por nós. Acaso se poderia pensar que o Deus eterno fosse de tal modo devedor de suas criaturas que tivesse de velar seu esplendor sob a forma humana e ser desprezado, rejeitado e cuspido? Dir-se-á que o Filho de Deus deve ao homem sangrar e morrer por ele? Estremeço ao levantar a questão ou sugerir semelhante pensamento. Só a misericórdia pura, espontânea e desinteressada poderia ter pregado o Salvador ao madeiro. Nada poderia tê-lo trazido do trono de glória à cruz de sofrimento, senão a graça, a graça pura e ilimitada.
E, quando passo da redenção à etapa seguinte, a saber, nossa vocação eficaz, acontece o mesmo. Deus se compraz em chamar muitos de nós pela palavra do evangelho, e todo chamado do evangelho é um ato de graça, pois não merecemos ser chamados a abandonar nossos pecados. Se rejeitamos esses chamados e lhes resistimos, e, apesar de tudo, a graça eficaz de Deus vem depois com maior poder e torna dispostos os que não queriam, corrigindo a obstinação de nosso coração, ora, isso certamente é graça em seu sentido mais enfático. Dirigir a cada pecador o chamado geral do evangelho para que venha a Cristo, creia nele e viva, chamado que é feito diariamente no evangelho, é graça; mas prosseguir com esse chamado e torná-lo eficaz até mesmo naqueles que até então lhe resistiram, ora, isso é graça sobre graça, graça superabundante. Se vocês põem uma mesa para os famintos, demonstram-lhes favor; se os convidam a vir, e os convidam repetidas vezes, demonstram-lhes grande favor; mas, se os “obrigam a entrar”, como diz a parábola, e os convidam a sentar-se, e se empenham inteiramente até conquistar-lhes o coração e persuadi-los a aceitar sua generosidade, isso é misericórdia sobre misericórdia. E, contudo, assim é a vocação eficaz. Que o amor de Deus tenha constrangido você e a mim a vir e ser salvos, quando por tanto tempo resistimos a ele — oh! isso é “para louvor da glória de sua graça”.
Meus queridos irmãos, passem à etapa seguinte, da vocação eficaz ao perdão e à justificação. Penso que não seja necessário dizer que o perdão do pecado deve ser sempre efeito da graça. Essa afirmação é evidente por si mesma. Não pode ser devido a homem algum que seus pecados sejam perdoados, pois um pecado que mereça perdão não é pecado; tampouco pode ser devido a homem algum que Deus o torne justo, sendo ele próprio injusto; isso deve ser um ato espontâneo da parte de Deus, procedente de sua pura generosidade e amor. Ninguém pode reivindicar o perdão; seria sacrilégio sugerir que pudesse fazê-lo. O perdão e a justificação, portanto, devem ser-nos concedidos gratuitamente pela graça de Deus, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.
Observem bem que a série seguinte de etapas, que chamamos de santificação, ou perseverança, ou, melhor ainda, conservação graciosa, também deve provir inteiramente da graça. Ninguém tem qualquer direito de exigir que Deus o impeça de cair em pecado. Tenho a obrigação de me guardar do pecado; é meu dever; mas não tenho o direito de exigir que Deus me conceda a graça pela qual sou capacitado a guardar-me do pecado; isso deve proceder de seu amor gratuito; e, se dia após dia ele se compraz em corrigir minha obstinação e trazer de volta meu espírito errante, se, depois de mil tropeços, ainda restaura minha alma e firma meus passos, não ouso louvar a mim mesmo por isso, mas devo, com gratidão, colocar a coroa de minha perseverança na justiça sobre a cabeça daquela graça infinita que realizou em mim todas as minhas obras.
Amados, se assim examinarem, em seus momentos de reflexão, todas as etapas da obra da graça, ficarão convencidos de que não poderiam dizer de uma delas, mais do que de outra: “Isto provém da graça divina”, mas teriam de confessá-lo igualmente a respeito de todas. Não há momento algum na vida do cristão em que seu próprio mérito lhe seja de alguma valia, nem ocasião em que suas próprias forças venham em socorro do poder divino. É necessariamente a graça que dá vida à alma morta, mas é igualmente a graça que conserva viva a alma que recebeu vida; é necessariamente a graça que lava a alma negra e a torna branca como a neve, mas é igualmente a graça que impede essa alma de voltar à sua antiga imundície. Dos alicerces ao pináculo, o templo de nossa salvação é inteiramente obra da graça.
Certos filósofos céticos chegaram a admitir, até certo ponto, que talvez tenha havido uma manifestação da força divina no princípio, quando os grandes astros celestes foram postos pela primeira vez em movimento; mas depois fingem duvidar de que algum novo poder seja exercido para conservar as estrelas em suas órbitas; vocês e eu, porém, sabemos que nenhuma força do passado é suficiente para atender às exigências do presente, e cremos que o poder divino está sempre fluindo para impulsionar as engrenagens do universo. O mesmo acontece no pequeno mundo que existe dentro de nós. Foi a graça que pôs nosso coração em movimento rumo a Cristo e à santidade; é igualmente a graça que nos mantém prosseguindo para o prêmio da nossa soberana vocação em Cristo Jesus. Assim como as águas cobrem os leitos do mar, a graça cobre toda a nossa salvação. Em cada jota e cada til de nossa carta celestial, foi a graça que guiou a pena. Do princípio ao fim, a salvação é gratuita. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.”
III. Agora, irmãos, em terceiro lugar, depois de mostrar que a salvação provém da graça em sua totalidade e em cada um de seus detalhes, observarei que AS GLÓRIAS PECULIARES DESSA GRAÇA DEVEM SER APONTADAS e consideradas por nós.
Quais são as glórias peculiares da graça divina? Esta não é uma doutrina que esteja na moda, mas falaremos dela com franqueza e sinceridade. Em primeiro lugar, uma glória peculiar da graça é sua soberania: o favor de Deus é concedido ao homem segundo a vontade absoluta do Deus Todo-Poderoso, sem nenhuma razão que nos seja conhecida, senão o beneplácito de sua vontade. Quando um homem, por bondade, dá alguma coisa aos pobres, gosta de exercer sua própria soberania na doação, mas nenhum homem é proprietário tão absoluto dos bens desta vida que tenha o direito de exercer uma soberania inteiramente absoluta sobre eles. Deve haver algum limite aos direitos humanos; um homem, mesmo em suas doações gratuitas, não deveria dar a alguns, ao passo que deveria dar preferência a outros; mas o grande e gracioso Deus não tem limites para sua vontade absoluta. Ao homem caído não resta direito algum perante Deus, exceto o direito de sofrer a aplicação da justiça. O homem perdeu de tal modo todas as suas pretensões perante Deus que, com base no direito, nada pode receber senão a ira eterna — absolutamente nada. Tampouco qualquer reivindicação ou pretensão de reivindicação influencia, em grau algum, a decisão do Altíssimo ao conceder sua graça. Sobre a cabeça de todos os homens, ele proclama com voz de trovão: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão”. A soberania absoluta é uma das glórias da graça divina.
Outra glória dessa graça é sua completa gratuidade. Não se espera que o homem faça coisa alguma para merecer ou obter a graça de Deus; ele não o faria se isso fosse esperado dele; não poderia fazê-lo se lhe fosse exigido. Ele se afastou tão completamente de Deus que perdeu o favor divino: perdê-lo estava em seu poder; recuperá-lo, não. Tampouco Deus concede seu favor a homem algum por causa de algo que veja nele, seja sua riqueza, sua fama, sua posição ou seu caráter. Ele olha do alto para os homens e passa por reis e príncipes para fazer seu amor repousar sobre os pobres; contempla os homens e muitas vezes escolhe o transgressor mais abominável e o principal dos pecadores para que se tornem monumentos eternos de seu poder para salvá-los. Ele faz isso, e continua a fazê-lo, com a mais completa liberdade, espontaneamente, porque assim lhe parece bem.
Outra glória de sua graça é sua plenitude. Quando Deus concede sua graça, não concede uma graça pequena. É graça suficiente para cobrir todos os pecados de um homem, quaisquer que sejam. Ainda que sejam tão numerosos que ele não consiga contá-los e tão graves que não consiga avaliá-los, a graça de Deus os varre por completo. “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados não me lembro.” “Desfaço as tuas transgressões como a névoa e os teus pecados, como a nuvem.” “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens.” A blasfêmia é expressamente mencionada como uma forma violenta do mal e um ataque direto contra Deus. As formas mais hediondas da iniquidade humana são apagadas pela graça de Deus do livro das recordações, e ele toma aqueles que cometeram esses pecados hediondos, transforma-lhes a natureza, faz deles seus filhos, recebe-os finalmente em sua glória, e tudo por causa do favor gratuito que há em seu coração para com eles.
Outra glória dessa graça é sua continuidade infalível. Uma vez que a graça de Deus tenha sido concedida, jamais é retirada. Se Deus, em sua misericórdia, visita um homem com sua graça, nunca mais revoga o perdão que concede nem retira o favor que outorgou. “Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.” A graça não é um riacho intermitente que hoje corre e amanhã seca, nem um meteoro fugaz que deslumbra todos os que o contemplam para depois desaparecer em densas trevas.
“A quem uma vez ama, jamais abandona, Mas continua a amá-lo até o fim.”
Sua graça é imutável, sua misericórdia dura para sempre.
Outra de suas glórias é ser pura, sem qualquer mistura. A graça de Deus na salvação das almas reina sozinha. O mérito humano não se intromete aqui e ali para transformar o todo numa colcha de retalhos. A graça triunfante pode dizer: “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos nenhum homem se achava comigo”. A graça é o Alfa, a graça é o Ômega. É glória da graça que nenhum dedo mortal toque em sua obra e que nenhum martelo humano se erga sobre ela. É isso que os homens não conseguem suportar. Insistem em que o homem precisa ter algum mérito, precisa fazer alguma coisinha. Mas isso não pode ser. A graça de Deus exige o palco desimpedido; ela salva, e somente ela, do princípio ao fim.
Preciso acrescentar que uma das glórias dessa graça é que, embora se revele tão plenamente, nunca interfere em nenhum outro atributo de Deus? Interfere, foi o que eu disse? Ela apenas contribui para tornar mais evidentes todas as outras glórias do caráter divino. Deus é absoluto ao conceder seu favor, mas nunca é injusto. Ele faz justiça a todos; atribui a cada um aquilo que lhe é devido. “Como”, dizem vocês, “ele é justo com aqueles a quem favorece? Não deixa passar os pecados deles?” Respondo: “Sim”, mas também digo: “Não”. Ele de fato deixa passar os pecados deles, no que lhes diz respeito, mas o faz justamente; pois primeiro colocou os pecados deles sobre seu Fiador e exigiu de Cristo a vingança devida por suas transgressões. Ele é tão justo com seus santos como seria se não tivesse misericórdia deles, pois, em seu Substituto, sua justiça recebeu o pagamento integral de suas exigências. Não há atributo de Deus que a graça jamais menospreze. Ela está em perfeita harmonia com a verdade de Deus, embora a verdade tenha dito: “De maneira nenhuma terei por inocente o culpado”. Deus não poupou o culpado, pois colocou a culpa sobre Cristo e não o poupou; e agora seu povo não é culpado, está absolvido, não há condenação para ele, sua transgressão foi perdoada, seu pecado foi coberto. Repito: esta é a glória da graça, uma de suas coroas e ornamentos especiais: embora siga seu curso e opere tão livremente como se a justiça estivesse morta e a santidade houvesse fenecido, jamais invade o domínio de nenhum desses atributos resplandecentes; Deus continua tão justo e tão santo como se não fosse gracioso, e, contudo, sua soberania infinita empunha seu cetro incontestado no reino da salvação.
IV. Trouxe-os assim até aqui, às próprias entranhas do texto, e agora, em quarto lugar, ESTA GRAÇA DEVE SER OBJETO DE LOUVOR. Ela existe “para louvor da glória de sua graça”.
Aqui seria necessária uma língua muito mais eloquente que a minha; ou melhor, aqui não se precisa de língua alguma, mas de um coração ardente e de pensamentos agradecidos, para sentar-se e contemplar. A todos vocês que foram comprados com sangue e nele lavados, a todos vocês que foram tirados dentre os homens e feitos povo peculiar do Senhor, peço agora que, em silêncio, louvem a Deus enquanto sua mente contempla todo o plano de sua salvação. Escolhidos antes que a terra existisse — graça, graça gratuita; entregues às mãos de Cristo para ser seu tesouro — tudo pela graça; redimidos com o sangue do próprio coração de Emanuel — tudo por seu favor gratuito para com vocês; preservados quando corriam para o pecado, escravos de Satanás, enlouquecidos por seus ídolos, preservados em Cristo Jesus pela graça longânima; chamados por aquela voz que desperta os mortos e dotados de vida espiritual — inteiramente pela graça; adotados na família divina, feitos participantes da natureza divina, porque assim o quis a graça — quantas maravilhas há aqui! Irmão, no seu caso, foi graça do mais elevado grau. Se você não disser isso a respeito do seu caso, devo dizê-lo a respeito do meu. Acima de todos os filhos dos homens, reivindico humildemente ser o maior devedor da graça de Deus. Mas não duvido, meu irmão, de que você também reivindique o mesmo. Havia particularidades em nosso caráter, peculiaridades em nosso pecado, dificuldades em nossa constituição, tudo concorrendo para tornar extraordinário o fato de termos sido objetos do amor divino. Cada um de nós pode dizer:
“Que havia em mim que pudesse merecer estima, Ou causar deleite ao Criador?”
Pois bem, vocês glorificarão a Deus se deixarem sua alma meditar em silêncio aos pés do trono da graça e adorarem aquele de cuja misericórdia tanto receberam.
Depois de fazerem isso, posso pedir-lhes, em seguida, que permitam a todos os homens ver os frutos da graça em vocês? Uma calúnia comum contra a doutrina da graça é que ela dá pouca importância às boas obras e conduz os homens à licenciosidade, calúnia à qual a vida do povo de Deus já respondeu amplamente no passado. Agora, vocês a quem essa misericórdia foi demonstrada, por sua vigilância, por seu ódio até mesmo à aparência do mal, por seu andar cuidadoso, por sua íntima comunhão com Cristo, demonstrem de maneira irrefutável aos contraditores que a graça é santa onde quer que seja concedida, pois renova o coração e santifica a vida. Vocês estão rebaixando a graça de Deus quando não andam como convém à família da fé; honram melhor a Deus pela santidade do que escrevendo a mais doce poesia ou proferindo as frases mais seráficas a respeito dela. Uma vida santa é “para louvor da glória de sua graça”.
Acrescentem à vida santa seu testemunho pessoal. Não me agrada ouvir pessoas convertidas falando muito sobre o que eram antes da conversão. Não estou certo de que os relatos das vidas horrendas de homens vis sejam proveitosos quando postos por escrito; talvez o melhor seja dizer: “Daquelas coisas de que agora vos envergonhais”; mas, ao mesmo tempo, digam aos outros que a graça de Deus os salvou. Se antes da conversão vocês se entregavam a grandes pecados, envergonhem-se deles, mas não deixem de dizer que a graça salvou pessoas como vocês. Sejam ousados em testemunhar em toda companhia que a graça de Deus é suficiente para todas as situações extremas e pode salvar os perdidos de descerem até as próprias mandíbulas da perdição. Proclamem por toda parte que a misericórdia de Deus pode apagar os pecados mais graves e mais vis, que ninguém precisa desesperar, que o grande coração de Deus é suficientemente amplo para receber o mais diabólico dos pecadores e que ele perdoa a transgressão, a iniquidade e o pecado por amor de Jesus Cristo. Que os anjos saibam disso. Quando forem recebidos no céu, proclamem ali o que a graça de Deus fez; e, até que cheguem lá, façam os homens saberem disso aqui embaixo, “para louvor da glória de sua graça”.
V. E agora, por fim, permitam-me dizer que a doutrina que ensinamos nesta manhã, A VERDADE QUE PROCURAMOS PREGAR EM TODA A SUA PLENITUDE, É O GRANDE FUNDAMENTO DE ESPERANÇA PARA OS PECADORES.
Pois, em primeiro lugar, se é verdade que a salvação provém inteiramente do favor gratuito de Deus, então aqui há esperança para todos os homens. Vocês perguntarão: “Como?” Responderei da seguinte maneira. Suponhamos que esteja aqui um homem culpado de algum crime horrendo; contudo, outros que cometeram crimes semelhantes foram perdoados e receberam a graça divina; por que ele não poderia recebê-la também? Se a salvação fosse por mérito, esse homem estaria claramente excluído de toda esperança; e, a rigor, todos nós estaríamos, pois nenhum de nós possui sequer meio grão de mérito, ainda que fôssemos vasculhados de ponta a ponta; mas, se a salvação é pela graça, por que a graça de Deus não poderia recair sobre mim tanto quanto sobre qualquer outro homem? E, se está demonstrado que a graça de Deus é tão soberana que frequentemente recaiu sobre os piores dos homens, por que não sobre mim, se sou o pior dos homens? E, se encontro escrito que aquele que vem a Cristo ele de modo nenhum lançará fora, então eu, ainda que seja o pior dos homens, sou encorajado a vir a Cristo. Ele salvou outros, os piores dos homens; diz-me que, se eu vier, se qualquer pessoa vier, não a lançará fora; então, por que eu não deveria ir? Por que não, de fato? Se houvesse alguma coisa como preparo, disposição, mérito ou adequação, então não haveria esperança para mim; mas, se tudo é uma questão de dádiva pura e inteiramente gratuita, por que ela não poderia ser concedida a mim tanto quanto a outro? Isso oferece um esplêndido encorajamento a todo pecador, e oferece esperança até mesmo ao transgressor extremamente perverso, porque a graça é evidentemente engrandecida ao transformar a natureza de grandes pecadores. Se sou um grande transgressor e pequei desesperadamente, quanto espaço haverá para a graça glorificar-se em mim! Aqui está a minha esperança. Por que eu não deveria ir a Deus em oração e pedir que me tornasse um troféu de sua graça?
E, se alguém disser: “Mas, se não somos os piores dos pecadores, então parece que estamos excluídos!”, respondo: Não; pelo contrário, estão incluídos, porque, se alguém disser: “Deus salva os maiores pecadores porque eles glorificam mais a sua graça”, eu responderia que Deus não é movido por nenhum motivo egoísta. Ele não salva os homens para tirar daí algum proveito; e vocês, dos quais ele nada pode obter, são precisamente as pessoas que ele provavelmente salvará, para demonstrar a absoluta gratuidade e o desinteresse de seu amor. Não imaginem por um instante que pretendemos colocar o pecado no lugar do mérito e fazer parecer que a grandeza do pecado dos homens é a razão pela qual o Senhor os salvará. Se não há razão para a graça no mérito humano, muito menos há no grau de demérito; se vocês nunca se entregaram a pecados grosseiros, deem graças a Deus por isso, mas, apesar de tudo, são suficientemente pecadores; se enxergarem a si mesmos como realmente são, verão que já estão bastante enegrecidos, disso podem estar certos, e não precisam tornar-se mais vis; e, porque seu caso não lhes parece capaz de glorificar a Deus, não se deve concluir que assim pareça também àquele que não vê como vê o homem. Quando um cirurgião se depara com um caso cuja cura, aparentemente, não lhe trará nenhum reconhecimento aos olhos do vulgo, a maior honra para ele consiste em não se ter deixado deter pelo receio de que tal cura não lhe traria honra alguma. É sumamente glorioso para Deus que ele não seja influenciado pelo louvor dos homens. Há esperança, portanto, para vocês que não podem ser contados entre os piores transgressores. Se tudo provém da graça, então ela não exclui nem grandes nem pequenos; e, enquanto as graciosas promessas ressoam como um repique de sinos de prata — “Vinde a mim, todos os que estais cansados” —, e isso com um chamado geral e universal dirigido a todo pecador debaixo do céu — “Quem nele crê não é julgado”, “Crê no Senhor Jesus e serás salvo”, “Quem crer e for batizado será salvo”, e outras passagens semelhantes —, ora, somos grandemente encorajados a vir a Jesus. Essa doutrina de que a salvação provém inteiramente da graça, e absolutamente nada de nós, é uma das melhores razões pelas quais eu, embora não me sinta como deveria, nem aja como deveria, nem seja como deveria, mas seja apenas um amontoado de pecado, uma massa de imundície, e nada mais, deva vir como estou, agora mesmo, e depositar minha confiança no sangue e na justiça de Cristo, confiando que eu, sim, até mesmo eu, encontrarei aceitação no Amado. Oh! Que o Espírito Santo encoraje hoje alguns corações a vir a Cristo! Se vocês possuem alguma bondade, este sermão é um dobre fúnebre para vocês. Se possuem algum mérito, vão-se embora, vão-se embora; Cristo não veio chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento. Se não estão doentes, que fazem aqui? O médico veio curar os enfermos, não os que têm saúde. Mas, se nada possuem que possa merecer coisa alguma de Deus, então é a vocês que é enviada a palavra desta salvação: “Para louvor da glória de sua graça”.
Minha última palavra indicará brevemente qual é o privilégio de cada pecador que deseja regozijar-se na graça soberana de Deus. Por mais vezes que expliquemos a fé, ainda precisamos explicá-la novamente. Deparei-me com uma ilustração tirada da guerra americana. Alguém procurava ensinar a um oficial moribundo o que era a fé. Por fim, ele compreendeu a ideia e disse: “Antes eu não conseguia entender, mas agora compreendo. É simplesmente isto: eu me rendo, eu me rendo a Jesus”. É isso. Você esteve lutando contra Deus, resistindo a ele, procurando negociar condições mais ou menos favoráveis para si mesmo; agora, aqui está você na presença de Deus, e depõe a espada de sua rebelião e diz: “Senhor, eu me rendo, sou teu prisioneiro. Confio em tua misericórdia para me salvar. Acabei com toda confiança em mim mesmo; lanço-me em teus braços”.
“Verme culpado, fraco e indefeso, Nos braços bondosos de Cristo me lanço; Sê tu minha força e minha justiça, Meu Jesus, meu tudo.”
Deus os abençoe. Amém.
PASSAGENS DAS ESCRITURAS LIDAS ANTES DO SERMÃO — Salmo 14; Efésios 1.1-14.

