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Sátira, humor e aquilo pelo que somos conhecidos

Uma resposta a Kevin DeYoung

Uma das razões pelas quais há muito aprecio Kevin DeYoung é que tanto ele quanto eu valorizamos a clareza. É por isso que eu estava ansioso para ler sua recente crítica a Doug Wilson e à “Mentalidade de Moscow”. Após a leitura, entendo por que muitas pessoas a consideraram útil. Ele está fazendo muitas perguntas pertinentes. Ao mesmo tempo, tenho algumas dúvidas sobre sua análise e discordâncias importantes com sua prescrição.

A crítica de DeYoung

Vou começar com um breve resumo das principais críticas de DeYoung. Ele afirma que o apelo de Moscow é, em grande parte, visceral, não intelectual. As pessoas são atraídas por uma postura cultural, estética e política, uma disposição ou uma mentalidade voltada à construção e guerra cultural que diz: “Não vamos desistir, tampouco ceder. Podemos fazer mais do que negociar os termos de nossa rendição. Os infiéis se apoderaram de nossas leis cristãs, de nossa herança cristã e de nossas terras cristãs, e vamos tomá-las de volta”.

DeYoung reconhece que há elementos louváveis nessa disposição ou mentalidade, mas, ainda assim, prevê “sérios problemas” com “os efeitos espirituais de longo prazo em admirar e imitar a mentalidade de Moscow”, pois ela é muitas vezes “incompatível com a virtude cristã, sem consideração por outros cristãos e, em última análise, inconsistente com os objetivos declarados do projeto de cristandade de Wilson”.

Para evidenciar esses problemas, DeYoung destaca dois vídeos promocionais do No Quarter November (NQN), evento anual da Canon Press em que eles distribuem muitos livros gratuitos e lançam novos recursos no aplicativo Canon+, tudo enquanto Doug Wilson escreve semanalmente em seu blog de forma incisiva, sem qualificações, nuances ou hesitações. DeYoung vê os vídeos promocionais como representativos dos aspectos preocupantes da Mentalidade de Moscow. Em particular, de acordo com DeYoung, os vídeos exibem um tom sarcástico e provocativo; eles atacam outros cristãos (como a Ethics and Religious Liberty Commission [Comissão de ética e liberdade religiosa] – ERLC e o Ministério G3); eles incentivam explicitamente a guerra e construção cultural; e se concentram no próprio Wilson (como rebelde, justiceiro, quebrador de tabus e herói de uma era ensandecida).

De acordo com DeYoung, o NQN está vendendo “uma personalidade e imagem cuidadosamente cultivadas”, uma disposição que se baseia em uma “estrutura fundamentalmente oposicionista”, “uma postura antagonista em relação ao mundo” e aos cristãos covardes. “A diferenciação é fundamental”, diz DeYoung, “e isso só pode ser sustentado por uma mentalidade de antagonismo e antítese aguda”, que gera seguidores por meio de um partidarismo negativo e se recusa a se aliar a outros, e, em vez disso, forja uma lealdade inquebrantável a Wilson como o forasteiro encrenqueiro.

Sátira como repreensão

Como mencionei, eu tenho algumas perguntas. Por exemplo, qual é o papel adequado da sátira e da causticidade? Parece-me que vários artifícios retóricos são fundidos no artigo de DeYoung — escrever com jovialidade chestertoniana e verve wodehousiana, troçar de forma divertida outros cristãos por meio de memes, zombar ironicamente da insensatez e da transigência dos líderes cristãos, acusar de forma contundente o pecado e a idolatria por meio de obscenidades e vulgaridades cuidadosamente empregadas. Distinguir esses diferentes tipos de retórica e seu uso adequado seria imensamente útil e esclarecedor, mas não é algo que DeYoung se dê ao trabalho de fazer. Em vez disso, ele opta por amalgamar todos esses estilos e estratégias. 

Com isso em mente, permita-me tentar esclarecer algumas confusões comuns sobre a sátira. Em um nível, a sátira é um apelo à realidade contra os absurdos do pecado e da rebelião. Ela geralmente apela para aqueles que vivem em meio à corrupção e à hipocrisia, ao mesmo tempo em que provoca aqueles que as praticam. Mas a sátira também é uma forma de repreensão e admoestação, usada para corrigir e repreender quem esteja seguindo um caminho pecaminoso ou insensato. Como outras formas de repreensão, ela funciona como um interruptor dimerizável. A sátira mais branda pode ser usada para reprovar a insensatez de um colega cristão que precisa de um empurrãozinho para parar com isso. Uma sátira mais intensa pode ser usada para criticar a transigência significativa por parte de cristãos professos, com a repreensão agindo como um agente de peneiração — com alguns respondendo à repreensão satírica com humildade e outros endurecendo o coração. E a sátira mais contundente pode ser usada para expor e condenar grandes maldades e rebeliões. 

Com essa rubrica, vamos considerar algumas das objeções de DeYoung ao uso da sátira por Moscow. Em um dado momento, ele argumenta que a sátira e a zombaria são inapropriadas quando se lida com a maldade grave na cultura. Zombar da maldade do mundo com “Feministo privilegiade” é “tolo, desnecessário e, em última análise, prejudica a seriedade da questão a que estão tentando tratar”. Mas essa mesma crítica não se aplicaria a Elias zombando dos profetas de Baal (1Rs 18.27), perguntando se o Deus deles está dormindo ou no banheiro? A idolatria não era uma “perversidade crassa”? Ou faça a si mesmo esta pergunta: por que é, hoje, culturalmente aceitável zombar do casamento bíblico e da criação tradicional de filhos, mas é “detestável” zombar dos absurdos óbvios e imorais que caracterizam a revolução sexual? Será que uma das maneiras pelas quais o mundo promove sua rebelião, blasfêmia e heresia, não é nos dizer do que podemos rir e exigir que levemos sua insensatez a sério (como argumenta este breve vídeo sobre o Moral Imperative of Mockery [A zombaria como imperativo moral])? Será que a Bíblia emprega a sátira como uma arma de altíssimo potencial, particularmente adequada para as trincheiras de uma guerra cultural?

Ou o que dizer da objeção de DeYoung de que a causticidade deveria ser usada somente contra o mundo não cristão, e não contra outros líderes cristãos? Bem, de novo, se a sátira é uma forma de repreensão, então não seria apropriado usá-la para corrigir cristãos professos? A Bíblia claramente não limita a sátira ao mundo não crente. Os pastores de Israel, os sacerdotes, os fariseus e saduceus — todos eles estão sujeitos a uma variedade de caricaturas, acusações, zombarias e desprezo nas mãos dos profetas e do próprio Senhor. E isso não significa que todos os membros desses grupos não eram regenerados. Alguns membros do Sinédrio seguiam a Cristo. Será que a repreensão satírica de Cristo a eles como um todo tem algo a ver com isso?

Ver a sátira como uma forma de repreensão ajuda a responder aos exemplos específicos que DeYoung destaca no vídeo — o direto na ERLC e o disparo contra o G3. No primeiro caso, a Bíblia usa a sátira para repreender a transigência e as prioridades deslocadas dos líderes do povo de Deus (pense na crítica de Cristo aos fariseus por coarem mosquitos e engolirem camelos [Mt 23.24]). A ERLC, que DeYoung elogia como um baluarte cristão supostamente conservador, tem demonstrado exatamente esse tipo de prioridades deslocadas e transigência, seja fazendo lobby pela reforma da imigração e pelo controle de armas ou se opondo à legislação antiaborto no Louisiana. Decididamente, ela não esteve do mesmo lado que os cristãos conservadores nas principais batalhas culturais. Suspeito que a avaliação de DeYoung sobre o direto do NQN na ERLC se deva tanto a uma visão equivocada dos alvos apropriados da sátira bíblica quanto a avaliações diferentes da fidelidade dessa instituição específica.

Quanto ao G3, os homens associados a esse ministério têm publicamente distorcido e atacado Moscow (e os nacionalistas cristãos de forma mais ampla) de várias maneiras nos últimos seis meses, ao mesmo tempo em que se recusam firmemente a ter conversas ou discussões esclarecedoras (apesar dos repetidos convites para fazê-lo em uma variedade de formatos). É irônico que DeYoung repreenda Moscow por um comentário jocoso quando é Moscow quem tem repetidamente buscado alcançar uma compreensão mútua com o G3 (sem sucesso). Um comentário jocoso talvez seja uma boa maneira de estimulá-los a se comportarem com mais caridade e clareza quando se trata de apresentar as opiniões de outros cristãos.

Em uma categoria um pouco diferente está o uso de memes que troçam outros crentes de forma divertida. Pense no tipo de brincadeira que grupos de homens fazem regularmente como parte da amizade masculina. Nessas circunstâncias, você ganha o respeito e a confiança de outros homens por estar disposto a aceitar as piadas e a retribuir da mesma forma. Esse tipo de comportamento é um sinal de saúde, humildade e camaradagem. Até mesmo os insultos podem ser um sinal de afeto (e não, isso não é uma desculpa para “conversas imorais”).

O que me traz ao tipo mais contundente de sátira — o uso de vulgaridades e obscenidades para expor a rebeldia grosseira. Wilson respondeu recentemente a outra crítica razoável sobre seu uso (muito raro) desse tipo de retórica. Alguns críticos dão a impressão de que Wilson fala palavrões casualmente como um marinheiro, por diversão. Embora ele tenha passado um período na Marinha, essa caracterização é simplesmente falsa. Seu uso de obscenidades e vulgaridades deve ser considerado como um ato intencional de tradução, que ele emprega com moderação e em contextos específicos. Quando o pecado, a insensatez e a idolatria não são reconhecidos pelo mal que são, o uso de linguagem vulgar e obscena traduz o mal em uma forma que é ao mesmo tempo precisa e impactante, como quando Ezequiel compara a idolatria de Israel a uma mulher que cobiça os órgãos genitais de um jumento. Para usar um dos exemplos mais infames, quando a “pastora” luterana apóstata Nadia Bolz-Weber entregou o dito prêmio a Gloria Steinem, ela estava dizendo algo com a estátua. Wilson simplesmente o traduziu.

Em todos os meus anos discutindo o uso da sátira, ainda não ouvi nenhum dos críticos de Wilson dar um exemplo de imitação e aplicação fiel desse modo profético de falar. Se Wilson está fazendo isso tão errado, onde estão os exemplos de escritores e pregadores cristãos fazendo isso corretamente? DeYoung (ou outros que compartilham da sua crítica à Moscow) já usou a sátira, a zombaria e a causticidade para repreender a insensatez e a rebelião ao nosso redor? O Antigo e Novo Testamentos estão repletos dessa causticidade de várias formas, desde repreensões breves (“gálatas insensatos”) até imprecações, caricaturas, acusações incisivas e zombaria derrisória, e tudo isso sustentado por uma profunda alegria e gratidão pela bondade de Deus. E, no entanto, exceto Moscow e o Babylon Bee, não me lembro de ninguém que tenha tentado usar esse tipo de discurso bíblico para confrontar o mundanismo e a rebelião.

O que é enfatizado?

Tenho mais perguntas. DeYoung afirma que Moscow não “enfatiza” as coisas certas. Ele alega que a persona on-line de Wilson não tem como objetivo apresentar às pessoas os Credos e as Confissões reformadas, ou expor livros da Bíblia, ou falar de missões globais aos confins da terra, ou sobre liturgia, pregação, oração e os meios ordinários da graça. Agora, talvez DeYoung possa responder: “Sim, esses recursos estão disponíveis, mas não são enfatizados na persona on-line de Doug”. Mas como se avalia isso? Quantas vezes a Canon precisa postar algo no Twitter para que isso seja suficientemente enfatizado? Quantas vezes Doug precisa divulgar seus comentários no cabeçalho do seu blog? Quantos sermões expositivos básicos Doug precisa pregar para que isso seja uma marca distintiva de seu ministério? Quantas conferências sobre missões globais a Christ Church precisa realizar para satisfazer críticos como DeYoung?

Mais adiante, no mesmo parágrafo, DeYoung sinaliza um meio de avaliação: “Se Wilson e a Canon Press acreditam que todos esses aspectos (credos, confissões, Bíblia, missões) são essenciais para eles, então deveriam dedicar um mês inteiro (ou até mesmo um ano inteiro) apenas a eles, sem nenhuma crítica, sem nenhum sarcasmo e sem nenhuma troça para com outros cristãos”. Aí está o problema. Apesar de reconhecer que a sátira é “uma arma sagrada no exército do Senhor”, no final das contas, parece que há pouco ou nenhum lugar para a sátira e a jocosidade na “guerra cultural entendida corretamente”. Ou, em outras palavras, a suposição subjacente ao artigo de DeYoung é que Moscow utiliza a sátira “demais” e não acentua os ensinamentos cristãos básicos “o suficiente”. Mas ainda me resta a pergunta: “Qual é a proporção correta e como teremos certeza?”

Teste de disposição

Podemos nos aprofundar mais na questão da proporção. Considere a crítica de DeYoung à Mentalidade de Moscow, que ele descreve como combativa e jocosa. A crítica de DeYoung se resume ao seguinte: “A principal coisa que Wilson (e Canon) fazem é combater, e eles realmente parecem gostar disso”.

Parte da questão é que a jovialidade chestertoniana permeia os ministérios aqui em Moscow, e Doug sempre escreve com um colorido wodehousiano, inclusive no uso da sátira e da polêmica. O erro comum é confundir esses elementos chestertonianos e wodehousianos com a polêmica e a sátira. Considerando as milhões de palavras que já saíram de Moscow ao longo dos anos, a sátira é apenas um pequeno bocado da produção.

Mas isso é apenas uma parte da questão. A outra tem a ver com a restrição das críticas à persona on-line de Doug e à mídia social da Canon. Como DeYoung reconhece, Wilson e companhia construíram um “ecossistema de escolas, igrejas, mídia e empreendimentos editoriais”. Wilson, portanto, usa vários uniformes diferentes: pastor na Christ Church, membro do conselho e professor de teologia na New Saint Andrews College, e assim por diante.

Mas um dos chamados específicos de Wilson é o de escritor. Em geral, ele escreve livros e artigos. Uma geração atrás, ele teria tido um trabalho secundário como colunista em um jornal. Na era da Internet, ele tem um blog e escreve cerca de duas colunas por semana comentando sobre vários assuntos, sejam teológicos, culturais ou políticos. Ao escrever essas colunas/artigos, ele frequentemente emprega a sátira como uma estratégia retórica deliberada em um meio específico. Esse é um chamado específico e é notório que ele tem prazer nisso. “Bendito seja o Senhor, rocha minha, que me adestra as mãos para a batalha e os dedos, para a guerra [cultural].” Assim como o guerreiro do Salmo 19, que se regozija ao percorrer o seu caminho, Wilson empunha seu teclado no campo de batalha da Internet como D’Artagnan e os mosqueteiros.

Portanto, quando DeYoung destaca a “persona on-line” de Wilson e critica o combate constante, ele está colocando as coisas de forma injusta. É como ir a um jogo de futebol americano e concluir: “Tudo o que esses caras fazem é bater nas pessoas. E eles realmente parecem gostar disso”. Bem, sim, isso é o que acontece em um jogo de futebol americano. Em outras palavras, DeYoung escolheu dois lugares onde os combates ocorrem com mais frequência (mídia social e o blog de Doug) e apresentou isso como a marca distintiva de Moscow. DeYoung deve acreditar que não devemos combater de forma alguma, ou que devemos combater em algum outro lugar (e, talvez, com tristeza no olhar).

É por isso que as críticas de DeYoung a Moscow inevitavelmente parecerão vazias e injustas para muitos dos apreciadores. Eles sabem que, embora combater na guerra cultural seja uma das coisas que fazemos (e uma das coisas que gostamos de fazer), não é a coisa principal, ou a única de que gostamos (considere um testemunho representativo). Porque o fato é que gostamos de muitas coisas aqui. A alegria em Cristo permeia esta comunidade. Gostamos de grandes banquetes e grandes festas, de beber cerveja e cantar salmos. Gostamos de ter filhos e de educá-los (somos conhecidos até mesmo por discipliná-los com alegria e jovialidade). Mais especialmente, gostamos de adorar a Deus com seu povo, renovando a aliança com ele e nos deleitando com toda a sua bondade para conosco. É simplesmente falso dizer, como faz DeYoung, que gostamos mais da luta em si do que daquilo pelo que estamos lutando.

Seja o que for que nossas mãos encontrem para fazer, tentamos fazê-lo com todo o nosso coração, porque estamos fazendo como ao Senhor. E isso se estende a todos os tipos de trabalho e vocações. Alguns de nós gostam de ensinar estudantes universitários e de ser técnicos de futebol americano colegial. Outros gostam de decoração de interiores e de preparar refeições para o Dia do Senhor. Outros ainda gostam de fazer documentários e vender livros que o ajudarão a preparar sua família a enfrentar o caos. E, sim, alguns de nós gostam de atacar a insensatez e a incredulidade e, ocasionalmente, empunhar um lança-chamas. Fazemos todas essas coisas em obediência a Jesus. Queremos servir ao Senhor sinceramente, com o coração alegre, por causa da abundância de todas as coisas.

Aquilo pelo que somos conhecidos

Mas sei que, a essa altura, alguns dirão, como DeYoung, “Sim, mas não é por essas coisas que vocês são conhecidos”. O que me leva à minha maior preocupação com as críticas de DeYoung à Mentalidade de Moscow. Será que DeYoung reconhece que ele e seus círculos também têm uma “personalidade e imagem cuidadosamente cultivadas”, uma marca que eles procuram exibir ao mundo? Os círculos que ele frequenta são regidos por um clima de respeitabilidade, credibilidade e responsabilidade. E, por si só, isso é ótimo. Esses são princípios bíblicos (assim como a coragem e a sátira). Mas será que ele reconhece que o apelo dessa mentalidade é “visceral, não intelectual”? E que há tentações específicas associadas a ela? Mais importante ainda, ele procurou abordar publicamente essas tentações nos ministérios aos quais está associado?

E para que eu não seja acusado de tu quoque, deixe-me esclarecer o argumento que estou apresentando. DeYoung identifica seu público-alvo como “aqueles que apreciam parte do que Wilson diz, mas também sentem que algo não está certo”. DeYoung escreve para validar esse sentimento e identificar o que é esse “algo”. Estou sugerindo que, em vez disso, aqueles que sentem que algo está errado devem questionar o próprio sentimento. Eles devem examinar se ele está de fato fundamentado nas Escrituras ou se é motivado pelo tipo indevido de desejo de respeitabilidade, o que poderíamos chamar de Mentalidade Respeitável.

Mas, neste ponto, preciso chamar a atenção para minha principal dificuldade em alertar sobre os “efeitos espirituais de longo prazo de admirar e imitar” a Mentalidade Respeitável. O desafio é que, embora DeYoung possa dissecar um vídeo público da NQN para fazer sua advertência, as tentações e os perigos da Respeitabilidade encontram-se em grande parte nos bastidores.

O que quero dizer com isso? Refiro-me aos e-mails apreensivos de um colega pastor se você recomendar um livro de Wilson sobre criação de filhos; ao acadêmico cristão que tem suas notas de rodapé policiadas e depuradas de referências a qualquer citação de Moscow; refiro-me ao acadêmico cristão que é advertido de que terá dificuldades para conseguir um emprego de professor se aceitar um convite para palestrar no New Saint Andrews; à enorme pressão exercida sobre os líderes cristãos para que não expressem gratidão ou apreço por Moscow publicamente. Ao contrário de DeYoung, a diferenciação não acontece apenas por meio de um forte antagonismo público; ela acontece por meio de pressão passivo-agressiva, policiamento do tom e muitas angústias e “preocupações” expressas em particular, tudo à serviço da manutenção da “personalidade e imagem cuidadosamente cultivadas” da Respeitabilidade.

DeYoung teme que Moscow apele para o que há de mundano em nós. Tenho o mesmo receio com relação aos círculos de DeYoung. Ele teme que o mundo esteja em chamas e que Moscow esteja ateando mais fogo. Eu receio que DeYoung esteja trazendo um extintor de incêndio para uma enchente. Porque o que a preocupação com a Mentalidade revela é uma preocupação excessiva com “aquilo pelo que somos conhecidos”, com um desejo de respeitabilidade. Essa é a tentação que assola os evangélicos e, se você duvida de seu perigo, faça a si mesmo esta pergunta: Até que ponto o progressismo penetrou em várias igrejas e ministérios conservadores (incluindo aqueles aos quais DeYoung está associado), e como isso foi possível? E será que o desejo de respeitabilidade, reputação, credibilidade e “ser conhecido pelas coisas certas” teve algo a ver com isso?

Voltando ao ponto anterior sobre a sátira, lembro-me de ter mostrado o anúncio da New Saint Andrews a um amigo pastor e perguntado o que ele achava. Ele respondeu de forma muito simples: “Há alguns problemas que eles nunca terão”. De fato. Será que o elemento satírico da Mentalidade de Moscow faz parte de um sistema imunológico saudável, impedindo que certos tipos respeitáveis de podridão ideológica criem raízes?

Porque a realidade é esta: não se pode controlar aquilo pelo que se é conhecido. E esse é um dos principais benefícios da Mentalidade de Moscow para aqueles que a adotam. Moscow tem anos de prática em fazer muitas coisas boas e fiéis que até mesmo críticos sóbrios, como Kevin DeYoung, reconhecem apenas de passagem no caminho da insistência de que o que realmente nos interessa é o sarcasmo e a hostilidade. Por isso, resolvemos continuar a fazer todas essas coisas boas e fiéis mesmo assim, e não nos preocupar pelo que somos conhecidos, seja aos olhos do mundo, seja aos olhos dos cristãos respeitáveis. Como alguém já disse: “Segura na mão de Deus e vai”. Deixaremos nossa reputação nas mãos dele.

E, com toda sinceridade, gostaria de pedir a outros líderes cristãos que adotem a mesma atitude. Não faça do “pelo que você é conhecido” a referência para seu ministério. Se fizer isso, estará se deixando ser manipulado. Talvez você queira ser conhecido por seu cuidado com os pobres e por sua alegria em Cristo. Mas, em nosso contexto cultural atual, você será conhecido por seu “ódio” aos homossexuais e por sua oposição aos “direitos” das mulheres. E como você fez “daquilo pelo que é conhecido” o seu norte, você se esforçará ao máximo para evitar a má reputação.

União e a DESTRA DE FRATERNIDADE

O que me leva à conclusão da minha resposta. DeYoung lamenta que Moscow não procurou se unir a outras organizações, optando, em vez disso, por uma réplica desdenhosa e antagonismo em relação a outros cristãos. Na opinião de DeYoung, a barreira à comunhão cristã está principalmente do lado de Moscow, pois eles zombaram de alguns que poderiam ser aliados.

Quando li isso, fiquei bastante surpreso. Trabalho na tentativa de construir pontes entre os evangélicos reformados há mais de quinze anos. Tenho amigos em muitos lugares, desde a Bethlehem Baptist Church até o The Gospel Coalition, 9Marks, SBC, Davenant Institute e outros. Procurei manter essas amizades e promover amizades entre meus amigos durante todo esse tempo. Ajudei a organizar o Evening of Eschatology [Noite de escatologia]. Moderei várias discussões entre John Piper e Doug Wilson que se concentraram detalhadamente nas diferentes “mentalidades” ou etos de seus respectivos círculos. Em todos esses esforços, meu objetivo tem sido demonstrar e promover uma profunda comunhão no evangelho e nas Escrituras entre pessoas com diferenças de temperamento, etos e filosofia ministerial.

Posso dizer honestamente que, em todos os meus esforços, a barreira fundamental para a união veio de fora de Moscow. A atitude aqui tem sido, há muito tempo, a dos narnianos em O cavalo e seu menino, que estavam “dispostos a fazer amizade com pessoas amáveis e pouco se importam com as que não o eram”. O principal obstáculo foi que outros procuraram deliberadamente evitar a amizade e a associação com Moscow, e policiaram seus círculos de acordo. E fizeram isso, quase sempre, com base na preocupação com a respeitabilidade, a credibilidade e a reputação. “Não fique muito perto de Moscow porque você se deixará influenciar demais pelo Doug”.

Sim, Moscow se diferencia de outros de várias maneiras, mas sem esperar que alguém imite todos os seus métodos. Como dissemos anteriormente, estamos construindo e defendendo nossa parte do muro à nossa maneira e ficamos felizes que outros estejam construindo e defendendo sua parte do muro à maneira deles. Nossa atitude em relação a certos tipos de diferenças de etos e abordagem é bem expressa por C. S. Lewis em Cartas a Malcolm:

Amplie sua mente, Malcolm, amplie sua mente! São necessárias pessoas de todos os tipos para se fazer um mundo — ou uma igreja. Talvez isso seja ainda mais verdadeiro com respeito a uma igreja. Se a graça aperfeiçoa a natureza, ela deve expandir todas as nossas naturezas para a plena riqueza da diversidade que Deus planejou quando ele as criou, e o céu mostrará muito mais variedade do que o inferno. “Uma congregação” não significa “uma associação”.

Portanto, deixe DeYoung ser DeYoung. Que Piper seja Piper. Que Mohler seja Mohler. Que Wilson seja Wilson. Podemos até fazer críticas e desafiar uns aos outros como amigos. Mas é difícil “unir-se com outras organizações” quando os líderes dessas organizações contínua e repetidamente recusam convites para participar de conferências ou de uma discussão on-line ou serem vistos de alguma forma como amigos de Moscow e, em vez disso, exercem uma pressão substancial sobre os outros para que façam o mesmo.

Portanto, deixe-me renovar uma oferta que outros aqui em Moscow já fizeram de várias maneiras ao longo dos anos. Realmente acreditamos que essas discussões são importantes. Também achamos que há oportunidades para encontrar muitos pontos em comum e discordar com cordialidade e afeto (e algumas zoações). Mas acreditamos que encontrar esse ponto em comum exigirá, de fato, algumas conversas, discussões e debates — o tipo de conversa que traz verdadeira clareza para as pessoas no mundo reformado. Portanto, a oferta ainda está aberta para DeYoung, para o pessoal do G3, para Rod Dreher, para qualquer outro crítico que considere essas questões importantes. Basta me enviar uma mensagem. Teremos prazer em recebê-lo, seja pessoalmente ou on-line. Ou ficaremos felizes em nos juntar a você no seu território. Mas, de qualquer forma, no que diz respeito a Moscow, a destra de fraternidade está alegremente estendida em todas as direções.

Encorajamento aos amigos de Moscow

Por fim, gostaria de dizer algo àqueles que apreciam a Mentalidade de Moscow, mas que vivem em comunidades onde esse apreço é um problema. Sabemos que, seja qual for a intenção dele, o artigo de DeYoung será usado como uma ferramenta para mantê-lo em conformidade, para pressioná-lo a silenciar seu apreço por Moscow. Em alguns casos, ele será usado por amigos e colegas que ainda recomendam materiais de Russell Moore e David French, dois evangélicos que praticamente ganham a vida criticando outros cristãos na National Public Radio e no New York Times. E, não, eles não entenderão a ironia.

Sei que você se sente frustrado com a pressão e a inquietação que esse tipo de discussão traz. Mas se está procurando empatia da minha parte, bem, está batendo à porta errada. Em vez disso, quero incentivá-lo a tirar proveito da tensão. Para usar uma frase de John Piper: “Não desperdice sua inquietação”.

Em particular, não murmure, reclame ou se queixe de como a pressão é frustrante. Em vez disso, dê graças a Deus por ela. Você e eu sabemos que a essência da Mentalidade de Moscow é, na verdade, a gratidão ao Deus vivo em todas as coisas e por todas as coisas. Isso inclui dar graças a Deus pelas maneiras como os ministérios daqui tem sido uma bênção para você. E inclui dar graças a Deus pela indesejável pressão de seus amigos que estão preocupados com o fato de Moscow ter sido uma bênção para você. Se Deus for misericordioso, o efeito espiritual de longo prazo dessa tensão será torná-lo uma pessoa mais estável, paciente e grata, e isso será uma bênção para as pessoas ao seu redor (quer elas apreciem Moscow ou não). E, se nada mais acontecer, o seu contínuo e alegre apreço por Moscow (especialmente em público) servirá como um desinfetante para a sua igreja, impedindo que vários cânceres progressivos encontrem um lar entre o seu povo. Essa também é uma bênção da Mentalidade de Moscow — você não precisa imitar tudo para obter os benefícios à saúde. Você só precisa se aproximar o suficiente e se recusar a se mover. 

Em segundo lugar, resista à tentação do partidarismo. O fato de outras pessoas quererem policiar os professores que o ajudam a amar mais a Cristo, sua família e seu próximo não significa que você precise responder da mesma forma. Ao longo dos anos, eu me beneficiei muito com uma variedade de líderes cristãos, incluindo Doug Wilson e Kevin DeYoung (e John Piper e Mark Dever e Al Mohler e Tim Keller e assim por diante). Um dos aspectos mais revigorantes da Mentalidade de Moscow para mim é a liberdade de me beneficiar desses homens pelo que fizeram de bom e de elogiá-los publicamente sem qualquer hesitação, e de fazer isso discordando deles quando apropriado e necessário. Outras pessoas podem considerar esses tipos de diferença e discordância como uma barreira para o companheirismo e a camaradagem cristã. Mas não é necessário. Portanto, não tenha vergonha de reconhecer os professores que o ajudaram a seguir Cristo mais de perto.

Por fim, lembre-se de que pelos seus frutos vocês serão conhecidos. Regozije-se mais do que os críticos. Ame a Cristo. Deleite-se em sua família. Ame seu próximo. Alegre-se nas tribulações. Cultive a paciência e a longanimidade quando você for mal compreendido. Lembre-se de que você não pode controlar aquilo pelo que é conhecido; você só pode controlar o que faz e como vive. Portanto, ande de maneira digna do evangelho, calibre seus padrões de acordo com a Palavra de Deus e continue fazendo seu trabalho. E não se esqueça de dar risada ao longo do caminho. Afinal de contas, Cristo é o Senhor.

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Tradução: Thiago McHertt

Original: https://americanreformer.org/2023/12/on-satire-moods-and-what-were-known-for/