SERMÃO PREGADO NA MANHÃ DO DIA DO SENHOR,
14 DE JANEIRO DE 1855,
PELO REV. C. H. SPURGEON,
NA CAPELA DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK.
“Porém aquele capitão respondera ao homem de Deus e dissera: Ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia suceder isso? Respondeu-lhe o profeta: Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás.” — 2 Reis 7.19.
Um único sábio pode livrar uma cidade inteira; um único homem bom pode ser o instrumento da salvação de outros mil. Os santos são “o sal da terra”, o meio pelo qual os ímpios são preservados. Não fossem os piedosos o elemento que impede a corrupção, a raça humana seria inteiramente destruída. Na cidade de Samaria havia um homem justo: Eliseu, servo do Senhor. A piedade havia desaparecido por completo da corte. O rei era um pecador da pior espécie; sua iniquidade era flagrante e infame. Jeorão andava nos caminhos de seu pai Acabe e havia feito para si falsos deuses. O povo de Samaria caíra juntamente com seu monarca: desviara-se de Jeová, abandonara o Deus de Israel, já não se lembrava da palavra de ordem de Jacó, “O SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR”; e, entregue à perversa idolatria, prostrava-se diante dos ídolos dos pagãos. Por isso, o Senhor dos Exércitos permitiu que seus inimigos o oprimissem, até que a maldição de Ebal se cumprisse nas ruas de Samaria, pois “a mais mimosa e delicada das mulheres, que de mimo e delicadeza não ousaria pôr a planta do pé sobre a terra”, olhava com maus olhos para os próprios filhos e devorava sua prole por causa da fome terrível. Deuteronômio 28.56-58. Nessa situação extrema e aterradora, aquele único homem santo foi o instrumento da salvação. O único grão de sal preservou a cidade inteira; o único guerreiro de Deus foi o instrumento da libertação de toda aquela multidão sitiada. Por amor de Eliseu, o Senhor enviou a promessa de que, no dia seguinte, alimentos que não se podiam obter por preço algum seriam encontrados pelo menor preço possível — às próprias portas de Samaria. Podemos imaginar a alegria da multidão quando o vidente proferiu pela primeira vez essa predição. Sabiam que ele era profeta do Senhor; possuía credenciais divinas; todas as suas profecias anteriores haviam se cumprido. Sabiam que era um homem enviado por Deus, que transmitia a mensagem de Jeová. Certamente os olhos do monarca brilhariam de alegria, e a multidão emaciada saltaria de júbilo diante da perspectiva de uma libertação tão rápida da fome. “Amanhã”, gritariam, “amanhã nossa fome terá acabado, e comeremos até nos fartar.”
Entretanto, o oficial em cujo braço o rei se apoiava manifestou sua incredulidade. Não ouvimos dizer que alguém do povo comum, da plebe, tenha feito o mesmo; mas um aristocrata o fez. É estranho que Deus tão raramente tenha escolhido os grandes deste mundo. As posições elevadas e a fé em Cristo raramente se dão bem. Esse grande homem disse: “Impossível!” E, insultando o profeta, acrescentou: “Ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia suceder isso?” Seu pecado consistia em que, apesar das repetidas confirmações do ministério de Eliseu, ainda assim não acreditava nas garantias que o profeta transmitia em nome de Deus. Sem dúvida, ele vira a maravilhosa derrota de Moabe; ficara estarrecido ao receber notícias da ressurreição do filho da sunamita; sabia que Eliseu havia revelado os segredos de Ben-Hadade e ferido de cegueira suas tropas saqueadoras; vira os destacamentos sírios serem atraídos por um ardil até o coração de Samaria; e provavelmente conhecia a história da viúva cujo azeite encheu todas as vasilhas e resgatou seus filhos. De qualquer maneira, a cura de Naamã era assunto corrente na corte. E, no entanto, diante de todas essas provas acumuladas, a despeito de todas essas credenciais da missão do profeta, ele ainda duvidou e lhe disse, em tom de insulto, que o céu teria de se transformar numa janela escancarada para que a promessa pudesse se cumprir. Diante disso, Deus pronunciou sua sentença pela boca do homem que acabara de anunciar a promessa: “Tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. E a providência — que sempre cumpre a profecia, assim como o papel recebe a impressão dos tipos — destruiu aquele homem. Pisoteado nas ruas de Samaria, pereceu às suas portas, contemplando a abundância, mas sem prová-la. Talvez sua atitude fosse arrogante e insultuosa para com o povo; talvez tenha tentado conter a multidão que avançava impetuosamente; ou, como diríamos, pode ter sido por mero acidente que ele morreu esmagado. Assim, viu a profecia se cumprir, mas não viveu para desfrutar dela. Em seu caso, ver foi crer, mas não foi desfrutar.
Nesta manhã, convido-vos a considerar duas coisas: o pecado desse homem e sua punição. Talvez eu diga pouco a respeito dele, visto que já relatei as circunstâncias, mas discorrerei sobre o pecado da incredulidade e sua punição.
I. Em primeiro lugar, o PECADO. Seu pecado foi a incredulidade. Ele duvidou da promessa de Deus. Nesse caso específico, a incredulidade assumiu a forma de uma dúvida quanto à veracidade divina ou de uma desconfiança do poder de Deus. Ou ele duvidava de que Deus realmente quisesse dizer o que dizia, ou duvidava de que estivesse dentro dos limites do possível que Deus cumprisse sua promessa. A incredulidade tem mais fases que a lua e mais cores que o camaleão. O povo costuma dizer que o diabo aparece ora sob uma forma, ora sob outra. Estou certo de que isso é verdade quanto à primogênita de Satanás — a incredulidade —, pois suas formas são uma legião. Às vezes, vejo a incredulidade vestida como um anjo de luz. Ela se apresenta como humildade e diz: “Eu não gostaria de ser presunçoso; não ouso pensar que Deus me perdoaria; sou um pecador grande demais”. Chamamos isso de humildade e agradecemos a Deus por nosso amigo estar em tão boas condições. Eu não agradeço a Deus por semelhante ilusão. É o diabo vestido como anjo de luz; afinal de contas, é incredulidade. Outras vezes, descobrimos a incredulidade sob a forma de uma dúvida quanto à imutabilidade de Deus: “O Senhor me amou, mas talvez me rejeite amanhã. Ontem ele me ajudou, e eu confio à sombra de suas asas; mas talvez não receba auxílio na próxima aflição. Pode ser que ele me tenha rejeitado; talvez não se lembre de sua aliança e se esqueça de ser misericordioso”. Às vezes, essa incredulidade se manifesta como uma dúvida quanto ao poder de Deus. A cada dia nos vemos diante de novas situações difíceis, ficamos enredados numa trama de dificuldades e pensamos: “Certamente o Senhor não pode nos livrar”. Esforçamo-nos para nos livrar de nosso fardo e, descobrindo que não conseguimos, imaginamos que o braço de Deus seja tão curto quanto o nosso e que seu poder seja tão pequeno quanto o poder humano. Uma forma terrível de incredulidade é aquela dúvida que impede os homens de vir a Cristo; que leva o pecador a desconfiar da capacidade de Cristo para salvá-lo, a duvidar da disposição de Jesus para receber um transgressor tão grande. Mas a mais horrenda de todas é a traidora que, revelando suas verdadeiras cores, blasfema contra Deus e nega loucamente sua existência. A infidelidade, o deísmo e o ateísmo são os frutos maduros dessa árvore perniciosa; são as erupções mais aterradoras do vulcão da incredulidade. A incredulidade atinge sua plena estatura quando, abandonando a máscara e despindo-se do disfarce, percorre profanamente a terra, soltando o grito rebelde: “Não há Deus!”, tentando em vão abalar o trono da Divindade ao erguer seu braço contra Jeová, e, em sua arrogância, querendo
“Arrancar-lhe da mão a balança e a vara, Julgar de novo sua justiça — ser o deus de Deus.”
Então, verdadeiramente, a incredulidade atingiu sua plena perfeição, e então vedes o que ela realmente é, pois a menor incredulidade tem a mesma natureza que a maior.
Fico espantado, e tenho certeza de que vós também ficareis, quando vos digo que existem no mundo algumas pessoas estranhas que não acreditam que a incredulidade seja pecado. Preciso chamá-las de pessoas estranhas, porque, em todos os outros aspectos, são ortodoxas em sua fé; apenas, para tornar coerentes os artigos de seu credo, segundo imaginam, negam que a incredulidade seja pecaminosa. Lembro-me de um jovem que entrou numa reunião de amigos e ministros que discutiam se era pecado os homens não crerem no evangelho. Enquanto discutiam a questão, ele disse: “Senhores, estou na presença de cristãos? Os senhores creem na Bíblia ou não?” Eles responderam: “É claro que somos cristãos”. “Então”, disse ele, “não dizem as Escrituras: ‘do pecado, porque não creem em mim’? E não é o pecado que condena os pecadores o fato de não crerem em Cristo?” Eu não poderia imaginar que houvesse pessoas tão temerárias a ponto de ousarem afirmar que “não é pecado um pecador deixar de crer em Cristo”. Eu pensava que, por mais longe que desejassem levar suas opiniões, não chegariam a contar uma mentira para sustentar a verdade; e, em minha opinião, é exatamente isso que tais homens estão fazendo. A verdade é uma torre forte e nunca precisa ser escorada pelo erro. A Palavra de Deus permanecerá firme contra todos os artifícios humanos. Eu jamais inventaria um sofisma para provar que não é pecado os ímpios deixarem de crer, pois tenho certeza de que é pecado, uma vez que as Escrituras me ensinam que “o julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz”, e quando leio que “o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”, afirmo, e a Palavra o declara, que a incredulidade é pecado. Certamente, entre pessoas racionais e sem preconceitos, não deveria ser necessário nenhum raciocínio para prová-lo. Não é pecado uma criatura duvidar da palavra de seu Criador? Não é um crime e um insulto à Divindade que eu, um átomo, uma partícula de pó, ouse negar suas palavras? Não é o cúmulo da arrogância e o extremo do orgulho um filho de Adão dizer, ainda que apenas em seu coração: “Deus, duvido de tua graça; Deus, duvido de teu amor; Deus, duvido de teu poder”? Ah, senhores, crede em mim: se pudésseis reunir todos os pecados numa única massa — se pudésseis tomar o homicídio, a blasfêmia, a lascívia, o adultério, a fornicação e tudo quanto é vil, e juntar tudo numa imensa esfera de negra corrupção —, nem mesmo assim esses pecados se igualariam ao pecado da incredulidade. Este é o rei dos pecados, a quintessência da culpa, a mistura do veneno de todos os crimes, a borra do vinho de Gomorra; é o pecado de primeira grandeza, a obra-prima de Satanás, a principal obra do diabo.
Procurarei, nesta manhã, por alguns momentos, demonstrar a natureza extremamente maligna do pecado da incredulidade.
1. Em primeiro lugar, a extrema gravidade do pecado da incredulidade ficará evidente quando nos lembrarmos de que ela é a mãe de todas as demais iniquidades. Não há crime que a incredulidade não seja capaz de gerar. Penso que a queda do homem se deve, em grande medida, a ela. Foi nesse ponto que o diabo tentou Eva. Ele lhe disse: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” Sussurrou-lhe uma dúvida, insinuando: “Foi isso mesmo que Deus disse?”, como quem diz: “Tendes absoluta certeza de que ele disse isso?” Foi por meio da incredulidade — aquela ponta fina da cunha — que o outro pecado encontrou entrada; a curiosidade e tudo o mais vieram em seguida; ela tocou no fruto, e a destruição entrou neste mundo. Desde então, a incredulidade tem sido a mãe prolífica de toda culpa. Um incrédulo é capaz do crime mais vil que já se cometeu. A incredulidade, senhores! Ora, foi ela que endureceu o coração de Faraó; foi ela que deu rédea solta à língua blasfema de Rabsaqué; sim, foi ela que se tornou deicida e assassinou Jesus. A incredulidade! Foi ela que afiou a faca do suicida! Foi ela que misturou tantas taças de veneno; levou milhares à forca e muitos a uma sepultura vergonhosa, homens que tiraram a própria vida e, com as mãos ensanguentadas, precipitaram-se diante do tribunal de seu Criador, por causa da incredulidade. Dai-me um incrédulo — fazei-me saber que ele duvida da Palavra de Deus, que desconfia de sua promessa e de sua ameaça — e, tomando isso como premissa, concluirei que, mais cedo ou mais tarde, a menos que um extraordinário poder restritivo seja exercido sobre ele, esse homem será culpado dos crimes mais abomináveis e tenebrosos. Ah! Este é um pecado Belzebu; como Belzebu, é o chefe de todos os espíritos malignos. Diz-se de Jeroboão que ele pecou e fez Israel pecar; e pode-se dizer da incredulidade que ela não apenas peca, mas também leva outros a pecar. É o ovo de todo crime, a semente de toda transgressão; na verdade, tudo quanto é mau e vil está contido nessa única palavra — incredulidade.
E permiti-me dizer aqui que a incredulidade no cristão tem exatamente a mesma natureza que a incredulidade no pecador. Não tem o mesmo resultado final, pois será perdoada no cristão; sim, já está perdoada: outrora foi colocada sobre a cabeça do bode emissário; foi apagada e expiada. Mas sua natureza pecaminosa é a mesma. Na verdade, se há um pecado mais grave que a incredulidade de um pecador, é a incredulidade de um santo. Que um santo duvide da Palavra de Deus — que um santo desconfie de Deus depois de inúmeras manifestações de seu amor, depois de dez mil provas de sua misericórdia — ultrapassa todos os limites. Além disso, no santo, a incredulidade é a raiz de outros pecados. Quando eu for perfeito na fé, serei perfeito em tudo o mais; se eu sempre cresse na promessa, sempre cumpriria o preceito. Mas é porque minha fé é fraca que peco. Colocai-me em dificuldades e, se eu puder cruzar os braços e dizer: “Jeová-Jiré, o Senhor proverá”, não me vereis recorrer a meios ilícitos para escapar delas. Mas deixai-me passar por aflições e dificuldades materiais; se eu desconfiar de Deus, o que acontecerá então? Talvez eu roube ou pratique algum ato desonesto para me livrar dos credores; ou, se for impedido de cometer semelhante transgressão, talvez me entregue aos excessos para afogar minhas ansiedades. Basta retirar a fé, e as rédeas estarão rompidas; e quem poderá montar um cavalo indomado sem rédeas nem freio? Seríamos como o carro do sol conduzido por Faetonte, se não tivéssemos fé. A incredulidade é a mãe do vício; é a progenitora do pecado; por isso, afirmo que ela é um mal pestilento — um pecado soberano.
2. Em segundo lugar, porém, a incredulidade não apenas gera o pecado, mas também o alimenta. Como é possível que os homens continuem em seus pecados sob os trovões do pregador do Sinai? Como é possível que, quando Boanerges se põe no púlpito e, pela graça de Deus, clama em alta voz: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las” — como é possível que, quando o pecador ouve as terríveis ameaças da justiça divina, ainda assim permaneça endurecido e prossiga em seus maus caminhos? Eu vos direi: é porque a incredulidade quanto a essas ameaças impede que elas exerçam qualquer efeito sobre ele. Quando nossos sapadores e mineiros trabalham nos arredores de Sebastopol, não poderiam trabalhar diante das muralhas se não tivessem alguma coisa que os protegesse dos disparos; por isso, erguem trincheiras e terraplenos, atrás dos quais podem fazer o que bem entenderem. O mesmo acontece com o ímpio. O diabo lhe dá a incredulidade; assim, ele ergue um terrapleno e encontra refúgio atrás dele. Ah, pecadores! Quando o Espírito Santo derrubar vossa incredulidade — quando fizer a verdade penetrar em vosso coração com demonstração e poder —, como a lei agirá sobre vossa alma! Se o homem tão somente cresse que a lei é santa, que os mandamentos são santos, justos e bons, como seria sacudido sobre a boca do inferno! Não haveria quem ficasse sentado dormindo na casa de Deus; não haveria ouvintes indiferentes; ninguém sairia para logo se esquecer de que espécie de pessoa é. Ah! Se a incredulidade fosse eliminada, como cada projétil das baterias da lei atingiria o pecador, e muitos seriam os mortos do Senhor. Além disso, como é possível que os homens ouçam os apelos amorosos da cruz do Calvário e, ainda assim, não venham a Cristo? Como é possível que, quando pregamos os sofrimentos de Jesus e concluímos dizendo: “Ainda há lugar” — como é possível que, quando nos demoramos em sua cruz e paixão, o coração dos homens não seja quebrantado? Diz-se:
“A lei e seus terrores só endurecem, Enquanto agem por si; Mas a consciência do perdão comprado com sangue Dissolverá um coração de pedra.”
Parece-me que a história do Calvário é suficiente para despedaçar uma rocha. As rochas se fenderam quando viram Jesus morrer. Parece-me que a tragédia do Gólgota é suficiente para fazer uma pederneira verter lágrimas e fazer o mais endurecido dos miseráveis chorar até esgotar os olhos em lágrimas de amor penitente. E, no entanto, nós vos contamos essa história e a repetimos muitas vezes, mas quem chora por ela? Quem se importa com ela? Senhores, permaneceis sentados tão indiferentes como se nada disso vos dissesse respeito. Ah! Olhai e vede, todos vós que passais. Nada significa para vós que Jesus tenha morrido? Parece que respondeis: “Nada significa”. Qual é a razão? É que a incredulidade se interpõe entre vós e a cruz. Se não houvesse esse véu espesso entre vós e os olhos do Salvador, seu olhar amoroso vos enterneceria. Mas a incredulidade é o pecado que impede o poder do evangelho de agir no pecador; e somente quando o Espírito Santo elimina essa incredulidade — somente quando o Espírito Santo rasga essa infidelidade e a remove por completo — é que vemos o pecador vir depositar sua confiança em Jesus.
3. Mas há um terceiro ponto. A incredulidade incapacita o homem para a prática de qualquer boa obra. “Tudo o que não provém de fé é pecado” é uma grande verdade em mais de um sentido. “Sem fé é impossível agradar a Deus.” Nunca me ouvireis dizer uma palavra contra a moralidade; nunca me ouvireis dizer que a honestidade não é uma coisa boa, ou que a sobriedade não é uma coisa boa. Pelo contrário, eu diria que são coisas louváveis. Mas vou dizer-vos o que acrescentaria em seguida: são exatamente como os búzios do Hindustão; podem circular como moeda entre os indianos, mas não servem na Inglaterra. Essas virtudes podem ter valor aqui embaixo, mas não lá em cima. Se não possuirdes alguma coisa melhor que vossa própria bondade, jamais chegareis ao céu. Algumas tribos indianas usam pequenas tiras de tecido em lugar de dinheiro, e eu não veria problema nisso se morasse entre elas; mas, quando venho à Inglaterra, tiras de tecido não bastam. Assim, a honestidade, a sobriedade e coisas semelhantes podem ser muito boas entre os homens — e quanto mais as possuirdes, melhor. Exorto-vos a possuir tudo quanto é amável, puro e de boa fama — mas essas coisas não servirão lá em cima. Todas elas reunidas, sem fé, não agradam a Deus. Virtudes sem fé são pecados caiados. A obediência sem fé, se é que isso é possível, é uma desobediência dourada. Não crer anula tudo. É a mosca no unguento; é o veneno na panela. Sem fé, com todas as virtudes da pureza, com toda a benevolência da filantropia, com toda a bondade da compaixão desinteressada, com todos os talentos do gênio, com toda a bravura do patriotismo e com toda a firmeza dos princípios — “sem fé é impossível agradar a Deus”. Não vedes, então, quão má é a incredulidade, uma vez que impede os homens de praticar boas obras? Sim, até mesmo nos próprios cristãos a incredulidade os incapacita. Permiti-me contar-vos uma história — um episódio da vida de Cristo. Certo homem tinha um filho aflito, possesso de um espírito maligno. Jesus estava no alto do monte Tabor, transfigurado; por isso, o pai levou seu filho aos discípulos. O que fizeram os discípulos? Disseram: “Ah, nós o expulsaremos”. Impuseram as mãos sobre o rapaz e tentaram fazê-lo; mas cochicharam entre si, dizendo: “Tememos não conseguir”. Pouco depois, o enfermo começou a espumar pela boca; espumava e arranhava a terra, agarrando-a durante suas convulsões. O espírito demoníaco dentro dele continuava ativo. O diabo ainda estava lá. Inúteis foram os repetidos exorcismos; o espírito maligno permaneceu como um leão em sua toca, e os esforços dos discípulos não conseguiram desalojá-lo. “Sai!”, disseram eles; mas ele não saiu. “Volta para o abismo!”, gritaram; mas ele permaneceu imóvel. Os lábios da incredulidade não podem amedrontar o Maligno, que bem poderia ter dito: “Conheço a fé, conheço Jesus, mas quem sois vós? Não tendes fé”. Se tivessem fé como um grão de mostarda, poderiam ter expulsado o diabo; mas sua fé se fora e, por isso, nada podiam fazer. Considerai também o caso do pobre Pedro. Enquanto teve fé, Pedro andou sobre as ondas do mar. Foi uma caminhada magnífica; quase o invejo por ter pisado as ondas. Ora, se a fé de Pedro tivesse permanecido firme, ele poderia ter atravessado o Atlântico a pé até a América. Mas logo surgiu uma onda atrás dele, e ele disse: “Essa vai me arrastar”; depois, outra à sua frente, e ele gritou: “Essa vai me engolir”; e pensou: Como pude ser tão presunçoso a ponto de andar sobre estas ondas? E lá se foi Pedro para o fundo. A fé era a boia salva-vidas de Pedro; a fé era seu encanto — era ela que o mantinha à tona; mas a incredulidade o fez afundar. Sabeis que vós e eu teremos de andar sobre as águas durante toda a nossa vida? A vida do cristão é sempre um caminhar sobre as águas — a minha é assim —, e cada onda o tragaria e devoraria, não fosse a fé que o mantém de pé. No momento em que deixais de crer, nesse mesmo momento a aflição sobrevém, e afundais. Ah! Por que duvidas, então?
A fé alimenta todas as virtudes; a incredulidade assassina cada uma delas. Milhares de orações foram estranguladas no berço pela incredulidade. A incredulidade tem sido culpada de infanticídio; assassinou muitas súplicas recém-nascidas; muitos cânticos de louvor que teriam engrossado o coro dos céus foram sufocados por um murmúrio incrédulo; muitos empreendimentos nobres, concebidos no coração, foram arruinados pela incredulidade antes mesmo de virem à luz. Muitos homens teriam sido missionários; teriam se levantado para pregar corajosamente o evangelho de seu Mestre; mas eram incrédulos. Basta tornar incrédulo um gigante, e ele se transforma num anão. A fé é a madeixa de Sansão do cristão; cortai-a, e podereis arrancar-lhe os olhos — ele nada poderá fazer.
4. Nossa próxima observação é esta: a incredulidade tem sido severamente punida. Voltai-vos para as Escrituras! Vejo um mundo inteiramente belo e formoso; suas montanhas sorriem ao sol, e os campos se alegram sob a luz dourada. Vejo donzelas dançando e jovens cantando. Que visão encantadora! Mas eis que um ancião grave e venerável ergue a mão e exclama: “Um dilúvio está chegando para inundar a terra; as fontes do grande abismo se romperão, e todas as coisas serão cobertas. Vede aquela arca! Durante cento e vinte anos trabalhei com estas mãos para construí-la; refugiai-vos nela, e estareis seguros”. “Ah, ah! Velho, chega de tuas previsões vazias! Ah, ah! Divirtamo-nos enquanto podemos! Quando o dilúvio vier, construiremos uma arca; mas dilúvio algum está chegando; conta isso aos tolos; nós não acreditamos nessas coisas.” Vede os incrédulos prosseguindo em sua alegre dança. Escuta, incrédulo! Não ouves esse estrondo? As entranhas da terra começaram a se mover, suas costelas rochosas são sacudidas por terríveis convulsões interiores; eis que se rompem sob a enorme pressão, e de suas fendas irrompem torrentes jamais vistas desde que Deus as ocultou no seio de nosso mundo. O céu se rasga ao meio! Começa a chover. Não são gotas que caem, mas nuvens inteiras. Uma catarata, como a antiga Niágara, despenca do céu com estrondo poderoso. Os dois firmamentos, os dois abismos — o abismo de baixo e o abismo de cima — dão as mãos. Agora, incrédulos, onde estais? Ali está o último remanescente de vós. Um homem — com a esposa agarrada à sua cintura — permanece no último cume ainda acima das águas. Estais vendo? A água já lhe chega à cintura. Ouvi seu último grito! Ele está flutuando — afogou-se. E, quando Noé olha da arca, nada vê. Nada! É um vazio profundo. “Monstros marinhos dão à luz e fazem morada nos palácios dos reis.” Tudo foi derrubado, coberto, submerso. O que provocou isso? O que trouxe o dilúvio sobre a terra? A incredulidade. Pela fé, Noé escapou do dilúvio. Pela incredulidade, todos os demais se afogaram.
E, ah! Não sabeis que a incredulidade impediu Moisés e Arão de entrar em Canaã? Não honraram a Deus; feriram a rocha quando deveriam ter falado com ela. Não creram; e, por isso, veio sobre eles o castigo de não herdarem aquela boa terra pela qual tanto haviam trabalhado e se esforçado.
Permiti-me levar-vos ao lugar onde Moisés e Arão habitaram — ao vasto e desolado deserto. Vamos percorrê-lo por algum tempo; filhos de pés fatigados, seremos como os beduínos errantes e caminharemos pelo deserto por alguns momentos. Ali jaz um cadáver embranquecido pelo sol; mais adiante, outro, e outro ainda. Que significam esses ossos descorados? Que são esses corpos — ali um homem, acolá uma mulher? Que é tudo isso? Como vieram parar aqui esses cadáveres? Certamente deve ter havido aqui um grande acampamento, exterminado numa única noite por alguma calamidade súbita ou por um massacre. Ah, não, não. Esses ossos são os ossos de Israel; esses esqueletos são as antigas tribos de Jacó. Não puderam entrar por causa da incredulidade. Não confiaram em Deus. Os espias disseram que não poderiam conquistar a terra. A incredulidade foi a causa de sua morte. Não foram os anaquins que destruíram Israel; não foi o deserto desolado que os devorou; não foi o Jordão que se mostrou uma barreira para Canaã; nem heveus nem jebuseus os mataram. Foi somente a incredulidade que os impediu de entrar em Canaã. Que sentença terrível pronunciada sobre Israel, depois de quarenta anos de peregrinação: não puderam entrar por causa da incredulidade!
Para não multiplicar os exemplos, lembrai-vos de Zacarias. Ele duvidou, e o anjo o tornou mudo. Sua boca foi fechada por causa da incredulidade. Mas, ah! Se desejais contemplar o quadro mais terrível dos efeitos da incredulidade — se desejais ver como Deus a puniu —, preciso levar-vos ao cerco de Jerusalém, o pior massacre que o tempo jamais presenciou, quando os romanos arrasaram suas muralhas e passaram todos os habitantes ao fio da espada ou os venderam como escravos no mercado. Nunca lestes sobre a destruição de Jerusalém por Tito? Nunca voltastes os olhos para a tragédia de Massada, quando os judeus apunhalaram uns aos outros, preferindo isso a cair nas mãos dos romanos? Não sabeis que, até hoje, o judeu percorre a terra como errante, sem lar e sem pátria? Foi cortado como se corta um ramo da videira; e por quê? Por causa da incredulidade. Todas as vezes que virdes um judeu de semblante triste e sombrio — todas as vezes que o notardes caminhando por nosso país como alguém de outra terra, como um exilado —, todas as vezes que o virdes, detende-vos e dizei: “Ah! Foi a incredulidade que te levou a assassinar Cristo, e agora ela te condenou a vagar pelo mundo; e somente a fé — a fé no Nazareno crucificado — pode reconduzir-te à tua pátria e restaurá-la à sua antiga grandeza”. A incredulidade, como vedes, traz na fronte a marca de Caim. Deus a odeia; Deus lhe tem desferido golpes severos; e Deus acabará por esmagá-la. A incredulidade desonra a Deus. Todos os outros crimes atingem o território de Deus; mas a incredulidade dirige um golpe contra sua própria divindade, põe em dúvida sua veracidade, nega sua bondade, blasfema contra seus atributos, difama seu caráter. Por isso, acima de todas as coisas, Deus odeia, em primeiro lugar e principalmente, a incredulidade, onde quer que ela se encontre.
5. E agora, para encerrar este ponto — pois já me alonguei demais —, permiti-me observar que a natureza hedionda da incredulidade se revela no fato de que ela é o pecado que condena. Há um pecado pelo qual Cristo nunca morreu: é o pecado contra o Espírito Santo. Há ainda outro pecado pelo qual Cristo jamais fez expiação. Mencionai qualquer crime do catálogo do mal, e eu vos mostrarei pessoas que encontraram perdão para ele. Mas perguntai-me se o homem que morreu na incredulidade pode ser salvo, e responderei que não há expiação para esse homem. Há expiação pela incredulidade de um cristão, porque ela é temporária; mas a incredulidade final — a incredulidade na qual os homens morrem — jamais foi expiada. Podeis percorrer este Livro inteiro e descobrireis que não há expiação para o homem que morreu na incredulidade; não há misericórdia para ele. Se tivesse sido culpado de todos os outros pecados, mas houvesse crido, teria sido perdoado; mas esta é a exceção que condena — ele não tinha fé. Agarrai-o, demônios! Ó seres infernais do abismo, arrastai-o para baixo, até sua condenação! Ele não tem fé e é incrédulo, e é para tais habitantes que o inferno foi construído. É sua porção, sua prisão; são eles os principais prisioneiros; os grilhões trazem seus nomes gravados, e para sempre saberão que “quem, porém, não crer será condenado”.
II. Isso nos leva agora a concluir com a PUNIÇÃO. “Tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás.” Escutai, incrédulos! Nesta manhã, ouvistes falar de vosso pecado; agora, ouvi vossa sentença: “Vereis com vossos olhos, mas disso não comereis”. Isso acontece com frequência até mesmo aos santos de Deus. Quando são incrédulos, veem a misericórdia com os olhos, mas não se alimentam dela. Ora, há trigo aqui nesta terra do Egito; mas há alguns santos de Deus que vêm aqui no dia do Senhor e dizem: “Não sei se o Senhor estará comigo ou não”. Alguns dizem: “Bem, o evangelho é pregado, mas não sei se terá êxito”. Estão sempre duvidando e temendo. Ouvi-os quando saem da capela. “Então, tivestes uma boa refeição nesta manhã?” “Nada houve para mim.” É claro que não. Pudestes vê-la com os olhos, mas não comestes dela, porque não tínheis fé. Se tivésseis vindo com fé, teríeis recebido um bocado. Tenho encontrado cristãos que se tornaram tão exigentes que, se toda a porção de carne que devem receber a seu tempo não for cortada em pedaços perfeitamente quadrados e servida numa travessa de porcelana fina, não conseguem comê-la. Nesse caso, devem passar fome; e terão de continuar passando fome até que recuperem o apetite. Sofrerão alguma aflição que agirá sobre eles como o quinino; serão obrigados a comer depois de sentir o gosto amargo na boca; serão postos na prisão por um ou dois dias, até que o apetite lhes volte, e então ficarão contentes em comer o alimento mais simples, servido no prato mais comum, ou mesmo sem prato algum. Mas a verdadeira razão pela qual o povo de Deus não se alimenta sob um ministério evangélico é a falta de fé. Se crêsseis, se ouvísseis uma única promessa, isso bastaria; se ouvísseis apenas uma boa palavra do púlpito, aí estaria o alimento para vossa alma, pois não é a quantidade do que ouvimos, mas a quantidade do que cremos, que nos faz bem — aquilo que recebemos no coração com fé verdadeira e viva é o que nos traz proveito.
Mas permiti-me aplicar isso principalmente aos não convertidos. Muitas vezes eles contemplam com os próprios olhos grandes obras realizadas por Deus, mas não se alimentam delas. Uma multidão veio aqui nesta manhã para ver com os olhos, mas duvido que todos se alimentem. Os homens não podem comer com os olhos, pois, se pudessem, a maioria estaria muito bem alimentada. E, espiritualmente, as pessoas não podem se alimentar apenas com os ouvidos, nem simplesmente olhando para o pregador; assim, verificamos que a maioria dos membros de nossas congregações vem apenas para ver: “Ah, vamos ouvir o que esse tagarela tem a dizer, esse caniço agitado pelo vento”. Mas não têm fé; vêm, e veem, e veem, e veem, mas nunca comem. Há alguém ali na frente que se converte; e outro, mais abaixo, que é chamado pela graça soberana; algum pobre pecador está chorando sob a consciência de sua culpa de sangue; outro está clamando a Deus por misericórdia; e outro diz: “Tem misericórdia de mim, pecador”. Uma grande obra está acontecendo nesta capela, mas alguns de vós nada sabeis a respeito dela; nenhuma obra está acontecendo em vosso coração. E por quê? Porque pensais que isso é impossível; pensais que Deus não está operando. Ele não prometeu operar em favor daqueles que não o honram. A incredulidade faz com que permaneçais aqui, em tempos de avivamento e de derramamento da graça de Deus, sem serdes comovidos, sem serdes chamados, sem serdes salvos.
Mas, senhores, o pior cumprimento dessa sentença ainda está por vir! O bom Whitfield costumava erguer ambas as mãos e clamar, como eu gostaria de poder clamar, mas minha voz não me permite: “A ira vindoura! A ira vindoura!” Não é a ira presente que deveis temer, mas a ira vindoura; e haverá uma sentença futura, quando “vereis com vossos olhos, mas disso não comereis”. Parece-me contemplar o grande dia final. Soou a última hora do tempo. Ouvi o sino dobrar seus últimos acordes fúnebres — o tempo deixou de existir, a eternidade fez sua entrada; o mar está fervendo; as ondas resplandecem com um esplendor sobrenatural. Vejo um arco-íris — uma nuvem que voa, e sobre ela há um trono, e nesse trono está assentado alguém semelhante ao Filho do Homem. Eu o conheço. Em sua mão ele segura uma balança; diante dele estão os livros — o livro da vida, o livro da morte, o livro da memória. Vejo seu esplendor e me alegro; contemplo sua majestosa aparição e sorrio de contentamento porque ele veio para ser “admirado em todos os que creram”. Mas ali está uma multidão de miseráveis, agachados de horror, tentando se esconder e, contudo, olhando, pois seus olhos precisam contemplar aquele a quem traspassaram; mas, quando olham, clamam: “Escondei-me da face!” Que face? “Rochas, escondei-me da face!” Que face? “Da face de Jesus, o homem que morreu, mas agora veio para julgar.” Mas não podeis vos esconder de sua face; tereis de vê-la com vossos olhos. Entretanto, não estareis assentados à direita, vestidos com mantos de glória; e, quando vier a procissão triunfal de Jesus nas nuvens, não marchareis nela; vós a vereis, mas não estareis lá. Ah! Parece-me contemplá-la agora: o poderoso Salvador em seu carro, cavalgando sobre o arco-íris rumo ao céu. Vede como seus poderosos corcéis fazem o céu retumbar enquanto ele os conduz pela encosta celestial. Um cortejo vestido de branco o segue e, às rodas de seu carro, ele arrasta o diabo, a morte e o inferno. Escutai como batem palmas. Escutai como exclamam. “Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro.” Escutai como entoam o cântico solene: “Aleluia! Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso”. Vede o esplendor de sua aparência; observai as coroas sobre suas cabeças; vede suas vestes brancas como a neve; contemplai o arrebatamento em seus semblantes; ouvi como seu cântico se eleva até o céu, enquanto o Eterno se une a eles, dizendo: “Eu me alegrarei por causa deles com júbilo, exultarei por causa deles com cânticos, pois desposar-te-ei comigo para sempre, em benignidade”. Mas onde estais vós durante todo esse tempo? Podeis vê-los lá em cima, mas onde estais? Contemplais tudo com os olhos, mas não podeis comer. O banquete nupcial está preparado; os bons vinhos antigos da eternidade foram abertos; eles se assentam à mesa do rei para o banquete; mas lá estais vós, miseráveis e famintos, sem poder comer. Ah! Como torceis as mãos. Se ao menos pudésseis receber uma migalha da mesa — se ao menos pudésseis ser cães debaixo da mesa! Sereis cães no inferno, mas não cães no céu.
Mas, para concluir. Parece-me ver-te em algum lugar do inferno, amarrado a uma rocha, enquanto o abutre do remorso te rói o coração; e lá em cima está Lázaro, no seio de Abraão. Erguendo os olhos, vês quem é. “É aquele pobre homem que jazia sobre meu monte de esterco, e os cães lhe lambiam as feridas; ali está ele no céu, enquanto eu fui lançado aqui embaixo. Lázaro — sim, é Lázaro; e eu, que fui rico no mundo do tempo, estou aqui no inferno. Pai Abraão, manda Lázaro molhar em água a ponta do dedo para refrescar minha língua.” Mas não! Isso não pode acontecer; não pode acontecer. E, enquanto jazes ali, se há no inferno alguma coisa pior que as outras, será contemplar os santos no céu. Ah, pensar em ver minha mãe no céu enquanto eu sou lançado fora! Ah, pecador, pensa apenas nisto: ver teu irmão no céu — aquele que foi embalado no mesmo berço e brincou sob o mesmo teto — e, contudo, tu foste lançado fora. E tu, marido, ali está tua esposa no céu, enquanto tu estás entre os condenados. E vês, pai? Teu filho está diante do trono; e tu, amaldiçoado por Deus e amaldiçoado pelos homens, estás no inferno. Ah, o inferno dos infernos será ver nossos amigos no céu enquanto nós mesmos estamos perdidos. Eu vos suplico, meus ouvintes, pela morte de Cristo — por sua agonia e seu suor de sangue — por sua cruz e paixão — por tudo quanto é santo — por tudo quanto é sagrado no céu e na terra — por tudo quanto é solene no tempo ou na eternidade — por tudo quanto é horrível no inferno ou glorioso no céu — por aquele pensamento terrível, “para sempre” —, eu vos suplico que guardeis estas coisas no coração e vos lembreis de que, se fordes condenados, será a incredulidade que vos condenará. Se estiverdes perdidos, será porque não crestes em Cristo; e, se perecerdes, esta será a mais amarga gota de fel — não terdes confiado no Salvador.
Tradução: Equipe Monergismo

