UM SERMÃO PROFERIDO NA NOITE DO DIA DO SENHOR,
21 DE JANEIRO DE 1855,
PELO REV. C. H. SPURGEON,
NA CAPELA DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK.
“Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” — João 14.26.
O BOM e velho Simeão chamou Jesus de consolação de Israel; e era exatamente isso que ele era. Antes de seu aparecimento, seu nome era Estrela-d’Alva, que alegrava as trevas e anunciava profeticamente o nascer do sol. Era para ele que olhavam com a mesma esperança que anima o vigia noturno quando, do alto de um castelo solitário, avista a mais bela das estrelas e a saúda como precursora da manhã. Quando esteve na terra, deve ter sido a consolação de todos os que tiveram o privilégio de ser seus companheiros. Podemos imaginar com que prontidão os discípulos corriam a Cristo para lhe contar suas tristezas, e com que doçura, naquela entonação incomparável de sua voz, ele lhes falava e mandava que seus temores se dissipassem. Como crianças, consideravam-no seu Pai; e a ele levavam imediatamente cada necessidade, cada gemido, cada tristeza, cada agonia; e ele, como um médico sábio, tinha um bálsamo para cada ferida; havia preparado um cordial para cada uma de suas aflições; e prontamente ministrava algum remédio poderoso para abrandar toda a febre de suas tribulações. Oh! Como deve ter sido doce viver com Cristo! Certamente, as tristezas não passavam então de alegrias disfarçadas, pois proporcionavam a oportunidade de ir a Jesus para que ele as removesse. Oh! Quem dera, alguns de nós talvez digam, que pudéssemos ter repousado nossa cabeça cansada sobre o peito de Jesus, e que tivéssemos nascido naquela época feliz, quando poderíamos ter ouvido sua voz bondosa e visto seu olhar afetuoso, ao dizer: “Venham a mim os cansados”.
Mas agora ele estava prestes a morrer. Grandes profecias precisavam cumprir-se, e grandes propósitos precisavam realizar-se; por isso, Jesus tinha de partir. Era necessário que sofresse, para que se tornasse a propiciação pelos nossos pecados. Era necessário que repousasse por algum tempo no pó, para perfumar a câmara do sepulcro e fazer com que ela deixasse de ser:
“Um ossuário destinado a guardar Os restos da inocência perdida.”
Era necessário que ressuscitasse, para que nós, que um dia estaremos entre os mortos em Cristo, ressuscitemos primeiro e nos apresentemos sobre a terra em corpos gloriosos. E era necessário que subisse às alturas, para levar cativo o cativeiro; para acorrentar os demônios do inferno; para prendê-los às rodas de seu carro e arrastá-los até o alto da colina celestial, fazendo-os experimentar uma segunda derrota pelo poder de seu braço direito, quando os precipitasse dos pináculos do céu às profundezas ainda mais fundas lá embaixo. “Convém que eu vá”, disse Jesus, “porque, se eu não for, o Consolador não virá”. Jesus precisava partir. Chorai, ó discípulos! Jesus precisava ir embora. Lamentai, ó pobres, que sereis deixados sem um Consolador. Mas ouvi com que bondade Jesus fala: “Não vos deixarei órfãos; rogarei ao Pai, e ele vos enviará outro Consolador, que estará convosco e habitará em vós para sempre”. Ele não deixaria aquelas poucas e pobres ovelhas sozinhas no deserto; não abandonaria seus filhos, deixando-os órfãos de pai. Embora tivesse uma missão grandiosa que lhe ocupava o coração e as mãos; embora tivesse tanto a realizar que poderíamos imaginar até mesmo seu intelecto gigantesco sobrecarregado; embora tivesse tanto a sofrer que poderíamos supor toda a sua alma concentrada na perspectiva dos sofrimentos que haveria de suportar, não foi assim; antes de partir, proferiu palavras suaves de consolação; como o bom samaritano, derramou óleo e vinho nas feridas; e vemos o que prometeu: “Eu vos enviarei outro Consolador — alguém que será exatamente o que tenho sido para vós, e até mais; que vos consolará em vossas tristezas, dissipará vossas dúvidas, vos confortará em vossas aflições e permanecerá como meu vigário na terra, para fazer aquilo que eu teria feito, se tivesse permanecido convosco”.
Antes de discorrer sobre o Espírito Santo como Consolador, preciso fazer uma ou duas observações acerca das diferentes traduções da palavra vertida por “Consolador”. A tradução de Reims, que, como sabeis, é adotada pelos católicos romanos, deixou a palavra sem traduzir, apresentando-a como “Paráclito”. “Mas o Paráclito, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas”. Essa é a palavra grega original, e possui outros significados além de “Consolador”. Às vezes, significa admoestador ou instrutor: “Eu vos enviarei outro admoestador, outro mestre”. Frequentemente, significa “Advogado”; mas o significado mais comum da palavra é aquele que temos aqui: “Eu vos enviarei outro Consolador”. Entretanto, não podemos passar por aquelas outras duas interpretações sem dizer algo a respeito delas.
“Eu vos enviarei outro mestre.” Jesus Cristo havia sido o mestre oficial de seus santos enquanto esteve na terra. Não chamavam ninguém de Rabi, exceto Cristo. Não se sentavam aos pés de homem algum para aprender suas doutrinas; recebiam-nas diretamente dos lábios daquele que “falava como jamais alguém falou”. “E agora”, diz ele, “quando eu partir, onde encontrareis o grande mestre infalível? Deverei instituir para vós um papa em Roma, a quem recorrereis e que será vosso oráculo infalível? Deverei dar-vos concílios da igreja, que se reunirão para decidir todas as questões difíceis?” Cristo não disse nada disso. “Eu sou o paráclito ou mestre infalível e, quando partir, vos enviarei outro mestre, e ele será aquele que explicará as Escrituras; ele será o oráculo autorizado de Deus, que tornará claras todas as coisas obscuras, que desvendará mistérios, que desvendará mistérios, que desatará todos os nós da revelação e vos fará compreender aquilo que não poderíeis descobrir sem sua influência.” E, amados, ninguém jamais aprende alguma coisa corretamente, a menos que seja ensinado pelo Espírito. Podeis aprender a doutrina da eleição e conhecê-la de tal maneira que sejais condenados por ela, se não fordes ensinados pelo Espírito Santo; pois conheci alguns que aprenderam a doutrina da eleição para a destruição de sua alma; aprenderam-na de tal modo que diziam pertencer aos eleitos, quando não havia em sua alma nenhum sinal, nenhuma evidência e nenhuma obra do Espírito Santo. Há uma maneira de aprender a verdade na escola de Satanás e de conservá-la em meio à licenciosidade; mas, se assim for, ela será para vossas almas como veneno nas veias, e acabará por causar vossa ruína eterna. Ninguém pode conhecer Jesus Cristo a menos que seja ensinado por Deus. Não há doutrina da Bíblia que possa ser aprendida com segurança, de maneira completa e verdadeira, senão pela atuação do único mestre autorizado. Ah! Não me faleis de sistemas de doutrina; não me faleis de esquemas teológicos; não me faleis de comentaristas infalíveis, nem de doutores eruditíssimos e arrogantes ao extremo; falai-me, porém, do Grande Mestre, que nos instruirá, a nós, filhos de Deus, e nos dará sabedoria para compreender todas as coisas. Ele é o Mestre: não importa o que diga este ou aquele homem; não me apoio na autoridade de que homem algum se vanglorie, nem vós o fareis. Não deveis deixar-vos levar pela astúcia dos homens, nem por artifícios de palavras; eis o oráculo autorizado: o Espírito Santo que habita no coração de seus filhos.
A outra tradução é advogado. Já pensastes em como o Espírito Santo pode ser chamado de advogado? Sabeis que Jesus Cristo é chamado Maravilhoso, Conselheiro e Deus Forte; mas como o Espírito Santo pode ser chamado de advogado? Suponho que seja assim: ele é um advogado na terra, que pleiteia contra os inimigos da cruz. Como foi que Paulo pôde defender sua causa com tanta habilidade diante de Félix e Agripa? Como foi que os apóstolos permaneceram destemidos diante dos magistrados e confessaram seu Senhor? Como aconteceu que, em todas as épocas, os ministros de Deus se tornaram intrépidos como leões, com a fronte mais firme que o bronze, o coração mais duro que o aço e palavras semelhantes à linguagem de Deus? Ora, simplesmente porque não era o homem quem pleiteava, mas Deus, o Espírito Santo, que pleiteava por meio dele. Nunca vistes um ministro fervoroso, com as mãos erguidas e os olhos derramando lágrimas, suplicando aos filhos dos homens? Nunca admirastes aquele retrato traçado pela mão do velho John Bunyan? Uma pessoa de semblante grave, com os olhos erguidos ao céu, o melhor dos livros na mão, a lei da verdade escrita nos lábios, o mundo às costas, de pé como quem suplica aos homens, e uma coroa de ouro suspensa acima da cabeça. Quem deu àquele ministro maneira tão abençoada e conteúdo tão excelente? De onde lhe veio a habilidade? Adquiriu-a na faculdade? Aprendeu-a no seminário? Ah! Não; aprendeu-a com o Deus de Jacó; aprendeu-a com o Espírito Santo; pois o Espírito Santo é o grande conselheiro que nos ensina a defender corretamente sua causa.
Mas, além disso, o Espírito Santo é o advogado no coração dos homens. Ah! Conheci homens que rejeitavam uma doutrina até que o Espírito Santo começou a iluminá-los. Nós, que somos defensores da verdade, muitas vezes somos péssimos advogados; prejudicamos nossa causa com as palavras que empregamos; mas é uma misericórdia que a defesa esteja nas mãos de um advogado especializado, que pleiteará com êxito e vencerá a oposição do pecador. Já soubestes de alguma ocasião em que ele tenha fracassado? Irmãos, falo às vossas almas: não vos convenceu Deus do pecado em tempos passados? Não veio o Espírito Santo provar que éreis culpados, embora ministro algum jamais tivesse conseguido arrancar-vos de vossa justiça própria? Não defendeu ele a justiça de Cristo? Não se apresentou para vos dizer que vossas obras eram trapos imundos? E quando estáveis quase decididos a continuar recusando ouvir sua voz, não foi ele buscar o tambor do inferno e fazê-lo retumbar aos vossos ouvidos, ordenando-vos que contemplásseis, através da perspectiva dos anos futuros, o trono instalado, os livros abertos, a espada brandida, o inferno em chamas, os demônios uivando e os condenados gritando para sempre? E não vos convenceu ele do juízo vindouro? Ele é um advogado poderoso quando pleiteia na alma — acerca do pecado, da justiça e do juízo vindouro. Bendito Advogado! Pleiteia em meu coração, pleiteia com minha consciência. Quando eu pecar, dá à minha consciência ousadia para me advertir; quando eu errar, faze minha consciência falar imediatamente; e quando eu me desviar por caminhos tortuosos, defende então a causa da justiça e ordena-me que me assente envergonhado, consciente de minha culpa diante de Deus.
Mas há ainda outro sentido em que o Espírito Santo advoga, a saber, ele defende nossa causa perante Jesus Cristo, com gemidos inexprimíveis. Ó minha alma, estás prestes a explodir dentro de mim! Ó meu coração, estás inchado de tristeza; a torrente ardente de minhas emoções está quase transbordando dos canais de minhas veias. Anseio por falar, mas o próprio desejo acorrenta minha língua. Quero orar, mas o fervor de meus sentimentos refreia minhas palavras. Há dentro de mim um gemido que não pode ser expresso. Sabeis quem pode expressar esse gemido, quem pode compreendê-lo, quem pode revesti-lo de linguagem celestial e pronunciá-lo numa língua dos céus, de modo que Cristo o ouça? Oh! Sim; é Deus, o Espírito Santo; ele defende nossa causa perante Cristo, e então Cristo a defende perante seu Pai. Ele é o advogado que intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
Tendo assim explicado o ofício do Espírito como mestre e advogado, chegamos agora à tradução de nossa versão — o Consolador; e aqui farei três divisões. Primeiro, o Consolador; segundo, a consolação; e terceiro, os consolados.
I. Primeiro, então, o CONSOLADOR.
Permiti que eu percorra brevemente, em minha mente e também na vossa, as características desse glorioso Consolador. Permiti que vos fale de alguns dos atributos de sua consolação, para que compreendais como ele é perfeitamente adequado à vossa situação.
E, primeiro, observaremos que Deus, o Espírito Santo, é um Consolador extremamente amoroso. Estou aflito e necessito de consolação. Alguém que passa fica sabendo de minha tristeza e entra, senta-se e procura animar-me; dirige-me palavras suaves; mas não me ama, é um estranho, não me conhece absolutamente, veio apenas para experimentar sua habilidade; e qual é o resultado? Suas palavras deslizam sobre mim como óleo sobre uma laje de mármore — são como a chuva que tamborila sobre a rocha; não conseguem romper minha tristeza; ela permanece inabalável como o diamante, porque aquele homem não tem amor por mim. Mas que venha alguém que me ame tanto quanto à própria vida e procure persuadir-me; então, verdadeiramente, suas palavras são música; têm o sabor do mel; ele conhece a senha das portas de meu coração, e meus ouvidos estão atentos a cada palavra; percebo a entonação de cada sílaba que cai de seus lábios, pois é como a harmonia das harpas do céu. Oh! Há uma voz no amor; ele fala uma linguagem que lhe é própria, possui um idioma e um sotaque que ninguém consegue imitar; a sabedoria não pode reproduzi-lo; a oratória não consegue alcançá-lo; somente o amor pode chegar ao coração enlutado; o amor é o único lenço capaz de enxugar as lágrimas de quem chora. E não é o Espírito Santo um Consolador amoroso? Sabes, ó santo, quanto o Espírito Santo te ama? Podes medir o amor do Espírito? Sabes quão grande é o afeto de sua alma por ti? Vai, mede os céus com a palma de tua mão; vai, pesa as montanhas numa balança; vai, recolhe as águas do oceano e conta cada gota; vai, conta a areia da vasta praia do mar; e, quando tiveres realizado tudo isso, poderás dizer quanto ele te ama. Ele te ama há muito tempo; tem-te amado profundamente; sempre te amou; e continuará a amar-te. Certamente ele é a pessoa indicada para consolar-te, porque ama. Recebe-o, portanto, em teu coração, ó cristão, para que ele te console em tua aflição.
Mas, em segundo lugar, ele é um Consolador fiel. O amor às vezes se mostra infiel. “Oh! Mais afiado que o dente de uma serpente” é um amigo infiel! Oh! Muito mais amargo que o próprio fel da amargura é ter um amigo que se afasta de mim em minha aflição! Oh! Desgraça das desgraças é ter alguém que me ama na prosperidade e me abandona no dia sombrio de minha tribulação. É realmente triste; mas o Espírito de Deus não é assim. Ele ama sempre, e ama até o fim — um Consolador fiel. Filho de Deus, estás em tribulação. Há pouco tempo, encontraste nele um Consolador doce e amoroso; recebeste alívio de suas mãos quando os outros não passavam de cisternas rotas; ele te abrigou junto ao peito e te carregou nos braços. Oh! Por que desconfias dele agora? Lança fora teus temores! Pois ele é um Consolador fiel. “Ah! Mas”, dizes tu, “temo adoecer e ficar privado de suas ordenanças”. Ainda assim, ele te visitará no leito de enfermidade e se assentará ao teu lado para dar-te consolação. “Ah! Mas tenho aflições maiores do que podes imaginar; onda após onda passa sobre mim; um abismo chama outro abismo, ao fragor das catadupas do Eterno.” Ainda assim, ele será fiel à sua promessa. “Ah! Mas pequei.” Sim, pecaste, mas o pecado não pode separar-te de seu amor; ele ainda te ama. Não penses, ó pobre e abatido filho de Deus, que, por terem as cicatrizes de teus antigos pecados desfigurado tua beleza, ele te ama menos por causa dessa mancha. Oh! Não! Ele te amava quando já conhecia de antemão teu pecado; amava-te sabendo qual seria a soma de todas as tuas iniquidades; e não te ama menos agora. Aproxima-te dele com toda a ousadia da fé; confessa-lhe que o entristeceste, e ele esquecerá teus desvios e te receberá novamente; os beijos de seu amor serão depositados sobre ti, e os braços de sua graça te envolverão. Ele é fiel: confia nele; jamais te enganará; confia nele, jamais te abandonará.
Além disso, ele é um Consolador incansável. Algumas vezes, procurei consolar pessoas que passavam por provações. De vez em quando, deparamos com uma pessoa nervosa. Perguntamos: “Qual é o seu problema?” Ela nos conta, e procuramos, se possível, resolvê-lo; mas, enquanto preparamos nossa artilharia para bombardear o problema, descobrimos que ele mudou de posição e agora ocupa um lugar inteiramente diferente. Mudamos nosso argumento e recomeçamos; mas eis que o problema desapareceu mais uma vez, e ficamos perplexos. Sentimo-nos como Hércules cortando as cabeças sempre renascentes da Hidra, e abandonamos a tarefa em desespero. Encontramos pessoas que é impossível consolar, que nos fazem lembrar daquele homem que se prendeu com grilhões e jogou a chave fora, para que ninguém pudesse libertá-lo. Encontrei alguns presos nos grilhões do desespero. “Oh! Sou eu o homem”, dizem, “que viu a aflição; tende piedade de mim, tende piedade de mim, ó meus amigos”; e, quanto mais procuramos consolar essas pessoas, pior elas ficam; e, por isso, completamente desanimados, deixamo-las vagar sozinhas entre os túmulos de suas antigas alegrias. Mas o Espírito Santo jamais desanima daqueles que deseja consolar. Ele procura consolar-nos, e fugimos do doce cordial; oferece-nos uma bebida agradável para curar-nos, e não queremos bebê-la; dá-nos uma poção maravilhosa para dissipar todas as nossas tribulações, e nós a afastamos. Ainda assim, ele continua a perseguir-nos; e, embora digamos que não seremos consolados, ele diz que o seremos e, tendo-o dito, assim o faz; ele não se deixa cansar por todos os nossos pecados, nem por todas as nossas murmurações.
E, oh! Quão sábio Consolador é o Espírito Santo! Jó teve consoladores, e creio que disse a verdade quando declarou: “Como sois todos vós consoladores molestos!” Mas ouso dizer que eles se consideravam sábios; e, quando o jovem Eliú se levantou para falar, pensaram que ele tinha uma insolência sem limites. Não eram eles “anciãos graves e veneráveis”? Não compreendiam sua aflição e sua tristeza? Se eles não conseguiam consolá-lo, quem conseguiria? Mas não descobriram a causa. Pensavam que ele não era realmente um filho de Deus, que confiava em sua justiça própria; e lhe administraram o remédio errado. É uma situação grave quando o médico se engana quanto à doença e prescreve o medicamento errado, talvez matando o paciente. Às vezes, quando visitamos as pessoas, confundimos sua enfermidade; queremos consolá-las a respeito de determinada questão, quando elas absolutamente não necessitam dessa consolação, e seria melhor deixá-las em paz do que prejudicá-las com consoladores tão insensatos quanto nós. Mas, oh! Quão sábio é o Espírito Santo! Ele toma a alma, coloca-a sobre a mesa e a disseca num instante; descobre a raiz do problema, vê onde está o mal e então aplica o bisturi onde é necessário remover alguma coisa, ou coloca um emplastro onde está a ferida; e jamais se engana. Oh! Quão sábio é o bendito Espírito Santo! De todos os consoladores me afasto, a todos abandono, pois tu és aquele que, sozinho, oferece a consolação mais sábia.
Observai, então, quão seguro Consolador é o Espírito Santo. Nem toda consolação é segura; atentai para isso. Há ali um jovem muito melancólico. Sabeis como ele ficou assim. Entrou na casa de Deus e ouviu um pregador poderoso, e a palavra foi abençoada e o convenceu do pecado. Quando voltou para casa, seu pai e os demais perceberam que havia algo diferente nele. “Oh!”, disseram, “João enlouqueceu; perdeu o juízo”; e o que disse sua mãe? “Mandem-no passar uma semana no campo; deixem-no ir ao baile ou ao teatro.” João! Encontraste alguma consolação nesses lugares? “Ah! Não; fizeram-me piorar, pois, enquanto estava lá, pensava que o inferno poderia abrir-se e engolir-me.” Encontraste algum alívio nos divertimentos do mundo? “Não”, dizes tu, “achei que era uma perda inútil de tempo.” Ai de nós! Essa é uma consolação miserável, mas é a consolação do mundano; e, quando um cristão cai em aflição, quantos lhe recomendam este ou aquele remédio! “Vai ouvir a pregação do senhor Fulano; convida alguns amigos para tua casa; lê este ou aquele livro de consolação”; e é bem possível que esse seja o conselho mais perigoso do mundo. Às vezes, o diabo se aproxima da alma dos homens como um falso consolador e diz à alma: “Para que fazer tanto alarde por causa do arrependimento? Não és pior que as outras pessoas”; e procura fazer a alma acreditar que aquilo que é presunção constitui a verdadeira certeza dada pelo Espírito Santo; assim ele engana muitos com falsas consolações. Ah! Muitos foram destruídos como crianças pequenas, por elixires administrados para fazê-las dormir; muitos foram arruinados pelo clamor de “paz, paz”, quando não há paz, ouvindo palavras suaves quando deveriam ser profundamente despertados. A áspide de Cleópatra foi trazida numa cesta de flores; e a ruína dos homens muitas vezes se esconde em discursos belos e doces. Mas a consolação do Espírito Santo é segura, e podeis descansar nela. Que ele profira uma palavra, e haverá realidade nela; que ele ofereça o cálice da consolação, e podereis bebê-lo até o fundo, pois em suas profundezas não há sedimento algum, nada que embriague ou arruíne; tudo nele é seguro.
Além disso, o Espírito Santo é um Consolador ativo: ele não consola com palavras, mas com ações. Alguns consolam dizendo: “Aquecei-vos e fartai-vos”, sem dar coisa alguma. Mas o Espírito Santo dá; ele intercede junto a Jesus; dá-nos promessas, dá-nos graça e, assim, nos consola. Observai ainda que ele é sempre um Consolador bem-sucedido; jamais tenta realizar aquilo que não pode cumprir.
Por fim, ele é um Consolador sempre presente, de modo que nunca precisais mandar chamá-lo. Vosso Deus está sempre perto de vós e, quando necessitais de consolação em vossa aflição, eis que a palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; ele é socorro sempre presente na tribulação. Quisera eu ter tempo para desenvolver esses pensamentos, mas não posso.
II. A segunda coisa é a CONSOLAÇÃO.
Há algumas pessoas que cometem um grande equívoco acerca da influência do Espírito Santo. Um homem tolo, que metera na cabeça que deveria pregar em determinado púlpito, embora na verdade fosse inteiramente incapaz de desempenhar essa tarefa, procurou o ministro e lhe assegurou solenemente que o Espírito Santo lhe havia revelado que ele deveria pregar em seu púlpito. “Muito bem”, respondeu o ministro, “suponho que não devo duvidar de sua afirmação; mas, como não me foi revelado que devo permitir que o senhor pregue, terá de seguir seu caminho até que isso aconteça”. Tenho ouvido muitas pessoas fanáticas dizerem que o Espírito Santo lhes revelou isto ou aquilo. Ora, geralmente o que lhes é revelado é pura tolice. O Espírito Santo não revela agora coisa alguma que seja nova. Ele traz à nossa lembrança as coisas antigas. “Esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” O cânon da revelação está encerrado; nada mais há a acrescentar. Deus não concede uma nova revelação, mas fixa firmemente a antiga. Quando ela foi esquecida e guardada na câmara empoeirada de nossa memória, ele a retira dali e limpa o quadro, mas não pinta outro. Não existem doutrinas novas, mas as antigas são frequentemente reavivadas. Não é, repito, por meio de alguma nova revelação que o Espírito consola. Ele o faz contando-nos novamente as coisas antigas; traz uma lâmpada nova para revelar os tesouros escondidos nas Escrituras; abre os cofres resistentes nos quais a verdade jazia havia muito tempo e aponta para câmaras secretas repletas de riquezas incontáveis; mas não cunha mais moedas, pois já se fez o suficiente. Crente! Há na Bíblia o bastante para que vivas dela eternamente. Ainda que ultrapassasses os anos de Matusalém, não haveria necessidade de uma nova revelação; ainda que vivesses até Cristo voltar à terra, não seria necessário acrescentar uma única palavra; ainda que descesses tão fundo quanto Jonas, ou mesmo, como disse Davi, ao ventre do inferno, haveria na Bíblia o bastante para consolar-te sem uma única frase suplementar. Mas Cristo diz: “Há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”. Agora, permiti que vos diga brevemente o que o Espírito Santo nos diz.
Ah! Não sussurra ele ao coração: “Santo, tem bom ânimo; há alguém que morreu por ti; olha para o Calvário; contempla suas feridas; vê a torrente que jorra de seu lado; ali está aquele que te comprou, e estás seguro. Ele te ama com amor eterno, e esse castigo se destina ao teu bem; cada golpe está contribuindo para tua cura; pelas marcas arroxeadas da ferida, tua alma é aperfeiçoada. ‘Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe.’ Não duvides de sua graça por causa de tua tribulação, mas crê que ele te ama tanto nos períodos de aflição quanto nos tempos de felicidade”? E então, além disso, ele diz: “Que é todo o teu sofrimento comparado ao de teu Senhor? Ou que é toda a tua aflição quando pesada na balança das agonias de Jesus?” E, especialmente em certas ocasiões, o Espírito Santo afasta o véu do céu e permite que a alma contemple a glória do mundo superior! É então que o santo pode dizer: “Oh! Tu és para mim um Consolador!”
“Venham as aflições como um dilúvio impetuoso,
E desabem tempestades de tristeza;
Contanto que eu chegue em segurança ao meu lar,
Meu Deus, meu céu, meu tudo.”
Alguns de vós poderiam acompanhar-me, se eu falasse das manifestações do céu. Também vós já deixastes o sol, a lua e as estrelas a vossos pés, enquanto, em vosso voo, ultrapassando a lentidão do relâmpago, parecestes entrar pelos portões de pérolas e caminhar pelas ruas de ouro, elevados sobre as asas do Espírito. Mas não devemos permitir-nos avançar mais por esse caminho, para que, perdidos em devaneios, não nos esqueçamos de nosso assunto.
III. E agora, em terceiro lugar, quem são as pessoas CONSOLADAS?
Gosto, como sabeis, de clamar ao final de meu sermão: “Dividam-se! Dividam-se!” Há aqui dois grupos — alguns que são consolados e outros que não têm consolação alguma — alguns que receberam a consolação do Espírito Santo e outros que não a receberam. Procuremos agora peneirar-vos e descobrir quem é palha e quem é trigo; e queira Deus que parte da palha seja transformada nesta noite em seu trigo.
Talvez digais: “Como poderei saber se recebi a consolação do Espírito Santo?” Podeis sabê-lo por uma regra. Se recebestes uma bênção de Deus, recebereis também todas as outras. Permiti que me explique. Se eu pudesse vir aqui como leiloeiro e vender o evangelho em lotes, conseguiria vender tudo. Se pudesse dizer: “Aqui está a justificação pelo sangue de Cristo, gratuita, dada de graça, sem custo algum”, muitos diriam: “Quero a justificação; dá-ma; desejo ser justificado, desejo ser perdoado”. Suponhamos que eu apresentasse a santificação, o abandono de todo pecado, uma transformação completa do coração, o abandono da embriaguez e dos palavrões; muitos diriam: “Não quero isso; gostaria de ir para o céu, mas não quero essa santidade; gostaria de ser salvo no fim, mas também gostaria de continuar bebendo; gostaria de entrar na glória, mas preciso soltar um ou dois palavrões pelo caminho”. Não, pecador, se receberes uma bênção, receberás todas. Deus jamais dividirá o evangelho. Não dará a justificação a um homem e a santificação a outro; o perdão a um e a santidade a outro. Não, tudo vem junto. Aos que chama, também justifica; aos que justifica, também santifica; e aos que santifica, também glorifica. Oh! Se eu pudesse oferecer apenas as consolações do evangelho, correríeis para elas como moscas para o mel. Quando adoeceis, mandais chamar o ministro. Ah! Todos quereis então que vosso ministro venha e vos dirija palavras consoladoras. Mas, se ele for um homem honesto, não dará a alguns de vós a menor parcela de consolação. Não começará a derramar óleo quando seria melhor usar o bisturi. Quero fazer o homem sentir seus pecados antes de ousar dizer-lhe qualquer coisa acerca de Cristo. Quero sondar-lhe a alma e fazê-lo sentir que está perdido antes de dizer-lhe qualquer coisa acerca da bênção adquirida. Dizer-lhes: “Agora, basta crer em Cristo, e isso é tudo o que precisais fazer”, é a ruína de muitos. Se, em vez de morrerem, melhorarem, levantar-se-ão como hipócritas caiados — nada mais que isso. Ouvi falar de um missionário urbano que mantinha um registro de duas mil pessoas consideradas à beira da morte, mas que se recuperaram, e que ele teria registrado como convertidas caso tivessem morrido; e quantas pensais que passaram a levar uma vida cristã depois disso, dentre as duas mil? Nem duas! Na verdade, ele conseguiu encontrar apenas uma que, posteriormente, viveu no temor de Deus. Não é horrível que, quando homens e mulheres se aproximam da morte, clamem: “Consolação, consolação!”, e que, por causa disso, seus amigos concluam que são filhos de Deus, quando, afinal, não têm direito algum à consolação, mas são intrusos nos recintos reservados do Deus bendito? Ó Deus! Que essas pessoas sejam sempre impedidas de receber consolação quando não têm direito a ela! Possuís as outras bênçãos? Já fostes convencidos do pecado? Alguma vez sentistes vossa culpa diante de Deus? Vossas almas foram humilhadas aos pés de Jesus? E fostes levados a olhar somente para o Calvário em busca de refúgio? Se não, não tendes direito à consolação. Não tomeis sequer um átomo dela. O Espírito convence antes de consolar; e precisais experimentar as outras operações do Espírito Santo antes de poderdes receber qualquer benefício desta.
E agora terminei. Ouvistes mais uma vez o que disse este tagarela. E sobre o que falou? Sobre o Consolador. Mas permiti que vos pergunte, antes de partirdes: que sabeis acerca do Consolador? Que cada um de vós, antes de descer os degraus desta capela, deixe esta solene pergunta estremecer-lhe a alma: que sabeis acerca do Consolador? Oh! Pobres almas, se não conheceis o Consolador, eu vos direi quem conhecereis — conhecereis o Juiz! Se não conhecerdes o Consolador na terra, conhecereis o Condenador no outro mundo, que clamará: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno do inferno”. Com razão podia Whitfield clamar: “Ó terra, terra, terra! Ouve a palavra do SENHOR!” Se fôssemos viver aqui para sempre, poderíeis desprezar o evangelho; se tivésseis um contrato que vos garantisse a vida, poderíeis desprezar o Consolador. Mas, senhores, tendes de morrer. Desde a última vez que nos reunimos, provavelmente alguns já partiram para sua última e duradoura morada; e, antes que voltemos a reunir-nos neste santuário, alguns dos que aqui estão estarão entre os glorificados lá no alto, ou entre os condenados lá embaixo. Qual será vosso destino? Que vossa alma responda. Se esta noite caísseis mortos em vossos bancos, ou onde estais de pé na galeria, onde estaríeis? No céu ou no inferno? Ah! Não vos enganeis; deixai que a consciência realize plenamente sua obra; e, se, diante de Deus, fordes obrigados a dizer: “Tremo e temo que minha porção seja com os incrédulos”, ouvi por um instante, e então terei terminado de falar contigo. “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” Pecador cansado, pecador infernal, tu que foste rejeitado pelo diabo, réprobo, libertino, prostituta, assaltante, ladrão, adúltero, fornicador, bêbado, blasfemador, profanador do sábado — escuta! Falo contigo tanto quanto com os demais. Não excluo ninguém. Deus disse que aqui não há exceções. “Todo aquele que crer no nome de Jesus Cristo será salvo.” O pecado não é uma barreira; tua culpa não é um obstáculo. Todo aquele — ainda que seja negro como Satanás, ainda que seja imundo como um demônio — todo aquele que crer nesta noite terá todos os seus pecados perdoados, todos os seus crimes apagados, todas as suas iniquidades eliminadas; será salvo no Senhor Jesus Cristo e permanecerá no céu, a salvo e em segurança. Esse é o evangelho glorioso. Que Deus o aplique ao vosso coração e vos conceda fé em Jesus!
“Ouvimos o pregador —
Por ele a verdade foi agora mostrada;
Mas precisamos de um MESTRE MAIOR,
Vindo do trono eterno:
A APLICAÇÃO
É obra de Deus somente.”
Tradução: Equipe Monergismo

